Notificação Surpresa

Notificação ao acaso

O telemóvel repousava, de ecrã virado para baixo, na mesa de cabeceira, como sempre. Filipa não tencionava pegá-lo. Só estendeu a mão para o copo de água, roçou distraidamente no plástico liso, e o ecrã iluminou-se por vontade própria, ao acaso, como só brilham às vezes as coisas que era melhor permanecerem no escuro.

Viu uma linha só. Apenas uma, no balão do WhatsApp.

Também tenho saudades. Hoje foi tão bom. Tua Síl.

Filipa não percebeu logo. Ficou a olhar para aquelas palavras um segundo, dois, três, como se estivessem noutro idioma e fosse preciso tempo para as traduzir. Depois olhou para o marido a dormir. Ricardo, de lado, voltado para a parede, ombro ligeiramente levantado, respirava fundo e ritmado, como quem tem a memória limpa.

Tua Síl.

Sílvia. Sílvia Duarte. A amiga. Aquela que há três meses ajudou a escolher o papel de parede para o quarto do bebé. Aquela que bebeu chá nesta cozinha pela centésima vez. Aquela que na semana passada ligou a Filipa a queixar-se de não encontrar um homem decente, que estavam todos iguais, que já não aguentava estar sozinha.

Filipa agarrou no copo d’água com cuidado. Bebeu. Repôs no sítio. Saiu da cama sem fazer ruído, tábua nenhuma gemeu. Passou à sala, deixou a porta do quarto semiaberta, seguiu até à cozinha, acendeu só a luz pequena do exaustor, não a principal luz a mais, incomodava os olhos, embora talvez não fosse da luz.

Sentou-se à mesa, de frente para o tampo vazio.

Lá fora, noite de outono, comum, os candeeiros baços do outro lado da rua desenhados como manchas num sonho. O chaleiro ainda com água de ontem. Nem se deu ao trabalho de ligar. Apenas ficou ali.

Hoje foi tão bom.

Hoje quando? Numa quarta-feira em que Ricardo chegou às sete e meia, depois de jantar com clientes num restaurante, a dizer que só queria dormir de tão cansado. Filipa aquecera-lhe a sopa, que ele mal tocou. Depois viram um pouco de televisão, ele adormeceu no sofá, ela própria lhe pôs a manta, pelas próprias mãos.

Apertou os dedos na borda fria da mesa.

O Luís dormia no quarto ao lado. Oito anos, sono pesado, às vezes fala a dormir, algo engraçado sobre carrinhos ou a escola. Amanhã tinha de o levar ao treino às nove. Comprar pão. Ligar à mãe, que não ligava há dias e que devia estar magoada.

A vida rotineira, pequena, conhecida, estava ali, em todos aqueles gestos. Mas por baixo, afinal, habitava outra, escondida. Paralela. Com jantares e mensagens e mulheres que terminam com tua.

Filipa pôs-se de pé, foi à janela. No parapeito, o vaso com gerânios não gostava, mas regava com teimosia porque a vizinha lhos tinha dado. Os gerânios teimosos, vivos, um pouco poeirentos.

Pensou neles durante um tempo sem razão. Depois voltou à mesa.

Era preciso decidir qualquer coisa. Ou talvez não decidir já nada. Não sabia o que era correcto. Por dentro, tudo estava calmo, daquela calma que antecede as tempestades. Não era choro nem grito apenas um silêncio cortante.

Ficou na cozinha até às quatro da manhã, sem fazer nada. Viu as luzes apagarem-se nas casas do outro lado da rua, uma, depois outra. Só depois colocou o chaleiro ao lume. Fez chá, não o acabou. Lavou a chávena. Voltou ao quarto. Deitou-se ao lado de Ricardo, sem lhe tocar, a olhar o tecto.

Ricardo dormia.

Ouvia-lhe a respiração e pensava que, até ontem, era apenas som de noite como o frigorífico, como o trânsito distante. Agora cada inspiração era diferente, ouvia-a de verdade pela primeira vez em anos. Era insuportável.

De manhã levantou-se primeiro. Acordou o Luís, fez-lhe as papas ele implicou, queria pão com fiambre. Acabou por lhe preparar o pão. Atou-lhe os atacadores das sapatilhas porque ainda não tinha lesto suficiente e o tempo era pouco. Segurou-lhe a mão e saíram juntos.

Fazia frio na rua, cheiro de folhas molhadas e asfalto húmido. Luís, ao lado, contava do teste de matemática: que a professora tinha sido injusta, que ele acertou tudo, mas que ela disse que não. Filipa ouvia, respondia, tecnicamente certo nos sítios certos. Tantos anos de experiência no automático.

Chegaram a tempo do treino. Entregou Luís ao treinador, ficou à porta do ginásio a vê-lo juntar-se aos outros, a rir, a empurrar, um miúdo como os outros. Depois saiu.

No banco à entrada tirou o telemóvel. Abriu os contactos, leu Sílvia D., fixou o nome. Voltou a guardá-lo.

Agora não.

Ainda não.

Naqueles primeiros dias pensou muito em quando tudo aquilo começara. Ordenava os meses passados como quem revê fotografias velhas, à procura do pormenor nunca reparado. Lá estavam no aniversário da Sílvia em Maio, os três Ricardo a rir das graças dela. Filipa ainda se lembra de pensar que era bom o marido gostar da amiga. Encontros de sábado, a escolha de cortinados, Ricardo e Sílvia na cozinha a conversar sobre design enquanto Filipa adormecia o filho. Perguntou depois ao marido sobre o que falavam ele disse sobre o escritório, só trabalho, fazia sentido, ela anuiu.

Claro. Fazia sentido.

Não chorou. Surpreendeu-se. Esperou pelas lágrimas, vieram só secura e um peso fundo nas costelas, como se algo denso ali estivesse. Comia, dormia, cozinhava, respondia ao telefone. Ricardo nem percebeu nada atento como sempre, nem mais nem menos. Perguntava pelo dia. Às vezes beijava-lhe a face antes de sair. Ela oferecia o rosto.

Ao quarto dia, Sílvia ligou.

O telefone vibrou, mostrou o nome, e por um instante o peito prendeu-se. Depois expirou, atendeu com voz calma.

Olá, Síl.

Filipa! Onde te meteste? Escrevi-te segunda-feira, nem respondeste.

A voz igual, familiar, quente, com aquele toque de culpa de quem quer pedir desculpa por ter magoado. Talvez esse calor fosse o pior de tudo.

Desculpa, andei às voltas. O Luís ficou constipado mentiu Filipa, com facilidade que a espantou.

Ai, coitado. Febre?

Nada de grave, só ranho. Já está melhor.

Boa, assustaste-me. Olha, queria perguntar se no sábado estão livres? Estava a pensar sairmos, juntarmo-nos como antes.

Filipa olhou a parede vazia. Na parede, uma fotografia deles há seis anos, praia, ainda sem Luís. Ambos riam, cabelos ao vento. Boa foto.

Sábado não dá, acho eu disse. Mas ligo-te mais perto do fim da semana, está bem?

Claro. Como estás tu? Pareces cansada

Só cansaço, tudo bem.

Se precisares de mim, sabes que estou aqui.

Sei, Síl. Obrigada. Até logo.

Desligou. Levantou-se. Caminhou até à foto na parede. Ficou a olhar para o antigo sorriso. Tirou a fotografia do prego e guardou-a na gaveta.

Essa noite chorou no banho. Devagar, com a água a correr, até os olhos incharem. Não chorou por perder um homem ou por ele não ser quem imaginava. Chorou por outra coisa: pelos anos, pela confiança, por si mesma a acreditar sem reservas. Pela parvoíce de acreditar. Pelo facto de Luís crescer numa casa onde o pai mentia e ele não sabia, ou descobriria tarde demais.

Passou água fria no rosto. Olhou-se ao espelho. Trinta e oito anos. Nem nova nem velha. Cara comum marcada de choro. Amanhã teria de aparentar normalidade no trabalho.

E pensou mais: não podia simplesmente deixar passar. Não podia fingir que eles continuariam e ela, e Luís, seriam figurantes no fundo. Não podia.

Regressou ao quarto. Ricardo dormia. Deitou-se.

Tinha de pensar.

As semanas seguintes viveram-se assim, em duas camadas. Por fora, tudo igual: cozinhar, trabalhar, levar Luís ao treino, falar com Ricardo, às vezes rir das suas piadas. Por dentro, uma observação tranquila, metódica. Não contratou ninguém apenas via. Via agora como ele agarrava no telemóvel e saía da sala. Como sorria para o ecrã, depois notava o olhar dela e escondia o telefone. Como, à quarta-feira, havia sempre cliente e jantar e o jantar dele ficava intocado.

Um dia, com ele no banho, pegou no telemóvel. Sabia o código o ano de nascimento de Luís. Abriu o WhatsApp. Leu com rapidez, só para medir. Começara em Julho. Três meses. Enquanto pintavam as paredes do quarto do filho, enquanto ele subia ao segundo ano, enquanto ela foi visitar a mãe sozinha porque Ricardo tinha “trabalho”.

Pousou o telefone. Foi à cozinha. Acendeu o fogão. Dedicou-se a cortar cebola em cubos perfeitos.

Ricardo saiu do banho, envolto na toalha, espreitou à cozinha.

Ah, sopa? Óptimo, estou cheio de fome.

Daqui a meia hora está, disse.

Voz neutra, a cebola certinha. Tudo no compasso.

Nessa noite decidiu: teria de haver jantar. Não para vingar-se não era esse o pensamento. Queria vê-los juntos na sua casa, à sua mesa, para dizer tudo. Sem dramas, nem gritaria. Sabia, há muito, que gritar só servia para eles poderem chamar-lhe descontrolada depois, enquanto seguiam com as suas vidas.

Ligou à Sílvia numa sexta.

Síl, sobre sábado lembraste de sugerir?

Lembro, claro! Então vai acontecer?

Pensei que viesses cá. Faço um jantar decente, já não estamos juntos há muito. Ricardo também vai estar.

Curta pausa. Segundos, talvez menos.

Óptimo. A que horas?

Sete. Vens?

Vou, queres que leve algo?

Não, não é preciso.

Desligou. Foi ter com Ricardo, que via televisão.

Convidei a Sílvia para sábado. Fazemos um jantar decente, já não estamos todos juntos há demasiado tempo.

Ricardo virou-se. Passou-lhe algo pelo rosto, rápido, fugaz.

Está bem, disse. Boa ideia.

Também acho, respondeu, indo para a cozinha.

Imaginava-os logo a enviarem mensagem um ao outro, a combinarem estratégias, simulações de normalidade. Não a assombrava. Luís passaria o sábado com a avó combinado de véspera. Seria um jantar sóbrio.

Durante a semana pensou no menu decidir isso era importante, não para impressionar, mas para manter as mãos ocupadas. Optou por frango assado com batatas e alecrim, salada de rúcula e pêra sempre preferida de Sílvia e tarte de maçã, que fazia impecavelmente. Que tudo estivesse bonito.

No sábado deixou Luís na mãe às duas. Como sempre, a mãe investigou-lhe o rosto cansado, perguntou se estava tudo bem. Filipa disse que sim, apenas noites mal dormidas. Beijou o filho, que já não queria saber dela: televisão o esperava.

A casa, vazia. Ricardo tinha saído de manhã, regressou às três carregado de sacos. Trouxe vinho caro, ela reparou.

Para logo, não te importas?

Boa escolha.

Estava tenso, percebia-se: gestos rápidos, duas vezes pegou no telemóvel junto ao frigorífico. Depois sentou-se fingindo ler o jornal.

Filipa cozinhava. Lavou o frango, esfregou especiarias, cortou batatas, preparou o molho da salada. O cheiro do alecrim e alho entranhou-se pelo espaço. Foi abrir a janela: entrou ar húmido, cheiro a outono.

Às seis, pôs a mesa. Três pratos, três copos. Não acendeu velas seria demais, quase cruel. Só uma mesa limpa, toalha engomada, flores que comprara ontem.

Às sete em ponto, campainha.

Sílvia chegou num casaco novo azul-escuro, bem arranjada. O perfume leve, reconhecível. Trouxe uma caixa de bombons bonitos, apesar do não tragas nada.

Está sempre tão bonito na tua casa, elogiou, tirando o casaco. Cheira lindamente.

Vem, senta-te, fiz o melhor que pude.

Ricardo apareceu. Beijos de cumprimento. Tudo encenado com perfeição.

Sentaram-se.

Meia hora de conversa banal: Sílvia sobre um novo projecto, escritório chique, clientes estranhos, puxadores de ouro. Ricardo gracejava sobre seus próprios clientes. Filipa ouvia e sorria, enchia os copos.

A noite caíra mesmo lá fora. Acendeu a luz da mesa. O aconchego tornou tudo mais cortante.

Esperou pelo segundo copo de vinho Sílvia a servir-se de salada. Disse então, calma, sem rodeios:

Quero dizer-vos algo. Ouçam ambos, por favor.

Olharam-na. Sílvia de garfo na mão, Ricardo com o copo suspenso.

Sei de vocês. Desde julho. Li as mensagens, Ricardo. Sei quanto basta.

Silêncio. O tic-tac do relógio na cozinha.

Ricardo abriu a boca primeiro, voz diminuída:

Filipa…

Espera. Não vou gritar. Só quero que o saibam aqui, juntos , porque achavam que eu não sabia. Mas sei. É só isso.

Olhou para Sílvia. Ela fixava a toalha. Bochechas coradas, dedos crispados no garfo.

Síl, estiveste aqui em casa tantas, tantas vezes. Sabias tudo de nós. Foste tu a esperar por mim na maternidade quando nasceu o Luís, lembras-te? Isto não é para te envergonhar, é para que saibas que não esqueci. Lembro-me de tudo.

Sílvia finalmente levantou os olhos. Brilhavam.

Filipa, eu…

Agora não, disse muito baixo. Agora não.

Voltou-se para Ricardo.

Doze anos juntos, Ricardo. Não vou agora analisar os detalhes, nem quando decidiste que podias fazê-lo. Hoje só queria sentar-vos à minha mesa e dizer isto. Porque achavam que eu não sabia. Mas sei. Essa é a diferença.

Ricardo pousou o copo, com extremo cuidado.

Filipa, é mais complicado do que pensas. Precisamos falar

Eu sei. Falaremos. Mas não hoje.

Levantou-se, bebeu o resto do vinho. Pousou o copo.

Hoje acabem de comer o frango, ficou bom. Depois podem sair, os dois. O Luís está na avó, dorme lá, tenho coisas a fazer.

Ninguém se mexeu.

Ricardo olhava com um ar indecifrável. Não era culpa, não. Talvez surpresa, como quem esperava gritaria e agora não sabe que fazer ao silêncio.

Sílvia murmurou, já sem disfarçar a voz trémula:

Filipa, desculpa-me.

Olhou para o rosto dela, tão familiar, a maquilhagem ligeiramente borrada, o perfume, aquele que ela própria recomendara.

Não sei, Síl. Talvez um dia. Agora não.

Saiu. Fechou-se no quarto. Sentou-se na cama. Ouviu-los a mexer cadeiras, depois a porta da rua um estalido, depois outro.

Ficou silêncio.

Sentou-se e escutou. A casa cheirava a frango assado com alecrim, e vagamente a perfume. Ficaram três pratos na mesa, um quase intocado.

Não sabe quanto tempo passou. Voltou à cozinha, arrumou tudo. Enrolou o frango num papel de alumínio, guardou no frigorífico. Lavou os pratos. Varreu as migalhas.

Depois sentou-se de novo, no meio da cozinha limpa.

Era só isto, pensou. Doze anos e a melhor amiga reduziam-se a isto: uma mesa limpa e cheiro a detergente.

Ligou à mãe.

Mãe, o Luís pode ficar aí até domingo?

Claro, já dorme. Filipa, aconteceu alguma coisa?

Sim. Depois conto-te. Agora não.

Vem cá, ainda estou acordada.

Não, mãe. Fico aqui. Preciso.

A mãe não insistiu: sabia adivinhar silêncios.

Ao menos já comeste?

Comi. Fiz um frango bom hoje.

Ainda bem disse a mãe. E esse ainda bem cortou-a como nada a noite toda.

Filipa desligou e chorou. Na cozinha, sem cobrir, sem água a disfarçar. Chorou com tudo, até não restar nada. Depois assoou-se, lavou o rosto na bica.

Fora, Lisboa, luzes, novembro, sábado igual a qualquer outro. Talvez agora Ricardo e Sílvia estivessem juntos numa esquina ou dentro de um carro. O que diziam, já não lhe interessava: era estranho, sentia-se livre desse peso.

Não pensou no depois. Era suficiente não ter quebrado hoje, não ter gritado, dito qualquer coisa desnecessária. Disse só o que precisava dizer.

Ricardo regressou à uma da manhã.

Ela ficou quieta na sombra, na cama, ouvindo-o entrar, descalçar-se, espreitar à cozinha, beber água. Parou à porta do quarto. Esperou.

Depois abriu devagar.

Não dormes, afirmou.

Não.

Veio sentar-se à beira da cama, do seu lado. Ficou calado.

Filipa, não sei por onde começar.

Então, não comeces hoje. Deita-te. Amanhã falamos.

Não queres…

Ricardo, é de noite. Deita-te.

Ele deitou-se. Ficaram de costas, sem se tocarem, como completos estranhos partilhando tecto por acaso ou rotina.

De manhã, Filipa levantou-se cedo. Enquanto Ricardo dormia, arrumou uma mala pequena. Não sair de casa ainda não , só o essencial. Documentos, cartão multibanco, algumas roupas, a fotografia de Luís que tinha na mesa de cabeceira.

Pôs a mala junto à porta.

Depois fez café. Esperou enquanto Ricardo acordava.

Viu a mala.

Vais sair?

Vou para casa da mãe. Fico com o Luís. Temos de conversar, Ricardo, mas primeiro preciso de estar sozinha. Umas dias.

Ele olhou, olhou para ela.

Quero explicar

Estou a ouvir.

Ficou calado. Ela bebeu café, fixando o olhar nele.

Não percebo como aconteceu. Não planeava

Ninguém planeia, Ricardo. Não funciona assim.

Queres divórcio?

A palavra ficou entre eles. Ela susteve o olhar.

Ainda não sei. Preciso de tempo. Mas sei que não posso ficar aqui e fingir normalidade. Compreendes?

Ele assentiu, pesadamente.

E o Luís?

O Luís vai ficar bem. Isto é entre nós, não tem de sofrer. Eu trato disso.

Acabou o café. Arrumou a caneca. Pegou na mala.

Ligo-te.

E saiu.

Nas escadas, o frio, cheiro a torradas vindas de longe. Foi descendo, contando degraus. Doze patamares, sexto andar, sabia de cor, mas contou como de novo.

Saiu para a rua.

O ar húmido, folhas coladas ao alcatrão. Um homem de colete laranja varria tudo para o canto. O céu cinzento, típico de Novembro. Mas Filipa respirou aquele ar e sentiu-se, por um instante, mais leve. Só pelo respirar, por estar ali, de pé sem se esconder.

Pensou em Luís: que ia acordar na casa da avó, pedir panquecas, consegui-las, ficar contente. Que não saberia de nada, e ainda bem. Oito anos. Que tivesse panquecas, futebol e uma professora injusta com notas. O resto, ela inventaria.

Não sabia como seria o futuro. Se haveria divórcio, se conseguiria ultrapassar. Não sabia se algum dia perdoaria Sílvia. Isso parecia mais difícil que Ricardo com maridos, percebe-se, acontece, as pessoas desiludem, partem. Mas com uma amiga, aquela a quem contaste tudo isso era outra coisa. Precisava digerir, e não sabia quanto tempo ia demorar.

Mas por agora, ali estava na rua, mala na mão, manhã cinzenta, e em dois quarteirões estava o filho com panquecas à espera, e ela desceu o degrau, começou a andar.

Simplesmente andou.

A mãe recebeu-a sem perguntas. Abriu a porta, viu a mala, o rosto; percebeu tudo e disse só:

Vai lavar a cara, ponho o chá.

Luís apareceu, despenteado e de meias calçadas em metades.

Mãe! Porque vieste? Disseste que não vinhas!

Tinha saudades respondeu, abraçando-o forte, nariz no cabelo de miúdo, cheiro a champô e sono.

Fazes cócegas, riu ele, escapando-se para os desenhos animados.

Ficou a olhar para ele a ir.

Sentou-se na cozinha com a mãe já às voltas com as chávenas. Pequena, com cortinados floridos que nunca quis mudar, frigorífico cheio de ímanes, incluindo um torto, feito pelo Luís no infantário. Tudo tão familiar que quase chorou de novo.

Contve-se.

Mãe pôs-lhe o chá, sentou à frente.

Vais contar?

Vou. Daqui a pouco. Deixa ficar assim primeiro.

É o Ricardo?

É.

Mãe acenou. Não disse nada. Ficaram as duas, de chá nas mãos. Atrás da porta, Luis ria-se para os bonecos.

Posso ficar cá um tempo?

O quanto precisares. O quarto é teu.

Isso bastava.

Depois começou uma vida sem nome. Não era provisória, não era nova, só uma vida qualquer, dia após dia.

Filipa e Ricardo conversaram, mais do que uma vez. Conversas brutas, sem gritos manteve a promessa de não gritar, apesar de custar. Ele explicou tudo e nada: que não entendia, que era pelo Luís, que não sabia o que era certo.

Ela escutou, respondeu. Não perdoou, não renegou.

O divórcio arrastou-se devagar, como as decisões importantes. Papéis, advogado, conversas sobre casa, quem ficava com Luís. Tudo desgastante. Sobreviveu.

Sílvia não ligou durante semanas. Depois mandou uma mensagem simples: Estou aqui, se precisares. Filipa leu, não respondeu. Não por punição, mas porque não sabia como reagir. Tempo precisava de tempo que ainda não tinha.

Um dia, fim de novembro, foi buscar o Luís ao treino. Caía o primeiro nevão do ano, tímido, derretia antes de tocar no chão. Luís saiu do pavilhão, de cara virada ao céu, apanhando flocos na boca.

Olha, neve! Mãe, vê!

Filipa levantou os olhos. Os flocos flutuavam à luz da rua, vindos do nada ou para lá, impossível saber. Um pousou-lhe na face, derreteu-se logo.

Estou a ver, sorriu.

Podemos fazer um boneco de neve?

Quando nevar a sério. Por agora, isto não chega.

Ó mãe

Anda, que se faz tarde.

Ele pegou-lhe na mão, na luva de lã vermelha que ela lhe oferecera semanas antes. Foram juntos pela rua, a neve iluminada pelos candeeiros, Luís a falar de bonecos e colegas a fazerem bonecos maiores do que eles próprios.

Andando, de mão dada.

Dói ainda, claro. Não passa depressa doze anos não acabam num novembro. Mas com a dor crescia algo novo, sem nome ainda talvez uma liberdade. Uma mão que se segura sozinha, decide onde ir.

Não sabia se era o correcto ou melhor, sabia. Só não sabia se ficaria mais leve. Uma coisa é certa, outra, diferente, aprendeu agora, aos trinta e oito, sob o frio da primeira neve.

Na semana seguinte, viu anúncio de um apartamento para arrendar ali perto. T2, quarto andar, vista para o jardim. Donos reformados, simpáticos, práticos. Visitou, ficou a escutar o silêncio nas divisões. A cozinha pequena, mas soalheira. O quarto dele via as árvores.

Fica com ele? perguntou o senhor.

Fico.

Mudar levou um dia. Vizinhos de infância ajudaram. Ricardo trouxe as caixas do Luís, pousou-as no hall, olhou à volta.

É bom, disse.

É.

À porta, ainda hesitou:

Filipa. Desculpa-me mesmo.

Ela olhou-o, cansado, comum, mais velho. Um estranho íntimo.

Obrigada. Vai, Ricardo.

Ele foi.

Fechou a porta, encostou-se, respirou. Depois foi desfazer caixas.

Luís correu logo a ver o novo quarto, animado com as árvores à janela, declarou que queria deitar-se no parapeito para ver gatos lá em baixo. Filipa avisou que era pequeno, ele garantiu que era pequeno o bastante. Riram ambos.

Riu de surpresa, sem barreiras, como se algo tivesse destrancado por dentro. Luís olhou-a, curioso.

O que foi, mãe?

Nada. Vamos jantar, comprei rissóis.

Rissóis! e saltou para a cozinha.

Ligou a luz da bancada, pôs água para ferver. Procurou sal. A cozinha cheirava a casa nova e paredes velhas mas esses cheiros passam, se se começar a cozinhar.

Quando a água ferveu, lançou os rissóis.

Luís rabiscava na caderneta, porque havia desenho para entregar.

Mãe, vamos mesmo fazer um boneco de neve?

Quando nevar a sério, sim. Prometo.

Prometes?

Prometo.

Ele anuiu, voltou ao desenho.

Nevava de verdade agora lá fora, tapava árvores, parapeitos, toldos Lisboa ficava mais branca e suave, menos dura.

Filipa mexia os rissóis no tacho. Não pensava em nada em particular. Só estava ali, escutava Luís murmurar sobre desenhos, via a neve continuar.

Não sabia o que viria. Sabia que amanhã se levantaria cedo, prepararia o Luís para a escola, compraria pão, ligaria à mãe porque não falava há três dias. Talvez arrumasse mais caixas, talvez não.

A dor viria já sabia dos horários dela. Apanhava-a de noite, ou em plena tarde, com um cheiro, uma voz, uma recordação boa. Não esperava que passasse rápido.

Mas os rissóis estavam prontos. Luís já deixara o caderno e olhava para ela, ansioso.

Estou a servir, prometeu-lhe.

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