Dois Homens nas Minhas Costas: Quando Aline Descobre Que Ser Boazinha Só Traz Problema — Entre o Irmão do Marido, o Sofá Ocupado e o Limite Para Hospedagem em Casa Própria

Dois homens às minhas custas

Olha, decide já: ou eu, ou o teu irmão e esse bando de amigas dele! Tu passaste-te, pá. Primeiro trouxeste a tua família para cima de mim, agora ainda aparecem mulheres estranhas cá em casa? Isto está bonito, está, mas comigo não contas mais!

Sílvia estava em pé no meio do quarto, a tremer de raiva. Na mão, mantinha esticada e com nojo uma meia de senhora, de lycra, que tinha encontrado debaixo da cama. Bastou-lhe um olhar para perceber que, de certeza, não era dela.

Rui, ao contrário do esperado, em vez de pedir desculpa ou mostrar algum remorso, ficou com um ar ofendido, como se tivesse sido ela a trazer um homem para casa. O olhar dele virava-se constantemente para o corredor, fugidio e inquieto.

Sílvia, pára lá com o drama. Estás sempre a exagerar tudo, bufou Rui, impaciente. Foi só um convidado. O meu irmão, e não te esqueças, teu cunhado! Ele trouxe lá uma rapariga uma vez, e daí? Vais-te afligir com isso?

Sílvia não se afligiu. O que sentiu foi outra coisa: um nojo frio, pegajoso. Como se tivesse entrado num charco com os sapatos favoritos.

Viu Rui à procura de validação junto daquele que, nos últimos seis meses, tinha transformado o seu apartamento num acampamento: Hélder, o irmão, não mexeu um dedo.

Esta casa é minha e não quero cá estranhos, Sílvia pronunciou, tentando segurar a cólera. Nem o teu irmão. Compra a tua própria casa, e aí pode viver quem quiser, até um elefante. Mas esta vai ter de ser desocupada.

Agora foi a vez do Rui ficar surpreendido. Mas, sinceramente, não havia motivo. Só estava a acontecer o mais lógico.

Ó Rui, bora lá embora, gritou Hélder da sala, preguiçoso. Arranjamos um tecto qualquer, ao menos lá ninguém passa a vida a fazer cenas. Mulher fora do carroça… já sabes como é.

Rui, como se tivesse recebido ordem de ataque, começou a despejar, com estrondo, o conteúdo do armário para dentro de um saco de desporto: t-shirts misturadas com calças de ganga, carregadores, roupa interior.

Vais arrepender-te, Sílvia, resmungou, sem olhar para ela. Quem é que te vai querer além de mim…

Saíram batendo a porta com uma força tal que até o cristal do aparador pareceu tilintar.

E eu fiquei sozinho. O silêncio, de repente, ficou ensurdecedor. Sentei-me na cama a olhar para a maldita meia de lycra na mão.
Como é que deixei chegar a este ponto? Em que momento é que o meu T2, herdado da minha avó, virou uma pensão de terceira?

…Conheci a Sílvia há dois anos. Éramos completamente diferentes. Ela, reservada e tímida; eu, falador e inquieto. Ainda éramos universitários, mas já trabalhava como motorista de Uber e gostava de impressionar: oferecia chocolates, escrevia poemas, às vezes íamos jantar fora. Para ela, certinha e estudiosa, isso parecia um sonho romântico.

A proposta de irmos viver juntos foi quase imediata, passado dois meses.

Não consigo estar longe de ti nem um minuto, pequenina, sussurrava eu. Quero acordar e adormecer contigo ao lado.

Deixei-me levar por aquelas palavras doces. Meses depois, descobri a verdade: tinham-me posto fora do quarto alugado por causa do barulho, precisava de um sítio para ficar. Mas ela relativizou. Toda a gente passa por dificuldades, foi só coincidência, pensou.

Vivíamos um cantinho modesto, a dois, sem grandes luxos mas em paz. Eu a correr entre trabalho e estudos, ela a dar explicações para pagar as contas e encher o frigorífico. Também contribuía nas despesas.

Mas passados dois anos, entrámos em modo trio.

Rui, disseste-me que o Hélder vinha concorrer à universidade. Porque não o convidamos a vir cá de vez em quando? Afinal, são irmãos… sugeriu a Sílvia na altura.

Não fazia ideia do erro em que se metia. O Hélder adorou tanto a visita que começou a aparecer dia sim, dia não, depois todas as noites, até que ficou lá de vez. E Sílvia, habituada pela mãe a ser anfitriã, punha a mesa, limpava tudo sozinha, lavava roupa que não era dela, arrumava atrás de dois marmanjos. O Hélder nem sequer tentou ir à universidade.

Então, Hélder, não eras suposto estar a estudar? Não tens direito a residência de estudantes? perguntou Sílvia meses depois.
Não entrei, respondeu ele, como se nada fosse. Fiquei à porta, tento para o ano.

Sílvia ficou lívida. Já percebia que ele não faria tenções de sair dali. Para quê? Tinha sala só para ele. Cozinhavam-lhe, lavavam-lhe a roupa, vida de rei: dormir até ao almoço, telemóvel na mão, sair à noite com os amigos novos.

A coisa só piorou quando Rui se despediu da loja onde trabalhava no último ano.

O patrão era um bronco, disse ele. Mil pedidos, salário de miséria. Não te preocupes, enquanto isso faço uns trocos no Uber e procuro melhor.

A procura estendeu-se até ao infinito. Trabalho sério, nem vê-lo; saía à rua uma vez por semana, se tanto. A partir daí, dois homens fortes passavam os dias largados no sofá da Sílvia. Ambos nas suas costas.

Gerir as contas estava cada vez mais complicado. A comida evaporava-se. Uma travessa de bifes desaparecia numa noite. As facturas dos serviços não paravam de subir. Nem Hélder nem Rui mexiam uma palha para ajudar.

Sílvia chegava estafada, tropeçava em pilhas de louça suja e roupas espalhadas pelo chão da casa de banho, pó amontoado nos cantos.

Quando tentou reclamar, Rui olhou-lhe com espanto genuíno:

Sílvia, o que se passa contigo? Vais fazer um escândalo por causa de um prato de sopa? O rapaz está a ambientar-se a Lisboa, tu sabes, não foi fácil. Sê compreensiva, és mulher, tens esse dom.

Sempre davam a volta e acabava ela rotulada de má pessoa e sovina. Aguentava, lavava, cozinhava, limpava. Tudo para não estragar o pouco equilíbrio que ainda achava ter. Pensava que era normal, que todas as famílias tinham momentos difíceis.

Mas quando chegou a casa e viu uma garrafa barata meio bebida e três copos, ficou de pé atrás. E a meia, pouco depois, rebentou-lhe o saco.

Aquele primeira noite na casa vazia foi inquietante. Estranhamente, o silêncio era uma tortura. Sentia falta do ressonar do Hélder, da TV ligada, do arrastar de chinelos do Rui na cozinha.

Na manhã seguinte, porém, a solidão deu lugar ao alívio. Abriu o frigorífico. O queijo comprado no dia anterior ainda lá estava. O sumo intacto. Ninguém tinha bebido o leite do pacote. Nenhuma migalha ou faca suja na bancada. Era, finalmente, dona da sua casa e do seu espaço.

Ao fim do dia, a tristeza pesou mais. Foi a casa da amiga, Vera, para desabafar.

Tu és mesmo tonta, Sílvia… comentou Vera, com carinho. Aposto que eles já estão a enganar outra qualquer. Até pode ser aquela que deixaram a meia. E, olha, se calhar nem foi o Hélder que trouxe a rapariga. Já pensaste se não foi o Rui que te meteu os cornos?
Achas? Achas que me traíram?
Agora já não interessa! O que interessa é que aproveitaram-se de ti à grande. Agradece a tal otária que deixou a meia. Ao menos escusaste de continuar a sustentar dois calões.

De regresso a casa, Sílvia não fez só limpeza: fez um ritual de despedida à vida passada. Sacos de lixo com meias, papéis, maços de tabaco vazios, tudo o que lembrava os intrusos foi fora. Até os presentes. Mudou a roupa da cama, lavou o chão com lixívia, só então respirou fundo.

No fim do mês, ao somar os gastos, percebeu com espanto: até conseguia pôr de parte umas notas de euro.

Um ano e meio passou

Sílvia mudou. Arranjou um emprego numa escola privada, aprendeu a dizer não e nunca mais quis agradar a toda a gente. E apareceu o Miguel: engenheiro, cinco anos mais velho, com o seu próprio apartamento hipotecado.

Desta vez, não teve pressa em juntar os trapinhos. Observou Miguel durante seis meses antes de aceitar partilhar a rotina. Optaram por viver no seu T2, mais perto do centro. O Miguel pôs o dele a render para abater o crédito.

As coisas corriam bem, até que numa noite, após pousar o telemóvel, o Miguel sentou-se ao lado dela:

Olha, Sílvia a minha mãe precisa de fazer exames de saúde, lá na aldeia não dá. Ela teria que cá ficar umas semanas. O que achas?

Sílvia sentiu um frio no estômago. Lembrou-se de tudo: Hélder estendido no sofá, os ressonares, o sentimento de intrusa em sua própria casa o medo apertou-lhe o peito.

Olhou para o Miguel. Ele esperava resposta. Aquilo parecia determinar o futuro de ambos. E agora? Calar? Aguentar? Fazer de tudo para agradar menos a si própria?

Inspirou fundo para segurar as emoções.

Miguel, disse, calma mas firme. Tenho o máximo respeito por tua mãe, mas tenho um princípio de ferro: não passam cá noites convidados em minha casa. Nem família tua, nem minha. A nossa casa é a nossa fortaleza. Nada de ressentimentos, está bem? Sou assim.

Fez-se silêncio. Preparou-se para acusações de egoísmo, discussão, portas a bater. Estava pronta para a defesa.

Mas o Miguel só levantou as sobrancelhas e acenou com a cabeça, tranquilo.

Não há problema nenhum, respondeu descontraído. Entendo perfeitamente. Não faz sentido juntarmo-nos todos num espaço quando temos outra casa. Se for preciso, arranjo algo perto do hospital para a minha mãe, assim ninguém fica incomodado.

Sílvia ficou incrédula. Respirou fundo aliviada.

Não ficaste mesmo chateado?

Miguel riu, pousou o telemóvel e abraçou-a.

Chateado porquê? Cada um tem o seu espaço, cada um coloca os seus limites. O importante é encontrar sempre alternativas e respeitar.

Sílvia sorriu e encostou-se ao peito dele. Não só aprendi a dizer não, como encontrei quem aceitasse isso com respeito. Ficou decidido: a minha porta do lar e do coração só se abre a quem vem por bem, tirando sempre os sapatos à entrada.

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