Calor Intenso. Catarina

Calor. Catarina

Foi só passados dois anos desde que se conheceram que Rui e Madalena decidiram casar.

Avançaram para a felicidade com absoluto cuidado, quase pisando em ovos, atentos a cada gesto e cada palavra. Não era de estranhar. Ambos já tinham sentido como os sentimentos podem ser ilusórios, e o amor nem sempre chega para ficar, muito menos de imediato. Tentavam, cada um a seu modo, perceber se aquilo que tinham era o verdadeiro prémio, depois de tantas dores e perdas. E se seria seguro entregar-se de novo a esta paixão, que parecida tão nova, entretanto encontrada.

Dona Maria da Conceição, mãe de Rui, também permanecia em silêncio. Não queria afugentar a felicidade que via no filho, profundamente mudado. Voltava a ter os ombros direitos, um brilho nos olhos, e preparava-se para os encontros com Madalena como quem se predispõe a ir direto à conservatória.

Rui apresentou a mãe a Madalena quase desde o início. Maria da Conceição, com o coração apertado, analisava Madalena com cautela, mas não via nela nada que pudesse sequer remotamente lembrar a Inês, a antiga namorada de Rui. Até mudar-se para a casa de Rui, Madalena recusou terminantemente.

Não, Rui. Não deve ser assim. A Dona Teresinha não ia compreender, e eu estimo muito o que ela pensa. Sempre foi uma senhora fantástica para mim, ajudou-me tanto. E ela está doente; precisa de auxílio. Deixa tudo como está. Qual é a pressa?

Rui jurou aceitar. Não perturbou em nada o que os unia. Pelo contrário, aquele longo namoro ajudou-os a aprofundar ainda mais a confiança e o carinho genuíno que construíam.

Foi só pouco antes do casamento que Madalena se mudou para a casa de Dona Maria da Conceição, e mesmo assim por necessidade, e por um motivo triste.

A Dona Teresinha partiu deste mundo.

Já há muito sofria do coração. Madalena acompanhava-a às consultas, poupava-a de tarefas domésticas, fazia o que podia, mas apenas adiou o inevitável. Um dia, ao regressar do trabalho, Madalena encontrou Dona Teresinha sentada no banco do jardim que os filhos lhe tinham feito de propósito, carta do neto nas mãos. Chamou-a uma e outra vez, mas ao aproximar-se, percebeu que Dona Teresinha já não respirava.

Chamou de imediato o INEM, mas nada se pôde fazer.

Chorando muito, Madalena telefonou a Rui e aos filhos de Dona Teresinha e ficou sentada à beira da pérgula, recordando como tinham partilhado tantas conversas ao fim da tarde, caminhado até ao rio ao entardecer, cozinhado compotas na pequena cozinha de verão, cantado canções antigas. Lembrou como Dona Teresinha a acolhera sem perguntas nem desconfiança, numa altura em que Madalena precisava desesperadamente de amparo, sem ter a quem recorrer.

Obrigada… sussurrava Madalena, repetidas vezes, em gratidão a quem lhe deu a mão e abriu o coração quando mais precisava.

Os filhos de Dona Teresinha chegaram, com as suas famílias, logo na manhã seguinte. Após os inevitáveis preparativos e cerimónias, o filho mais velho chamou Madalena de lado para conversar.

A mãe queria que uma parte da casa ficasse para ti, para que pudesses viver aqui e cuidar do que é dela, já que nenhum de nós pretende ir para aqui morar. Quero que saibas: há testamento. E ninguém se opõe se aceitares. Se não fosses tu, Madalena, a mãe teria passado os últimos tempos sozinha. Estamos muito gratos pelo teu cuidado.

Não respondeu Madalena, abanando a cabeça. Não posso aceitar. Esta casa é vossa. Se precisarem que cuide dela, cuido, mas a herança é vossa, tua e do teu irmão. A vossa mãe amava-vos muito!

Bem sei…

Por fim, assim ficou decidido. Madalena encontrou inquilinos para a casa, que ali viveram a longo prazo, e manteve o contacto com os filhos de Dona Teresinha, especialmente quando vinham passar férias de verão à aldeia.

Foi uma das noras quem amparou Madalena meio ano depois do casamento, quando ela teve de ser hospitalizada.

Gravidez ectópica. Precisas mesmo de cuidar mais de ti! avisou a médica, levantando o dedo em repreensão. Foi bom teres alguém por perto. Podia ter corrido muito mal!

Era a minha sogra. Mas sim, no fundo, uma mãe…

Muito bem. Já tiveste outros problemas, imagino.

Sim.

Se queres mesmo ser mãe, tens de pensar a sério em investigar as causas deste desequilíbrio na tua saúde. Caso contrário, temo que a tua única hipótese venha a ser uma FIV…

Compreendo…

Madalena não chorou. Guardou as lágrimas para depois. O mais importante naquele momento era perceber o que fazer e como remediar. Ambicionava ter filhos com Rui. Por vezes, a ideia tornava-se quase obsessiva.

Foi Dona Maria da Conceição quem pôs um travão.

Madalena, posso falar contigo? procurou a nora, aproveitando que Rui estava ausente a trabalho noutro concelho.

Nessa altura, Rui e Madalena já viviam sozinhos. Logo após o casamento, compraram um pequeno apartamento, coisa que Rui já podia oferecer. Os negócios corriam tão bem que Dona Maria pensava até reabrir um alojamento local.

Os pais de Madalena quiseram ajudar, agora que as relações estavam recuperadas, mas Rui recusou.

Madalena, deixa que sejamos só nós. Gosto muito dos teus pais, quero que os visites quando quiseres, mas a casa é meu dever.

Madalena não discutiu. Conversou com o pai e este apertou respeitosamente a mão do genro.

Bem, tua mãe tem razões para se orgulhar de ti!

Maria da Conceição aprovou tudo. E concordou que Rui e Madalena pensassem logo em ter filhos.

Contudo, vendo as rugas de preocupação reaparecer no filho, e Madalena a vaguear de clínica em clínica, inquieta, Maria decidiu conversar com ela antes que alguma coisa se estragasse entre eles.

Madalena, não me leves a mal se disser algo inconveniente, sim? És uma rapariga inteligente! Sabes que me preocupo convosco e só quero ajudar. O que te preocupa tanto? Vejo que está difícil…

Não consigo, mãe… Nada dá certo… E se nunca puder ter filhos? Teria de deixar o Rui! Não posso condená-lo a passar a vida com alguém de quem não virá nem alegria, nem sentido…

Ai Madalena! Nem imaginas o que já fizeste por Rui! Voltaste a dar-lhe vida! Eu vejo! E os filhos… É maravilhoso tê-los, claro! Não há melhor que ver nascer uma criança, dar-lhe a mão nos primeiros passos, ver a felicidade crescer… Mas acredita, o matrimónio é muito mais do que ser pais! Eu nunca te contei, mas Rui veio tarde. Também eu e o meu marido passámos anos a pedir um filho ao céu, e nada. Quase nos separávamos. Julguei que ele só estava comigo por querer um herdeiro. E se não pudesse ser mãe, abandonava-me. Perdi a confiança no meu marido, Madalena! E ele não me perdoou. Durante quase um ano vivemos separados, cada um a tentar compor a vida como podia. Então percebemos quão tolos tínhamos sido! Marido e mulher não são só futuros pais, são tudo um para o outro! E o Rui saiu ao pai… Sabes o que quero dizer?

Acho que sim…

Então não destruas aquilo que há entre vocês! Deram vida um ao outro. Agora mantenham-na! O vosso amor aguenta, se vocês o permitirem.

E como conseguiu ser mãe? Madalena não resistiu e perguntou.

Se eu soubesse! riu-se Maria da Conceição, com lágrimas nos olhos. Nem acreditei, quase até sentir o Rui a dar pontapés. Achava que era um mal-estar qualquer. Já tínhamos aceitado o destino, e eis que a vida nos pregou uma surpresa!

Que também a mim a vida dê esse presente… suspirou Madalena.

Porque não ligas à nora da Dona Teresinha? É médica, se bem me lembro. Pode dar-te algum conselho.

Madalena bateu na testa, surpresa.

Como é que me esqueci disso?! Claro!

Uma semana depois, voou até ao Porto, onde se sujeitou a exames. Lá a esperavam.

Um ano depois, nasceram gémeos.

A felicidade instalou-se de armas e bagagens na casa de Rui e Madalena, sem intenção alguma de sair.

Vieram os gémeos, e Madalena tornou-se ainda mãe de uma menina linda, que ela e Rui adotaram já depois de saberem não poder ter mais filhos. A decisão foi maturando, mas a oportunidade para adotar apareceu inesperadamente. Uma antiga colega de Rui, aos primeiros passos como mãe, estava gravemente doente. Foi o amigo António quem levou a notícia à casa deles.

Pobrezinha da Mariana… Andamos todos a juntar dinheiro para ir com ela a Lisboa, a ver se algum médico pode ajudar. Quase todos já contribuímos.

Entendi. Dou agora mesmo…

Rui transferiu uma quantia significativa para a conta de Mariana, e poucos dias depois, a jovem mãe partiu para a capital. Maria da Conceição ofereceu-se para acompanhar, já que apenas havia uma avó idosa que não podia tratar da neta sozinha.

Infelizmente, todos os esforços foram em vão. Os médicos apenas prolongaram e aliviaram os últimos dias de Mariana, dando-lhe tempo para preparar o futuro da filha.

A quem deixou o pedido de assumir a menina foi a Maria da Conceição, que falou com os seus. Madalena e Rui não recusaram.

Assim, a filha entrou na família.

Na pequena casa onde viviam, o espaço tornou-se curto. Os filhos cresciam, era altura de procurar uma casa maior.

Mais uma vez, Maria da Conceição interveio.

Rui, têm o dinheiro que guardámos para o alojamento local! Vão lá, comprem uma casa maior!

Mãe, e o teu sonho? Não pode ser!

Este é que é o meu sonho! Maria da Conceição sorriu, beijando a neta nos braços e lançando um olhar aos gémeos. Que mais posso querer? E agora já não tenho tempo para hotelarias. Quero é estar com os netos, vê-los crescer, ajudar-vos. Madalena até se desenrasca sozinha, mas sei que precisas de ajuda com as lojas. Trabalhem vocês, eu ajudo com as crianças. Procurem apartamento, mas com espaço para todos!

Encontraram um enorme, luminoso, cheio de vida. Os miúdos corriam pelos quartos, jogando ao eco, e Madalena ria ao vê-los ensinar a irmã a gritar olá! ao fundo do corredor.

Ficamos com esta! decretou Rui, olhando para a mulher e os filhos.

No entanto, havia um senão: Catarina, a administradora do prédio. Catarina decidiu que famílias numerosas jamais são estavelmente felizes e precisam de toda a vigilância dos vizinhos e das autoridades sociais… nunca se sabe!

Há sempre gente diferente a entrar lá. Vi ontem meninos a correr descalços pelas escadas! A filha mais nova, sempre adormecida quando Madalena sai para passear. Nada disso parece normal!

Catarina, será que exageras? Com este calor não admira que andem descalços. Até faz bem. E recebem visitas, sim, mas não fazem barulho, não há confusão… Então agora ninguém pode receber amigos? Diziam as vizinhas, à medida que os gémeos de Madalena, corados, contavam alegres como foi divertido jogar futebol no novo jardim. Podem inventar o que quiserem, mas onde estará a verdade?

Pois, enquanto andam aí a investigar, podem dar-se mal as crianças! Não faltam histórias dessas! Por fora, tudo perfeito, mas ninguém sabe o que se passa atrás das portas! Não me cheiram nada bem! Demasiado certinhos! Estão sempre juntos, felizes, crianças bem comportadas, casa próspera… Não pode ser! Não existe tanta felicidade! Não acredito! E hei de descobrir o que se esconde! A vida não é assim, está tudo mal montado!

As vizinhas franziram o sobrolho, mas Catarina não recuou. Criada por uma mãe dominadora, que fez do lar um inferno, Catarina temia o mundo.

Ela cresceu numa família de funcionários públicos rígidos. A mãe e o pai, ambos defensores ferrenhos da disciplina tanto em casa como no trabalho, educaram Catarina e os irmãos com extrema severidade. Passar a noite de castigo ajoelhada era rotina. Nas aparências, contudo, a família parecia exemplar. As mangas compridas, sempre bem passadas pela mãe, escondiam as nódoas negras dos rapazes, e a trança apertada de Catarina escondia o verdadeiro motivo de estar tão impecável na escola: era pela facilidade com que a mãe puxava por ela para a castigar.

Nem ela nem os irmãos alguma vez falaram do que se passava em casa, onde todos à volta supunham existir uma família impecável e amorosa. E assim que puderam, todos os três cortaram laços para sempre, inclusive com o pai, que ficava sempre em silêncio perante tamanha brutalidade.

Catarina não mantinha contacto com os irmãos; nem eles com ela. Queriam todos esquecer o terror de infância. E as suas recordações varriam não só os que lhes feriram, mas até quem testemunhara as suas lágrimas.

Catarina nunca construiu família. Tentou, já madura, mas rompeu com o namorado no instante em que ele levantou uma palmada à própria cadela, que, doente, fez uma poça no chão do quarto.

Não lhe batas! gritou Catarina, agarrando a cadela ao colo, fugindo dali para fora.

Nesse mesmo dia arrumou as coisas e voltou para o apartamento herdado da avó.

A avó materna não era menos implacável do que a mãe de Catarina. Sofreu muito a cuidar da velha senhora, sempre resmungona e azeda. Quando morreu, Catarina sentiu um enorme alívio.

A verdade é que Catarina nunca se apegou a ninguém, nem valorisou os outros, pois nunca sentiu na infância quem quisesse ajudá-la a ela ou aos irmãos. E agora carregava uma desconfiança imensa contra o mundo. Vigiava compulsivamente a vida dos outros, tentando compensar a indiferença que nunca ninguém rompeu em sua casa. E a família de Madalena e Rui era o seu alvo; uma oportunidade que parecia há muito esperar. Não havia outras famílias assim no prédio.

Certa tarde, Madalena, sentada à sombra na praceta, vigiava os rapazes e de repente percebeu a hora. Era tempo de subir: a filha prestes a acordar, os meninos precisavam preparar-se para a atividade desportiva. Ao jardim-de-infância, ainda em obras ali perto, iriam só no outono; por agora faziam atividades no centro infantil e frequentavam a escola de futebol.

Junto à porta do prédio, Catarina esperava-a.

Outra vez os teus filhos descalços pelo jardim!? Não tens dinheiro para sandálias decentes?

Madalena sorriu. As chuteiras dos filhos custavam mais que qualquer par de ténis do Rui. Mas nunca se poupava em equipamento: futebol era paixão dos meninos, o risco de lesão era real.

Achas graça? Mas não tens vergonha?! São teus filhos! Têm de ser alimentados, bem cuidados, calçados, limpos! E tu?!

Catarina corava, zangada por Madalena se manter calma e sem sombra de desculpa.

Mãe, dá água à tia Catarina!

Correram os gémeos à mochila e, nesse momento, Catarina fraquejou. A vista escureceu, um zumbido longínquo, tropeçou no degrau, não fora Madalena apoiá-la, tinha caído pelas escadas.

A ambulância chegou de imediato e Catarina foi levada para o hospital. Quando acordou, Madalena estava ao seu lado. Chamou rapidamente Maria da Conceição para ficar com as crianças e correu à clínica.

O que se passa comigo? quis inquirir Catarina, mas a língua embaraçou-se, assustando-a.

Calma, calma! Madalena pegou-lhe na mão e ajeitou a almofada. Foi um AVC. Os médicos fizeram tudo para evitar o pior. Isto foi só por causa do calor Não chore! Vou ficar aqui contigo. Descansa. Precisa mesmo de dormir.

Madalena cumpriu. Tratou de Catarina, sabendo como todos no bairro já lhe tinham contado que a senhora estava sozinha no mundo, sem raízes, sem ninguém ao seu lado.

Porquê? perguntou Catarina, a fala recuperando devagar.

Porque é isso que é preciso. Porque alguém tem de cuidar. Estar só é terrível; eu sei por experiência própria.

Como sabes?

Já sofri de solidão. Má companhia, garanto. Mas não te preocupes. Agora não te acontece mais. Vais ter outra companhia.

Como?

Achas que agora, depois de tanto vigiada, vou deixar-te? Nem penses! Foste tu que olhaste por mim? Agora é a minha vez!

Madalena fingiu não ver as lágrimas. Importava-lhe outra coisa: desde a doença, nunca mais viu em Catarina aqueles olhos furiosos. Diante de si só uma velha solitária, da idade da sua mãe, da sua sogra. Dava-lhe pena. Poderia ter tido filhos, netos, família; agora só lhe restava a autoridade sobre o prédio e um roseiral no pequeno jardim, com as rosas mais lindas que Madalena já vira. E quem cultiva rosas assim, só pode ter uma alma boa. Madalena sabia-o, não sabia como, mas sabia.

Dois anos passaram.

Ai, Madalena! Não sei como te entendes com eles todos! A tua filha é calma como a água; os rapazes são incêndio, cabritinhos irrequietos! dizia Catarina, sentada no banco do parque, vigiando de perto a sua pequena favorita, a filha de Madalena e Rui.

Ai tia Catarina, compara! Só tenho dois rapazes. O António tem quatro! E quando se juntam todos, fujo de casa! A mulher já só reza para que o quinto não seja outro rapaz.

Já sabem?

Não. Esconde-se! riu-se Madalena. O António diz que está preparado para qualquer surpresa.

Que calor, meu Deus! suspirou Catarina, tapando os olhos com a mão, encarando Madalena. Diz-me, és feliz?

Madalena pensou.

Pergunta difícil. Que é preciso para ser feliz? Ter a família? Isso ela tinha. Ter saúde? Graças a Deus estava tudo bem. Ver os filhos crescerem felizes? Achava que estavam no bom caminho. E isso bastava. Plena, absoluta e incontestavelmente feliz.

Sim!

Madalena sorriu e Catarina, mais uma vez, admirou como o rosto da amiga iluminava tudo em redor.

E até o calor impiedoso de verão, que tantos dias assolara a vila, pareceu perder força, e um sopro de frescura percorreu a rua como tudo ali tivesse ganho novo alento.

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