– Como foste capaz? Somos amigas! – Esta frase já a disse, talvez, umas trinta vezes. Repetia-a como um papagaio. A minha mente estava como se coberta por um denso nevoeiro. O horror que me invadiu era indescritível. Acabei de sair do hospital e agora… isto. A minha amiga roubou-me o marido. E decidiu-me contar isso pessoalmente. Se tivesse a força que tinha antes da doença, provavelmente teria arrancado os cabelos da Raquel. Mas não tinha. Nenhuma. Apenas começava a me recuperar após um longo e árduo tratamento, e agora isto. Porquê eu?
– Marta, acalma-te! Queres que te dê umas gotas de valeriana?
Eu não queria valeriana. Queria falar com o meu marido. Olhá-lo nos olhos. Mas ele já tinha mudado para casa da Raquel com as suas coisas. Não teve sequer a coragem de falar comigo.
– Desculpa, Martinha! Ninguém queria que isto acontecesse. Achas que não sei que sou uma desgraçada? Mas tu também foste ingénua! Quem pede a uma amiga solteira para tomar conta da casa quando estás no hospital?
Pedi eu. Ingenuidade, claro. Desde o primeiro ano da escola que éramos inseparáveis, ela foi minha testemunha no casamento com o Miguel. Confiava plenamente na Raquel. E agora a querida amiga destruiu a minha vida, sem sequer pensar no impacto que teria em mim. Sair do inferno do hospital para cair noutro.
– Não penses que te vamos abandonar… – ela tentava argumentar.
Levantei-me, apoiando-me à mesa.
– Bom, então sai daqui. E deixa as chaves. Espero que as do Miguel estejam aqui também?
Não tinha dinheiro para mudar as fechaduras. Ou tinha? Estava tão confusa. Raquel disse algo sobre eu não poder ficar sozinha. Que me podia levar ao médico. Que eu estava fraca e não devia ser deixada só. Juntei as últimas forças e pus Raquel fora da casa.
Era isso. Tinha de encontrar alguma motivação para viver. Aguentei todas aquelas terapias e radiações para sobreviver. Pensei que tinha uma família! A minha família. Mas quem faz uma coisa destas?
No frigorífico havia sopa, salada, puré de batata, almôndegas cozidas. Tudo fresco. A cobra cuidou de mim. Comecei a levar a comida para a casa de banho e para o lixo. Deitei fora tudo o que estava no frigorífico. Começar de novo, era o que precisava. E o que iria comer? Considerei as minhas contas bancárias no telemóvel – ora veja! Recebi algumas compensações: provavelmente do seguro de saúde. Não morreria de fome.
Olhei para o espelho e vi a minha cabeça careca. O cabelo já começava a crescer, mas não queria sair assim à rua. Recusei usar uma peruca – usava lenços e gorros. Coloquei um gorro leve e decidi ir à loja. Ao sair, senti uma tontura. Voltei atrás e sentei-me no banco do hall de entrada. Vou conseguir. Sem eles, sem esses traidores e canalhas! Vou conseguir, com certeza.
No início foi realmente difícil. Para cobrir as despesas do táxi até ao hospital e os medicamentos, tive de vender algumas coisas. O Miguel transferia-me ocasionalmente algumas quantias de dinheiro, mas eu, obstinadamente, restituía-lhes. Não queria nada dele. Tampouco queria vê-lo ou falar com ele. Apenas à noite, quando deitada de lado via a almofada vazia ao meu lado, sentia uma saudade aguda. Nem tanto do Miguel, mas do passado que até então me parecia tão promissor. Marido, apartamento, trabalho de que gostava – era professora de Português e Literatura numa escola. Adorava os meus alunos, entendia-me bem com os colegas. No entanto, quando o Miguel saiu para ficar com a Raquel, senti uma estranha distância das pessoas em geral. Um receio da sociedade. Ao analisar meus sentimentos, percebi que já não queria voltar à escola. Não queria ver crianças nem colegas. E este entendimento aumentava a melancolia. O que há para esconder? Chorava na almofada à noite. E de dia, tentava viver.
– Tem remissão. – disse-me a médica com um tom de compaixão.
Provavelmente porque, há algum tempo, fui à clínica sozinha. Sem apoio. Sem um marido.
– Está em remissão, e é aconselhável que retome a vida habitual o mais rápido possível.
“Já não tenho vida habitual!”, queria gritar.
Mas nesta nova condição estou apenas a aprender. Como aluna na escola, mas por enquanto, os resultados são fracos.
No mesmo dia, a diretora telefonou – como é que ela soube?
– Marta Almeida, como tem passado?
– Melhor, obrigada!
– Quando planeia voltar ao trabalho?
– Dona Irene, não sinto vontade de aparecer diante dos alunos com a cabeça careca. – respondi com firmeza.
De facto, deram-me alta, precisava voltar ao trabalho. Mas não queria! Não me reconhecia. Após a conversa com Irene, avaliei quantas coisas ainda tinha para vender. Joias, roupas de marca e malas. Tudo comprado ou dado pelo Miguel, mas não ia devolver, pois? E duvido que quisesse usá-las. No entanto, o pensamento insuportável era que Raquel poderia ficar com as minhas coisas.
Percebi que podia viver humildemente sem trabalhar por cerca de um ano. Demiti-me. E então tranquei-me em casa e comecei a escrever um livro. Um livro vulgar, cuja trama era a minha história. Doença grave, marido traidor, amiga infiel. A propósito, nenhum deles me procurou. Nenhum ligou, nem escreveu, e eu só podia agradecer.
Depois de terminar, rever e corrigir os erros, senti que ao partilhar as minhas emoções no papel, estava pronta para enfrentar as pessoas. Recorri aos contactos universitários e procurei um colega que trabalhava numa editora. Combinámos encontrar-nos à noite num café – cuidadosamente, não revelei o motivo do encontro ao telefone.
– Uau! Estás ótima, Marta! Emagreceste, e esse corte de cabelo fica-te mesmo bem.
Sorri para mim mesma. Se soubesses, caro amigo, a que custo essas mudanças se concretizaram!
Coloquei o manuscrito numa cadeira ao lado e sorri para o velho amigo.
– Tu também estás ótimo, Rui. Como vai a vida?
– Intensa. Repete-se sempre, de certa forma.
Relembramos os tempos universitários, gargalhamos e bebemos talvez uns dois litros de café. Claro que preferia algo mais forte, para a coragem, mas o Rui tinha de trabalhar de manhã. Devia ter marcado para uma sexta-feira. Embora… às sextas, todos têm as suas saídas habituais.
– Deixemo-nos de rodeios. Diz lá o que precisas de mim. – subitamente, ficou sério.
– O que te faz pensar que preciso de alguma coisa? – fiquei perplexa com a mudança abrupta.
– Não sou tolo. Não nos vimos desde a formatura, e de repente ligas. O que precisas? Dinheiro emprestado? Arranjar emprego? Encontrar um médico?
– Que médico?
– Ora, Marta, não estás numa super forma de saúde.
– Estavas a mentir, não é? Que a aparência me favorecia?
– Favorece. Mas sei que nunca farias esse corte de cabelo – lembro-me do teu cabelo longo e bonito. E a tua magreza… parece doentia. Cancro?
– Remissão.
– Excelente! Fico contente. Então, não precisas de médico. O que será, então? Dinheiro?
Tirei do saco o manuscrito e coloquei-o à frente dele. No seu olhar vi uma sombra, depois decepção, e pareceu-me que o Rui ia embora. Fiquei com medo.
– Dá uma olhada! – pedi.
Ele olhou. Depois para mim. Depois folheou algumas páginas, passou para o meio, leu algo ali, e examinou o final.
– Há mais obras? – perguntou, sucinto.
– Ainda não.
– Precisas de mais. Não gostam de lançar livros únicos agora. Sem futuro. É preciso uma série.
Discutimos detalhes, e fui subitamente assaltada por uma feliz sensação de irrealidade. Estava a acontecer, é mesmo comigo?
O livro foi publicado. Descobri que o Rui trabalhava na editora, pois ela pertencia ao pai dele. Negócio familiar. Esforcei-me ao máximo para escrever a série. Mas a apresentação foi para aquele primeiro livro. Uma verdadeira apresentação, com sessão de autógrafos. De novo, fantástico, é mesmo comigo? E eu arranjei-me toda, como uma rainha. Queria impressionar o Rui. Gostava tanto dele, mas não sabia se era recíproco.
– Assina, por favor.
– Para quem? – perguntei automaticamente ao abrir o livro.
Surpreendi-me um pouco. O tom era conhecido, parecia que o homem queria um autógrafo – provavelmente para a esposa. Romance feminino. Falou-me por “tu”. Levantei o olhar. Era o Miguel, em carne e osso.
– Para o meu ex, o protótipo do personagem principal.
Fiquei petrificada, com a caneta suspensa sobre o livro.
– Achas que me retrataste um verdadeiro parvalhão? – continuou o Miguel, e uma névoa começou a invadir-me. Atando-me mãos e pés. Como naquele dia em que soube que ele era realmente um parvalhão!
– Assina, querida. – alguém puxou uma cadeira e sentou-se ao meu lado. – E liberta o homem. Há mais pessoas à espera do autógrafo.
E o Rui pousou a mão no meu joelho. Apertou-o, trazendome à realidade. Sorri, assinei o livro e entreguei-o ao Miguel com um sorriso radiante.
– Obrigada. O próximo, por favor!
O Miguel rangeu os dentes. Mas afastou-se. E eu imediatamente o esqueci.
– Como pode haver tantas pessoas? De onde vêm todos? – sussurrei ao Rui.
– Fizeram boa publicidade. Vamos, despacha-te. Não vais ficar aqui para sempre. Vamos comemorar.
– Onde?
– Onde quiseres – respondeu.
E olhou-me afetuosamente. E embora, como alguém que sabe escrever, ficaria irritada com tal expressão antes, agora foi exatamente assim. O coração acelerou de alegria. Era a esperança a bater à porta. A esperança de que tudo ainda pode ser bom!






