– Mãe, esta é a minha namorada Mafalda… – Vasco tentou apresentar, forçando um tom casual, mas o nervosismo traía-lhe a voz. – E nós… bem… queríamos… isso… quer dizer… enfim… isso…
– Ah, claro… O que tu queres, isso já eu sei há muito, – respondeu Dona Lurdes, lançando um olhar escrutinador à rapariga. – Mas, e a Mafaldinha, quer a mesma coisa que tu? Mafaldinha, conheces assim tão bem o meu filho?
– Conheço, sim, – respondeu Mafalda, sem pestanejar. – De trás para a frente.
– Como disseste? Dona Lurdes ficou tão desconcertada que tratou logo Mafalda por você. Isso são modos de uma rapariga falar?
– E que tem? É uma expressão, sabe? Conhecer de trás para a frente. Agora, falar sobre o Vasco é perder o nosso tempo, Dona Lurdes. Quem precisa mesmo de se conhecer somos nós. Vai-se a ver, ainda não damos uma para a caixa juntas.
– Como assim? – perguntou Dona Lurdes, hesitante.
– Quero dizer que somos nós que vamos ficar cá em casa a esperá-lo quando sair com os amigos até às tantas. E vamos ouvir juntas aquele ressonar alcoólico.
– Mas que culpa é a minha? – a mãe tentava resgatar o controlo da conversa. – Vocês nem sequer vão dormir juntas… ou vão? Espero bem que não…
– Mas vai ver que fica encostada à porta, a roer as unhas, toda a noite. Mães são todas iguais.
– Eh lá… – interrompeu Vasco, perplexo com o rumo da conversa. – O que estão vocês para aí a tramar às minhas costas?
– Cala-te! – gritaram em uníssono Mafalda e Dona Lurdes.
– Então, Dona Lurdes, diga-me cá, costumar dar uns belos tabefes? O Vasco nunca me respondeu como deve ser…
– Que quer dizer com isso? – Dona Lurdes arregalou os olhos. – Mulheres não se batem…
– Oh, se batem, – cortou Mafalda com um sorriso maroto. – Há maridos que até sentem falta dos arranhões.
– Minha Nossa Senhora… Dona Lurdes levou as mãos ao rosto, horrorizada. – Que palavras… Que histórias…
– Pronto, deixe lá, – Mafalda fitou audazmente a futura sogra. – Confesse, já sentiu vontade de dar um safanão ao seu homem? Ou ao seu filhote?
– Bem… – Dona Lurdes resvalou, mas recuperou a compostura. – Não. Nunca.
– Aprecio essa mania de parecer refinada, – sorriu Mafalda, – mas não levo fé. Quem cria rapaz destes e nunca lhe quis dar uma palmada? Olhe, nunca lhe deu uma chapada em pequeno?
– Claro que não! – pela primeira vez, Dona Lurdes disse a verdade.
– Eh pá… – protestou Vasco de novo. Foi então interrompido de imediato:
– Cala-te!
– Foi um erro poupá-lo, Dona Lurdes… – Mafalda deu-lhe uma palmadinha no rabo. Este traseiro vive à procura de sarilhos. Devia receber o que merece Mas o Vasco vale a pena. Ainda vai ao sítio, se lhe soubermos dar a volta. Óh, Dona Lurdes, quer um bolinho? Trouxe para acompanhar o chá. As melhores conversas fazem-se à volta da mesa.
Já ao final do dia, quando o marido chegou do trabalho, Dona Lurdes declarou, na presença do filho:
– Ó António! O nosso Vasco, finalmente, vai casar!
– Nossa Senhora! Nem acredito! exclamou o pai, entusiasmado.
– Calma, estou só a considerar… – corrigiu Vasco, visivelmente atrapalhado.
– Não há cá considerações, filho, – disse a mãe num tom firme. Desta vez tu casas. E se mudares de ideias, a Mafalda fica filha cá em casa.
– Mãe, ela não é orfã, – retorquiu Vasco, divertido. – Tem pais e tudo.
– Isso pouco importa, – retrucou Dona Lurdes, severa. Nesse caso devolvo-te ao hospital e digo-lhes que me trocaram o filho… E o teu pai apoia-me.
– Se for preciso, até juro! confirmou António, erguendo o punho fechado ao filho, ameaçador mas a sorrir.







