Fala comigo, Bolinha
Não tenhas medo, Bolinha! Vai ficar tudo bem! Eles já vão parar de discutir… Só mais um bocadinho e acalmam-se… Acho eu…
A Matilde agarrou o urso Bolinha mais junto ao peito e fechou os olhos com força. Não podia ter medo. Já era crescida, como a avó Lurdes dizia. Afinal, com cinco anos já era quase uma senhora. Para toda a gente, era a Matilde crescida. Já nem chorava quando levava vacinas, só tinha vergonha! Só com o Bolinha é que ela era pequena, como dantes. Ele já a viu de todas as maneiras e feitios. O Bolinha foi prenda da mãe, logo quando a Matilde nasceu. Era um urso meio desajeitado, um bocadinho torto das patas, mas era o melhor amigo dela. Podia-lhe contar tudo que o Bolinha nunca ia a correr dizer à educadora, como fazia a sua melhor amiga Leonor. Só olhava para ela muito sério com aqueles olhos redondos e ficava calado, mas entendia tudo, tinha a certeza! E quando estava assustada, como agora, então era ele quem a acalmava. Era bom estar assim, aninhada, no seu quarto.
A mãe e o pai também eram família, claro, mas, quando gritavam um com o outro, ficavam logo todos espetaços, como naqueles contos em que crescem silvas por todo o lado, tal qual a Bela Adormecida. E, com esses picos, ninguém se podia aprochegar Por mais que gritassem, não se ouviam. Matilde ainda não entendia porque razão os pais discutiam tanto. São adultos, não deviam saber resolver tudo a conversar? Foi a avó Lurdes quem disse, adultos têm que falar a mesma língua, embora Matilde nunca se lembrasse de que língua era essa. Talvez, entre grandes, as zangas sejam diferentes, mais sérias e grandes, não como entre crianças. Se já com os amigos bastava uma birra para ficar logo com o coração apertado, então com os pais devia doer ainda mais
Matilde reabriu os olhos, em silêncio. Agora era sossego, o que só podia querer dizer que a mãe tinha ido para a casa de banho chorar e o pai estava na cozinha, amuado. Chegava o momento. Menina grande de verdade. Ajeitou-se, suspirou fundo a olhar para o quarto. Que bonito que estava. A mãe passara dias a escolher papel de parede e móveis, sempre a perguntar o que a Matilde queria. A caminha branca, o edredão cor-de-rosa, o roupeiro cheio dos vestidos mais lindos. Tanta prateleira para todos os brinquedos dela, que às vezes já nem sabia quantos eram! Ali era o seu lugar seguro. Agora, com silêncio, até apetecia ficar. Mas Bolinha olhava-lhe nos olhos, quase a empurrar.
Eu já sei, espera só um pouco. Tu ficas aqui, está bem?
Acomodou o ursinho na almofada e saiu. Primeiro a mãe, como sempre. A porta da casa de banho estava fechada, só se ouvia fungar baixinho. A Matilde tocou suavemente.
Mãe?
O quê?
Posso entrar?
A mãe abriu a porta e sentou-se, igual de sempre, na beira da banheira.
O que foi, filha? Queres ir à casa de banho?
Não Quero estar contigo. Matilde encheu os pulmões e atravessou a porta, a medo. Não gostava nada daquele momento. Sabia que ali vinham lágrimas, abraços de promessa de que tudo iria correr bem mas Matilde já não acreditava. Era sempre igual. As coisas boas duravam pouquinho, como dizia a Leonor. E ela tinha razão! Era só esperar uns dias e pronto, lá estavam outra vez aquelas silvas e picos a crescer em todo o lado.
Matilde limpou uma lágrima com o punho e olhou a mãe.
Mas… para quê?
Para quê o quê, filha?
Para que discutem tanto, mãe? Se já não gostam um do outro, a avó Lurdes diz que é melhor cada um ir para seu lado. Quando eu e a Leonor nos chateámos, a avó disse o mesmo. Assim não há discussão.
A mãe ficou parada, quase assustada. Matilde era pequena, julgava que não percebia nada. Mas estava a perceber.
Filha, porque dizes isso? Eu amo o pai…
Não digas que não é verdade se amasses, não gritavas! Nunca me gritas, pois não, mãe?
Aquela pergunta ficou a ecoar. Como explicar a uma filha que, às vezes, o que dói vem onde mais se devia amar? Que há palavras que doem mais do que silêncio?
Às vezes o melhor é pensar antes de abrir a boca disse Matilde, limpando as lágrimas da mãe com as mãozinhas quentes.
Isso também diz a avó Lurdes? sorriu a mãe por entre as lágrimas.
Sim! E tinha razão. Eu e a Leonor discutimos menos agora. Só mesmo quando ela faz queixinhas à educadora Maria João…
Estás tão crescida… a mãe abraçou-a com força.
Não, mãe. Ainda sou pequena… Se fosse grande, não tinha tanto medo.
Medo de quê, filha? A mãe ficou séria.
Medo que vocês se chateiem outra vez e se vão embora.
Para onde iríamos?
Para um sítio sem barulho, onde não seja sempre mau. Não estás bem, pois não?
Estou para-te ser honesta, estou cansada. Mas tens medo que te deixemos?
Tenho… E depois só fico eu e o Bolinha. E se o Bolinha se perde? Como naquele dia no táxi? E a avó Lurdes diz que já é velhinha para ser mãe!
Matilde! Oh, filha, eu nunca, mas nunca te deixava! Tu és tudo para mim!
Mas quando vocês gritam, nem parece que sou importante.
A mãe não soube responder. Porque sabia que era verdade. Quando a raiva chegava, nada mais existia, nem ninguém. Só palavras feias e dor. Quando é que ficou assim?
Foi no segundo ano da faculdade, que conheceu o Pedro. Ela ia a correr para um exame e ia tropeçar-lhe em cima. Os óculos dele voaram, ficaram em cacos, e ela só teve tempo de pedir desculpa e fugir para a sala de exames. Saiu de lá aos saltos, por ter conseguido um 18. E lá estava o Pedro, a rir-se para ela no final do dia.
Olá, comboio apressado! Ainda vens a correr?
Ele assim ficou, a chamá-la meu comboio. E ria sempre quando ela bufava.
Fazes tanto barulho, Matilde, nem consigo zangar-me!
E as enfermeiras riam-se quando ele gritava na sala de partos:
Não bufes, Comboio! Força!
Quando foi que deixou de a tratar assim? Quando é que começaram as discussões?
Mãe?
Diz
Vocês gostam mesmo de estar juntos ou estão magoados?
A mãe foi fazendo carícias nos caracóis da filha, caracóis iguaizinhos aos do Pedro. Matilde era uma mistura linda dele.
Só queria que não lhe calhasse este cabelo de galinha, pensei eu E que tivesse os olhos dele
És tolinha, tens um cabelo lindo!
Tenho é um bom cabeleireiro! Mas vê se não lhe calha o meu penteado Mas olha, foi como eu sonhava. Cabelos dourados, olhos tão claros Linda, a minha Matilde. Já és, filha!
A mãe reparou que sorriu, sem querer. A avó dizia sempre: o importante é escolher bem o pai. E Pedro era mesmo um bom pai. Dava tudo pela Matilde. A mãe sentiu aquele ciúme bobo. É verdade, pensou. Ficara com um bocadinho de ciúme. Porque sentiu-se esquecida, deixada para segundo plano.
Era sempre: Onde está a minha princesa? Matilde, hoje comprei-te chocolate!
E quando brincava no carro, era só com a Matilde, nunca ouvia o que a mãe queria conversar. E depois, culpava-a se algo corria mal.
Teve aquela vez horrível, há dois anos. A Matilde apanhou uma febre alta, e a mãe esteve um dia inteiro sem dormir, a tentar controlar a febre sozinha. No final do dia, chorou de exaustão, sentiu-se impotente. E o Pedro, em vez de acalmar, atirou-lhe:
Que adianta chorar? Resolve alguma coisa? Agarra-te! Que mãe és tu?
A mãe deixou mesmo de chorar não de consolo, mas de medo. Sentiu-se uma inútil. Nunca mais esqueceu aquela sensação. Era só magoado. Sim…
Matilde olhou a mãe, à espera. Quando viu que já não vinha mais lágrima, soube que era hora de ir ter com o pai.
Já volto.
Soltou-se do colo e abriu a porta:
Não chores mais, está bem?
A mãe não respondeu, ficou só a ouvir. A Matilde bateu de mansinho à porta da cozinha. Lá estava o pai, sentado com o olhar perdido pela janela.
Pai?
Matilde? Ainda não estás na caminha?
Ainda é cedo! Espreguiçou-se no colo do pai. Vocês discutiram…
Desculpa.
Porquê?
Porque discutimos?
Sim.
Não sei.
Também ficas zangado com a mãe?
A Matilde olhava curiosa. Achou que deveria ter falado há mais tempo. Lembrou-se que na creche, quando ela e a Leonor se zangaram, a educadora Maria João sentou-as para falarem sobre tudo. No fim, perguntou se valia a pena perder a amizade.
A mãe disse que ficou triste contigo?
Não eu é que sei.
Como?
Quando vocês se gostam, dás abraços à mãe. Quando estão zangados, gritam. É assim, não é?
O pai olhou para ela, um pouco surpreendido.
Estás tão crescida!
A mãe diz o mesmo.
E o que disse mais?
Diz que gosta de ti e de mim.
O pai ficou diferente, as rugas de preocupação na testa sumiram um bocadinho. Ela saltou do colo e fez menção de sair.
Vou ter com o Bolinha, ele não gosta de ficar sozinho.
Vai, princesa.
Pedro ficou sentado a pensar. Em que momento foi? Como é que tudo mudou tanto? Lembrava-se dos tempos bons, quando O Matilde nasceu, como tudo mudou de repente, o cansaço, os cuidados, a distância entre ele e a mãe da filha. Depois, só discussões, magoas cada vez maiores. Tentava conversar, mas já era tarde. Um dia, num acesso de raiva, dissera:
Só a Matilde nos une. Se não fosse ela…
E viu o olhar da mãe da Matilde ficar de pedra. Desde aquela noite, ela nunca mais foi a mesma com ele. Só as perguntas básicas sobre a filha, de resto, silêncio. Pedro ficou amargo, mas não sabia como reatar. E sentiu-se cada vez mais fora de casa, da vida dela. Lembrou um conselho antigo da sua mãe, quando ainda era adolescente.
Pedro, numa família o homem tem que saber cuidar, partilhar. Se só deixas o peso para a mulher, a casa desmorona.
Mas mãe e se ela nunca pede ajuda?
Tu vês. E vai de ti ajudar. Pega-lhe na mão mesmo quando achares que não é preciso.
Pedro sorriu a recordar aquelas palavras. Obrigado, mãe
Matilde demorou a adormecer. Ficou deitada, com uma mão no Bolinha e a outra a apertar o pescoço da mãe, que já estava a dormir, cara cansada, preocupada. Fez-lhe uma festinha na testa, onde agora havia uma ruga nova, e pensou: que amanhã seja um dia bom, por favor. Dia bom era coisa que diziam sempre, mas raramente acontecia. E fechou os olhos com força, a desejar.
De manhã, claro está, a mãe nem ouviu o despertador. Acordou sobressaltada a ver aqueles relógios com a carinha de gato, que estavam no quarto da Matilde, e percebeu que iam chegar atrasadas ao jardim de infância e ela ao trabalho também. Menos mal que naquele dia não tinha reuniões de manhã. Já na cozinha, ouviu o tintilar de uma chávena. Que estranho O Pedro ainda não tinha saído? Normalmente, já estava fora àquela hora.
Foi à casa de banho, arranjou-se depressa, esperançosa de evitar conversa antes de sair. Mas, ao chegar à cozinha, deparou-se com Pedro ao lume, a preparar café. Mas o que saltou à vista foi o bolo, cheio de rosas de creme (um horror mas caseiro, do próprio punho!). E as formas do saco pasteleiro, aquelas que ela procurara um mês inteiro.
Olhou para o marido, confusa. Ele deu-lhe um passo.
Perdoa-me, Matilde. Tudo, por favor. Fui um tolo, sempre a exigir-te, a esquecer-me de ti. Tu és a melhor coisa que me aconteceu, tu e a nossa Matilde. Mas sem ti nem havia ela Não posso mudar tudo do passado, mas pensas se me dás uma oportunidade?
Olhou-o nos olhos, à procura do Pedro de antigamente. Deu um passo também e calou-lhe os protestos com a mão sobre a boca.
Ambos fomos fracos. Preciso de tempo para pensar Mas tens razão. Pensar é preciso. Em muita coisa
Vai demorar?
Uns sete meses, talvez.
Pedro ficou a olhar, sem perceber.
Essa cara Sim, percebeste. Vou ter bebé.
Ainda a querer acreditar, ouviu a Matilde abrir a porta, de Bolinha apertado ao peito, esfregando os olhos.
Já fizeram as pazes?
Trocaram um olhar cúmplice.
Uau! Que bolo! Podemos comer ao pequeno-almoço?
Hoje vale tudo! Pedro abraçou a mãe da Matilde e sussurrou Amo-te. Dá-me só uma oportunidade.
E tu dá-me a mim, combinado? sorriu ela. Virou-se para a filha. Mas só meninas lavadas comem bolo!
Já vou! Bolinha, senta-te aqui que vou buscar a tua fatia.
Ursos não comem bolo…
Está bem, mas eu ajudo!
Vão passar uns anos. A mãe, com o carrinho de bebé, apressa-se até à escola buscar a filha mais velha. O pequeno Tomás acorda, começa a choramingar. A mãe já se ia baixar, mas sente os braços quentes e conhecidos do Pedro.
Vai buscar a Matilde, nós esperamos.
Ela sorri, segue caminho. Com o verão à porta, as férias já combinadas para irmos todos ver o mar, pela primeira vez com o Tomás. Dá por si a recordar estes anos, tantas tentativas, conversas difíceis, dois meses a viver com os pais, a reconciliação ajudada pela avó Lurdes, a perda dela pouco depois. A chegada do Tomás, os primeiros passinhos, os dentinhos, a primeira palavra (papá, claro!). O Pedro cheio de orgulho a gozar com a mãe.
A Matilde, no primeiro dia de escola, muito séria e tímida, mas a portar-se tão bem que até a professora louvava. Duas alunas exemplares: Matilde e Leonor.
No regresso, mal a vê, a mãe pega-a ao colo.
Como correu?
Melhor que todas! A professora disse que só eu e a Leonor somos perfeitas!
Que maravilha! Onde estão o pai e o Tomás?
Lá fora no parque à nossa espera.
E o Bolinha?
Claro que veio! Está sentado na cadeirinha com o Tomás.
Matilde suspira. Já tinha dado o ursinho ao irmão pequenino, porque as coisas mais importantes são para partilhar com quem se ama. Mas ia sempre custar um bocadinho. Só a mãe podia saber tudo.
A olhar os pais ali à frente, passando o irmão de um para o outro, sempre a discutir coisas tolas, Matilde baixou-se junto ao carrinho e sussurrou ao Bolinha:
Achas que agora vai ficar mesmo tudo bem?
O urso, com os olhos muito redondos, ficou calado. Mas aí a Matilde sentiu que afinal, talvez já soubesse a resposta.







