Traí a memória do pai.
Leonor Simões caminhava vagarosamente entre os prédios já há mais de uma hora, ainda que da sua casa até à padaria fossem apenas cinco minutos a pé. Porém, aquela noite caía-lhe especialmente pesada no peito. Não lhe apetecia regressar ao apartamento, onde a esperava apenas um bule de chá frio, o chão por lavar há semanas e o gordo gato Sebastião, que nos últimos anos se tornara o seu único confidente, a par da televisão, que mantinha ligada desde cedo até se deitar, só para ouvir vozes humanas a disfarçarem o vazio.
Os pés doíam-lhe, o joelho rangia, o tempo estava cinzento e húmido, mas Leonor, mesmo assim, desviou pelo parque infantil, onde já todos os baloiços estavam molhados, e sentou-se na ponta de um banco resguardado debaixo de um pequeno telheiro enferrujado. Enterrou as mãos no bolso do velho casaco de lã que usava há uns sete anos comprar outro não se justificava.
Outrora, em tempos do marido o António , a vida era outra. Movimentada, cheia de vozes e risos, por vezes demasiado cheia naquele T2 onde cresciam dois filhos: o mais velho, Ricardo, e a caçula, Matilde. Agora, ambos tinham voado do ninho, António partira há quinze anos e, de repente, Leonor percebeu que tudo aquilo que dera aos filhos se desfez na distância: Ricardo instalou-se com a família em Faro, Matilde casou-se com um engenheiro informático e vive ora em Braga, ora de viagem. Sobre a mãe lembravam-se quase só em épocas festivas, enviando mensagens de parabéns, mãe, beijinhos e partilhando fotografias dos netos, que pareciam crianças de outras galáxias: não vinham passar as férias de verão à casa da avó, tinham sempre campos de futebol, cursos de inglês ou viagens para a Galiza.
Leonor suspirou, olhando para uma gaivota gorda que picava o asfalto húmido à procura de migalhas. Pensara, em tempos, que os filhos seriam o seu amparo, que os netos a rodeariam na velhice, que a família seria presença constante. Mas a vida, em vez disso, tornara-se um eterno Dia da Marmota: acordar, ligar a televisão, alimentar o Sebastião, fazer papas ou ovos, mais televisão, almoçar, televisão, sair à tardinha para esticar as pernas, mais televisão, dormir.
Às vezes, dava-se conta de falar sozinha, discutindo com apresentadores ou refilando com notícias. Nesses momentos, o Sebastião olhava-a com o seu olhar amarelo, preguiçoso, balançando a cauda antes de se aninhar no cadeirão.
Aquela noite era especialmente sôfrega, por isso Leonor não se apressou a sair do banco, mesmo quando começou a chover miudinho. Encolheu-se mais dentro do casaco e puxou o gorro de lã até às sobrancelhas.
Leonor? Dona Leonor, é a senhora?
Ela sobressaltou-se e ergueu o olhar. Ao lado estava um homem alto, de postura curvada, vestido com um sobretudo castanho passado de moda e boina, de onde escapavam farrapos de cabelo grisalho. Reconheceu-o de imediato: era o senhor Gonçalo Pereira, vizinho do andar de cima, que também passeava sempre pelo bairro apoiado na bengala. Tropeçavam-se no elevador ou junto aos contentores e trocavam frases de circunstância sobre o tempo e só.
Senhor Gonçalo? admirou-se Leonor. Que faz à chuva? Ainda apanha uma pneumonia!
E a senhora? sorriu ele, sentando-se na outra ponta do banco, depois de estender um velho jornal para se proteger do molhado. Já a observo há duas horas. Vi-a chegar da janela e achei que logo ia voltar para casa, mas continuei a vê-la parada. Resolvi descer, não fosse estar a sentir-se mal.
Não estou, encolheu os ombros Leonor. Simplesmente não me apetece ir para casa. Ando em baixo, senhor Gonçalo. Uma tristeza enorme, daquelas que só apetece gritar.
Conheço bem isso, anuíu ele, sacando de um cantil do bolso interior. É aguardente, explicou, ao notar o olhar dela. Remédio santo para esta alma gelada de solidão. Aceita? Eu nem costumo beber, mas às vezes uns quarenta graus aquecem o peito.
Leonor ia recusar, mas pensou: Que tenho a perder?. Pegou no cantil, bebeu um gole pequeno, que lhe queimou a garganta mas trouxe um conforto inesperado.
Obrigada, disse, devolvendo o cantil. E o senhor, também vive sozinho? Julguei que tinha esposa.
Tinha, sim, suspirou Gonçalo. Há três anos que partiu. Os filhos andam por Lisboa, cada um na sua vida, vêm quando podem, ligam aos domingos. Enfim… E a senhora?
Os meus andam longe. Quase não telefonam. Fiquei viúva cedo. A vida voltou-se contra mim, parece.
Entendo, disse Gonçalo, meneando a cabeça. Somos dois na mesma barcaça: dois solitários.
Ficaram calados, ouvindo a chuva a tamborilar. Mas não era um silêncio desconfortável, era calmo, como se já tivessem dito tudo um ao outro noutra existência.
Sabe, Leonor, disse ele, subitamente envergonhado, já há muito que reparo em si. Tão discreta, elegante, sempre a passear sozinha. Pensei várias vezes em vir falar consigo, mas faltava-me coragem. Hoje, vê? O destino obrigou-me: ali sentada, estoica à chuva. Pensei que talvez fosse mesmo um sinal.
Leonor olhou-o surpreendida.
Reparava em mim? Para quê?
Não tenho mesmo mais que fazer, riu-se ele. Já me habituei a vê-la sempre ao fim da tarde no mesmo passeio. Quando não aparece, preocupo-me.
Imagine só… sorriu Leonor, e sentiu-se de súbito menos vazia. Alguém a notava, alguém a esperava.
Então, o que acha de passearmos juntos? propôs Gonçalo. A dois é menos aborrecido, e até mais seguro. Eu posso não parecer, mas se for preciso defendo-a.
Defender de quê? riu Leonor, pela primeira vez em muito tempo. Das gaivotas?
E não só, piscou ele. Então, trato feito?
Trato feito, assentiu ela.
A partir daquele momento, tudo mudou. Todos os fins de tarde se encontravam, salvo nos dias de temporal, e passeavam pelo parque logo atrás do prédio. Descobriu que Gonçalo fora engenheiro numa fábrica, passara a reforma a ler História, escrevia pequenas crónicas para o jornal local. Leonor, que fora contabilista, contava-lhe histórias dos filhos, das obras na antiga casa de campo construída com António que depois tiveram de vender porque os filhos não a queriam. Gonçalo ouvia-a com atenção, e ela retribuía interesse pelos seus relatos sobre política, futebol e épocas passadas de Lisboa.
As conversas estendiam-se pela noite. Leonor dava por si a sorrir ao chegar a casa. Agora, ao fim da tarde, preparava refeições não só para si: fazia bolos para Gonçalo, e até o Sebastião, atraído pelo cheiro fresco, tornara-se mais afável.
Um mês depois, Gonçalo ficou pela primeira vez a dormir. Tinham estado até tarde à conversa, ele reparou na hora, pasmado: já era quase uma da manhã. Leonor sugeriu:
Fique cá hoje. Tenho sofá-cama, posso preparar-lhe tudo.
Não incomodo? perguntou ele, esperançoso.
Claro que não, garantiu ela. O espaço chega para os dois.
E assim foi: primeiro uma vez por semana, depois duas, até que Gonçalo, sem grande cerimónia, trouxe os chinelos, a escova de dentes e finalmente uma mala com roupa. Leonor ouvia-o de manhã na cozinha, arrumando o pequeno-almoço, e o seu coração sentia-se leve. Raramente acendiam a televisão: preferiam conversar, contar memórias, ler jornais a dois. Sebastião, que de início bufava, depressa se resignou e passou a dormir aconchegado aos pés de Gonçalo.
Gonçalo, apetecia-me fazer caldo verde amanhã, sugeriu um dia Leonor, enquanto saboreavam chá com mel. Não faço muitas vezes só para mim, mas gosto tanto…
Combinado! Eu trato do chouriço, tu das couves.
Fizeram caldo verde lado a lado, partilhando gargalhadas, e Leonor mal acreditava naquela ventura inesperada na velhice.
No entanto, um pensamento ensombrava-a: os filhos. Não tinha coragem para lhes falar de Gonçalo. Sabia que Ricardo e Matilde idolatravam o pai, António era eterno para eles, e temia que vissem o novo companheiro como traição. Apesar dos quinze anos passados, a cada videochamada diziam: O pai isso aprovaria… O pai fazia assado assim….
Gonçalo, sensível, nunca forçava.
Leonor, esses assuntos hás-de decidir tu, dizia. Eu espero.
O tempo passou e aproximava-se o aniversário de Leonor. Foi então que os filhos avisaram: Mãe, vamos todos aí celebrar, com as famílias. Diz-nos o que precisas vamos viajar até Lisboa e ficamos três dias. Leonor ficou feliz, depois apavorada. Andava em círculos pelo corredor, inquieta.
Gonçalo, tenho de falar-te: vêm aí os meus filhos e netos. Uma inundação de gente. Fica melhor voltares a tua casa nestes dias, para eu falar com eles e só depois te apresento, pode ser?
Gonçalo manteve-se em silêncio um momento. E o que sou para ti, Leonor? Alguém que escondes dos filhos? Já vivemos juntos há meio ano e, à primeira, sou posto de lado?
Não me leves a mal, pediu ela. Só peço uns dias. Deixa-me preparar tudo.
Ele baixou o olhar: Como preferires. Mas não quero ser segredo.
Na manhã seguinte, Gonçalo foi para o seu apartamento. A casa de Leonor tornou-se imediatamente fria e vazia. Sebastião miava, deambulando pela casa à procura dele.
Os filhos chegaram cedo no sábado: Ricardo com a mulher Filipa e dois rapazes, Matilde com o marido Carlos e uma filha pequena. A casa encheu-se de algazarra e cheiros fortes de perfume e comida. Leonor tentava sorrir, mas o peito pesava-lhe.
Na noite da véspera do aniversário, depois de os netos adormecerem, Leonor chamou Ricardo e Matilde à cozinha. Tremente, preparou-se.
Filhos, tenho um assunto importante para vos contar.
Diga, mãe, disse Ricardo, directo. Vai tudo bem?
Vai, sim… Bom, eu conheci uma pessoa. O senhor Gonçalo Pereira, vizinho. Estamos juntos há imensos meses.
O silêncio caiu na cozinha. Ricardo largou a chávena. Matilde cruzou os braços, hirta.
Juntos? Que quer isso dizer? Vivem juntos? o tom era gelado.
Sim, filha. Eu tenho direito à minha felicidade.
Isso é afronta! explodiu Ricardo. Nesta casa, que o pai comprou, que foi o nosso mundo, trazes um estranho? Isso é trair a memória dele, mãe! Ele era tudo para nós, e tu agora com outro homem?
Estou a ouvir bem? atacou Matilde. Pensava que eras outra mulher, mãe. Dói-te a solidão? Compreendo. Mas não tinhas de nos consultar primeiro? Não podias esperar? Que vergonha darei ao Carlos e à minha filha?
E tu, Ricardo, não esqueças: sois adultos e eu também. Pertenço-me a mim, não a vós. Não faço mal a ninguém.
Aos sessenta e cinco, de namoro, mãe? Tens de pensar nos netos, não em aventuras! Ricardo quase gritava.
Gonçalo não é aventura nenhuma. É meu amigo, companheiro, faz-me bem.
Então escolhe, impôs Ricardo. Ou ele, ou nós. Mas não quero os meus filhos na casa da avó com um estranho. E não falo mais disto.
Concordo, rematou Matilde. Escolhe, mãe.
Leonor ficou só, chorando sobre a toalha nova posta para a visita dos filhos. Queria dizer-lhes que amava ambos, que Gonçalo era importante, mas as palavras morriam-lhe na garganta.
Na manhã seguinte, Ricardo e Matilde anunciaram que se iam embora. Deixaram presentes apressados no corredor, despediram-se friamente e desapareceram, levando os netos de volta ao Algarve e ao Minho.
Leonor passou o dia sentada a olhar o ecrã escuro da televisão. Sebastião ronronou-lhe ao colo, mas ela nem o sentiu.
Ao entardecer, ligou a Gonçalo: Não venhas mais, Gonçalo. Acabou-se. A voz saía-lhe pequena.
Leonor, o que aconteceu? Eles não aceitam?
Não aceitam. Se estiver contigo, perco os filhos.
Leonor… não deixes que te manipulem. Eles não podem ordenar a tua vida!
São meus filhos, Gonçalo. És uma pessoa boa, mas… Adeus.
Desligou e tomou-se de lágrimas.
Nos dois meses seguintes, voltou ao velho ritual. Ignorada pelos filhos, os telefonemas escasseavam. Só mensagens rápidas Como está, mãe?. Sebastião parecia perguntar-lhe, com olhar triste: E o Gonçalo?.
Numa tarde, encontrou a Dona Judite, do quarto andar, no elevador.
Leonor, então deixou de se ver aquele seu amigo? Fazia-lhe tão bem…
Acabou tudo, Dona Judite, confessou em voz baixa.
Não devia! Ele adoeceu. Vi-o outro dia, está magrinho, desanimado, só. Os filhos mal vêm.
O coração de Leonor gelou. Que estou eu a fazer? Para quê esperar por quem me esquece?
Entrou em casa, fitou o telefone longos minutos. Finalmente, discou o número de Gonçalo. Do outro lado, uma voz fraca:
Sim?
Gonçalo, sou eu. Como te sentes?
Leonor? Vens com licença dos teus filhos?
Não me fales deles. Viste logo que estava errada. Espera por mim já vou.
Vestiu o casaco, pegou nas compras e dirigiu-se ao prédio ao lado. Quase não o reconhecia, tão magro estava. Mas o sorriso de Gonçalo ao vê-la aqueceu-lhe o peito como um sol de primavera.
Abraçaram-se, e Leonor murmurou: Perdoa-me a estupidez. Perdoa-me ter preferido o medo ao amor. Já percebi que felicidade não se pede licença. Somos família um do outro, é contigo que quero estar.
Ele agarrou-lhe as mãos: Por favor, não voltes a ir embora.
Na manhã seguinte, Leonor ligou a Ricardo:
Ricardo, decidi. Vou viver com o Gonçalo. Vocês são meus filhos, mas não mando no vosso casamento, nem vocês no meu coração. Amo o vosso pai, mas tenho direito ao que me resta de vida. Se quiserem conviver, venham; se não, aceito. Mas não aceito chantagens. Amo-vos, mas escolho por mim a partir de agora.
Do outro lado, silêncio. Por fim, Ricardo murmurou: Estás a cometer um erro, mãe.
Talvez, mas é MEU.
Dias depois, Matilde enviou uma mensagem: Se isso te faz feliz, não me oponho. Visita a neta quando quiseres, mas não insistas em nos falar dele.
Leonor respirou, com a paz de quem finalmente escolheu. Sabia que a aceitação era parcial, mas sentia-se fiel a si mesma. Ao lado, Gonçalo mexia no Sebastião, que ronronava de olhos fechados, enfim sereno como ela.
Gonçalo, amanhã faço caldo verde outra vez. Já tenho couve.
Eu compro o chouriço, sorriu ele, com os olhos a brilhar.
A vida na velhice podia ser recomeço. Leonor aprendeu, enfim, que o respeito pelos outros é essencial, mas quando esse respeito se transforma em prisão, é preciso ouvir o que o coração clama porque a fidelidade maior é consigo próprio.







