A Nora

NORA

Ana Vieira pousa uma travessa com pato assado na mesa lindamente posta e suspira, enquanto aguarda que os filhos cheguem com as noras. O mais novo casou-se há pouco tempo, num casamento simples e discreto. Agora é assim que os jovens fazem, diz-se. Se fosse por ela, teria feito uma grande festa. Ela própria, quando casou com o marido, correram só ao registo, anéis de ouro comprar só um ano depois dois aros fininhos, nada de extravagâncias. Gostava de ter proporcionado uma verdadeira festa aos filhos, mas aceitaram o que decidiram.

Só tem um defeito, ali a miúda é tão arranjada, tão cuidadinha! confessa-se Ana Vieira em pensamento, mas já combinou falar disso com a nora.

A nora, Leonor, até é uma rapariga simpática e educada. Fez muito bem ao Gonçalo, o filho mais novo: conseguiu trabalho melhor e, pouco a pouco, foi guiando-o para se desenvolver. Até aos trinta anos, Gonçalo vivia sem preocupações, não dava valor a nada. Ana já se inquietava, mas tudo mudou para melhor, felizmente.

Só que Leonor é demasiado tratada. Vai ao cabeleireiro, faz massagens, manicura. Gasta muito dinheiro em cuidados de beleza. E acha mesmo que uma mulher casada, com família, não devia pensar tanto nestes luxos. E quando vierem os filhos? Vai gastar num spa em vez de sapatos para o miúdo? Ana nunca foi assim sempre deixou as suas vontades para trás, especialmente depois do falecimento do marido, quando mesmo com os filhos adultos teve de dar apoio financeiro.

É interrompida do seu raciocínio pela campainha. Chegaram os jovens. Leonor entra na sala quase como quem desfila numa passerelle. Cabelo acabado de arranjar, unhas impecáveis e, no rosto, quase nada de maquilhagem a obra de uma boa esteticista.

Ai, Leonor, estás tão bonita! elogia a sogra, genuinamente, mas não esconde um ligeiro tom de desagrado. Esse fato é novo?
Comprei ontem, sim, responde Leonor, sorridente. Recebi um prémio na empresa.
Essas coisas é para poupar, filha. Guarde as prendas do trabalho, subsídio de Natal, rendimentos extra… Nunca se sabe, por vezes fazem falta, acredita, aconselha Ana, partilhando a sua experiência.
Leonor não responde. Gostava da sogra, uma mulher simples e dedicada à família, mas pensava para si que o tal “dia mau” só chega mesmo quando passamos a vida a guardá-lo.

A noite decorre num tom agradável, embora Ana não resista a trazer à conversa, de forma tímida, o tema dos gastos desnecessários. Leonor percebeu logo quem era o alvo.

E quando foi a última vez que foi fazer as unhas, Dona Ana? pergunta Leonor, não resistindo.
Eu? Oh, nunca! Faço em casa o que posso, só para as mãos ficarem limpas, não preciso de mais, responde, a puxar pela tradição.

Ninguém dá muita atenção ao pequeno diálogo, mas a Leonor, como mulher, dá pena. Criar dois filhos que agora têm rendimentos bons e não se dar ao luxo de gastar uns euros consigo!

No caminho para casa, Leonor pergunta ao marido:
Gonçalo, a tua mãe nunca faz nada só para ela?
Não sei, cozinha, faz bolos, vê televisão, vai ao café com as vizinhas. Porquê?
Acho triste nunca ter ido ao teatro, ao cinema, jantar fora nunca se deu esse direito…
Ora, isso ela não quer, não inventes.

Leonor compara mentalmente com a mãe dela, que mesmo contando os tostões encontrava maneira de comprar um corte de cabelo novo ou um vestido. E claro, tinha sempre um bilhete anual do teatro municipal.

Decide agir. Dias depois, liga a Ana e convida para um passeio um café, e quem sabe, uma passagem rápida no salão de beleza, onde ela quer ir e convida a sogra a experimentar algum tratamento, ao seu gosto.

Oh Leonor, não sejas tonta, se precisares, espero à porta ou no café! recusa-se, já aflita, Ana Vieira.
Ficar à espera para quê? Aproveite ao menos um mimo, um massagem às mãos e manicure?

Depois de alguma insistência, Ana lá aceita. Leonor telefonou antes ao salão, explicou às funcionárias a situação:
Meninas, hoje a minha sogra precisa de ser mimada! Qualquer dúvida, digam que está tudo pago. Se perguntarem preços, digam que não há problema, é oferta. Se ela gostar, ganham uma nova cliente!

No dia, Leonor leva a contragosto a sogra ao salão. Ana pergunta vezes sem conta:
Só meia horita, sim? E quanto é que se gasta aqui?

Quando Ana é levada pelas funcionárias, Leonor senta-se no átrio, resolve uns emails no telemóvel. Não tinha marcado nada para si naquele dia.

Duas horas depois, Ana sai transformada com ar rejuvenescido e relaxado. As raparigas do salão trataram de tudo.
Ai Leonor, que bem que me trataram! Trouxeram chá, café, conversámos tanto… Mas isto deve ser caro demais…
Hoje há uma campanha especial! intervém a rececionista, pronta. Se vier com uma amiga, as duas só pagam metade. Hoje, não paga nada!

Saem as duas, felizes, e vão até à cafetaria da esquina. Ana bebe o cappuccino e, de sorriso nos lábios, recosta-se confortavelmente.
E se começássemos a fazer destes programas entre mulheres, de vez em quando? Eles têm sempre descontos para clientes habituais. Gostou?
Gostei muito, admite Ana. Não sabia que era tão bom…
Devia ter experimentado antes!
Antes… não dava. Os filhos pequenos, o marido Deus o tenha em descanso sempre foi de poupar, nunca elogiava gastos. Depois, ficou hábito.
Mas agora tem motivos! Para me fazer companhia! E olhe, despacha-se comigo de vez em quando…
Eu vou, vá, mas só se for consigo!

A partir daí, Ana começou a ir com a nora cuidar-se. Diplomata como sempre, Leonor ia modernizando discretamente o guarda-roupa da sogra, dizendo que as peças custavam bem menos do que realmente custavam.

Acabou por convencer Gonçalo a levar a mãe ao restaurante, depois ao cinema com o resto da família. No Natal, Leonor ofereceu a Ana Vieira uma assinatura anual de teatro.

Estás tão diferente, mais nova até! comentam as vizinhas.
Ah, é a juventude, filha! Eles puxam por mim! responde Ana, humilde mas contente.

E sente, no fundo, que agora, já na reforma, mãe de dois homens adultos, é quando está a começar finalmente a sua verdadeira juventude.

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