Fragmentos de Amizade

Fragmentos de uma Amizade

A Teresa chegou a casa depois de um dia daqueles, sabes? Daqueles que te esvaziam por dentro, mais na alma do que no corpo. Mal abriu a porta do apartamento, tirou devagar os sapatos, como por rotina, nem olhando para baixo. Na entrada só se ouvia o silêncio, aquele silêncio estranho de quem acabou de chegar, interrompido de longe por um leve burburinho da televisão ligada na cozinha. Teresa ficou ali um instante, parada, como quem precisa de respirar fundo antes de avançar. Sentia que hoje ia ser mais difícil mudar do modo batalha do mundo lá fora para o conforto de casa.

Lá se fez ao caminho até à cozinha, onde o Fábio, o marido, estava sentado à mesa, a comer a sopa devagar enquanto olhava de lado para a televisão. Mal a viu, pousou logo a colher e ergueu o olhar.

Chegaste cedo hoje correu tudo bem? A voz dele vinha cheia de preocupação genuína.

Teresa afundou-se com peso na cadeira em frente ao Fábio. Cruza os braços à frente do peito, como se estivesse a tentar afastar o frio ou proteger-se de algo invisível. Bastou aquele gesto para o Fábio saber que alguma coisa estava a doer lá dentro.

Não, não correu respondeu baixinho, o olhar perdido no vazio. Vim agora da Mariana acho que já não somos amigas.

Fábio largou logo a sopa e ficou sério, foi parco nas palavras, só para lhe dar tempo. O olhar dele dizia tudo: estou aqui e quero perceber.

O que aconteceu? perguntou, baixo mas com aquela inquietação de quem quer ajudar.

Teresa respirou fundo, como se engolisse o que lhe doía para conseguir falar tudo de uma vez.

É por causa do marido dela começou. Olha, o Carlos traiu-a. E em vez de se zangar com ele, caiu em cima da pobre rapariga. Chama-lhe nomes, diz que ela devia saber que ele era casado e mesmo assim meteu-se com ele… A voz de Teresa quase falhou, mas continuou: Tentei acalmá-la, explicar que o culpado era o Carlos, que o que ela devia era falar primeiro com ele Mas ela não me quis ouvir. Começou a gritar que eu não a apoiei, que estou do lado da outra, daquela traidora.

O Fábio ficou a rodar a colher nos dedos mas já sem fome, fez uma pergunta rápida, só para tentar entender melhor.

Mas, a rapariga sabia que o Carlos era casado?

Teresa abanou logo as mãos, quase ofendida com a dúvida.

Claro que não! Ele disse-lhe que estava separado há tempos, nunca lhe mostrou papéis nem nada. Eu tentei explicar à Mariana: a culpa não é da miúda, é do Carlos! Não podemos culpar uma pessoa por acreditar numa mentira Fez-se uma pausa e depois Teresa continuou: Mas ela virou-se para mim, gritou, disse que defendo este tipo de mulheres porque se calhar também tenho culpas no cartório.

Fábio franziu a testa. Não gostava nada daquela mania da Mariana de virar o bico ao prego quando lhe convinha, e ainda por cima meter bocas dessas.

Realmente! E depois?

Teresa deu um sorriso triste, com a ferida bem à mostra.

Depois foi pior. Ela começou a espalhar pelo grupo todo que eu estava a defender demais a outra rapariga. Não sei porquê, mas a Teresa é que parece ter alguma coisa para esconder, foi o que andou a dizer. Sabes, eu achava que as amigas estavam para nos apoiar Em vez disso, fez de mim a vilã. Anda a dar a volta a toda a gente!

Fez-se uma pausa pesada. O som da televisão era só um ruído de fundo, nem um nem outro já lhe prestavam atenção. A Teresa brincava nervosamente com a ponta da toalha, como se ali escondesse algum conforto. Doía-lhe, custava encarar que alguém que considerava tão próxima pudesse dar-lhe as costas tão fácil.

E o pior é que eu só queria ajudar sussurrou, quase sem olhar para o Fábio. Queria que ela percebesse que estava a descarregar a raiva na pessoa errada. Em vez disso, virou tudo do avesso metade do pessoal levou a história dela a peito, agora olham-me de lado, murmuram quando passo! Como é que se acredita assim numa mentira absurda?

O Fábio levantou-se, chegou-se por trás dela e envolveu-lhe os ombros num abraço tranquilo. O toque dele era aquele porto-seguro, a lembrança de que, apesar de tudo, havia pelo menos uma pessoa que nunca teria dúvidas sobre ela.

Sabes, a verdade está do teu lado murmurou baixinho, mas com convicção.

Eu sei Teresa olhou, finalmente, para ele. Mas não ajuda muito. Tantos anos de amizade e acaba assim por causa de uma mentira, de uma estupidez. É tão injusto.

***

Nos dias que se seguiram, a Teresa tentou não sair muito de casa. Só de pensar que podia cruzar-se com conhecidos na rua ou na mercearia, ficava logo ansiosa. Detestava sentir os olhares enviesados dos vizinhos, as conversas baixas, aquela sensação de que toda a gente mudava de assunto quando ela entrava. Fugia por tudo e por nada: mudava os livros nas prateleiras, fazia limpezas a fundo, cozinhava receitas complicadas só para se distrair. Mas, por muito que tentasse, a cabeça não largava o que tinha acontecido. Cada vez mais apetecia-lhe desaparecer, arranjar um lugar qualquer onde ninguém soubesse o nome dela, nem o da Mariana, nem nada daquela confusão.

Às vezes fantasiava apanhar um comboio, um autocarro, um avião deixar Lisboa para trás e ir para qualquer lado onde pudesse respirar, onde existisse espaço e silêncio e não fosse preciso justificar-se. Só imaginava aquela liberdade de poder começar do zero, e sentia um alívio. Mas eram só ideias; a vida real ficava ali, agarrada a cada esquina conhecida, à rotina.

Uma noite, já o dia ia por metade e a cidade lá fora estava adormecida, sentaram-se os dois na cozinha: duas canecas de chá quentes, o candeeiro a lançar luz morna para os azulejos. Do lado de fora, via-se pela janela uns poucos flocos de chuva miudinha, dava aquela sensação de casulo.

Sabes, tenho andado a pensar começou o Fábio, meio a medo. E se mudássemos de zona? Ao menos íamos para outra parte de Lisboa, dávamos uma volta ao assunto e afastávamo-nos disto tudo, nem que fosse só por uns meses.

A Teresa ergueu os olhos, meio surpreendida e a pensar se isso não seria mesmo um escape.

Achas que vai ajudar?

Acho. Precisamos de sair deste ciclo. Aqui anda tudo à volta desta história, nunca mais consegues descansar a cabeça. Lá, começas do zero, vais ver que até respiras melhor.

Teresa ficou um bocado em silêncio, a ponderar tudo a casa a que estava apegada, os poucos amigos que não se afastaram, como explicar no trabalho. Tinha medo da mudança e ao mesmo tempo via ali uma porta aberta.

Ok vamos tentar.

O Fábio sorriu e apertou-lhe a mão. Combinaram começar a procurar um cantinho novo, de preferência perto de um jardim ou de um sítio sossegado, para poder tomar ar fresco num bairro diferente.

Foram dias de procura: ver anúncios, falar com agências, marcar visitas. Muitas decepções casas giras mas pequenas, bairros simpáticos mas longe de tudo, casas que cheiravam a mofo, senhorios esquisitos Tu sabes como é procurar casa em Lisboa! Mas estavam empenhados em encontrar um sítio acolhedor para recomeçar. O Fábio tratou da papelada e das chamadas, enquanto a Teresa se imaginava já ali a viver.

De vez em quando ainda lhe vinha à cabeça a Mariana. Já não era só raiva, era aquela tristeza fria de perceber que afinal, a amizade não era à prova de tudo como pensava. Lembrava-se delas em miúdas, as confidências, as crises partilhadas, os sonhos, as férias juntas, as conversas pela noite dentro. Agora tentava perceber onde é que tudo se tinha perdido

Um dia, enquanto arrumava fotografias, Teresa encontrou uma delas as duas, a rir-se de chapéu na Costa da Caparica, no tempo em que parecia impossível haver zangas. Aquela imagem trouxe-lhe uma saudade, mas também uma certeza: não vai ser ela a tentar remendar esta ponte, depois de tudo o que foi dito.

Finalmente, um mês depois, descobriram um T2 soalheiro em Telheiras, perto de uma praceta calma e com um parque a dois passos. Mudaram tudo aos bocadinhos, faziam piadas durante as mudanças agora sim, sabemos o que está em cada caixa e a casa nova, devagarinho, foi-se tornando um lar. Os sorrisos dos vizinhos eram autênticos, sem juízos de valor, e ninguém queria saber da vida deles.

Ali a Teresa foi-se sentindo outra vez ela própria, sem as rédeas dos olhares e das bocas. Era um sítio de recomeços, longe do julgamento dos outros. Aos poucos, ia-se refazendo, reorganizando por dentro.

***

Uns dias antes de deixarem a casa antiga, houve ainda um capítulo final que a Teresa nunca mais soube explicar se tinha sido por sentido de justiça ou apenas necessidade de fechar o passado. Marcou encontro com o Carlos, marido da Mariana.

Encontraram-se num café discreto, nos Olivais, onde não haveria olhares curiosos. Quando o Carlos chegou, estava nervoso, a tentar fazer de conta que era só mais uma conversa qualquer.

Olá não estava à espera deste convite disse ele ao sentar-se.

Teresa foi direta. Explicou que sabia que vinha aí o divórcio e que a Mariana andava a juntar provas contra ele, mas que também tinha telhados de vidro (e aquele episódio dela na tal formação no Porto não era pequeno). Depositou-lhe um envelope em cima da mesa com algumas mensagens e fotos, não para destruir ninguém, mas para equilibrar a balança. O Carlos olhou para tudo, respirou fundo, agradeceu, e Teresa levantou-se com um simples fica bem.

Ao sair, sentiu-se finalmente livre do peso. Já não era sobre a Mariana nem sobre o Carlos era sobre ela própria, sobre parar de carregar culpas que não eram suas.

Na nova casa, a vida começou a ganhar cor. Teresa encontrou logo trabalho remoto, encaixou-se bem com o novo horário. O Fábio adaptou-se ao emprego no Saldanha, apanhava mais trânsito mas gostava do ambiente. Aos poucos, descobriram os cafés e os parques do bairro, deram dois dedos de conversa com os vizinhos, sem cenas de novela e sem dramas. A casa começou a ficar cheia: plantas nas janelas, fotos recentes nada que lembrasse o que tinham deixado para trás.

Numa tarde daquelas tranquilas de outono, a Teresa sentou-se à varanda, chá fumegante na mão, o sol a aquecer-lhe a pele. O bairro, cheio de miúdos a brincar e cheiros de pão quente da padaria. A paz de quem, finalmente, já não tem de dar satisfações.

Sabes acho que fiz o que era preciso. Não foi só mudarmos de casa, foi contar ao Carlos aquilo tudo desabafou ela, já sem drama, só a pedir o consentimento do Fábio.

Fizeste o que te pareceu certo, T., e é isso que importa devolveu ele, sem analisar demais, só garantindo que estava ao lado dela.

A Teresa ficou a olhar para o céu a mudar de cor. Lá longe, a Mariana ficava onde devia: no passado, com as suas histórias e inverdades. Aqui, começava outra vida, mais simples e verdadeira.

***

Meio ano depois, a Teresa debruçou-se à janela num início de dia luminoso, a ver Lisboa acender-se ao primeiro sol do outono. Com a caneca de chá de bergamota numa mão, sentia a leveza de já não ter fantasmas. O Fábio ressonava uns minutos mais, como de costume.

A rotina estava boa: ela mantinha o trabalho remoto, até se inscreveu num curso de aguarela em Alvalade (que sempre quis mas nunca teve tempo), e as coisas corriam tranquilas. Uma noite, enquanto passava pelo Instagram, apareceu-lhe uma mensagem da Elisa, colega dos tempos da empresa.

Olá Teresa! Soube das últimas sobre a Mariana. Encontrei por acaso a vizinha dela, e olha que novela

A Teresa ficou sem saber se queria saber, mas a curiosidade venceu.

A Mariana armou-se em vítima, arranjou advogado de luxo, tentou sacar tudo do divórcio. Mas o Carlos apresentou mensagens e provas, e ficou claro que ela também tinha dado as suas escapadelas, sobretudo na tal formação do Porto. No fim, o tribunal deu-lhe só o carro, o negócio ficou todo em nome do Carlos.

Ela pousou o telemóvel e suspirou. Não era uma questão de vingança era aquele alívio de saber que, afinal, a verdade impõe-se, nem que seja tarde.

Em que pensas? perguntou o Fábio, aparecendo atrás dela com um abraço.

Contou-lhe, só para o pôr a par a Mariana perdeu quase tudo, finalmente o tribunal percebeu que nem tudo era como parecia. O Fábio acenou, um daqueles gestos que diz agora a página está mesmo virada.

Mais tarde, ao final da tarde, a Teresa decidiu sair para passear pelo bairro o ar fresco, aquela atmosfera outonal, fizeram-lhe mesmo bem. Passeou, reparou nos canteiros, nos miúdos nas escadas, nos gatos nos beirais deu por si a pensar que, em apenas alguns meses, a vida mudara totalmente. Agora, sabia que estava livre; já não precisava de explicar mas sabia em si mesma que tinha feito tudo certo.

Na manhã seguinte ligou à Elisa, agradeceu a notícia, disse que agora sim, podia encerrar aquele capítulo. E sentiu, finalmente, liberdade. O peso já não estava ali.

À noite, recebeu o Fábio com um abraço apertado. Ficaram a planear o fim de semana talvez uma ida à rua Augusta ou um filme em casa, pão fresco e sopa quente. Olhava a lareira elétrica a lançar sombras quentes, e sentia o conforto de ter saído do cinzento do passado.

A amizade com a Mariana era agora só uma recordação distante, mas não amargurada. O que ficou foi a certeza de que às vezes é preciso deixar ir, para arranjar espaço à serenidade. E, no fundo, foi isso que mais valorizou: poder ser ela mesma, finalmente, sem medo nem desculpas.

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