Namorei uma senhora quase um ano, sempre fui generoso com ela e o neto. Mas bastou eu pedir uns pastéis para levar, e logo percebi o meu verdadeiro lugar.

Namorei com uma mulher quase um ano, sem nunca poupar tostão com ela ou com o neto dela. Mas bastou pedir-lhe um tupperware de pastéis para levar, e logo ali percebi qual era o meu lugar, sem rodeios.

Estávamos num café catita em pleno Chiado, música suave a embalar o ambiente, daqueles sítios que dá gosto ficar. O empregado trouxe-nos um recipiente de plástico onde tinha acabado de embalar uma fatia de bolo de chocolate, praticamente intacta. A Graça sorriu satisfeita e puxou a caixinha para si, com aquele jeitinho dela que sempre me desarmou.

Já passava de onze meses que estávamos juntos. Tenho cinquenta e oito anos, ela cinquenta e quatro pessoas já rodadas na vida, cada um com as suas histórias, divórcios, filhos criados e, como não podia faltar, netos. Eu tenho dois, rapaz e rapariga. Ela só tem um neto, o Martim, o sol da janela dela com seis aninhos até parece que o conheço de cor, mesmo só o tendo visto de relance duas vezes.

A Graça arrumou logo o bolo na mala e fez-me aquele sorriso que me fez perder a cabeça.

O Martim adora tudo o que leva chocolate disse-me. E eu já estou mais que satisfeita. Mais vale levar para casa, não achas?

Assenti com a cabeça, chamei o empregado e paguei a conta claro, incluía o bolo dela, o meu café, a salada dela. Dinheiro nunca foi o problema não dava pela falta. Só que o que me pesava não era o que gastava, mas sim o padrão que começou a instalar-se aos poucos. Ultimamente, quase sempre que saíamos, a Graça levava para casa o que podia, para mimar o neto. E quase sempre, por minha conta.

O primeiro sinal foi há uns três meses, quando fomos ao cinema aos Armazéns do Chiado, num daqueles lançamentos de filme de sexta-feira. Comprei os bilhetes e, antes de entrar na sala, a Graça pediu o maior balde de pipocas de caramelo e uma Coca-Cola.

Estranhei. Ela normalmente é muito cuidadosa com a alimentação. Pensei que, por ser ocasião especial, queria fazer um desvio. Sentámos, as luzes apagaram, peguei em algumas pipocas, mas a Graça tapou o balde com a tampa que pediu de propósito. Ela nem tocou nas pipocas.

Então não comes? sussurrei.
Deixa lá, não me apetece. É para o Martim, ele está cá hoje a dormir. Fica todo contente com pipocas do cinema, os pais raramente lhe compram.

Quase me engasguei com a minha própria Coca-Cola. Afinal, o balde nem era para nós os dois, foi para o neto ela decidiu sozinha, sem um pio. O filme todo, senti-me fora de pé. As pipocas estavam ali na cadeira, parecia que eram ouro em pó. No fim deixei-a em casa, e ela saiu contente com o balde. Eu parecia um estafeta a pagar pelo serviço.

E atenção: não era falta de dinheiro. A Graça ganha bem, anda sempre arranjadinha, tem carro. Não era necessidade.

Agora, o choque a sério foi no sábado passado. Convidou-me para almoçar em casa dela prometeu os tais pastéis de massa tenra, que já ouvia falar há meses. Fui prevenido: levei boa garrafa de vinho, fruta, uns camarões que comprei para enriquecer a mesa. E dentro do apartamento havia um cheiro a forno, daqueles que só de respirar já dá fome.

Na cozinha, uma tigela enorme tapada por um pano escondia uma montanha de pastéis bem douradinhos, ainda a brilhar de azeite. Sentámo-nos, ela serviu cházinho, pôs uns cinco pastéis na minha travessa.

Come enquanto estão quentes, Manel! disse, mesmo doce.

E estavam, olha maravilhosos. Três de carne, dois de legumes, comi e fiquei bem disposto. Conversámos, abrimos o vinho, senti aquele calor de casa, de coisa boa.

Graça, os teus pastéis são uma perdição! disse eu, recostando-me. Mais logo vem cá a minha filha trazer os pequenos, ficam comigo o fim-de-semana todo. Não me emprestas uns pastéis para eles provarem? A minha filha nunca se mete a frituras, aquilo é só supermercado lá em casa.

E foi aí que tudo mudou.

O sorriso da Graça sumiu-se. Ficou séria, o olhar cortante, o corpo todo tenso.

Ó Manel o tom já era outro, meio arrependido, mas frio dava-te de boa vontade, mas não posso dar muitos. O Martim vem cá jantar, e fiz principalmente para ele.

Levantou-se, destapou a tigela (que devia ter pelo menos trinta pastéis lá dentro) e, depois de remexer, tirou um saquinho transparente e meteu três pastéis. Dois de legumes, um de carne.

Pronto, ficas com estes. Senão o Martim não tem o que comer ao jantar.

Fiquei ali, a olhar para aquele saco miserável, com a cara a arder por dentro. O monte ali à frente, eu tinha acabado de lhe trazer o melhor para a mesa, nunca fui forreta com nada e agora ela a contar ao pastel para os meus netos? Até achei que estava a ser mesquinho.

Mas Graça, aí há pastéis para um batalhão o Martim não consegue comer isso tudo. Dá pelo menos dois para cada, são só dois miúdos.

Ela fechou bem a tigela, quase como se estivesse a defender um tesouro.

Manel, calculei tudo para não sobrar. O Martim está à espera dos pastéis. Não te zangues, mas isto é para ele. Comeste, gostaste já levas alguns para os teus. Mas não posso andar a distribuir tudo o que faço.

Ela chamou distribuir, quase como se eu fosse um estranho a pedir-lhe esmola, não um companheiro que há pouco lhe trouxe vinho e petiscos.

Senti ali um nó no peito. Para ela, nitidamente, o centro do universo é o Martim. E eu? Uma espécie de patrocinador: pago almoços, cafés, cinema e pipocas para levar. Quando é para ela e o neto, somos família. Mas se peço um mimo dos tais caseiros para os meus netos, já não há margem não posso distribuir.

Vim-me embora meia hora depois. Os três pastéis iam no banco ao lado, mas o cheiro, que antes era de aconchego, agora soava a qualquer coisa fria. Estive o caminho todo a matutar: nos meus valores, são os adultos que estão no centro da relação, depois vêm os filhos e netos, claro mas a dois.

No caso dela, é o Martim acima de tudo. E eu fico num cantinho, útil para pagar, dispensável para partilhar. É difícil não sentir que isto é um padrão, e custa mais quando a pessoa nem se apercebe que faz diferença.

Cheguei a casa, os miúdos já lá estavam com a mãe.

Cheira a pastéis, pai! disse a minha filha, remexendo nos sacos.
Foi a dona Graça que me deu para vocês provarem encolhi os ombros, já com vergonha, sem lhes olhar nos olhos.

Comeram num instante. Souberam-lhe pela vida.

Não há mais? perguntou a neta, a lamber os dedos.
Não, meu amor, era só isso e fui dar uma volta à varanda, fumar um cigarro para desanuviar.

Olhei as luzes da cidade e pensei: vale a pena continuar assim? Para ela o meu dinheiro é de todos, quando se trata do neto. Mas os pastéis caseiros, esses são quase património protegido.

No fundo, não é pelas pipocas, peles fatias de bolo, pelos pastéis isso compra-se a toda a hora. É o gesto. O que me magoou foi a diferença de medida, nenhum equilíbrio. Nem chegou a perceber. Mais tarde ligou-me toda animada: O Martim ficou felicíssimo, comeu e está a ver desenhos animados.

Eu ouvi em silêncio. Até me apeteceu dizer-lhe: os meus perguntaram se havia mais, e tive de dizer que não havia. Mas engoli.

Já te aconteceu isto contigo? Sentir que tudo de bom está reservado para o lado deles, e tu só serves para contribuir? Achas que vale a pena uma conversa séria? Ou estou a embirrar à toa, e isto é normal, aquela poupança das avós portuguesas?

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