Manuel alegou que eu tinha de atender aos amigos dele, e eu resolvi dar um passeio no parque.
Lurdes, que estás a mexer à colher? Os rapazes chegam daqui a meiahora e ainda não temos nada a cozer. Apressate: frita batatas com cebola, como gostam, traz os picles de mamã, aqueles que a avó deixou. E corta o bacon bem fino, mas de forma bonita, não em lascas como da última vez.
Manuel estava na porta da cozinha, já trocado de calções de treino e de uma tshirt esticada, a olhar o relógio com ar de quem está a contar os minutos. Lurdes, que acabara de entrar com duas sacolas pesadas de compras, largouas lentamente no chão. O estrondo das sacolas contra o azulejo fezse ouvir. Os ombros doíam, os pés nas botas de inverno ardiam como brasa o supermercado tinha sido um caos, as promoções de Natal fizeram a gente sair a comprar tudo, a cabeça a mil.
Manuel, que amigos são esses? perguntou ela, a puxar o zíper da jaqueta. Os dedos tremiam de frio, ainda a esperar o autocarro. Sextafeira à noite. Já estou quase a cair de exausta. Pensei que íamos apenas jantar e ver um filme.
Ah, lá vem o drama suspirou ele, a revirar os olhos. Quase exausta, cansada. Todos estão a trabalhar, Lurdes. Eu também não estou a ficar de braços cruzados. O Sérgio ligou, ele, o Tiago e o Vítor vão passar, há muito que não nos vemos. Como é que posso impedir que os meus amigos entrem? Isso seria falta de respeito.
Não podias avisar antes? Ligar de dia?
Foi tudo improviso! Por que estás a fazer drama à toa? Só precisamos de preparar uns petiscos. Eles não vêm para comer, mas para conversar. Temos uma garrafa de vinho, está na adega. Tu cobre a mesa rápido. Faz uma salada ó olei, ou de marisco, como for. E um prato quente, porque eles chegam famintos da fábrica.
Lurdes sentiu o peito a incharse de indignação. Como sempre. Sabia que, sem perder um minuto, teria de correr para a fogão, entre a pia e a frigideira, picar saladas, pôr a mesa, depois limpar tudo, garantir pão para os rapazes, ouvir as piadas gordas e o riso alto. Quando eles fossem embora por volta da meianoite, lhe ficaria a montanha de loiça, a cozinha fétida e o chão pegajoso.
Manuel, não vou cozinhar declarou, a olhar-lhe nos olhos. Estou cansada, quero um duche e dormir. Se os teus amigos têm fome, pede uma pizza. Ou fazes os raviolis tu mesmo.
Manuel ficou sem reação por um segundo. As sobrancelhas subiram.
O que foi, Lurdes? Pizza? Eles querem comida caseira. Já prometi que a minha esposa vai pôr a mesa. O Sérgio ainda fala dos teus bolinhos. Não me humilhes perante a gente. O que vão pensar? Que não consigo sustentar a casa?
Sustentar? retrucou Lurdes, a sentir um arrepio percorrer-lhe a espinha. Sou a tua esposa ou a tua criada?
Não me exageres! Manuel começou a ficar irritado, a voz a endurecerse. Tu és mulher, dona da casa. É obrigação tua receber os convidados. Eu ganho o dinheiro, levo a conta da casa, tenho direito a ter amigos ao menos uma vez por mês? Para que eu cuide, sirva, crie um ambiente acolhedor? Estou a pedir demais? Então, abre as sacolas, mete o frango no forno enquanto limpas as batatas, vai a pé. E coloca a vodca no congelador para que se forme gelo.
Virouse para a sala e gritou:
E arrumate, pareces uma espantalho de quintal. O Vítor vem com uma nova namorada, não quero que te looks desbotem ao lado dela.
A porta do quarto não se fechou e o som da televisão entrou. Manuel sentouse no sofá, a achar que a conversa estava terminada. Para ele, tudo estava resolvido: a esposa recebeu ordem e agora, como uma fiel companheira de batalha, corria para a frente culinária.
Lurdes ficou no corredor, a escutar o locutor das notícias. Tirou o chapéu devagar. O cabelo, despenteado e eletrizado, caiu-lhe no rosto. Espantalho de quintal. As palavras do marido ecoavam. Vinte anos de casamento. Vinte anos a tentar ser a esposa perfeita, boa dona de casa, cuidadosa, compreensiva. Suportava as sessões de futebol do marido, a mãe dele com conselhos infinitos, as meias espalhadas e as reclamações de que a sopa estava salgada. Pensava que isso era vida em família compromissos, paciência, suavizar cantos.
Olhou para as sacolas. Dentro havia o frango que planeava assar no almoço de amanhã, legumes para a salada, leite, pão tudo o que pesa nos braços.
Lurdes inclinouse, mas não para abrir as malas. Puxou o zíper da jaqueta, pôs o chapéu, ajeitou o cachecol.
Entrou no quarto por um segundo.
Manuel.
Ele, sem desviar o olhar da tela, acenou:
E então? Ainda não encontraste o sal? Está na gaveta de cima.
Vou embora.
Para onde? ele finalmente virou a cabeça, o rosto a mostrar genuína perplexidade. Para a loja? Esqueceste algo? O pão está ali, tem maionese?
Não. Vou caminhar. No parque.
Qual parque? Manuel levantouse do sofá. estás à toa? São sete da noite, escuro, frio. Os convidados chegam em vinte minutos! Quem vai pôr a mesa?
Tu respondeu Lurdes, calma. Tu convidaste, tu pões. As batatas na grelha debaixo da pia. O frango na bolsa. A faca no suporte. A receita está na internet.
Lúcia, espera! gritou Manuel, a saltar. Que parque é esse?! Volta! Despõete e vem para a cozinha! Eu já disse!
Mas Lurdes já não ouvia. Saiu da casa, batendo a porta pesada de metal. O som da fechadura foi como um tiro. Desceu as escadas sem esperar o elevador, temendo que Manuel a perseguisse e a arrastasse de volta. No corredor, tudo estava calmo. Parecia estar tão atordoado que ficou imóvel, boquiaberto.
A rua estava coberta de neve fina e pontiaguda. O vento enfiouse ao peito da jaqueta, mas Lurdes nem notou. Dentro dela, o coração disparava, a adrenalina a queimar como fogo. Correu, quase a correr, afastandose da casa, das janelas iluminadas onde o marido devia estar a pensar o que dizer aos amigos.
O parque ficava a dois quarteirões. Era um parque antigo da cidade, com alamedas largas e tílias altas que agora estavam nuas, a balançar ao vento. Poucas pessoas. Alguns transeuntes com cães, trabalhadores a apressarse, e um casal de adolescentes a encostarse nos telemóveis.
Lurdes desviouse por um caminho lateral, onde os postes de luz acendiam em intervalos, criando sombras curiosas na neve. Só então desacelerou. A respiração ficou curta, o coração batia no peito.
Que fiz eu? passou pela sua cabeça uma onda de pânico.
Desde pequena aprendeu a ser conveniente. Quem aguenta, é amado, silêncio é ouro, marido é a cabeça e a mulher o pescoço. A mãe dizia: Filha, não lhe faças, sê sábia. O marido tem de ser alimentado e elogiado, assim a casa está bem. E ela alimentava, elogiava. Mesmo quando Manuel se sentava na sua cara.
O telemóvel vibrou no bolso. Lurdes tirouo. Na tela, a foto do marido e a assinatura Manuel. Deramlhe a volta. Ele ligou outra vez, depois outra.
Ela desligou e guardou o ecrã escuro no bolso. Silêncio. Só o vento e o rangido da neve nos sapatos.
Chegou ao lago. A água escura não se tinha congelado no centro, onde nadavam patos. Na margem, uma fina camada de gelo. Lurdes apoiou as mãos nos corrimões gelados e olhou para o fundo.
Recordou a última visita dos amigos. Tiago, bêbado, tinha quebrado a sua taça de cristal, presente da irmã. Manuel tinha rido: É boa sorte! Não chores, compramos outra. Mas nunca compraram. E Sérgio, naquela noite, ao limpar as mesas, deu-lhe um tapa na coxa e piscou: Que sorte a Lurdes, que alimenta e acaricia. Manuel fingiu não ver, ou fez vista grossa. Lurdes queria desaparecer, mas ficou, sorriu, e foi lavar a loiça. Não me humilhes.
Não vou sussurrou Lurdes na escuridão. Nunca mais.
Continuou pela alameda. O frio a cutucava as bochechas, mas era agradável. A mente clareava. Lembrouse que não tinha almoçado. O estômago rugiu.
No centro do parque, um quiosque amarelo iluminado vendia café e pastelaria. Lurdes aproximouse.
Boa noite saudou a jovem à porta, com um gorro de tricó. O que deseja? Aquecer?
Um grande cappuccino, por favor. E Lurdes apontou para a vitrine. Aquela escargot de canela. E um sanduíche de frango.
Excelente escolha. Vou aquecer tudo.
Lurdes segurou o copo quente com as mãos geladas. O calor subiu pelos dedos. Sentouse num banco ao lado da lâmpada.
O sanduíche estava quente, o queijo a esticar, o frango suculento. Foi a melhor refeição dos últimos anos, não por ser gourmet, mas porque a comeu sozinha, em silêncio, sem servir a ninguém. Olhava a neve cair, bebia café e sentiase estranhamente viva.
Passouse uma pareja idosa, de mãos dadas. O homem contava histórias, a mulher ria com ternura. Pararam ao lado de Lurdes para ajeitar o cachecol do homem.
Onde vais, Tiago? Vais ficar doente brincou a mulher.
Está calor contigo, Dona Lurdes respondeu ele.
Lurdes pensou: Será que nós, Manuel e eu, vamos assim, de mãos dadas na velhice?. A resposta assustavaa. Provavelmente Manuel ficaria à frente, resmungando que ela tardava, ela a arrastar sacolas, a dizer que ele tinha dor nas costas e precisava de pomada.
O relógio no pulso vibrou novamente. Lurdes sorriu ao ver que tinha atingido 10000 passos. Ironia do destino. Saiu de casa para cumprir a meta de atividade.
Passaramse duas horas. Lurdes percorria o parque três vezes. As pernas latejavam, não de cansaço, mas de caminhada. O café acabou, o bolinho devorado. O frio começava a entrar na jaqueta. Era hora de voltar. Não ia passar a noite no banco.
Quanto mais se aproximava de casa, mais lento o passo. O seu prédio, a terceira porta à esquerda o seu apartamento. As luzes acendiam em toda a casa: cozinha, sala.
Subiu no elevador, tirou as chaves. As mãos tremiam. Respirou fundo, como antes de saltar ao mar, e abriu a porta.
Um cheiro forte de óleo queimado, fumo de cigarro (ele havia prometido nunca fumar dentro de casa) e perfume barato invadiu o nariz.
No corredor, sapatos de convidados. Portanto, os amigos tinham chegado. Uma pilha de casacos na cabideira.
Da cozinha vinham vozes altas e risos.
E eu digo-lhe: não confunda as margens! dizia Sérgio. A mulher tem de saber o seu lugar! E o Manuel, que se segura!
Lurdes tirou as botas, pendurou a jaqueta. Foi à cozinha.
A cena era triste e cômica ao mesmo tempo. A mesa estava coberta de latas de sardinha, de anchovas, de chouriço em fatias sobre um jornal (Manuel não encontrou pratos ou não quis). No centro, uma frigideira com batatas negras e carbonizadas. Ao redor, garrafas vazias de cerveja e uma garrafa de vodka quase vazia.
Sentados estavam três: Manuel, Sérgio e Tiago. O Vítor não apareceu aparentemente foi dispensado.
Manuel, de costas à porta, agitava um garfo com uma conserva de pepino.
Ela só saiu ao supermercado, mentia ele. Por iguarias. Já volto, ponho a mesa dignamente. A Lurdes é ouro, tímida.
Lurdes tosse.
O silêncio caiu. Os três viraramse.
Olha quem aparece! exclamou Sérgio, com um sorriso gorduroso. A nossa dona! Estávamos à espera! O Manuel contou que tu ficaste a buscar conhaque?
Manuel olhou-lhe nos olhos, vermelho, os olhos vidrados. Viua e primeiro assustouse, depois lembrouse que era o dono, e ficou carrancudo.
Onde estás a correr?! gritou, tentando levantarse, mas tropeçou e sentouse de novo. Os rapazes estão aqui, esperam! Não há nada para comer! As batatas queimaram! Tu afundasteme, Lurdes!
Lurdes fitou a mesa, a bagunça, a cerveja derramada, os cinzeiros improvisados na sua chávena de café.
Boa noite, rapazes disse, com voz gelada. O banquete acabou.
O quê? disse Tiago, confuso. Ainda estávamos a começar. Lurdes, estamos a esperar. Faz um ovo mexido, por favor? As batatas do Manuel são morte ao estômago.
Já disse: fora! aumentou Lurdes. São dez horas. Tenho trabalho amanhã. Manuel, despede os convidados.
Tu não me dás ordens! bateu Manuel a mão na mesa. O garfo saltou e caiu no chão. Esta é a minha casa! Os meus amigos! Quem és tu para os mandar fora? Vai à cozinha e cozinhe! Ou
Ou quê? Lurdes avançou. Vais atacar? Vai em frente. Mas aviso que chamo a polícia. E faço denúncia. E hoje mesmo peço o divórcio. Queres isso?
O silêncio voltou a ecoar. Até Sérgio perdeu o sorriso. Nunca tinham visto Lurdes assim. A mulher que era dócil, sorridente, submissa, agora estava firme como uma vara, os olhos frios, e imponia uma força desconcertante.
Manuel murmurou Tiago, levantandose. Talvez seja hora, já é tarde. As esposas também se preocupam.
Sentemse! rugiu Manuel. Ninguém vai a lado nenhum! A esposa vai resolver tudo. Lurdes, conto até três. Um
Conta até um milhão respondeu Lurdes, abrindo a janela. Um ar gelado invadiu o recinto, cheirando a estábulo.
Perdeste a razão? gritou Manuel, a cair da cadeira. Eu alimentavate, vestiate, e tu
Alimentava? riu Lurdes, amargamente. Trabalho duas vezes, Manuel, para pagar o crédito do teu carro. Lembraste? O casaco que comprei há três anos com o teu bónus? Não me deste um centavo.
Sérgio e Tiago, sentindo o clima virar para o drama, puxaramse para a porta.
Vamos, Manuel. Vamos embora. Adeus, Lurdes. Desculpa se algoEla fechou a porta, respirou fundo e decidiu que o próximo capítulo seria escrito só por ela.







