Fogão Impecavelmente Limpo

Fogão Imaculado

Leonor. Anda cá.

Não havia “por favor”. Não havia “quando puderes”. Apenas “anda cá”, como se chamasse um cão.

Encostei a esfregona à parede e entrei na cozinha. O Rui estava sentado à mesa, de olhos no telemóvel. Ao lado, no seu lugar habitual, sentada à janela, estava D. Laurinda. Bebia o seu chá calmamente enquanto o cheiro a couves cozidas se misturava com o aroma das dezenas de comprimidos que a minha sogra tomava desde manhã cedo até à noite.

Diz-me a mãe que não lavaste bem o fogão outra vez disse o Rui sem erguer os olhos do telemóvel.

Lavei ontem à noite.

Mal lavado.

D. Laurinda pousou a chávena no pires com um ligeiro tilintar.

Eu nunca me habituei a ver porcaria em minha casa disse ela num tom de constatação simples, como quem fala da chuva. Vinte anos a mandar sozinha nesta casa e nunca houve desleixo.

Eu tinha cinquenta e três anos. Permanecia na cozinha, de luvas de borracha e as mãos úmidas, a ouvir aquele discurso. Mais uma vez.

Mostra-me onde está sujo disse eu. Lavo já.

Pois, mostra-lhe interrompeu Rui. Ou não consegues ver? Ou preferes que te mostrem de joelhos?

Dizia sempre assim: baixo, sem gritos, mas de uma maneira que as palavras magoam mais do que qualquer berro.

Olhei para o fogão. Brilhava. Tinha-o limpado ontem à noite, depois do jantar, meia hora a esfregar gordura das bocas. O fogão estava limpo.

E ali, algo mudou em mim.

Não foi um rebentar. Não houve lágrimas. Apenas olhei para aquele fogão imaculado, depois para o Rui absorvido no telemóvel e para D. Laurinda com a sua chávena, e por dentro ficou tudo absolutamente calmo. Como a pausa silenciosa antes do que não tem volta.

Tirei as luvas. Pousei-as na mesa.

Ouço isto há vinte e oito anos disse eu. Chega.

Rui levantou os olhos. D. Laurinda ficou estática, a segurar a chávena.

O que é que disseste? perguntou o Rui.

Disse: chega.

Saí da cozinha. Entrei no quarto, abri o roupeiro e retirei um saco grande do supermercado. Fui dobrando algumas roupas nada de especial. Documentos, uns quantos suéteres, uma muda de roupa interior, o carregador do telemóvel. As mãos não tremiam e isso até me espantou. Senti uma serenidade estranha, como só têm aqueles que, por fim, decidem o que já amadurecia há anos.

Ouvi vozes na cozinha. Primeiro baixas, depois mais agitadas.

Rui, não ouves? Vai atrás dela!

Vai tu, se queres.

Abotoei o casaco, peguei no saco e fui ao corredor. Calcei-me. Abri a porta.

Leonor! gritou D. Laurinda da cozinha. Sabes o que estás a fazer? Onde é que vais? Não és ninguém sem ele! És ninguém!

Fechei a porta devagar, sem estardalhaço.

Nas escadas cheirava a areia de gato dos vizinhos do terceiro e a tinta fresca do primeiro. Desci e saí para a rua. Era outubro, frio e húmido, as folhas colavam-se ao alcatrão, brilhantes de chuva. Parei junto ao portão e tirei o telemóvel.

A Sílvia atendeu ao segundo toque.

Sílvia disse eu. Saí.

Pausa.

Saí de onde?

Da casa do Rui. Para sempre. Não tenho para onde ir.

Seguiram-se três segundos de silêncio. Depois, Sílvia respondeu:

Sabes a minha morada? Em vinte minutos estou em casa. Espera-me à porta, dou-te o código do prédio.

***

Sílvia vivia num T1 na rua das Flores. Pequeno, mas só dela, comprado com o que poupou quando era rececionista de hotel e punha de parte cada cêntimo. Estava repleto de estantes com livros, vasos com flores e uma parede da cozinha forrada de ímanes de várias cidades. O aroma, esse, era de café e qualquer coisa doce canela, talvez.

Sentei-me no sofá com uma chávena de chá quente nas mãos, com a Sílvia à minha frente, encolhida nas pernas, a olhar para mim, ouvindo sem me interromper.

Conta disse ela.

Não há muito para contar respondi. O mesmo de sempre. Fogão sujo. A sopa mal temperada. O chão mal lavado. Olham como se eu fosse… como se fosse uma máquina com defeito.

Mas sempre foi assim, Leonor. Porque é que agora saíste?

Pensei um pouco.

Hoje olhei para o fogão limpo e percebi: se não saísse agora, nunca mais sairia. Morria ali. Um dia deitava-me e já não me levantava, e iam dizer que me abandonei.

Sílvia acenou. Não disse nada. Apenas encheu-me de novo a chávena.

Nessa noite deitei-me no sofá dela, coberta por um cobertor quente, a escutar a verdadeira paz. Silêncio de verdade. Nada da televisão da sogra, nada da tosse de D. Laurinda através da parede, nada daquela urgência de estar sempre pronta para fazer mais alguma coisa.

Fiquei acordada até às três. Não por ansiedade, só porque não sabia o que era deitar-me e não ter obrigações.

Adormeci, por fim.

***

O telemóvel esteve em silêncio por dois dias. Ao terceiro, o Rui mandou mensagem: Quando voltas? Não escreveu “desculpa”. Não perguntou podemos conversar?. Só quando voltas?, como se eu fosse de viagem.

Li a mensagem e pus o telemóvel no bolso.

Fizeste bem disse Sílvia, que presenciou tudo. Não respondas. Que pense.

Ele não vai pensar. Nunca pensa. Ele sempre achou que eu ia voltar. Sempre.

E vais?

Olhei para a janela. No quintal chovia, outubro de céu cinzento, carros molhados, árvores nuas.

Não. Mas ainda não sei para onde vou.

As primeiras semanas foram estranhas. Não sabia o que fazer comigo própria. Acordava cedo, por hábito: sempre a precisar preparar o pequeno-almoço, arrumar, lavar, correr à farmácia para os comprimidos da Laurinda, ir ao supermercado, cozinhar outra vez, limpar de novo. O dia inteiro. E claro, sempre pouco e mal.

Agora, acordava e o dia estava vazio. Sem tarefas. E isso custava quase mais do que o excesso delas.

Sílvia disse um dia, enquanto ela saía para o emprego. Preciso de fazer alguma coisa. Vou enlouquecer.

Procura trabalho.

Trabalho no quê? Estive vinte e oito anos em casa.

Tu és artista.

Soltei uma gargalhada breve, sem alegria.

Era artista. Trabalhei dois anos numa editora depois do instituto, casei-me, e o Rui disse que não valia a pena, que ele ganhava bem. A mãe, claro, reforçou: mulher de respeito trata da casa, não anda aí pelos escritórios.

E aceitaste.

Aceitei, tinha vinte e cinco anos, achava que aquilo era amor, que gostar era querer cuidar.

Sílvia ficou uns momentos em silêncio, vestindo o casaco.

Olha, no meu armário há aguarelas que a minha sobrinha deixou. E papel. Leva, experimenta.

Para quê?

Porque ainda sabes. As mãos sabem.

***

Encontrei as tintas numa gaveta, embrulhadas no papel de jornal baratas, infantis, numa caixa de plástico com um esquilo desenhado. Papel para aguarela também havia, num bloco já começado. Levei tudo para a mesa da cozinha, sentei-me e fitei muito tempo a folha branca.

Por fim peguei no pincel.

Primeiro nada saía bem. A cor espalhava-se mal, a mão tremia, tudo fora de proporção. Rasguei três folhas. Depois sentia-me mais calma e comecei apenas a pôr cor na folha, sem plano, sem pensar. Só cor. Só forma.

Uma hora depois tinha uma folha pequena à frente: o pátio visto da janela da Sílvia. Árvores molhadas, céu cinzento com uma mancha cor-de-rosa no horizonte.

Olhei para aquilo e pensei: aqui está. Fui eu que fiz.

Não é sopa, nem fogão limpo. Isto.

Ao fim da tarde, a Sílvia entrou, viu o desenho na mesa e parou.

Leonor, foste tu?

Fui.

Está mesmo bonito. De verdade.

Nem está, está tudo torto.

Mas está vivo disse ela. Já vi cem pátios destes, mas este parece real, sente-se.

Nada respondi. Guardei o desenho.

***

Na casa do Rui, as coisas tomavam outro rumo.

Os primeiros dias ele esperou o meu regresso. Era óbvio: onde é que eu ia? Não sabia nada, não tinha dinheiro, nem casa, nem trabalho. Tinha de voltar, de certeza.

Não voltei.

Ao quarto dia percebeu que o frigorífico estava vazio. Só um pacote de leite. Fechou a porta e foi trabalhar em jejum.

À noite, D. Laurinda sentava-se na cozinha, a olhá-lo com aquele ar de quem sempre soube tudo, mas nunca disse.

Já comeste?

Não.

Também não. Trouxeste algo do supermercado?

Não tive tempo.

Portanto, nem comeste nem trouxeste nada disse ela. Setenta e oito anos de vida e nunca pensei chegar a isto, sem pão em casa.

Mãe, vá ao supermercado, então.

A pausa foi longa.

Eu tenho setenta e oito anos, Rui. Tenho os joelhos maus, tenho tensão alta, andando à bengala. Diz-me para ir eu.

Não tive tempo, estive a trabalhar.

E a Leonor, não trabalhava? Ela transpirava noite e dia nesta casa, e tu escorraçaste-a.

Rui ergueu a cabeça.

Eu? Ela é que foi embora!

Porque tu a enlouqueceste! O tom de Laurinda subiu. Sempre te disse: tem calma com as pessoas. Mas tu achas que sabes tudo melhor que ninguém.

Tu também passavas a vida a implicar com ela! Fogão sujo, sopa má, chão mal lavado!

Fazia observações! É meu direito, na minha casa!

Na minha casa, mãe! O apartamento é meu!

Olharam-se por fim, sem a barreira sem mim entre eles, a amortecer todos os embates.

Rui levantou-se, vestiu o casaco e saiu, batendo a porta.

D. Laurinda ficou sozinha na cozinha. Lá fora estava escuro. Levantou-se, ligou a luz, abriu o frigorífico. Viu o pacote de leite. Fechou.

Sentou-se de novo.

Tão silencioso ali como nunca foi enquanto eu lá vivi.

***

Em novembro o tempo arrefeceu e caiu o primeiro frio a sério. Ao fim de três semanas em casa da Sílvia, sentia-me a regressar a mim, como quem esteve muito tempo enclausurada e finalmente respira ar fresco. Ao princípio encandeia. Depois adapta-se.

Pintei todos os dias. Comprei tintas novas, de melhor qualidade. A Sílvia achou num anúncio de internet uma pequena oficina para alugar na Rua da Ribeira, perto do jardim: vinte metros quadrados, janela grande a norte, chão de madeira. Barato, porque sem obras, paredes a descascar.

Fui lá e soube: era ali.

Fica com ela? perguntou a dona, já idosa, de gorro de lã.

Fico.

Quase não tinha dinheiro. Vendi os brincos de ouro que os meus pais me ofereceram no casamento. Custou, pelas memórias, mas depois pensei: que memórias? Do quê?

A oficina tornou-se o meu refúgio. Ia de manhã, abria a janela e o ar gelado, cheio de cheiro a água e neve, enchia a sala. Cheirava a tintas, óleo de linho, madeira. Espalhava os frascos, desenrolava papel ou tela e começava a trabalhar. Horas a fio. Às vezes esquecia-me de comer.

Pintava de tudo: paisagens, pátios, naturezas mortas com o que havia por perto uma chávena, uma maçã, um sapato velho. Saía cada vez melhor. As mãos era verdade lembravam-se, só precisavam de tempo para recuperar após vinte e oito anos de silêncio.

Um dia, em dezembro, a Sílvia ligou-me para a oficina.

Leonor, no hotel querem organizar uma mostra de artistas locais. Pequena, no átrio. Falei de ti. Dás algumas obras?

Sílvia, eu não sou artista. Só agora recomecei.

És. Eu vi os teus trabalhos.

Só faço amadorismo.

Leonor, tu dizes isso há trinta anos. Chega. Dás as obras?

Está bem, dou.

***

Foi nessa exposição que conheci o António.

Calhou estar lá porque reservou um quarto e passava no átrio à hora certa, não por apreciar pintura. Alto, camisa aos quadrados, cabelos grisalhos, olhar calmo de um cinzento sereno. Ficou a ver um dos meus quadros: parque de inverno, banco, pegadas na neve indo e voltando.

Aproximei-me para endireitar a moldura, e ouvi-o a falar sozinho, baixinho:

Assim é a vida. Chegam, sentam-se, vão-se embora.

Fala das pegadas? perguntei.

Olhou à vontade, sem constrangimento.

Sim. Olho e imagino: dois vieram. Sentaram-se. Foram ambos embora. Será que foi bom, ou discutiram?

Achei que era só uma pessoa disse eu. Chegou, sentou, voltou para casa.

Sozinho nunca se anda em ziguezague assim comentou ele, sério. Veja como a pegada vai aos S. São dois.

Olhei para o quadro outra vez.

Talvez, tens razão concedi.

Continuámos à conversa mais uns vinte minutos. Descobri que viera de outra cidade, ajudar o irmão no arranjo da casa. O António era daqueles homens que sabe tudo: carpintaria, eletricidade, canalização. Era viúvo, com dois filhos já crescidos. Não falava muito, mas quando ouvia era com toda a atenção reparei bem nisso. Nunca interrompia. Não consultava o telemóvel. Olhava-me enquanto eu falava.

Tão pouco comum que nem sabia como agir.

A sair, perguntou:

Tem cartão de visita?

Não corriada. Nunca fiz.

Então o número de telefone, pode ser?

Dei-lho. Mais tarde pensei: para quê? Talvez queira comprar um quadro.

Três dias depois escreveu: “Boa noite. Sou o António, falámos das pegadas na neve. Queria comprar o quadro, se ainda não foi vendido.”

Não estava. Veio buscá-lo, embalou-o com cuidado, e perguntou se podia ver mais.

Fomos à oficina. Observou os quadros com pachorra e silêncio. Comprou mais dois.

Pinta muito bem disse.

Estive muito tempo sem pintar.

Porquê?

Encolhi os ombros. Não expliquei. Não naquela altura.

A vida.

Assentiu, aceitou o silêncio.

***

Rui telefonou em janeiro. Já há alguns meses que vivia entre a Sílvia e a oficina. Oficialmente ainda éramos casados, não tinha dado entrada nos papéis.

Ligou quando eu pintava um quadro grande de inverno ramos de pinheiro numa jarra de vidro, pinhas e uma vela.

Leonor?

Sim.

Então… estás bem?

Estou.

Silêncio.

A mãe está doente disse ele.

Lamento.

Não podias vir cá? Uma vez por semana, ajudar nas lides?

Pousei o pincel.

Rui, já não vivo aí. Não vou voltar para ajudar na casa.

Ainda és minha mulher.

Por agora. Mas é temporário.

Leonor, por favor. Volta. Vamos conversar.

Nós nunca conversámos, Rui. Vinte e oito anos. Conversavam tu e a tua mãe, eu ouvia e cumpria.

Estás a exagerar.

Talvez respondi calmamente. Mas não volto.

Desliguei. Mãos firmes. Espantou-me.

Depois pensei: por fora, a história parece simples: mulher deixa marido. História comum. Mas por dentro, era como reaprender a andar todos os dias.

***

A minha relação com o dinheiro era lenta. Nem sempre vendia quadros e, quando vendia, não era caro. Pediam-me, de vez em quando, cartões de Natal ou uma paisagem para oferecer. A Sílvia ajudou-me a criar uma página online. Devagarinho, apareceram pessoas a seguir, clientes pontuais.

Chegava-me para viver. Estúdio, comida, roupa essencial. Sem luxos, mas o suficiente.

Achei insólito sentir-me tão rica como ali.

O António passava sempre de duas em duas ou três em três semanas, a negócios com o irmão. Passava a oficina, tomávamos café na esplanada ou passeávamos nas ruas geladas e conversávamos. Falava dos filhos, de um neto a caminho. Eu falava dos quadros, da vontade de experimentar óleo, não só aguarela.

Nunca apressava. Nunca pressionava. Um dia percebi que ansiava pelas suas visitas. Quando ele não vinha, a oficina ficava mais silenciosa.

Sílvia disse-lhe um dia. O António… não sei.

O quê?

É demasiado bom. Assusta-me.

Porque é que o que é bom assusta?

Porque sempre aprendi que o bom esconde o mau a seguir.

A Sílvia olhou-me demoradamente.

Leonor, talvez nem toda a gente esconda.

Fiquei a pensar nisso durante dias.

Depois fui eu que lhe escrevi: “Não quer passar aqui um sábado? Comecei um trabalho novo grande, queria mostrar.”

Veio. Viu o quadro. Disse que estava bom. Fomos juntos tomar café e aí perguntou:

Leonor, não gostava de dar um passeio este fim de semana? Há um convento antigo, a uma hora. Dizem que no inverno é lindíssimo.

Respondi que gostava.

***

Sobre o apartamento na rua Sá da Bandeira, onde Rui e Laurinda ainda viviam, sabia por vezes da vizinha D. Josefina, uma senhora do quarto andar com quem conversava muito nas escadas.

Então, Leonor, estás bem? dizia ela. Olha, lá em casa deles nem te digo nada. Oiço-os aos berros, Laurinda a acusá-lo de não te ter retido, ele a retrucar. Ontem quase chamei a polícia.

Ouvia e sentia só uma tristeza distante, não satisfação nem qualquer sentimento de vitória. Assim é a vida.

Sem mim, o mal não era por saudades, era porque já não tinham quem apanhasse os tiros. Sempre dispararam num só sentido e, com ele ausente, acertavam um ao outro.

Em fevereiro, D. Josefina avisou que Laurinda foi internada, pressão alta, coração. Rui estava sozinho no hospital, carrancudo que nem trovão.

Deitei água no fervedor e pensei: deveria telefonar? Afinal de contas, vinte e oito anos. Afinal de contas, uma pessoa.

Depois pensei melhor: não. Não fazer o que é “dever”. A vida toda fiz o que era “dever”. Agora é ele que faça.

***

Chegou março com o cheiro da água derretida. Fui ao mercado ao sábado, com um saco de pano, procurando algo para o pequeno-almoço. Parei junto a um expositor de tomates, pensando que queria pintar aquele mercado de primavera cor, barulho, gente.

E vi o Rui.

Andava pelo mercado com um saco, de olhos colados ao telemóvel nem me viu. Estava envelhecido, ou talvez nunca o tivesse observado assim, de fora. Ombros caídos, casaco amarrotado, rosto cinzento.

Esperei pelo que sentiria. Medo? Raiva? Vontade de fugir?

Nada disso.

Rui levantou a cabeça, viu-me. Parou.

Ficámos a olhar-nos entre três bancas.

Leonor disse ele.

A voz de sempre, baixa. Mas havia qualquer coisa ali desorientação, talvez.

Rui respondi.

Aproximou-se. A vendedora fingiu muito interesse nas maçãs.

Como estás?

Bem.

Estás mais magra.

Talvez.

A mãe está no hospital. O coração.

Ouvi dizer. Lamento.

Calou-se. Passou o saco de uma mão para a outra.

Não voltas mesmo, pois não?

Olhei-o de frente. Serena. Sem ódio, sem pena. Só a olhar.

Não, Rui. Não volto.

Mas temos de viver…

Tu tens. Eu já estou a viver.

Não soube o que dizer. Peguei nos tomates, paguei e segui.

O coração batia certinho. A vitória era isso: o batimento regular. Não o ter saído, não o não voltar. O sentir-me sem medo, sem diminuir. Sem exigir de mim delicadeza, sem pedir desculpa por ser. Apenas conversar com um estranho. Quase.

Comprei mais alguma verdura, pão fresco, fui para casa. Casa, no sentido da oficina já era ali o meu “lar”.

***

Dei entrada no divórcio em abril. Tratei de tudo sozinha, sem advogados, preenchi papéis, assinei. Rui não se opôs. Vimo-nos uma vez no notário, assinámos, e pronto.

Não fiquei com a casa. O apartamento era dele. Não quis batalhar pelo que seria legítimo, demasiado pesado, demasiado desgastante. Sílvia dizia que devia, que podia ficar com parte. Eu abanava a cabeça.

Não quero aquela casa, Sílvia. Quero é continuar.

Mas precisas de dinheiro.

O dinheiro virá. Outros. Meus.

No verão, eu e o António já nos víamos toda a semana. Às vezes ia eu à terra dele, outras ele a esta. Ele tinha uma casa pequena num bairro sossegado, com um jardim onde cresciam groselhas e uma velha macieira. Fui lá pela primeira vez em maio, fiquei de pé a olhar.

Bonito disse.

A minha mulher é que plantou disse ele, tranquilo. Faz oito anos.

Ficámos juntos a olhar a árvore florida.

António, não tem medo? De voltar a…

A aproximar-me de alguém?

Isso mesmo.

Pensou alguns segundos.

Tenho respondeu honesto. Mas gosto de si. E medo não é razão para não viver.

Sorri. Surpreendida.

Que coisa sábia.

Eu só sei pregar pregos direitos.

***

No outono, um ano exacto depois de ter saído da casa na rua Sá da Bandeira com o saco na mão, estava sentada com o António na cozinha dele, tarde da noite. Arranjava um móvel da cozinha, eu desenhava no caderno e segurava uma chávena de café.

Havia calor. Silêncio. Cheirava a madeira e café.

Leonor disse ele, sem tirar os olhos do parafuso queres mudar-te?

Olhei para ele.

Para onde?

Para aqui. Para casa.

Fiquei uns instantes calada. Ele também, entretido com a gaveta.

Tenho o ateliê lá expliquei.

Aqui também há um quarto. Tem uma janela grande virada a nascente. Disse-te?

Disseste.

Então?

Olhei para o caderno. O esboço era da cozinha: um homem com uma chave de fendas, mulher com chávena, uma janela, o jardim.

Tenho de pensar.

Pensas.

Não me vais apressar?

Não.

Porquê?

Testou a gaveta. Fechou suavemente.

Porque tempo não me falta. E apressar uma mulher feita é estúpido.

Torci o esboço.

Então está bem.

Bem pensas ou bem mudas-te?

Bem mudo-me.

Assentiu com a cabeça. Sentou-se ao lado, pegou na sua chávena. Ficámos ali, no silêncio bom.

***

Seis meses passaram.

Vivia em casa do António, mas mantinha o ateliê da Rua da Ribeira. Ia lá três vezes por semana, pintava. O quarto com janela virada a nascente na casa dele era o meu segundo espaço: esboçava de manhã, enquanto ele ia trabalhar.

Vendia quadros um pouco mais frequentemente. Não era famosa, nunca seria. Mas tinha pessoas, os meus, que me procuravam e queriam as minhas obras. Não era grandioso, era meu.

Do Rui, ouvia às vezes pela D. Josefina. D. Laurinda, desde o hospital, quase não saía. Rui contratara uma empregada. Trabalhava, voltava para casa à noite. Vivia.

Ouvia estes relatos e pensava que, antigamente, aquele homem era tudo. O humor dele, o meu tempo; as palavras dele, as minhas regras. Visto de fora, “boa família”, por dentro uma prisão sem chave, a porta segura por mim, de dentro.

Agora, o céu era outro.

Um dia, numa terça-feira de dezembro, cheguei cedo ao ateliê. Acendi a luz, pus água a ferver. Caía neve lá fora, lenta e suave.

O telefone tocou. Sílvia.

Leonor, tudo bem? Estás a pintar?

Estou. Conta.

Olha, tenho uma novidade. Não sei como vais reagir.

Diz lá.

Conheço alguém que trabalha numa galeria no centro. Estão à procura de artistas para a exposição de primavera. Uma galeria pequena mas séria. Viram os teus quadros online e querem falar contigo. Vou-te dar o número.

Anotei lentamente.

Sílvia, acho que querem artistas a sério. Não tenho nome, nem currículo.

Leonor, estiveste cinco anos sem pintar. Depois recomeçaste. Agora já tens mais de cem quadros. Isso é pouco?

Bem…

Liga. Só fala com eles.

Ligo.

Desliguei, olhei o número. Espreitei para fora: neve, os pátios já brancos, limpos, como uma folha nova.

Deitei-me a pintar. Depois ligo. Primeiro preciso agarrar esta neve enquanto dura.

***

Ao fim do dia, o António veio buscar-me ao ateliê. Bateu à porta, entrou e ficou a ver-me a pintar.

Pronta?

Mais cinco minutos.

Sentou-se num banco encostado à parede. Não pressionava. Olhava-me pintar do modo atento de quem estima aquilo que vê.

Passados cinco minutos limpei os pincéis, fechei a caixa.

Pronto.

Está muito bom apontou para a tela.

Não sei… a neve é difícil de pintar. Parece branca mas é azul, cinza, cor-de-rosa. Nunca só branca.

Interessante disse ele a sério. Nunca pensaria.

Pois, olhamos e não vemos.

Saímos. Lá fora estava frio e quieto. A neve parara; o ar era tão puro que apetecia encher os pulmões.

António disse, enquanto andávamos telefonaram-me da galeria. Falaram numa exposição.

E então?

Não sei se vou.

Queres?

Pensei.

Quero. Mas assusta-me.

O quê?

Disserem “não serve” ou “não presta”. Que eu não sou artista. Que é pouco sério.

O António caminhava com as mãos nos bolsos, de olhos em frente.

Leonor disse ele sabes que não há nada de assustador?

Como assim?

O mais assustador já passou. Viveste onde diziam que não eras ninguém. Todos os dias. Vinte e oito anos. E saíste com um só saco. Isso sim, foi difícil. A galeria se disserem não, não faz mal.

Parei.

És mesmo direto.

Tento ser.

Sorri. Ele também sorriu, apenas um pouco a luz dos candeeiros tocava-lhe o rosto.

Vamos, que está frio.

Fomos andando, a neve a estalar sob os sapatos. Os candeeiros refletidos nas poças finas de gelo. As luzes do nosso destino mais à frente.

António.

Sim?

Obrigada.

Pelo quê?

Por nunca dizeres tens de nem deves.

Pensou um pouco.

Cada um sabe o que tem de fazer respondeu. Só se deve lembrar, de vez em quando.

Chegámos a casa. Abriu-me a porta, entrei primeiro. No vestíbulo cheirava a madeira e a maçãs ele guardava-as na cave desde o outono.

Entrei, descalcei-me, fui à cozinha e acendi a luz.

Tudo estava igual: mesa de madeira, duas cadeiras, janela para o jardim. O meu caderno continuava sobre o parapeito.

Abri-o, vi o esboço de ontem: cozinha, homem com a chave de fendas, mulher com chávena, janela, jardim.

Agora só faltava desenhar a neve.

Peguei no lápis.

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