Vitinho tinha apenas três anos quando ficou sem a mãe. Ela faleceu na sua frente, tendo apenas tempo de empurrar o filho para longe da moto barulhenta que se aproximava a toda velocidade. Seu vestido vermelho esvoaçou como uma chama, e então veio a escuridão e o silêncio. O menino ficou inconsciente por um bom tempo, mas os médicos fizeram tudo o que podiam e ele finalmente abriu os olhos.
Todos temiam o momento em que ele perguntaria pela mãe, mas o menino permaneceu em silêncio. Ele não falou por seis meses até acordar certa noite gritando: “Mãe!” Nos sonhos, sua memória retornou e ele novamente viu a chama do vestido vermelho. Nesse período, Vitinho já vivia em um orfanato, sem compreender por que estava ali. Ele adotou um hábito: ficava em pé, olhando por uma grande janela que dava para a estrada e a avenida principal, fixando os olhos no horizonte.
– Por que você fica aí parado? – resmungava a velha cuidadora Teresa, limpando com uma esfregona.
– Estou esperando minha mãe. Ela vai voltar para me buscar.
– Ai, meu menino, – suspirava Teresa. – Não adianta ficar aqui. Vamos tomar um chá.
– Vamos, – concordava o menino, mas logo voltava à janela, observando a estrada, sobressaltando-se quando alguém se aproximava do orfanato.
Dia após dia, mês após mês, Vitinho não abandonava o seu posto, esperando quando o vestido vermelho rasgaria o monótono cinza do dia e sua mãe, abrindo os braços, diria: “Finalmente te encontrei, filho!”
Teresa chorava ao olhar para o menino, sentindo mais pena dele do que de qualquer outro. Médicos e psicólogos tentaram explicar-lhe que ele não deveria esperar tanto pela mãe, que havia outras coisas a fazer, como brincar ou conversar com amigos. Vitinho olhava para esses adultos estranhos, concordava, mas assim que o deixavam, voltava à sua janela. Tantas vezes Teresa, chegando ao trabalho, via o contorno do menino através do vidro que já perdera as contas de quantas vezes acenara para ele ao sair.
Naquele dia, ao voltar para casa, Teresa viu de longe uma jovem mulher parada na ponte ferroviária. Entendeu, sem precisar ouvir palavras, que a jovem pretendia algo terrível.
– Que tolice a sua, – disse ao se aproximar.
– O quê? O que disse? – perguntou a desconhecida, olhando-a com olhos tristes.
– Tolice, eu disse! Não sabe que a vida é um presente e que você não tem o direito de acabar com ela?
– E se eu não aguento mais? – gritou a mulher, desafiando. – Se não vejo sentido em tudo isso, o que faço?
– Então vem comigo. Eu moro aqui perto. Vamos conversar. Aqui não é lugar para isso.
Teresa caminhou lentamente, sem olhar para trás, e ouviu os passos da mulher a seguir. Aliviada, suspirou.
– Qual o seu nome, minha rapariga?
– Maria.
– Maria… Minha filha também se chamava Maria. Partiu há cinco anos. Adoeceu e em um ano se foi, deixando-me assim, sem netos, sem filhos, sem marido. Eu sou Teresa. Venha, esta é minha casa. Não é um palácio, mas é meu cantinho. Vou me trocar e preparar algo para comermos, tudo vai se ajeitar. Maria olhou com gratidão para a senhora e sorriu.
– Obrigada por tudo, tia Teresa.
– Ora essa, não precisa agradecer… Minha querida Maria, a vida sempre foi difícil para a mulher. Mas o desespero é a última coisa que se deve permitir.
– Não pense mal, – disse Maria, aquecendo as mãos em uma chávena de chá perfumado, – eu sou forte. Parece que enlouqueci um pouco.
Maria nascera numa aldeia e viveu feliz até os sete anos. O pai e a mãe a amavam, pois era filha única. Mas então tudo desmoronou. O pai as deixou, tinha outra família há anos. A mãe, incapaz de lidar com a dor, começou a beber e a descontar na filha.
Decidida a se vingar do marido do qual nunca se divorciou, a mãe começou a levar outros homens para casa, abandonando todas as responsabilidades, deixando-as para Maria. Logo, os companheiros de bebida da mãe levaram tudo que o pai deixara.
Maria se viu obrigada a trabalhar para os vizinhos, recebendo alimentos em troca para sustentar a mãe que não agradecia. Mas ela não esperava mais palavras gentis, sabendo que uma família normal não faria parte de seu futuro.
Nunca mais ouviu do pai. Contaram-lhe que mudara-se para outro país, e ela entendeu que jamais o veria novamente.
Aos quinze anos, um dos amigos bêbados tentou algo terrível. Maria escapou, pulando a janela. Até o amanhecer, escondeu-se atrás do velho celeiro, e quando tudo estava em silêncio, voltou à casa, pegou seus documentos, algumas roupas e um pouco de dinheiro escondido, e sumiu sem intenção de retornar.
Naquela noite, voltou o pai dela, Manuel, para reencontrá-la. Ao ver o estado da casa e da mãe, entrou em desespero e começou a procurar por Maria, questionando os vizinhos, mas ninguém sabia dela. Finalmente percebeu como sua menina viveu todos aqueles anos. Chorou no carro, amaldiçoando-se por voltar tão tarde.
Manuel, caminhoneiro, conhecera uma mulher rica e solteira durante uma viagem. Algum tempo depois, ela engravidou de um casal de meninos e afirmou que se mudaria do país.
– Venha conosco ou vá embora, volte para a sua família. Amo-te, mas não insistirei. Escolha você.
E Manuel optou por ela. Ele sentia-se culpado por deixar a filha, mas não queria manter duas famílias. Além disso, a mãe de Maria tinha inúmeros ciúmes e já começara a beber. Um dia, Manuel chegou em casa e encontrou a mulher com outro homem. Isso decidiu tudo. Quando a menina chegou da escola, a mãe, já bêbada, disse que o pai as abandonara, que ele não voltaria. Maria decidiu não regressar à casa.
Mudou-se para a cidade e começou a procurar emprego. Teve sorte com o alojamento. Uma senhora, Dona Rosa, alugou-lhe um quarto, que pagou antecipadamente por três meses. Quando o tempo passou, a senhora sugeriu que a menina ficasse morando de graça, ajudando-a em troca.
Cinco anos passou assim, cuidando da senhora, que nos últimos dois estava acamada. Ao falecer, Dona Rosa fez o inesperado, legando-lhe seu apartamento, pequena moradia na periferia.
Maria um dia conheceu Jorge, jovem e gentil bancário. Enamoraram-se. Dois anos de casamento foram quebrados quando Maria o pegou com outra. Ele a agrediu tanto que acabou no hospital.
Maria não contou a Jorge sobre a gravidez. O bebê se foi, e os médicos disseram que talvez nunca pudesse ser mãe novamente. Não tinha mais família ou lar. Jorge vendera o apartamento dado por Dona Rosa e comprara um carro.
Sem rumo, Maria vagou até a ponte ferroviária. Teresa ouviu toda a história em silêncio, com muita atenção.
– Não é o fim. Viver, ainda é preciso. És jovem, amor e felicidade esperam por ti. Tu vais ver. Ficas comigo uns dias, trabalho o dia todo e volto à noite.
Duas semanas com Teresa marcaram sua vida. Outro ser de bom coração deu-lhe esperança. Um dia, Graciano, novo sargento da área, visitou o bairro. Teresa não estava, conversou com Maria prometendo voltar. Voltou várias vezes, rapidamente se tornaram íntimos.
Certo dia, Graciano ligou dizendo:
– Conheces Manuel de Almeida?
– Sim, meu pai.
– Ele te procura há anos.
Agora, Maria estava feliz, em paz e próspera. O pai, aliviado ao encontrá-la, comprou um bom apartamento, abriu uma conta bancária e arranjou emprego prestigiado para ela.
Um dia, decidiu visitar Teresa, levar-lhe presentes, conversar com a velha amiga. Chegou na hora certa. Teresa estava doente, febril.
– A doença me pegou, Maria! Temo não melhorar.
– Isso não, tia Teresa. Já chamei uma ambulância, logo chegam e vai ficar tudo bem. Confias em mim?
– Confio. Ouça-me. Sabes que trabalho com crianças? Há um garoto, Vitinho. Faz cinco anos. Quero deixar-lhe minha casa, o testamento está na prateleira. Guarda-o.
– Quem é esse garoto? Como o reconhecerei?
– Saberás. Ele é único. Dois anos à janela do segundo piso à espera da mãe perdida. Diz que ela vem buscá-lo com um vestido vermelho…
A ambulância levou Teresa para o hospital, onde ficou por muito tempo, depois um sanatório. Tudo pago por Maria. Quando retornou ao trabalho, Teresa notou a janela vazia. Alguém adotara Vitinho.
As crianças contavam como sua mãe realmente veio buscá-lo. Logo pela manhã, quando Vitinho estava em seu posto, viu a silhueta de uma mulher. Ele gritou, apertou o coração – uma mulher de vestido vermelho olhava para ele, acenando.
– Mamã!
Vitinho correu para ela, temendo que partisse. Mas ela, braços abertos, também corria em direção a ele.
– Mamã! Mãe querida! Eu sabia, eu acreditava que você viria! Esperei tanto…
E Maria chorava, abraçando o menino magro, prometendo que ele nunca mais conheceria tristeza. Desde então, muito tempo passou. Maria e Graciano viviam felizes numa casa grande, criavam Vitinho, agora prestes a começar a escola, aguardavam a chegada de um irmãozinho. Com eles, vivia a avó Teresa, sempre grata a Maria e Graciano. A felicidade daquela família residia no amor compartilhado todos os dias.






