O Ouriço

Ouriço

Outra vez! resmunguei ao ler a mensagem no grupo da escola do Diogo e deixei o telemóvel cair ao meu lado no sofá.

O que foi, mãe? perguntou Inês, afastando o olhar do caderno e virando-se para mim.

Mais um concurso! Já não posso com isto. Para quê, alguém me explica? E o pior é que é para entregar depois de amanhã. E amanhã vou estar o dia todo no hospital. Quando é que eu faço isto?

Queres que faça eu? Inês fechou o livro de Matemática, afastando-o para o lado. Os trabalhos já estão quase feitos. Só falta matemática, mas amanhã copio da Marisa. Aquilo é tão estranho, nem percebi bem. Ela há-me de explicar.

Não, filha, trata das tuas coisas. Só faltava agora! O período está quase a acabar e vêm aí os testes finais.

Mas o Diogo vai ficar triste outra vez. Lembras-te como ele chorou da última vez quando todos receberam diplomas e a dele nem sequer olharam? E ele tinha feito tudo sozinho

Pois, por isso mesmo. Suspirei, já com a testa franzida. Ali parece que só temos pintores famosos, daquelas famílias ligadas às artes. E depois, se desenham, parece logo que nasce um Rafael ou um Malhoa. E não são as crianças, claro, são os pais! Que miúdo faz o que aparece ali no concurso? Mas nem é isso o que mais me custa.

Então, o quê?

Que as educadoras juram a pés juntos que as obras são das crianças. Se as visses! Nem todos os adultos conseguiam fazer aquilo…

Mãe, porque é que ninguém diz nada? Parece que toda a gente aceita e pronto. No meu primeiro ano também era assim, mas depois um dos pais disse “chega de fazer de conta ou os miúdos fazem sozinhos”.

Ah… Aquela vez que a professora Irene disse que já não aceitava trabalhos feitos pelos pais?

Sim! Inês riu-se. Afinal toda a gente ficou contente! E depois a professora Paula disse que a partir daí só aceitaria trabalhos mesmo nossos. E a Nini levou um raspanete porque trouxe um cachecol que a mãe fez. E a Paula até a elogiou no início! Mas depois pediu a todos para levar lãs e agulhas para a aula, lembras-te?

Ui, lembro-me bem resmunguei de novo, revendo as minhas corridas pelos vizinhos a pedir lãs à última da hora.

E ela pôs a Nini a tricotar. Claro que não conseguiu e apanhou uma negativa. Não te lembras?

Já foi há tanto tempo Está longe.

Podia-se era premiar os pais, não os miúdos. Assim os miúdos não eram os únicos a ficar frustrados. Inês arrumou as canetas no estojo, levantou-se e acrescentou: Queres que te faça um chá? Posso ler uma história ao Diogo?

Quero sim, filha! fui abraçá-la, dei-lhe um beijo no rosto. Já cresceste tanto! Agora já não chego ao alto da cabeça.

Não digas isso, mãe Inês afastou-se delicadamente. Não quero falar dele.

Já não falamos, prometo. Vai lá fazer o chá, que eu faço um telefonema. Deste-me uma boa ideia.

Agarrei a minha filha de novo, sentindo aquele calor que só ela transmitia, antes de a empurrar levemente.

Ao vê-la afastar-se, com aquela postura perfeita ombros direitos, passos leves , dei por mim a pensar em como a genética é uma coisa estranha Eu sempre fui mais baixa e robusta, loira de olhos claros. O Diogo também puxou a mim branquinho e forte. Mas a Inês parecia uma bailarina, magra, ágil, pescoço longo e pulsos fininhos. Igualzinha ao pai e à avó paterna, que tinha sido bailarina no Teatro Nacional de São Carlos. Não era a principal, claro, mas era dotada de uma coluna perfeita, uma força de vontade e uma energia admiráveis. Só a genica e a teimosia da avó ficou de fora e Inês saíra toda a mim nesse aspeto sempre afável, calorosa, pronta a ajudar. Às vezes demais, acabando ela própria por se prejudicar.

A casa nunca estava vazia de animais doentes: a minha filha apanhava-os na rua, cuidava deles com mimo e depois arranjava quem os acolhesse. Todos, menos o grande gato velho que ela trouxe no inverno passado.

Aquele inverno foi tão frio que até fecharam as escolas. Inês ficou em casa com o Diogo, que teve de faltar ao infantário por causa de uma constipação. Assim que me despedi para ir para o hospital, ela ficou a preparar o almoço, mas não havia uma única cebola em casa. A mercearia era ali ao lado, então pediu ao Diogo para ver desenhos animados e não sair do sofá, desligou o fogão e correu à rua. Ao voltar, mesmo junto à porta do prédio, escorregou nas escadas e caiu, sentindo uns olhos amarelos a olhá-la. Era o gato enorme, preto, de pelos emaranhados, com remendos sem pêlo, e os olhos, remelados, mediam-na com indiferença.

Estás com frio? Queres vir comigo? perguntou-lhe, limpando as lágrimas.

Não houve resposta. Só ficou ali, imóvel, recolhendo as patas frias debaixo do corpo, num último esforço. Inês pegou-lhe, mas era demasiado pesado. Então abriu a porta do prédio.

Queres vir? Está quentinho. Há leite.

O gato não se mexeu, mas Inês ficou de cócoras nas escadas húmidas, enternecida.

Não tenhas medo, vem Fazes-me falta.

O animal ouviu-a, e sem aviso, encostou a cabeça grande à mão dela, levantando-se com dificuldade.

Assim é que é! animou-se Inês, levantando-se e sentindo a dor das costas atenuar.

Não ligues ao Diogo. Ele é barulhento, mas nunca faria mal a ninguém.

Só no dia seguinte vi aparecer aquele trambolho na cozinha.

Inês, não me parece que ele dure muito

Mãe, ao menos morre com calor.

Eu não disse nada. Que fique.

A verdade é que nem tinha forças para protestar. Limitava-me a cumprir as tarefas: trabalhar, fazer a lida, tratar dos miúdos. Tudo parecia feito numa espécie de gelatina viscosa, agarrada, mas ao mesmo tempo escorregadia, irrelevante. Tudo, menos o Diogo e a Inês. Só eles me mantinham à tona.

O meu marido não foi embora de repente, demorou um ano entre cá e lá, indeciso. Eu já nem sentia alegria com a presença dele, mas ele não arredava pé.

Não pareces precisar muito de mim mas os miúdos gostam de me ter por cá.

Vivíamos em quartos separados a casa deixava. Inês nunca perguntou nada quando passei a dormir com ela no sofá-cama. Apesar da idade, percebia muito.

Eu sabia do outro filho dele, mais novo que o Diogo, e conhecia a mulher bonita, elegante, uma loira de revista a passear o filho vestido de marca. Ri-me interiormente, pensando, mais uma loira Eu, com as minhas ancas largas, olhava para mim e para ela, e não tinha sequer vontade de competir.

Um dia, ao sair do hospital, decidi ir pelo Jardim da Estrela, que sempre amei e há muito não visitava. O outono estava quente e apeteceu-me sentir o cheiro das folhas, ouvir o seu crepitar. Aquela meia hora de passeio serenou-me mais que qualquer comprimido. Ri-me ao ver um esquilo a desafiar um cão, conduzido por um senhor alto e grisalho. Alto o meu ex ficaria assim, pensei, mas com outra ao lado, não eu. Acabaram-se as tardes em família, os almoços em Sesimbra, as viagens ao Douro. Tudo se acabou.

Virei-me e deparei-me com o meu marido, a passear ao longe com a nova família. É curioso como a vida nos põe à frente desses cenários que mudam tudo. Observei-o a brincar com o outro filho, e decidi naquele instante o que queria para o meu futuro. Cheguei a casa, arrumei as coisas dele e, sem dar espaço a discussões, disse baixo:

Vai-te embora.

Talvez não tivesse obedecido, mas Inês apareceu e, sem tiques ou hesitações, repetiu:

Vai.

Quando fechou a porta, desabei no corredor, escorrendo pela parede.

Mãe, estás bem? ouvi o susto da Inês.

Fechei os olhos por um momento, respirei fundo, e depois pedi-lhe:

Põe o chá, filha Apetece-me mesmo.

O Diogo reagiu mal à saída do pai? Pouco. Era pequeno, a mãe bastava-lhe. O pai raramente brincava realmente com ele, estava sempre ocupado. A Inês sentiu mais. Emudecia para não me afligir e passava noites a olhar para o teto, vendo sombras da árvore lá fora. Tinha insónias e começou a chorar por tudo e por nada. Levei-a ao psicólogo, mas só melhorou quando o gato, que ambos batizaram de Kiko, se tornou presença diária.

O Kiko era tímido, mas fiável. Assustava-me às vezes, a aparecer do nada na cozinha quando andava às voltas durante a noite. Não pedia festas, não miava. Sentava-se ao meu lado, apenas. Passei a falar com ele, em surdina, para não acordar ninguém desabafava os meus medos, mágoas e tristezas. Não criticava, não choramingava, mas também não me largava. Via nele alguém que me ouvia de verdade, ainda que em silêncio.

Quando percebi que a Inês estava mais calma, achei logo que também ela devia falar com o Kiko. Com naturalidade, um dia disse-lhe:

Se pensas em arranjar-lhe outra casa, conta que eu não deixo. Fica connosco.

O Kiko, em casa já há um ano, ganhou corpo, pêlo novo, parecia mesmo um gato de família. Quando me perguntavam pelas relações, eu já brincava:

O melhor homem da minha vida é peludo e ouve tudo o que tenho para dizer; adora os miúdos, nunca deixa meias espalhadas. Um sonho!

Não pensava em voltar a namorar. Achava-me estragada, como um boneco com articulações partidas, parado no tempo. Só os filhos me davam ânimo.

Com a Inês nunca tive trabalhos manuais impostos por professores. Os anos de escola dela foram memórias de festas, vestidos, lacinhos e sapatos. Já com o Diogo, só concursos disto e daquilo, o tal entusiasmo de alguns pais tempo era coisa que a mim me faltava.

O pai, ao sair, foi claro: só daria pensão se o tribunal obrigasse. Sabia bem que o meu ordenado ainda por cima em euros, com o custo de vida a subir não chegava. Ele achava que eu ia pedir, mas enganou-se. Aguentei firme dois meses de contenção até arranjar um segundo emprego. Ficava esgotada, mas valeu. Só que quase não me sobrava tempo para o Diogo.

No começo, era fácil: uma figura feita de plasticina, um recorte em papel, não custava nada. Até a Inês, nos seus tempos livres, ajudava. Mas o Diogo fazia questão de trabalhar sozinho. E, claro, quando via os seus trabalhos escondidos na prateleira de cima, sem destaque, doía-lhe. Pior foi o dia em que, numa reunião, me chamaram a atenção, dizendo que devia “ajudar mais”. Senti uma vergonha estranha, como nunca. Só a indignação dos outros pais travou a educadora, e eu decidi não voltar a reuniões.

Calma, calma! tentou compor-se a educadora, Dona Cecília. Os nossos filhos são o futuro! Se não lhes damos tempo e carinho agora, será tarde demais

Nem quis ouvir mais. Só pensei em chegar a casa e sentar-me na cozinha, com uma chávena de chá, enquanto os miúdos contavam o dia e o Kiko enroscava-se a um canto.

Assim que a reunião acabou, saí de fininho. A presidente do Comité chamou-me:

Leonor, depois ligo-te!

Assenti, prometendo a mim própria que ia desligar o som do telemóvel.

Já tinha passado uma semana quando chegou a mensagem do novo concurso. Senti-me finalmente farta. Chega! Que sejam as crianças a fazer os trabalhos. Reuni com três mães e um pai de meninos da sala do Diogo. Todos concordaram em levar isto para a frente.

O evento de apresentação foi um sucesso. Fui ao colégio com o Diogo e, mal entrei, tirei o trabalho dele do sítio mais recuado da prateleira. Bati palmas para mim mesma e coloquei o “ouriço” dele bem à vista.

Leonor, porquê isso? a educadora olhou espantada.

É para que todos vejam. Só vim acertar a etiqueta do nome. Sorri, ajeitando os trabalhos para que o do Diogo ficasse bem destacado.

Ela corou, mas nem tentou tirar dali.

O Diogo parecia não acreditar, todo orgulhoso, ao ver o ouriço em destaque. E alguém elogiou, deixando-o ainda mais feliz.

Começou o burburinho dos pais, crianças, fatos para a festa. Prepararam-se para o sarau na sala de música.

Enquanto saía, pisquei olho ao pai da Bárbara e desci atrás do Diogo.

O espetáculo foi bonito. O Diogo leu o poema que treinou com a Inês e dançou com a Bárbara. Pensei, talvez devesse experimentar inscrevê-lo nas aulas de dança, que bem movia os pés Mas entretanto, Dona Cecília começou a anunciar os prémios do concurso. Distribuiu diplomas e chocolates, sempre para as mesmas crianças as “obras-primas” feitas, certamente, a quatro mãos. O Diogo e outros como ele, nada. Quando a educadora se preparava para terminar, levantei-me:

Desculpe, agora queríamos dizer uma coisa, se não se importa.

Alguns pais sorriram, cúmplices; outros, confusos.

Caminhei para a frente, recebi das mãos da mãe do Alexandre uma pilha de diplomas e acenei ao resto da minha equipa.

Antes de mais, muito obrigada às nossas educadoras pelo trabalho, dedicação, criatividade e imaginação! Obrigada! Ora, palmas de todos!

Primeiro tímido, depois mais animado, o agradecimento tomou conta da sala.

Continuei:

Agora queremos premiar os meninos que, não tendo ganho nada, participaram e se esforçaram tanto como todos os outros! Todos merecem! Uma salva de palmas!

Comecei então a chamar um a um, entregando diplomas e um chocolate igual aos outros. A criançada aplaudia, sorria, e senti finalmente justiça. E continuei:

Não esquecemos quem fez os melhores pais! Porque, sejamos francos, só mãos adultas conseguem certas proezas.

Retirei chupa-chupas grandes de uma caixa, entreguei à líder do comité completamente surpreendida o seu diploma e disse:

Parabéns, também para os pais vencedores!

Ninguém dos artistas de mãos douradas saiu sem prémio naquele dia.

Mais tarde soube do escândalo: uma nova prateleira apareceu junto à original, cheia de trabalhos feitos só pelas crianças e por cima, um cartaz em letras coloridas, orgulhoso: Eu fiz sozinho!

Levei o Diogo para casa, a correr, e mal tivemos tempo de falar.

Mamã?

Sim, querido? perguntei, vendo o diploma bem apertado entre as mãos dele.

Se me deram diploma, é porque o meu ouriço ficou bem feito?

Claro! Tu ouviste: é o melhor, porque foste tu que o fizeste! Nem a Inês te ajudou desta vez!

Mas ficou meio torto

E depois? É teu, é único.

Passou um momento calado, a ajustar o passo ao meu, depois voltou a perguntar:

Mãe… tens orgulho em mim?

Parei, puxando-o para a minha frente. Desci ao nível dele:

Tenho tanto, Diogo! Orgulho em veres que és cada vez mais autónomo, e por nunca teres pedido para te fazerem os trabalhos. Por tentar, mesmo quando custa. Sei que ontem foste tu a lavar a loiça, não foi a Inês. Obrigada. És um verdadeiro homem.

O que é isso: um verdadeiro homem?

Pensei um pouco.

É alguém que tenta resolver os próprios problemas, mas agradece ajuda quando precisa. Não acha que só as mulheres fazem isto, ou só os homens fazem aquilo. É quem cuida dos outros como tu, ontem. Quando lavas a loiça, dás tempo à Inês para fazer os deveres. E isso é muito importante: ter tempo e saber usá-lo.

Como?

Um dia explico-te melhor. Levantei-me, pegando-lhe na mão. Achas que merecemos uma festa, hoje?

Acho!

Vamos comprar um bolo?

Sim!

Na cozinha, sentei-me a tomar o meu chá de lúcia-lima, vendo os meus filhos conversarem alegres, o Kiko meio enroscado no canto, e percebi: é tão fácil fazer uma criança feliz Basta dizer-lhe que o que faz e quem é, importa.

Vou silenciar o telemóvel e deixá-lo no fundo da mala. Amanhã, apago o grupo da escola e peço à mãe da Lisa para me contar só o essencial. Hei de rir ao lembrar as caras de espanto de cada um ao receber o prémio surpresa.

Daqui a dois anos, o Diogo estará no colégio militar e o ouriço torto vai viver na prateleira da cozinha, ao lado do bule que a Inês trará de Lisboa, quando vier de férias da universidade.

Quando ficar sozinha em casa com o Kiko, passarei por uma fase estranha, mas com o tempo, um novo amor há de surgir: alguém bem diferente do meu primeiro marido. Não será alto nem elegante, mas terá o que sempre procurei carinho, paciência, compreensão. Vai gostar dos meus filhos, e eu vou finalmente acreditar que é possível amar quem não nasceu do nosso sangue. A Inês, visitando-me, há de olhar para nós, de mãos dadas pelo jardim, e desejar um dia ter a mesma sorte alguém com quem atravessar a vida juntos, pisar folhas no outono, alimentar esquilos, voltar para casa, preparar chá e estar em silêncio. Porque há bênçãos que se sentem sem serem ditas: basta alguém que nos ouça com o coração.

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