Olga não via a irmã mais velha há mais de vinte anos. Ana tinha se mudado para a capital no 10º ano para morar com a tia sem filhos. Diziam que ela estava se preparando para entrar na universidade.
– As universidades da capital não são como as nossas. Com um diploma desses, dá para trabalhar em qualquer lugar, – refletia a mãe. E Olga sentia inveja.
– Eu nunca vou ter essa sorte.
Em vinte anos, Ana terminou o ensino médio, depois a universidade. Conseguiu um emprego em uma empresa internacional. Fez carreira. Não chegou a comprar um apartamento, pois não queria acumular bens.
Olga olhava para as fotos da irmã mais velha com inveja. Lá estava ela em Paris, aqui em Veneza, com amigas na Turquia, e nas montanhas de Courchevel. E dizia à mãe:
– A Ana tem sorte. Eu também quero isso.
– Mas o que tem de bom nisso? – retrucava a mãe. – Não tem casa nem filhos. Casou, mas não formou uma família.
– Você não entende, mãe, – dizia Olga. – Isso é que é viver de verdade. Vocês estão acostumados a apegar-se às coisas, a acumular. E eu olho para as fotos de casamento dela e sinto inveja. Veja como são bonitas, feitas por um fotógrafo profissional.
– E viver de aluguel, isso é normal?
– Mas ao menos não tem o que dividir. E assim, não há tentação de se divorciar. Eles estão unidos pelo trabalho, não por bens acumulados. Por isso o casamento é forte. Veja, quantas amigas da Ana se divorciaram. As famílias se contam nos dedos. Você não entende, mãe. Hoje tudo é diferente. As pessoas vivem para si, para o próprio prazer.
– É você que não entende, – murmurava a mãe baixinho. – Tenho pena da Ana, a vida dela não deu certo. Eu sou a culpada em muitos aspectos. – Virou-se para que a filha mais nova não visse suas lágrimas. Será que Olga também não terá felicidade? Escolheu os ídolos errados. Deveria ter contado tudo, mas como fazer isso agora? Seria como admitir que mentimos para ela. Como se sentindo isso, a conversa foi iniciada. No dia seguinte, Ana ligou:
– Mãe, posso ir aí? – perguntou ela, depois de um silêncio. – Estou sem o João.
– Aconteceu alguma coisa? – Tatyana Alexandra não acreditava no que ouvia – Como assim sem o João?
– Posso ou não? – Tatyana Alexandra percebeu que Ana estava perdendo a paciência.
– Claro, claro que pode. Vem e resolvemos tudo aqui.
– Obrigada. – Ana desligou o telefone, e Tatyana Alexandra ficou com o coração apertado. Já sabia que as coisas não estavam bem com a filha mais velha. E depois do telefonema, teve certeza. Por que está vindo, por que sem o marido, e por quanto tempo?
Os dias seguintes foram agitados. Afinal, vinte anos só viam a filha em fotos. António Manuel andava nervosamente de um lado para o outro. E Tatyana Alexandra fazia bolos. Lembrava-se de como Aninha os adorava. Esperavam-na de carro, mas ela chegou de trem. Bateu à porta timidamente, Tatyana Alexandra, ao vê-la, apenas ergueu as mãos em surpresa. Nos braços, Ana carregava algo cuidadosamente aconchegado.
– Um bebê… – exclamou a mãe, – mas de onde? Entra, por favor. – Tatyana Alexandra agitava-se.
– Deixaram na porta. – respondeu Ana, tranquilamente.
– E o João, como assim?
– João não quer um filho. Eu teria chegado antes, mas tinha que resolver a papelada, depois o divórcio…
– Mas por que? Para quê?
– Mãe, desta vez eu resolvo sozinha, não sou mais criança. Se você não quiser, eu vou embora amanhã.
– De jeito nenhum, – interveio António Manuel, – chega dessas tolices na nossa família. Vocês viverão aqui. Olga raramente nos visita, só estamos eu e tua mãe. E agora vocês têm uma casa. Fizeste bem em vir.
– Obrigada, pai. – Ana abraçou o pai.
– Mas o que está acontecendo? – perguntou Olga, que estivera todo esse tempo à porta. Na confusão, não a notaram. – Que segredos são esses na nossa família? O que aconteceu? Que tolices são essas? – Olga exigia uma resposta imediata. O bebê fez um som, e Ana começou a agitá-lo, tentando acomodá-lo.
– Eu mesma explicarei tudo à Olga. Afinal, foi minha culpa. – Tatyana Alexandra virou-se para a filha mais nova. – Entende, naquela época, Ana engravidou de um colega. Mas ter um filho aos dezesseis anos? Então mandei-a para a tia Larissa. A capital é agitada, ninguém nos conhece. Tem muita gente, fácil de se perder. Uma amiga dela trabalhava num hospital de uma pequena cidade. Convencemos a Ana a… enfim, nos livramos do bebê.
Naquela época, Ana sofreu muito, ela e o Sérgio queriam casar depois da escola. Queriam ter o filho. Mas eu insisti. Desde então, Ana não veio mais para casa. Pior, não falava comigo. Anos se passaram, mas Ana não me perdoou. Foi assim.
– Como pôde, mãe, – Olga não acreditava no que ouvia. – Mas que segredos são esses, minha nossa.
Naquela noite, eles não dormiram, conversaram, choraram, pediram perdão. Olga percebeu pela primeira vez que não havia felicidade na vida da irmã. Que não era sorte, mas uma mágoa que a mantinha longe da família.
– Não se preocupe, tudo vai se ajeitar – repetia António Manuel. O importante é estarmos juntos. Resolveremos tudo, criaremos o Miguel. Tudo ficará bem.
***
Sérgio ficou na cidade natal. Lá formou-se na universidade, arranjou trabalho. Mas nunca se casou. Quando soube que Ana tinha voltado, foi direto procurá-la. Dentro de seis meses, fizeram um casamento alegre, em estilo rural.
– Me desculpem. Estraguei a vida de vocês, – lamentava-se Tatyana Alexandra no casamento
– Não estragou nada, – corrigiu António Manuel, – não se pode estragar algo se as pessoas se amam. Por mais voltas que a vida dê, ela sempre encontra o caminho certo. Tudo começou com a criança, e foi ela quem consertou tudo. E quem sabe o que é melhor…






