Da Sombra à Luz.
Outra vez a ver esses programas de televisão parvos? O tom do Artur soou atrás de mim tão de repente que me assustei e quase deixei cair a chávena. Já te disse, isso só te faz mal à cabeça. Era melhor estares a arrumar a cozinha ou a pensar em ter filhos. Não tens nada que fazer, por isso ficas para aí a deprimir.
Não respondi. Apenas carreguei no botão do comando e a televisão apagou-se. No silêncio, ouvi as gargalhadas das crianças do prédio ao lado. Sentia um nó na garganta que mal me deixava respirar.
Estou a falar contigo, insistiu Artur Luís, enquanto tirava o casaco e o colocava cuidadosamente no encosto de uma cadeira. Os seus gestos sempre eram medidos, calculados. Até a zanga expressava sem levantar a voz. E agora, porque vinha tão calmo, sentia tudo pior. Estás a ouvir-me, ou não?
Ouço, respondi num murmúrio, ergui-me do sofá. Uma velha mania que aprendi em casa da dona Otília, a minha tia-avó: não sentar quando um mais velho está em pé. Não contrariar. Não defender.
Ainda bem. O jantar está feito?
Sim. Está o frango com legumes no forno, como gostas.
Ele assentiu e foi para a cozinha. Fiquei ali, no meio daquela sala grande e fria, apesar das obras de luxo e dos móveis caros. Olhei para a janela: do outro lado, o lusco-fusco de fevereiro cobria o bairro sossegado de Chelas, com poucos candeeiros a iluminar os pátios gelados. Vinte e oito anos, refleti. Metade da vida passada, e sinto que nunca vivi de verdade.
***
Os meus pais morreram quando tinha sete anos. Um acidente numa estrada escorregadia, morte imediata dos dois. Lembro-me de mim pequenina sentada no corredor do hospital, em choque, enquanto uma senhora me fazia festas na cabeça, dizendo: «Coitadinha da menina, coitadinha».
Depois apareceu a dona Otília, prima do meu pai, que eu tinha visto só duas ou três vezes em festas de família. Mulher de cinquenta anos, sempre com o cabelo puxado para trás e a boca fechada numa linha fina. Assumiu logo o comando.
A menina tem de ser bem encaminhada, dizia ela aos assistentes sociais, e eu ao lado sentia-me uma coisa de que tinham de cuidar. Lá deixá-la à solta ou pô-la num lar, é que não permito. Ainda é da nossa família.
A dona Otília tratou da papelada e mudou-se para o apartamento dos meus pais. Não tinha casa própria, vivia num quarto arrendado, trabalhava como contabilista numa repartição e não disfarçava o alívio com a promoção nas condições de vida.
Devias estar-me agradecida, repetia ela desde o primeiro dia. Dei cabo da minha vida por tua causa. Podia ter casado outra vez, organizado a minha vida, mas levei-te para o meu colo. Não te esqueças.
Nunca esqueci. Ficou-me na pele, nos ossos, cresceu dentro de mim. Fui sempre esforçada, discreta, nunca pedia nada. Tive sempre boas notas, ajudava nas lides da casa. Nem me lembro bem como era sentir amor sem condições. Os meus pais pareceram-me cada vez mais distantes e irreais: o colo da mãe, o riso do pai, calor, segurança. Tudo engolido por um interminável sumário de exigências da dona Otília.
Trouxeste negativa a Educação Física? Ingrata. Faço tudo por ti e retribuis assim.
Foste comprar pão? Não era este, disse-te que era para trazer broa! Não acertas uma.
A tua amiga veio cá? Conversas à toa e nem arrumas o quarto. Vais-te habituando à preguiça.
Aos dezasseis anos já não sabia o que era sentir-se amada simplesmente por existir.
Segui para o Instituto Politécnico, tirei o curso de educadora de infância. A dona Otília ficou satisfeita: assim não era peso morto, depressa começaria a trabalhar. Quando comecei a trabalhar numa creche local, entregava parte do ordenado à minha tutora para «as despesas». Ela achava natural.
Vais para onde sem mim? disse-me, quando já com vinte e três anos, arrisquei sugerir alugar um quarto só para mim. Tu não sabes fazer nada sozinha. Vais perder-te. E que agradecimento é esse a quem te criou?
Faltava-me «vergonha». Ou então tinha-a de mais. Fiquei.
***
Conheci o Artur Luís num jantar de aniversário de uma colega de trabalho. Ele tinha quarenta e sete, eu vinte e quatro. Homem alto, imponente, seguro, com relógio caro no pulso, destacava-se imediatamente entre os convidados. Era tio da aniversariante, foi só dar os parabéns.
És muito simpática disse-me ele quando nos cruzámos na cozinha. Tímida, discreta. Já não se encontram mulheres assim.
Fiquei sem saber como reagir. Ele sorriu, pediu-me o número. Dei-lho, espantando-me com a ousadia.
Começou a cortejar-me. Telefonava todos os dias, convidava-me para restaurantes (a maioria eu nem sonhava que existiam), oferecia flores. Dizia que estava cansado de mulheres feitas à moderna, que queria alguém simples, «de casa».
És como uma flor, precisa de ser cuidada, afirmou numa dessas noites, e senti um calor novo por dentro. Era a primeira vez na vida que alguém me queria proteger, em vez de eu pagar uma dívida interminável.
A dona Otília aprovou.
Finalmente fizeste alguma coisa de jeito, disse, fitando o Artur quando o conheceu. Homem decente, tem onde cair morto. Casando, ficas bem instalada. Que no trabalho de educadora não se faz fortuna.
Casámos depressa, seis meses depois. Artur insistia em não perder tempo. Fui morar para o T3 dele em Benfica, edifício novo.
Não precisas de trabalhar. Eu trato das finanças. Cuida é da casa e, daqui a pouco, temos um filho.
Aceitei. Achava que era como devia ser, aquilo era cuidado, dizia a mim próprio. O Artur, de facto, cuidava: escolhia a roupa que me comprava (afirmando que não tinha bom gosto), dava-me dinheiro exatamente para as compras e exigia contas até aos cêntimos, levava-me de carro aonde achava conveniente.
No início, andava num nevoeiro. A casa era bonita, mas fria. Cozinha equipada, televisores topo de gama, sofás de pele. Mas nada meu, nada acolhedor. Tentei animar o espaço: almofadas coloridas, flores na janela. Artur desagradou-se.
Temos um estilo minimalista. Não quero tralha.
Tirei tudo.
Depois, vieram os reparos. Primeiro discretos.
Pões sempre sal a mais na sopa.
Esse vestido não te favorece. Usa outro.
Outra vez a não fechar a pasta de dentes? Quantas vezes tenho de repetir?
Foram crescendo. Todos os dias uma picardia, um defeito. Eu tentava corrigir, mas nunca chegava.
Queres irritar-me de propósito? dizia ele, depois de eu fazer algo «errado». Estou-te a ensinar como se faz, mas continuas a desobedecer. Teimosa, pouco inteligente. Ao menos és bonita, porque senão nem valias isto.
Engolia insultos, calava, sentia-me culpada. Era familiar. Fora sempre culpado perante a dona Otília, agora era-o perante o marido.
Um ano passou, e começou a pressão para ter filhos.
Já foste ao médico? Será de ti?
Eu fui. Diziam-me que estava tudo normal, só faltava tempo. Ele franzia o sobrolho, dizia-me que devia ser de propósito.
Egoísta. Só pensas em ti.
Eu nem em mim pensava. Passavam-se os dias numa rotina de cozinhar, arrumar, lavar, tentar agradar. Artur chegava tarde, comia calado, via a SIC Notícias, ia dormir. Fins-de-semana, ou estava em negócios, ou ia pescar com amigos. Eu não ia.
Não tens nada que fazer lá. Fica em casa.
Ficava, via crianças a brincar no jardim, punha séries na televisão, mas desligava antes dele chegar. Ele detestava «perda de tempo».
***
Num verão, ao fazer compras no Pingo Doce, reparei numa mulher alta de cabelo curto e t-shirt colorida a olhar para mim.
Rita? Rita Coelho? És tu?!
Demorei a reconhecer: era a Vera, colega de secundária até ao 9.º ano. Tinha ido viver para o Porto e ali estava, de volta.
Vera! Olá, sorri, atrapalhado. Que fazes aqui?
Voltei há pouco, os meus pais regressaram, e eu ando a trabalhar à distância. E tu, tudo bem? Casada? Filhos?
Casada, sim, filhos não.
Então temos de combinar um café! Olha o meu número.
Ela ditou, anotei, sentindo dentro de mim um nervosismo estranho. Que diria ao Artur? Não gostava que eu tivesse «vidas paralelas». Mas a Vera era amiga. Ou fora. Combo café e pronto.
Naquela noite, depois de ele adormecer, fiquei a olhar para o número no telemóvel. Medo e desejo em luta. No dia seguinte, tomei coragem e escrevi-lhe. Ela respondeu de imediato, marcámos no centro numa esplanada. Disse-lhe que ia ao centro de saúde ele assentiu, nem questionou.
***
Encontrámo-nos num café junto ao jardim da Estrela. Vera já estava, mexia num portátil. Assim que cheguei, levantou-se para me abraçar.
Que bom ver-te! Senta, já pedi dois galões.
Falava sobretudo ela: da vida, do curso em informática no IST, de como passou a freelancer, do mundo do teletrabalho para clientes em Portugal, no Brasil Falava com entusiasmo, e eu ouvia, uma inveja doce a instalar-se em mim. Inveja de liberdade.
E tu, o que fazes?
Fico em casa. O meu marido prefere.
E tu? Queres trabalhar?
Fiquei pensativo. Queria? Nunca me perguntei.
Não sei, admiti.
Ela olhou-me com atenção.
Olha, queres que te ensine uma coisa fácil para ganhar uns trocos por conta própria? Edição de fotografias para sites, faz-se em casa, algum dinheiro entra. Preciso de ajuda passo-te trabalho. Queres tentar?
Não percebo nada disso, assumi, com medo.
Eu ensino. Não é difícil. Só precisares de vontade.
Vontade tinha. Senti cá dentro um impulso novo.
Não tenho computador, disse.
O teu marido não tem?
Tem, um portátil.
Usa-o quando ele não está. Eu envio-te programas e mostro como se faz. Experimenta. Se não gostares, deixas.
Hesitei, mas acabei por aceitar. Um borbulhar de expectativa, inédito, crescia em mim.
***
Dois dias depois estava a instalar no portátil do Artur os programas que a Vera me enviou, de mãos a tremer. Ele só voltaria às sete, tinha quatro horas. Vi tutoriais, tentei, apaguei, recomeçei. Intrigante.
Ao fim da tarde limpava sempre o histórico, fechava programas, voltava o computador ao mesmo sítio. Fazia o jantar. Mas alguma coisa cá dentro já era só minha, e isso reconfortava.
Ao fim de um mês já fazia pequenas tarefas: apagar fundos de fotos, acertar cores, redimensionar. Não pagavam muito, mas para mim era uma fortuna, dinheiro só meu, que a Vera me dava em mão, para esconder.
Guarda com cuidado, aconselhava. Vais precisar. Nunca se sabe.
Guardei as primeiras notas dentro de um livro antigo do meu pai, ao lado da única foto que restava deles.
Mais trabalho chegou, gradualmente. Aprendi a fazer colagens, pequenas montagens. Recebia elogios. Senti um calor estranho: elogios sinceros, gratuitos.
O Artur nunca deu por nada. Eu dizia sempre, quando perguntava pelo meu dia: «Arrumei, cozinhei». Ele assentia, satisfeito. Só que os meus pensamentos já viviam entre ficheiros e encomendas.
***
Passou-se um ano. Eu fiz vinte e sete. A pressão para ter filhos aumentava, a irritação também.
Devias ir a outro médico. Ou assumir de uma vez que não queres filhos.
Quero, dizia, e não era inteiramente mentira. Mas pensar em trazer um filho para aquela vida enchia-me de pavor.
Então não entendo. Dou-te tudo e tu nem um filho consegues dar-me. Inútil.
A palavra magoava como punhal. Eu calava-me, cerrava os punhos. Antes chorava, agora só sentia dor e cansaço.
Depois dessas discussões, mergulhava nos trabalhos ao computador. Isso trazia-me paz: ali era competente.
O dinheiro ia crescendo. A Vera arranjou contas em plataformas internacionais. Já trabalhava sem medo, três ou quatro horas diárias. Os clientes elogiaram. Eu, devagar, ganhava confiança.
Quando Artur se deitou cedo por causa de dores de cabeça, contei as poupanças: tinha quase dois mil euros guardados. Isso dava para uns meses de renda, até arranjar emprego formal.
A ideia de sair de casa apareceu e assustou-me. Onde ia eu? Quem me queria? Ele não era mau, dizia a mim próprio só duro às vezes. Seriam todos os maridos assim? E seria culpa minha? Mas a ideia não desaparecia, crescia como erva daninha.
***
No inverno, aconteceu o pior. O Artur chegou mais cedo, e não fechei o portátil a tempo. Entrou e viu-me.
Que fazes? Voz de gelo.
Eu só saltei, fechei o portátil, coração aos saltos.
Mexes nas minhas coisas? Dei-te permissão?
Não
Então porquê? Achas que podes fazer o que quiseres nesta casa?
Desculpa, não volta a acontecer.
Que andas tu a fazer? abriu o portátil, viu as abas dos trabalhos freelance.
Leu, fixou-me o olhar.
Estás a trabalhar às minhas costas?
Só queria ajudar ganhar uns trocos.
Ajudar-me? Achas que preciso? Não sou capaz de sustentar a família?
Não era isso
Cale-te, murmurou. Voltaste a estragar tudo. Dei-te o necessário, e tu enrolas-te nisto em vez de engravidares, como deve ser.
Fechou o portátil e levou-o dali.
Acabaram-se as liberdades. Amanhã quero relatório de tudo o que fazes.
Saiu, levando o computador. Fiquei ali, sentindo-me preso numa armadilha. As lágrimas caíram enfim, caí no chão, abraçado aos joelhos.
Não dormi nessa noite. Pensei: não podia continuar, sufocava. Recordei todos os programas sobre relações tóxicas que via às escondidas. Era aquilo.
Quando ele saiu para o trabalho, peguei no telefone e liguei à Vera.
Preciso da tua ajuda, disse.
***
Encontrámo-nos naquele mesmo café. Contei tudo: o computador, o controlo, o medo. Ela ouviu, pegou-me na mão.
Tens de sair. Não é vida isto. Vais acabar destruído.
E vou para onde? Não tenho nada.
Tens. O dinheiro que guardaste, cabeça, trabalho. Posso arranjar um colchão onde ficas temporariamente comigo, se precisares e buscamos um quarto barato. Aconselho que vás a um psicólogo. Vais precisar, a sério.
E se ele tiver razão? E se eu for mesmo a culpada?
Escuta-te. Estás a ecoar o que ele te fez crer. És capaz. Por isso aprendeste tanto em pouco tempo. És útil, valente. Só tens é de acreditar.
Não disse nada. Só me notei respirar melhor, como se tivesse emergido do fundo do mar.
Ainda tremia de medo.
Vai ser pior ficar, acredita, rematou ela.
Durante uma hora planeámos tudo. Alguma roupa, documentos, a fotografia e o livro escondido. Arranjou-me quartos em Lisboa a bom preço. Mostrou como levantar todo o dinheiro. Até dicas de psicóloga me deu.
***
Saí de casa uma semana depois. Ele viajou em trabalho. Apanhei roupa suficiente, papelada, a foto e o livro com as notas. Escrevi um bilhete: «Vou embora. Não me procures. Desculpa».
A mão tremia ao fechar a porta. Saí. Era fevereiro, frio, o chão gelado. Parei na rua, respirei fundo. O ar ardia, mas senti-me leve.
A Vera esperava-me à entrada. Ajudou-me com as malas. O apartamento dela era pequeno em Santa Apolónia, mas parecia-me um palácio. Fez-me chá.
E então? perguntou-me.
Tenho medo. Mas sinto que fiz o certo.
Os primeiros dias foram difíceis. O Artur ligou e mandou mensagens primeiro raivosas («Ingrata! Dei-te tudo! Vais arrepender-te!»), depois suplicantes («Volta, prometo mudar!»). Não respondi, mas magoava. A Vera bloqueou-lhe o número, eu troquei de cartão. Deixou de haver contacto.
Duas semanas depois, aluguei um quarto pequeno em casa de uma senhora reformada. Dez metros quadrados mas só meus, pela primeira vez.
A Vera arranjou-me um portátil usado.
Agora sim, trabalha com calma.
E trabalhei. Já não era às escondidas. Organizava a vida à minha maneira. Comprava o que queria, cozinhava como gostava, via televisão pela noite dentro sem medo de críticas.
Mas cá dentro havia vazio, medo, culpa.
***
A dona Otília soube do meu afastamento por ele tentou ligar-me logo.
Estás perdida da cabeça? Largar um homem daqueles? Ele dava-te tudo, e tu ingrata! Criei-te e agora envergonhas-me!
Ouvi-a, sentindo o peso dos anos a esmagar-me.
Não volto, disse eu, pela primeira vez com firmeza. Nem para ele, nem para ti.
Que descaramento! Fui eu que te salvei!
Fez-se disso, sim. Ficou com a casa dos meus pais, toda a vida viveu de me lembrar do que lhe devia. Mas não devo nada. Acabou.
Desliguei com a mão a tremer, mas uma leveza nova dentro do peito. Nunca mais ligou.
***
A Vera insistiu que procurasse uma psicóloga.
Deixas isto por resolver e vais arrastá-lo para sempre.
Fui com receio. A psicóloga chamava-se Helena, e a primeira sessão foi estranha. Ela ouvia. Esperava.
Não percebo o que faço aqui. Saí de casa, deixei tudo para trás. A minha vida até parece normal, mas sinto-me perdida.
Como se sente consigo mesmo?
Sinto culpa. Por tudo.
As palavras vieram. Contei da infância, dos «teus favores», do Artur, da sensação de existir apenas para agradar e nunca chegar. Ela ouviu, sem julgar.
Isso é violência emocional, sabe? Ensinaram-lhe a sentir-se dependente, culpada. Mas não é verdade. Não é inútil. É mentira. É abuso.
Fiquei a olhar para ela, boquiaberto.
Mas fiz tanta coisa mal
Não há o «mal». Há fazer as coisas à sua maneira. Só lhe disseram o contrário para controlar.
Essas palavras mudaram tudo. Saí de lá diferente.
Continuei a ir. Devagar, fui desemaranhando medos e culpa. Dava trabalho admitir que quem me devia proteger me usou. Duro perceber que vivi para servir os outros.
Helena desafiava-me a pôr limites: um simples «não posso». Comecei a tentar. Até recusei um pedido inocente da senhoria, sem me anular. Consegui.
***
Passou mais um ano, fiz vinte e oito. Voltou a aumentar o rendimento: arranjei uma microcasa só minha, decorei com cores e plantas. Tudo aquilo que nunca pude.
Via a Vera, conversávamos, ela celebrava comigo cada vitória. Ainda agradeço o dia em que voltou ao supermercado.
Do Artur não soube mais. Por vezes assaltava-me a dúvida, mas logo afugentava: passado é passado.
Da dona Otília, abstraí. Ponderava se devia reaver a casa, mas percebia: preferia deixá-la, como forma simbólica de me libertar desse «dívida».
Foi o melhor, reconheceu Helena. Deixou mesmo o passado para trás.
Sim. Para trás.
***
Comecei a viver de verdade. Ia ao cinema, passeava em Monsanto, conheci outros freelancers. Reaprendi a gostar de pequenas coisas: um café quente, uma novela, uma tarde de preguiça. Foi tão importante.
A terapia continuava. Fui aprendendo a aceitar sentimentos, a não me envergonhar. Aprendi a perdoar-me, a largar a culpa. O caminho era longo, mas era meu.
A independência financeira tem outro sabor: é liberdade. Liberdade de escolher, de dizer não, de ser fiel a mim.
***
Num dia de primavera, passei numa papelaria e vi um estojo de aguarelas caro, num expositor. Em miúdo adorava desenhar, mas disseram-me que era tolice. Comprei. Em casa, abri, sentei-me: desenhei um sol amarelo. Só para mim, porque me apeteceu.
Por fim, estava a ser quem sou.
***
Algum tempo depois, naquele gabinete da Helena, enquanto bebíamos chá, partilhei:
Sabe o que fiz ontem? Comprei tintas caras, só por capricho. E desenhei um círculo amarelo. O sol.
E sentiu o quê? perguntou ela, calma.
Medo de estar a gastar dinheiro à toa, mas depois alegria. Fiz algo meu, sem medo do que dizem.
Não é um passo enorme para si?
Sorri-lhe. Ainda havia sombra, mas o meu riso já tinha luz.
E deixei a casa à dona Otília. É a minha liberdade. Não lhe devia nada.
O que sente, agora?
E assim seguíamos, além do tempo, conversando na pausa tranquila entre a sombra e o sol.







