Ouriço
Outra vez! Leonor leu a mensagem no grupo de WhatsApp do jardim de infância e atirou o telemóvel para o sofá ao seu lado.
Que foi, mãe? Olívia desviou o olhar do caderno e virou-se para Leonor.
É mais um concurso, filha! Não há paciência Para quê isto tudo, diz-me?! E o melhor: a entrega é depois de amanhã. E eu amanhã faço noite! Quando é que tenho tempo para isto?
Queres que faça eu, mãe? Olívia afastou o manual de Matemática. Já só me falta esta ficha. E a Álgebra, mas amanhã copio pela Mariana. Aquilo é uma trapalhada, não percebi nada. Pode ser que ela explique
Nada disso, ocupa-te das tuas coisas, minha rapariga. Já não chega?! O trimestre está a acabar e os testes à porta.
E o Rodrigo, então? Vai ficar todo triste outra vez. Lembras-te como ele chorou no último, quando todos receberam diplomas e a dele nem olharam? E foi ele que fez, sozinho
Por isso mesmo! Leonor franziu o sobrolho ainda mais. O grupo está cheio de Picassos e Bordalos! E claro, não são as criancinhas, são os pais. Achas que uma criança faz aquilo? Mas nem é isso que mais me chateia.
Então, o quê?
É aquele ar solene das educadoras a dizer que aquilo é tudo feito pelas crianças. Ai devias ver, Olívia! Nem todos os adultos faziam igual
E ninguém resmunga, mãe? Vão fazendo, e pronto? Como no meu primeiro ano, lembras-te, até uma mãe disse para acabarem com a brincadeira, ou então que as crianças fizessem tudo sozinhas.
Isso foi quando a vossa professora Inês disse que não queria brinquedos feitos pelos pais?
Isso mesmo! Olívia riu-se. Toda a gente ficou tão aliviada! E a professora Inês depois passou a exigir que fizéssemos tudo nós. A Nídia bem tentou levar o boneco que a mãe lhe fez em crochet… Mas, olha, foi apanhada!
Pois foi, por isso é que andei eu à procura de novelos por todo o prédio, já noite cerrada! Ainda bem que falas nisso.
A professora Inês pôs a Nídia a fazer um círculo, logo na aula, lembras-te? Claro que não saiu nada. Levou um carimbo a vermelho. Não lembras?
Já ficou perdido na névoa do tempo Oh filha, deviam era dar prémio aos pais, não aos filhos. Para não ficarmos todos com peso na consciência. Olívia arrumou as canetas e levantou-se. Queres que faça chá? E leio uma história ao Rodrigo?
Quero sim! Leonor levantou-se, deu-lhe um abraço e beijou-lhe o alto da cabeça. Cresceste tanto! Já não chego à tua cabeça sem me pôr em bicos dos pés. És igual ao teu pai
Não vamos falar disso, mãe. Olívia afastou-se ligeiramente.
Nem penso nisso! Vai lá fazer o chá, que eu vou fazer um ou dois telefonemas. Deste-me uma boa ideia, minha linda.
Leonor apertou-a mais uma vez, antes de a deixar ir.
Vai lá, anda.
Olhando para a postura direita da filha, Leonor pensou que os genes são coisa estranha Sempre foi uma loira arredondada e cheia de curvas; Rodrigo era um mini-clone seu, loirinho, tronchudo. Já Olívia parecia uma bailarina afinada, toda linhas longas, movimento e vida, pescoço comprido, pulsos finos. Era toda o pai e a avó paterna. A sogra tinha sido bailarina, não estrela, mas uns bons cisnes a dançar no lago já tinha feito. Da sogra herdara não só as costas perfeitas e uma resiliência grandes, mas felizmente não o feitio pegado. Olívia era diferente: tinha uma luz qualquer, uma bondade tão natural, que até abusavam. Ainda assim, nunca se deixou vencer. Sempre arranjava forma de ajudar alguém.
Lá em casa, nunca faltavam animais atropelados, que Olívia trazia religiosamente. Tratava deles e depois arranjava donos melhores.
No fim, só ficou mesmo a viver com eles o velho gato, um gigante que Olívia recolheu num dia de inverno. O frio estava tal que as escolas fecharam. Olívia ficou em casa com o Rodrigo, que estava doente e não foi ao jardim de infância. Depois de se despedir da mãe para o turno, Olívia foi ver que não havia nem uma cebola em casa. O mini-mercado era aqui ao lado, deixou ordem ao irmão para ver desenhos animados e não sair do lugar, e foi a correr buscar cebolas. Na volta, já à porta do prédio, escorregou perto das escadas e, de olhos lacrimejantes, deu com um animal enorme e preto, olhar de mel, a descer penitente até ao fundo da triste existência. O gato estava demais para suas forças, metade do pêlo colado, remendos de onde em onde, olhos lacrimejantes. Cara de já não querer saber do mundo.
Olívia, sem pensar, limpou as lágrimas da queda e sentou-se perto.
Estás com frio? Vens comigo?
Nada. Só mirou-a com aquele ar, a esconder as patas geladas.
Olívia tentou pegá-lo ao colo, mas logo desistiu pesava que se farta! Abriu, então, a porta e chamou:
Anda! Está muito frio. Em casa há leite.
O gato manteve o olhar de desilusão. Quem é que vai precisar de mim? estava escrito nos olhos. Fez-lhe tanta pena, que voltou e ficou ali, sentada às escadas, a tremer.
Não tenhas medo Anda, anda, fazes-me falta a mim!
O gato olhou-a durante uns bons minutos, ouviu a voz dela e, de súbito, encostou a cabeça enorme à mão da miúda, e levantou-se.
Aí está! Olívia brilhou, levantando-se também, a dor nas costas quase esquecida. Não tenhas medo do Rodrigo. Ele grita mas é meiguinho.
No dia seguinte, Leonor só revirou os olhos quando viu aquele trambolho despenteado.
Ó Olívia, duvido que aguente muito
Mãe, pelo menos está quentinho, não?
Não digo nada. Fica
Energia para protestar, Leonor tinha pouca. Sentia-se a vegetação duma aquário de gelatina espessa: tudo pastoso, pegajoso, difícil de fugir. Tudo, excepto os filhos. Eles é que a mantinham à tona.
O marido não saiu logo. Passou mais de ano a viver entre duas casas, a decidir qual delas o fazia mais feliz, como se fosse uma montra de montras. Leonor, já cansada de fingir alegria, aguentou, mas quando finalmente arranjou coragem, mudou-se para o quarto de Olívia. Olívia percebeu muito, para a sua idade.
Sabia até que tinha mais um irmão algures, um pouco mais novo do que Rodrigo, e a loira arranjada, modelo de passadeira, que passeava com o novo filho do ex-marido. Leonor viu-a uma vez, de longe no parque, a mesma a passear, o miúdo vestido com as últimas modas. Suspirou, pensando como as coisas tinham mudado já não havia domingos no Alentejo, nem férias a chutar ondas na Costa ou passeios à Serra da Estrela, tudo memórias
Nessa tarde, optou pelo caminho do parque, aquele antigo, e meia hora de folhas caídas e esquilos atrevidos deu-lhe mais ânimo do que todos os calmantes juntos. Quase se riu, ao assistir a um cão atarantado pela esquila atrevida, seguro por um homem alto, grisalho ia ser mais ou menos assim que o ex ficava ao envelhecer, elegante, formal… Mas ao lado dele ia estar outra mulher, nunca ela. Apertou o passo, e logo deu de caras com o ex a brincar com o filho mais novo dele.
E há momentos em que a vida escreve os seus próprios argumentos, mudando tudo de repente. Leonor viu-o, olhou, virou costas e, firme, saiu decidida sobre o que ia fazer.
Foi nesse serão que acondicionou as roupas dele e, sem discussões, só disse baixinho:
Vai embora.
Desta vez, ouviu. E se não tivesse ouvido, foi Olívia quem, no corredor, reforçou a ordem, suave mas decidida.
Após a porta fechar, Leonor sentou-se no chão do corredor, cansada, e Olívia alarmada:
Mãe, estás bem?
Põe antes a chaleira ao lume, apetece-me um chá
Os filhos reagiram de maneiras diferentes ao fim: Rodrigo, pequeno, bastava-lhe a mãe, pouco via do pai, que pouco por casa andava; Olívia, mais velha, ninguém lhe tirava o peso de cima passava as noites de olhos abertos, fitando sombras no teto, até o cansaço vencer. Tornou-se nervosa, chorona. Leonor levou-a à psicóloga, mas foi só depois de entrar o Gato o Kiko em casa, que as águas acalmaram.
Nomeado Kiko pelos miúdos, o gato virou quase conselheiro noturno de Leonor, que deixava deambular as angústias em monólogo sussurrado:
Porque sinto tanto medo, Kiko? A vida era família, e agora…
O gato nada, só ficava calado junto a ela, olhos de mel semicerrados, com aquele ar de quem sabe tudo.
Quando viu a filha recuperar, desconfiou logo que também Olívia tinha sessões de confidências felinas. E, em conversa de passagem:
Se pensares arranjar-lhe casa, poupa-te. Aqui fica.
Um ano depois, Kiko redondo, peludo, pelo sedoso como um tapete novo, já era parte oficial da família. Às amigas que perguntavam pela vida amorosa, Leonor respondia entre risos:
O melhor companheiro já cá está. Não resmunga, ouve com atenção, gosta dos miúdos, quase nunca pede comida e nem deixa meias espalhadas. E querem melhor?
Pensar em voltar a namorar? Nem pensar. Sentia-se uma boneca partida, dobradiças presas. Só os filhos lhe davam motivo para continuar.
Com Olívia, nem piu sobre concursos e manualidades. O jardim de infância foi só festas mal acabava uma, já andava a enfeitar o vestido para a outra. Laços, sapatos, fitas
Com Rodrigo já o caso era outro. Educadoras novas, comissão de pais cheia de ânimo. Ficava quase sem fôlego com tanta exigência criativa. O ex-marido, ao ser “despachado”, logo avisou: pensão de alimentos só por ordem do tribunal, até lá “desenrasca”. Leonor, ainda mais atenta às contas em euros, descobriu que a vida não era fácil. Em vez de pedir ajuda, queimou pestanas e arranjou segundo emprego. Horas para tudo nem vê-las, mas assim não precisava do favor de ninguém.
Montar um boneco ou fazer uma colagem não era nada, ao início. Olívia ajudava, Rodrigo queria provar que fazia tudo, até os pais se magoavam de orgulho. Mas, com o tempo, a coisa mudou: aos poucos, as obras do Rodrigo acabavam escondidas, nunca elogiadas. Leonor até foi chamada ao jardim, onde apanhou sermão público da educadora, a arder de vergonha e raiva. Ficou determinada: mais reuniões, nunca.
Caros pais, disse a educadora, o que está em causa são as nossas crianças! Quem não dedica meia hora a ajudar, que pais são esses? É uma oportunidade de partilha, contacto
Leonor já nem ouvia, só pensava em chegar a casa, tomar chá com os filhos e Kiko, ouvir o dia deles e esquecer as obrigações impostas.
Quando afinal o tal concurso voltou a ser anunciado e por mensagem, claro , Leonor perdeu a paciência. Chega! Se é concurso de crianças, então que sejam as crianças mesmo. Telefone aqui, telefone ali, conversou com meia dúzia de mães e um pai combinaram tudo num ápice. Excelente plano.
O evento foi ocasião para pô-lo em prática. Leonor foi para o jardim de infância com outra disposição. Se não resultar, paciência; mas não volta a deixar que a tratem a ela nem aos filhos como se não fossem importantes.
A obra do Rodrigo, um ouriço-todo-torto feito de castanhas e palitos, estava no cimo do móvel, eclipsada pelos monumentos dos pais-artistas. Leonor foi direta, empurrou as obras de arte para o lado e exibiu o ouriço dele em posição de destaque.
Dona Leonor, para quê isso? A educadora olhava, estupefacta. Agora, com todos os pais a chegar para a exposição
Só quero que a peça do Rodrigo, feita por ele, esteja à vista. Leonor endireitou a etiqueta, ajeitou os trabalhos na prateleira e voltou costas.
Viu de soslaio a educadora corar, mas não ousou retirar nada. Rodrigo, incrédulo, via o seu ouriço ganhar interesse público. A dada altura até o elogiaram, e ele cresceu cinco centímetros em orgulho.
A sala encheu-se de gente, barulho, gente a ajeitar fatos e cabelos. Lá foram todos para a sala de música.
Leonor piscou o olho ao pai da Bárbara, e foi atrás do filho. O grupo cá se desenrascava sem ela.
O espetáculo correu muito bem. Rodrigo leu um poema que Olívia o tinha ensinado, dançou com a Bárbara, mostrando dotes herdados da avó dançarina. Embalada no pensamento de inscrever o rapaz nas aulas de dança, foi chamada à realidade pela educadora, que ia anunciar os resultados do concurso. O tom do costume: diplomas e chocolates, pagos pela comissão de pais. Rodrigo, e mais uns quantos que tinham feito tudo sozinhos, nada.
Agora terminava a educadora, pronta a encerrar, quando Leonor ergueu-se e interrompeu.
Queria só dar a palavra, em nome dos pais, se for possível.
Parte dos pais sorriu, cúmplice. Outros, mãos no ar, sem perceber. Leonor, com uma pilha de diplomas e uma caixa entregue pela mãe da Lisa, avançou para o palco:
Antes de mais, muito obrigada às educadoras pelo entusiasmo e dedicação! Por nos desafiarem sempre! Obrigada! Ora, toda a gente, vamos lá!
A seguir foi um aplauso espontâneo.
Agora, queremos premiar os meninos e meninas que esforçaram, mesmo sem prémios! Todos trabalharam muito. Força, palmas!
Puxou da lista, distribuiu diplomas e os mesmos chocolates aos esquecidos. Riso, troca de olhares, crianças contentes.
E, claro, faltam ainda premiar os pais que brilharam nos concursos!
E foi um festival distribuir grandes chupa-chupas, diplomas honorários a todos os pais e mães artistas. A comissão de pais nem queria acreditar.
No final, ouviu-se burburinho, o concílio chocado com a exposição revigorada. Uma segunda prateleira, posta ali durante o espetáculo, só com trabalhos feitos mesmo pelos miúdos, com um cartaz desenhado pela Olívia: EU SOZINHO!
No regresso, Leonor agarrou Rodrigo pela mão, roupa trocada a correr, e voaram para casa, onde Olívia esperava com novidades.
Mãe?
O que foi, campeão? Leonor olhou para o filho, agarrado ao diploma.
Se me deram diploma, quer dizer que o meu ouriço ficou mesmo bom?
Claro! Ouviste, não ouviste? O melhor de todos, porque foste tu a fazer! Nem a Olívia mexeu desta vez.
Mas ficou meio torto.
E então? É teu.
Foram uns metros calados, Rodrigo a tentar acompanhar o passo longo da mãe.
Ó mãe, estás orgulhosa de mim?
Leonor travou, pôs-se ao nível dele, segurando-lhe o rosto:
Muito, Rodrigo! Orgulho-me da tua autonomia, por não pedires para te fazerem as coisas, por perceberes que agora tenho menos tempo e mesmo assim me ajudas. Sei bem que foste tu a lavar a loiça ontem, não a Olívia. Isso é ser um homem!
E o que é ser um homem?
Leonor pensou.
É saber resolver as próprias questões, mas não ter vergonha de pedir ajuda. É não pensar que há coisas de homem ou de mulher. É estar lá para os outros. Como com a loiça: enquanto lavavas, a Olívia estudava, e por isso tirou boa nota no teste. Deste-lhe tempo. E tempo é a coisa mais preciosa.
Como é que se usa o tempo, mãe?
Depois conto-te… Mas acho que hoje precisamos de festa, não achas?
Siiiiim!
Então, bolo?
Óbvio!
Na cozinha, chá de príncipe na mão, Leonor via-os a conversar, com Kiko aninhado no canto, e pensou: é tão simples fazer estas pessoas pequenas felizes Basta dizer-lhes que contam, que importam.
Depois, vai silenciar o telemóvel e escondê-lo na mala. No dia seguinte, sai do grupo do jardim de infância, e pede à mãe da Lisa para a manter a par, tipo resumo de notícias. E hão de rir depois, ao lembrar-se das caras dos pais-artistas a receberem os seus prémios.
Dois anos depois, Rodrigo entra para a Escola Naval, e o ouriço torto mantém-se ali, na prateleira da cozinha, ao lado do bonito bule de porcelana que Olívia traz de Lisboa, onde vai estudar.
E Leonor, a sós com Kiko, ao início sente-se perdida. Mas mais tarde, aparece-lhe alguém diferente: o senhor Henrique, mais baixo, redondinho, parecido com ela, que lhe dá tudo o que sonhou: serenidade, carinho, companheirismo. Vêm aí almoços na varanda com grelhados, tardes a cuidar de roseiras, regressos ao mar.
Mas o maior segredo: Henrique entende-se com os filhos, e Leonor percebe, surpresa, que amar filhos dos outros é possível e bonito. Olívia, nas férias, há de vê-los passear no jardim, de mãos dadas, e desejar igual para si: alguém para lhe dar a mão, por mais anos que tenha, saltitar folhas, alimentar esquilos, regressar a casa, preparar chá de príncipe, e em silêncio só estar.
Porque, às vezes, não é preciso dizer nada, se houver quem te ouça com o coração.







