Visitas Constantes: Bebidas em Abundância, Mas Comida Escassa.

A casa estava cheia de visitas. Quase sempre havia visitas por lá.

— Todos bebem, bebem, garrafas por todo lado, mas de comida não há nada. Ao menos um pedaço de pão… mas só tem bitucas de cigarro e uma lata vazia na mesa — Miguel olhou mais uma vez com atenção a mesa, mas não encontrou nada para comer.

— Tá bem, mãe, estou indo — disse o garoto, começando a calçar devagar seus sapatos rasgados.

Ainda esperava que a mãe o detivesse, que dissesse:

— Onde você vai, filho, sem comer, e com este frio na rua? Fique em casa. Vou fazer um mingau agora, mandar as visitas embora e limpar o chão.

Sempre esperava uma palavra carinhosa da mãe, mas ela não gostava de falar palavras carinhosas. As palavras que ela dizia pareciam espinhos, e Miguel queria encolher-se e esconder-se.

Desta vez, ele decidiu sair para sempre. Miguel tinha seis anos e se considerava bem crescido. Para começar, precisava arranjar dinheiro e comprar um pãozinho, talvez dois…

Seu estômago roncava e implorava por comida. Como arranjar dinheiro, Miguel não sabia, mas ao passar por uma banca de jornal, viu uma garrafa vazia na neve. Lembrou-se de poder devolver garrafas e então teria algum dinheiro. Colocou a garrafa no bolso e encontrou um saco amassado na calçada, perto de um ponto de ônibus. Passou metade do dia recolhendo garrafas.

Eram muitas garrafas, tilintavam alegremente no saco. Miguel já se imaginava comprando um pãozinho cheiroso com sementes de papoila ou passas, talvez até com cobertura, mas pensou que talvez não tivesse garrafas suficientes para comprar um com cobertura e decidiu procurar mais.

Acabou se perdendo na estação de comboios. Na plataforma dos cobogs, onde os homens bebem cerveja à espera dos trens, Miguel deixou o pesado saco perto de uma banca e correu atrás de outra garrafa. Mas um homem sujo e irritante pegou seu saco. Miguel pediu que ele devolvesse, mas o homem olhou de forma tão ameaçadora que o menino teve que virar as costas e ir embora.

O sonho do pãozinho desapareceu como um sonho distante.

— Recolher garrafas não é fácil — pensou Miguel, enquanto vagueava por ruas cobertas de neve.

A neve estava molhada e pegajosa. Os pés do menino estavam molhados e gelados. Estava escuro. Ele não se lembrava como chegou a uma entrada de um prédio, caiu na área de entrada, acomodou-se mais perto do aquecedor e adormeceu num sono profundo.

Ao acordar, pensou que ainda estava sonhando, porque estava quente, tranquilo e acolhedor, e também havia um cheiro maravilhoso no ar, algo delicioso.

Uma mulher entrou no quarto onde ele dormia. Era uma mulher bonita e olhava para ele com doçura.

— E então, menino — perguntou ela — você se aqueceu? Dormiu bem? Vamos tomar café da manhã. Estava voltando para casa à noite e te vi dormindo na entrada como um cachorrinho. Então, te peguei e trouxe para casa.

— Este agora é meu lar? — perguntou Miguel, ainda sem acreditar em sua sorte.

— Se você não tiver um lar, será o seu — respondeu a mulher.

O resto parecia um conto de fadas. A desconhecida cuidou dele, comprou roupas novas. Aos poucos, Miguel contou tudo sobre sua vida com a mãe.

O nome da gentil senhora era Florbela, que soava quase mágico para Miguel, pois ele nunca tinha ouvido esse nome antes. Para ele, apenas uma fada boa poderia ter um nome tão bonito.

— Gostaria que eu fosse sua mãe? — ela perguntou, abraçando-o forte, como fazem as mães verdadeiras e amorosas.

Ele, claro, queria, mas…

A vida feliz terminou rapidamente. Uma semana depois, sua mãe biológica apareceu.

Estava quase sóbria, mas gritou com a mulher que acolheu o menino: — Ainda não me tiraram a custódia. Tenho todos os direitos sobre meu filho.

Quando ela levou Miguel, flocos de neve caíam do céu, e ele pensou que a casa onde aquela boa senhora vivia parecia um castelo branco coberto de neve mágica.

A vida ficou realmente ruim depois disso. A mãe bebia. Miguel fugia de casa. Passava noites nas estações, juntando garrafas, comprando pão. Não fazia amizade, nem pedia nada a ninguém.

Com o tempo, a mãe perdeu a guarda, e Miguel foi para um orfanato.

O mais triste era não conseguir lembrar onde ficava aquela casa parecida com um castelo branco, onde vivia a mulher bondosa.

Três anos se passaram.

Miguel vivia no orfanato. Era um menino fechado e não falava muito. Seu passatempo favorito era desenhar sozinho. Sempre desenhava a mesma coisa — uma casa branca com flocos de neve caindo do céu.

Um dia, uma jornalista visitou o orfanato. A cuidadora levava-a por todas as salas e apresentava as crianças. Chegaram até Miguel.

— Miguel é um bom garoto, mas tem dificuldades de adaptação no grupo, mesmo depois de três anos aqui. Estamos trabalhando para encontrar uma família para ele — explicou ela à jornalista.

— Prazer em conhecê-lo, eu sou Florbela — apresentou-se a jornalista para Miguel.

O menino se animou e começou a falar! Começou a contar com entusiasmo sobre a outra senhora bondosa chamada Florbela. Parecia que sua alma descongelava a cada frase. Seus olhos brilhavam, e as bochechas coravam. A cuidadora ficou impressionada com essa transformação.

O nome Florbela era a chave de ouro para o coração do garoto.

A jornalista Florbela não conseguiu segurar as lágrimas ao ouvir a história da vida de Miguel. Prometeu escrever sobre ele no jornal local, na esperança de que a boa senhora visse e soubesse que Miguel a aguardava.

Ela cumpriu sua promessa, e um milagre aconteceu.

Aquela mulher não comprava o jornal, mas seu aniversário tinha sido há pouco e os colegas de trabalho lhe deram flores embrulhadas em jornal, por causa do frio.

Ao chegar em casa, ao abrir as flores, notou o título de um artigo “Mulher boa, Florbela, você está sendo procurada pelo menino Miguel. Por favor, responda!”

Ela leu a matéria e reconheceu que era o mesmo menino que uma vez trouxe da escada e quis adotar.

Miguel a reconheceu imediatamente. Correu para ela. Eles se abraçaram. Todos choraram: Miguel, Florbela, e os cuidadores que estavam presentes.

— Esperei muito por ti — disse o menino.

Com muito custo, conseguiram convencê-lo a deixar a tia Florbela ir para casa. Ela não poderia levá-lo imediatamente, pois uma adoção era necessária, mas prometeu visitá-lo todos os dias.

P.S.: E assim, a vida de Miguel começou a ser normal e feliz.

Hoje ele tem 26 anos. Formou-se em engenharia e está prestes a se casar com uma boa moça. É um jovem alegre e extrovertido, que ama muito sua mãe Florbela, a quem deve tudo.

Mais tarde, já adulto, ela contou que o marido a deixou devido à falta de filhos. Sentia-se infeliz e sem propósito até encontrar Miguel na escada e enchê-lo de amor.

Depois que a mãe o levou, Florbela pensou com tristeza: — Não era pra ser.

E foi imensamente feliz ao reencontrá-lo no orfanato.

Miguel tentou descobrir o paradeiro de sua mãe biológica. Descobriu que eles alugavam uma casa na cidade. A mãe foi embora há muitos anos com um homem que acabou de sair da prisão. Ele não procurou mais. Para quê?

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