Diário de Maria do Carmo 07 de Janeiro
– Leonor, eu já te perdoo! Esta nossa zanga não serviu para nada. Basta de amuar! Já não somos miúdas! resmunguei ao marcar, pela primeira vez em sete anos, o número da minha irmã. Está na hora de crescermos, Leonor! Até quando isto…?
– Desculpe… Mas a quem está a ligar? Eu não sou a Leonor…
A voz era estranha, jovem, um pouco trémula, mas agradável.
Fiquei sem reação a meio da frase, o que me acontece muito raramente.
– Menina, quem és tu? Como ficaste com o número da minha irmã?
– Este número é meu. Já há mais de um ano. Desculpe, não a conheço. E essa Leonor também não. Tenha um bom dia.
Fiquei tão baralhada que nem consegui responder logo. Enquanto tentava perceber o que se passava, ouvi o bip de chamada terminada e senti um medo esquisito…
Resolvi confirmar se tinha discado mal. Pus os óculos, fui àquela velha agenda vermelha, gasta, oferta da própria Leonor. Ela sempre gostou de coisas bonitas, e sabendo que eu também gostava mas achava supérfluo gastar dinheiro em tontices, ia-me mimando com pequenos presentes. Umas vezes uma bolsinha, outras uma caneta, ou um lenço giro. Coisas de irmã, e eu sempre gostei. Eu, quando dava presentes, gostava de impressionar, de mostrar a toda a gente quanto gostava da minha irmã!
Marquei o número manualmente, decidida. Quando enfim atendeu, era aquela voz outra vez calma, melodiosa, mas estranha.
– Já lhe disse, minha senhora, este número é meu, por favor não me ligue mais. Está a interromper o meu trabalho. Estou a dar uma aula neste momento.
– Espere! temi que me desligasse de novo. Por favor, diga-me quando posso voltar a ligar? Isto é mesmo importante!
– Daqui a trinta minutos tenho um intervalo.
Pousei o telemóvel e fiquei a pensar.
Por que raio a Leonor mudaria de número? E sem me avisar?! Sim, estávamos de costas voltadas, mas isso não justificava cortar assim relações!
Comecei a irritar-me.
– Sempre foste teimosa, Leonor, e não mudaste nada! resmungava eu, limpando, distraidamente, o balcão, a olhar para o relógio pela centésima vez.
Não sei estar parada. Sempre tive que fazer alguma coisa, ocupar as mãos e a cabeça. Sempre fui ativa desde pequena despachada, frontal, e rigorosa até à medula. Quanto sofrimento isso deu à família… mas sempre achei que tinha razão!
E a Leonor era um oposto. Doce, calma, sempre devagar. Enquanto ela acabava a papa, eu já andava a correr, a arranjar a roupa das duas, a tratar das tranças, dos laços, e ela, ainda meio a dormir, parada com a escova de dentes, a desenhar no espelho com o dedo.
– Leonor, o que estás a fazer?
– Estou a pensar…
– Deixa-te de disparates! Vamos chegar atrasadas! berrava eu, impaciente. Pensar agora?!
– Não posso?
– Não! Pensa depois! Agora vai lavar os dentes e vem comer!
Sempre foi assim. A Leonor atrás, serena, e eu já a subir montanhas e a descer para a ir buscar e dar-lhe sermões.
– Ó Leonor, que lerdeza é esta? Nem parece que tens vida! Não pode ser!
Ela nunca se chateava; olhava-me de frente, sorria com aquele ar de quem percebia tudo.
– Maria, nem toda a gente tem de ser como tu. Tu és o orgulho da família! Não te preocupes tanto comigo. Eu sigo ao meu jeito…
– Sempre essa devagarinho, e acaba a vida a passar-te ao lado! Vamos, mexe-te!
Leonor não se magoava. Sentia que a minha energia tinha um lado bom. Esperava que um dia eu amansasse.
Como se apazigua um vulcão? Só com mar. Era assim entre mim e ela: eu, vulcão, ela, mar. O fogo acalma, muda, nasce algo novo. Uma ilha, quem sabe. Uma beleza.
Mas eu não era essa beleza. O meu amor era labareda também. Consumía quem chegasse demasiado perto do meu coração.
Tive quatro maridos com os três primeiros durou pouco. Incompatibilidades, dizia sempre.
Com o quarto, estive três anos. Mesmo com uma filha pequena, abandonei tudo. Nem a maternidade nem a ideia de família me valeram.
– Que raio de homens há hoje?! Não se importam com nada! desabafava eu, fervilhante, em casa da Leonor. E tu, consegues viver com o teu Ricardo assim?
O Ricardo, marido da Leonor, pousou as chávenas e pegou na minha filha ao colo:
– Conversem. Vou deitar a Mariana.
A pequenina já dormia quase, mas eu nem reparei. Só pensava em como a minha vida estava perdida.
– Pois claro! bati com a mão na mesa. Como aguentas esse paspalho?! Que tédio de vida!
– Maria, eu até vivo bem! sorriu Leonor, oferecendo-me bolachas. Bebe um chá, deves estar esfomeada.
– Nem jantei! confessei, a devorar bolachas. Olha isto, sozinha outra vez!
– Talvez esteja na hora de abrandar, Maria. Sempre em guerra, sempre a ferver… A vida passa num instante. A Mariana há-de crescer, casar, sair de casa. Vais ficar só?
– Ó Leonor! Não é isso!
– Então o que é?
– Ninguém merece confiança! Toda a gente mente!
– E eu?
– Tu também! Dizes que amas o Ricardo, mas filhos com ele, nada! Isso é amor? Que raio de amor é esse? Se não queres ter filhos do homem, nunca o amaste!
Leonor calou-se, levantou-se, enxugou discretamente uma lágrima enquanto mexia no bule.
– Às vezes não é o querer, é o poder. Eu quero, Maria. Muito. Mas não posso. Não hei-de ser mãe.
Fui abraçá-la, a tentar consolar.
– Quem disse isso, pá? Os médicos?! Eu arranjo-te os melhores! Vais ver!
Mas nem sempre querer é poder. O destino decide por nós.
Acabou mãe, sim, a Leonor, mas não como esperava. Não teve filhos de sangue. Mas, se alguém ousasse dizer que os dois filhos adotivos filhos de familiares do Ricardo que ficaram orfãos não eram dela, ai de quem dissesse tal coisa. Chegou até a zangar-se comigo por eu insistir.
– Deixa disso, Leonor! Hás-de ter os teus!
– Maria, quase quarenta já eu tenho. Se fosse para ser, já era! E estas crianças, que lhes fazia, deixava num lar?
– Que te importa? A família do Ricardo que cuide!
– Eu quero cuidar! Eu!
– Ó Leonor! Mas quem é que tu saíste assim?
– Assim como?
– Teimosa e tolinha! Que peso para as costas!
– Chega, Maria! Vai-te embora. A Mariana deve estar à tua espera.
– Está na colónia de férias. Só volta para a semana. E com esta surpresa, nem te chegues a mim! Nem penses pedir-me ajuda, já que não me dás ouvidos.
– Porque tens esse ressentimento, Maria? murmurou ela de costas, enquanto eu saí porta fora cheia de razão.
Nunca a Leonor teve resposta. Fiquei mesmo magoada e cortei todos os laços. Nem ligava, nem visitava, nem queria a minha filha a falar com aquela família. Só que a Mariana não me obedeceu. Gostava demais da tia e dos primos adotivos, e ia lá às escondidas, já que morávamos perto.
Depois, o Ricardo teve uma oportunidade de trabalho noutra cidade. Falaram todos em família e aceitaram. Mudaram-se, com a Leonor a deixar o novo endereço à Mariana, pedindo-lhe que, em caso de necessidade, fosse ter com eles sem hesitar.
– Há coisas imprevisíveis na vida, Marianinha dizia a Leonor, a abraçar a sobrinha na estação. Tu não estás sozinha. Vamos sempre ajudar, aconteça o que acontecer. E cuida da tua mãe. Ela precisa, é difícil com aquele feitio, sabes disso. Só tem a ti… e a mim, quando quiser.
A Mariana ouviu. Por mais difícil que fosse, tentava sempre cuidar de mim. Mas ficou impossível de todo quando a Mariana cresceu e quis casar. Eu não aceitei o namorado.
– Que raio de tipo é este?! vociferei, ao ver um rapaz franzino, de óculos. Não podias arranjar melhor?
A Mariana nem respondeu. Olhou para o noivo e saiu, ignorando os meus gritos.
O tipo, chamado Pedro, era afinal boa gente, programador, sensato, e, passados uns dias, propôs à Mariana casar e mudar-se para a cidade da tia, Leonor.
– Lá temos mais oportunidades. Vendo o meu apartamento, compramos algo nosso. Aqui já nada nos prende.
– Já não… chorava a Mariana, lembrando a minha cara sem respostas e gritos. A tia Leonor vai entender. Ela é boa.
Pedro amava a Mariana tanto que era capaz de largar tudo só para a ver sorrir outra vez. Já era órfão, sem família próxima. Toda a sua vida era agora aquela rapariga franzina de nariz vermelho, que sonhava com casa, filhos e um felizes para sempre.
E assim foi.
Quando a Leonor soube do escândalo, tentou falar comigo, mas eu nem quis ouvir.
– Fugiram para ti, não foi?! Pois bem, nunca mais me ligues! Para mim já não existem! chorava eu, revoltada.
– Basta, Maria! agora era a Leonor, do outro lado, furiosa. Destruir é fácil, construir não. Já pensaste no que fazes? Expulsaste a tua filha só porque não te agradou o namorado?! Se não gostas, é ela que tem de viver com ele! O teu papel era apoiar! E se não tivesse para onde ir? Ia para estranhos?! Porquê, por falta de coração de mãe?
– Vá lá tentei interromper, mas ela não deixou.
– Chega! Se quiseres vir à razão, aparece. Mas às nossas condições. Já aguentámos muito da tua parte. Pensa nisso. E, quando decidires, liga. Vamos esperar.
Fiquei ferida no meu orgulho. Proibi-me sequer de pensar em falar com elas acharem-se tão espertas, pois que fossem lá viver à sua maneira!
O convite de casamento rasguei, nem abri as cartas e fotos que me mandaram. Atirei tudo para o lixo. Alimentei o ressentimento, a dor tornando-se rotina, até que já ninguém fazia questão de mim.
O tempo passou, e ninguém recuou. A Leonor estava ocupada a criar filhos, a ajudar a Mariana com o primeiro neto, e o Pedro, com o Ricardo, a construir uma casa nova para eles.
Afinal, o afilhado franzino, já bem mais robusto e rosado porque era bem tratado pela Mariana, tinha jeito para tudo, sabia mais do que parecia, e o Ricardo elogiava-o muito:
– Grande Pedro! Como é que te lembraste?
– Leio muito, tio Ricardo. E internet, claro. Aprende-se tudo.
A Mariana já esperava o segundo filho quando fizeram a festa da casa nova. Quando a tia sugeriu convidar-me, respondeu:
– Eu ligo-lhe, tia Leonor, ligo sempre. Ela nunca atende. E se atende, desliga logo.
– Vá, não chores! a tia tentava consolar. Não podes!
– Não vou… fungava, cheia de saudade e raiva.
Eu nem pensava em amolecer. O tempo que esperem por mim! Um dia vão perceber o quanto me magoaram depois logo veria se as perdoava.
Mas naquele Ano Novo, sozinha, dei por mim a pegar no telefone e a marcar aquele velho número.
Ouvi uma voz estranha.
No intervalo que combinei, voltei a ligar.
– Estou?
– Não, sou eu que pergunto! resmunguei com o tom de quem está acostumada a mandar. Como ficou este número consigo?
– Simples. Comprei um novo cartão. Se um número fica inativo, pode passar para outro cliente.
– Absurdo! E onde está então a minha irmã?
– Como saber? a voz já era menos simpática. Notei que precisava abrandar o tom, se queria respostas.
– Isto faz-me tanta confusão… Pode fazer-me um favor?
Houve uma longa pausa.
– Pode falar.
– Se pudesse saber de alguma coisa sobre a minha irmã, ou encontrá-la aí na cidade… Dou-lhe os dados dela. Vá lá, fale com ela e peça-lhe para me ligar. Eu pago tudo, claro.
O silêncio prolongou-se. Já perdia a esperança, quando ouvi baixinho:
– Está bem. Não é preciso nada. Diga o endereço.
E dei-lho, agarrada a uma esperança vaga.
Demorou, mas chegou a resposta tão diferente do que imaginei.
– A sua irmã já cá não está. Faleceu há um ano e meio. Lutou dois anos contra uma doença, mas o corpo cedeu. O marido disse que ficaria feliz por recebê-la, se quiser visitá-los. E mais…
– O quê? minha voz era só rouquidão, vazia.
– A sua filha. Também espera por si. E os netos. Tem dois. Ela pediu-me para lhe transmitir algo… São palavras da sua irmã. Queria dizê-las em pessoa, mas achou que seria melhor assim, já que a senhora não quis ouvir…
– Diga!
– Maria, deixa-te de teimosias. Tudo o que te pertence está aqui. Cresce. Ainda és amada.
O telefone silenciou-se. Chorei, doeu-me o peito como nunca antes. Não podia mudar o passado nem afastar aquele sofrimento. Já tinha perdido quase tudo o que valia a pena, só porque achei, durante tanto tempo, que ter razão valia mais do que amar.
A noite passou em pranto, até que me recompus e marquei o número que nunca esqueci.
– Mariana…
– Mãe! Olá! Estamos à tua espera!
– Filha, eu…
– Não digas nada! Vem só! Vamos buscar-te!
A voz da Mariana pareceu-me diferente. Só ao fazer a mala percebi porquê.
No tom da Mariana ouvi tudo: determinação, a delicadeza da Leonor, e algo mais aquilo que sempre faltou em mim.
Amor… O amor maior, que não guarda zanga nem mágoa. O mesmo amor que a Leonor sempre entendeu, e que eu ainda tinha tanto para aprender.
E, embora sem certezas, pela primeira vez senti esperança: talvez ainda fosse possível aprender a amar assim, de verdade.







