Diagnóstico – traição

Diagnóstico traição

Vocês até já vivem juntos, Leonor disse D. Graça, olhando firme para sua possível futura nora, com ar inquisitivo para quando marcam o casamento, então?

Acho que ainda não é a altura, respondeu Leonor, forçando um sorriso, procurando ser delicada com a futura sogra Vivemos juntos há apenas um mês. É prudente esperar, conhecer-nos melhor… Quem sabe, se não começamos a embirrar com pequenas coisas do dia a dia?

Graça arqueou uma sobrancelha, não disfarçando a curiosidade. Na verdade, Leonor agradava-lhe muito mais do que a anterior namorada do filho, que era insuportável e descarada! Ainda bem que Rui se livrou dela.

E o Afonso, como tem estado? questionou, mudando de assunto, sem porém perder o tom perscrutador. O rapaz já é crescido, mas…

Ao pensar em Afonso, o filho de Rui, Leonor sentiu de imediato um afeto inesperado. Recordava como tinha receado não ser aceite por ele e se visse nela uma intrusa, uma ameaça à mãe? Felizmente, revelou-se não apenas aberto, como até bem-humorado.

É um rapaz maravilhoso, respondeu, sorrindo de forma espontânea No início, claro, estava assustada, mas o Afonso é educado e muito simpático. Conquistou-me logo! Até já pede para aprender algumas receitas novas comigo.

Rui, que até ali ficara calado a ouvir, assentiu, e um sorriso breve denunciou o alívio por ver a boa relação entre eles.

E ele já pediu um irmãozinho? insinuou Graça com aquele à-vontade típico das mães portuguesas.

Rui revirou discretamente os olhos, incomodado com a insistência da mãe em temas tão delicados. Um traço bem seu, aliás.

Ó filha, não leves a mal, mas o rapaz adora crianças… E tu és nova olha que ainda vais a tempo de ter dois ou três, sim senhora.

Leonor sentiu o rubor a subir-lhe às faces e um nó no estômago. Falar assim, de temas tão pessoais com praticamente uma desconhecida, custava-lhe mesmo.

Receio que isso seja impossível disse, esforçando-se por soar serena. Os médicos desaconselham-me totalmente que engravide.

Por momentos reinou silêncio, até Graça perder o riso fácil e o semblante tornar-se frio e distante.

Problemas femininos, não? comentou, falsamente compassiva. Mas olha que hoje em dia resolve-se quase tudo…

Leonor respirou fundo. Não queria entrar em detalhes com alguém que mal conhecia, mas percebeu que era preciso explicar.

No meu caso, não há solução, disse. Desde os dezoito que sei o diagnóstico: há uma probabilidade altíssima de cegar caso faça uma gravidez. Não valerá a pena pôr uma criança no mundo para nunca a ver…

Graça ficou uns segundos sem saber o que responder ensaiou outra expressão, sem conseguir ocultar o desapontamento: aquela nora não era certamente a dos sonhos, robusta, saudável, a dar netos sem demora

Mas Leonor recusava sentir culpa ou justificar-se mais. Ela e Rui já tinham tido aquela conversa várias vezes. Discutiram todas as alternativas, ponderaram riscos até pensaram em adoção ou barriga de aluguer. Não era fácil, mas o essencial estava decidido em conjunto.

Quando finalmente se despediram, Graça aninhou o filho num abraço, acenou friamente a Leonor, mantendo o decoro mas sem calor. Ao sair, Leonor apanhou o olhar de Rui, onde lia-se um pedido mudo de desculpa.

O ar fresco lá fora pareceu mais leve. Leonor apertou a mão de Rui, que respondeu num aperto firme e, sem falar em tudo o que ficara por dizer, ambos sabiam: decidiram ficar juntos independentemente das opiniões dos outros.

***

Três meses depois.

Ultimamente, Leonor sentia-se estranha. Primeiro, pensou ser apenas cansaço do trabalho. Mas passado mais de uma semana, o desconforto persistia: cansaço, enjoos matinais e uma sensibilidade acrescida a cheiros.

Tentou ignorar, achando que era do stress. Entretanto, numa chamada à mãe, a voz suave de D. Margarida perguntou, depois de ouvir o relato:

Leonor, minha filha… já pensaste se não estarás grávida?

Não, mamã, impossível! Nunca falhei na medicação, o médico foi muito claro. É tudo certinho, todos os dias.

A mãe insistiu: Compra um teste, só para garantir. Vale a pena ter a certeza.

Após hesitação, Leonor achou sensato. Saiu, comprou dois testes numa farmácia ali perto. Em casa, seguindo as instruções à risca, aguardou, ansiosa. Ambos deram positivo.

Isto não pode ser, murmurou, incrédula. Preparei-me tanto…

Ao ouvir a campainha, sobressaltou-se. Era Afonso, que, como de costume, esquecera das chaves.

Apanhou rapidamente os testes, mas não reparou que um caíra ao chão.

***

Rui, vou a Setúbal passar uma semana com a mãe, está adoentada, disse Leonor, evitando fitá-lo. O coração apertava com o peso de ocultar algo de tão grave, mas não havia forma de contar, ao menos por agora.

Rui largou o computador, olhos carregados de preocupação.

Precisas de ajuda? foi logo dizendo Precisas que leve algum medicamento, queres que te leve?

O gesto carinhoso só tornava tudo ainda mais difícil.

Não, obrigada amor. Se precisar, aviso. Fico descansada só por ir ver como está.

Fez a mala à pressa e apanhou o autocarro. Precisava de tempo para pensar antes de falar com Rui. No dia seguinte marcou consulta numa clínica privada, preferiu tratar tudo de forma discreta.

O médico confirmou. A senhora está grávida, cinco a seis semanas.

Leonor sentiu o chão abrir-se. Mas eu tomava sempre a medicação, como pode ser?

É raro mas acontece, explicou a médica. Falha de absorção, interação ou erro de fabrico. Quer prosseguir a gravidez?

Os avisos dos médicos ao longo dos anos ecoavam-lhe na mente. O risco de cegueira é de noventa por cento. Não posso arriscar.

A médica compreendeu, entregou os exames e instruções para voltar no dia seguinte.

***

Leonor! exclamou Rui ao telefone, com uma felicidade infantil. Porque não me contaste?

Leonor gelou. Do quê?

Que estás grávida! Encontrei o teste no chão.

Ela respirou fundo. Rui, deves estar enganado. Isso não é possível…

Não, não estou! E já marquei consulta para irmos juntos.

Leonor tentou acalmá-lo, mas ele insistia, entusiasmado. Olha, a minha mãe esteve cá e falou das tuas pílulas, disse que os médicos exageram, que hoje em dia tudo se resolve… Convenci-me de que, se tentássemos, correria bem.

Num instante percebeu. Rui, por favor… Disseste que mudaste a minha medicação?

Rui hesitou, voz envergonhada: Deitei ao chão o frasco sem querer, e pensei… talvez seja um sinal. Voltei a enchê-lo com vitaminas.

Leonor ficou estarrecida. Estás a dizer que puseste em risco a minha vida?

Eu só queria um filho, achei que correríamos o risco juntos.

Sem me consultar? Sabias o que estava em causa, Rui!

Ela já sabia: confiança traída não se recupera fácil.

Preciso de tempo, disse. Encontramo-nos depois de amanhã, ao meio-dia, no Jardim da Estrela.

***

No dia marcado, Rui apareceu com um ramo de rosas brancas. Leonor chegou acompanhada do irmão, Filipe. Fria e calma, passou-lhe uma folha a confirmação médica.

O que é isto? Não percebo…

Significa que não haverá criança, respondeu seca. Sabias do risco do meu diagnóstico. Traíste a minha confiança. Amanhã vou buscar as minhas coisas, o Filipe vai comigo.

Rui tentou justificar-se, mas Filipe barrava suavemente o caminho.

Tu inventas desculpas! exclamou Rui, sentindo desmoronar-se tudo. Falei com médicos, disseram-me que esses riscos hoje em dia não se confirmam!

Foste discutir a minha saúde sem mim? Sabes o meu diagnóstico? Ou só disseste o que te convinha ouvir?

O silêncio instalou-se. Rui percebeu, finalmente, que não há amor onde falta respeito e consenso.

Deste-me as costas, Leonor concluiu friamente. Não posso viver com quem põe em causa a minha saúde e desconversa às minhas costas.

Voltou costas, saindo ao lado do irmão, sem um olhar para trás.

Rui ficou, agarrado ao ramo, sentindo na pele e no peito a dor do que perdeu.

***

E assim aprendeu que nenhuma relação sobrevive à traição fundamental do respeito. Amar é confiar e decidir juntos. O resto, só traz lágrimas.

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