Ela notou um homem na igreja que se comportava de forma um tanto estranha. Ele vinha todos os dias. Acendia duas velas, depois ficava murmurando por um bom tempo em um canto, gesticulando como se explicasse algo a uma criança desentendida. Depois, fazia o sinal da cruz. Primeiro da direita para a esquerda, depois da esquerda para a direita. E, por fim, de maneira sem sentido, de baixo para cima.
Ela decidiu abordá-lo para perguntar o que estava acontecendo. Esperando por ele à saída, ela iniciou a conversa oferecendo ajuda. Parecia-lhe a coisa certa a fazer. Apresentou-se e perguntou o que ele explicava tão desesperadamente e por que sempre fazia o sinal da cruz de maneira diferente.
– Se você não sabe, posso ensinar a rezar direito e ainda posso indicar alguns livros. Eu costumava vir aqui com a minha avó, – disse ela.
Ele agradeceu, meio envergonhado, e sugeriu que se sentassem em um banco na alameda de um velho parque arborizado, onde ficava a igreja.
– Eu na verdade não acredito muito, – sorriu ele timidamente, provocando surpresa nela. – Mas é que a questão é a seguinte… – continuou o homem.
– Tenho um gato. Um siamês grande de olhos oblíquos. Lindo. E, há um tempo, um cachorrinho apareceu em meus pés. Era outono, chovia e fazia muito frio, – ele fez uma pausa e suspirou.
– Levei-o para casa. Primeiro, eu senti pena. Segundo, achei que meu siamês ficaria mais entretido, e, de fato, não me enganei. O cachorrinho era travesso, sociável, alegre. Eu diria até que comunicativo demais.
O homem sorriu novamente com seus pensamentos, e ela notou que o sorriso dele era desprotegido. Totalmente infantil. Ele não sabia sorrir e fazia-o de maneira quase apologética. Depois continuou:
– Chamei-o de Filhote, e ele logo decidiu que meu gato era seu verdadeiro pai. Seguia-o por toda parte e imitava tudo que ele fazia. Quando o siamês pulava no sofá alto, Filhote tentava saltar atrás, mas para ele era impossível!
Então começava a chorar e a choramingar. Depois de um tempo, o gato se cansava do barulho que o pequeno fazia, descia, pegava Filhote pela pele do pescoço e o levava para o sofá. Onde este, feliz e satisfeito, se aninhava no seu papai e adormecia.
Assim se habituaram. O siamês, que agora eu chamava de Arrasto, puxava o Filhote para o sofá, onde eles se acomodavam confortavelmente.
Com o tempo, Filhote cresceu e agora era pesado para Arrasto puxar para cima. Mas Filhote o ajudava muito. Primeiro, ele debatia desesperadamente as patas e gania implorante. E, quando já era um grande cão e podia pular sozinho no sofá…
Ele fingia ser totalmente desamparado e, com o focinho na beirada do sofá, apertava os olhos, babava e olhava, suplicantemente, nos olhos oblíquos do seu papai.
Este levantava-se pesadamente, suspirava, e apoiado nas quatro patas no sofá, segurava o pescoço poderoso de Filhote e começava a puxá-lo com toda força. O cão, fingindo esforço, subia no sofá com um grunhido forçado e os olhos esbugalhados, e quando finalmente subia…
Quando estava no sofá, saltitava e gania de felicidade, depois se enroscava ao redor do papai e adormecia. Arrasto ficava ereto e olhava em volta com um olhar exausto, como se dissesse:
– Estes filhos me dão tanto trabalho! É tanta labuta com eles.
O homem fez uma pausa e acendeu um cigarro.
– Pois bem, – continuou ele. – Arrasto é já um gato velho e agora puxa Filhote para o sofá com a boca quase sem dentes. E Filhote irradia uma felicidade como se voltasse a ser um cachorrinho novamente.
O homem suspirou profundamente.
– Recentemente, meu adorado gato ficou doente. Parou de comer e estava com dor no estômago. Levei-o ao veterinário, mas ele não pôde ajudar. Então eu fui à igreja. Não acredito em Deus, não sei rezar direito, nem fazer o sinal da cruz como deve ser. Sobre as duas velas… Bem, eu só vi as avós fazendo isso.
Mas eu prometo! Só por precaução, – e o homem apontou o dedo para o céu. – Prometo a este seu Deus que se ele ajudar meu amado gato Arrasto a se recuperar, eu acredito nele, e nunca mais o incomodarei, como nunca fiz antes.
Não pedirei jamais por mais nada. Só quero que meu Arrasto se recupere e viva por muito tempo. Bem, se for necessário, eu aprendo uma oração e aprendo a fazer o sinal da cruz corretamente.
Ela o ouviu em silêncio e, por alguma razão, não se ressentiu de sua falta de fé. De repente, não importava mais que ele não soubesse rezar ou o que se fazia na igreja. Ela percebeu que o destino a havia colocado, por acaso, diante de alguém cuja fé era maior e mais forte do que a de todos que ela já encontrara na igreja.
Ela enxugou as lágrimas discretas que escapavam dos olhos e se levantou.
– Mudei de ideia, – disse ela. – Não vou ensinar você a rezar. Não faz sentido. Melhor irmos até sua casa, eu quero ver seu gato. Não sou veterinária, mas sou cirurgiã com bastante experiência. Talvez possa fazer algo.
O homem se levantou do banco e começou a agradecer a mulher. Ela seguiu pela alameda do parque. Ele caminhava ao seu lado, sem parar de falar sobre seu gato Arrasto e o filho canino dele, Filhote.
As árvores crescidas derrubavam folhas. Era o começo do outono. Os raios de sol atravessavam os galhos e acariciavam os rostos dos dois.
A mulher examinou Arrasto demoradamente e depois de colher uma amostra de sangue, foi embora, retornando uma hora depois.
Para encurtar a história, vocês podem não acreditar, senhoras e senhores, mas ela conseguiu. Ela curou Arrasto. Para isso, precisou operar o gatinho. A cirurgia foi feita na casa do homem. Depois disso, ela ficou por lá.
Afinal, não iria embora e deixar o paciente sem cuidado. E este precisava de cuidados. Assim, logo eles foram viver juntos. Ou melhor, ele se mudou para o novo apartamento grande dela.
Agora eles fazem vídeos juntos, mostrando Arrasto puxando Filhote na boca sem dentes para o novo sofá de veludo. E ninguém se importa que fiquem tufos de pelo ali.
E o grande Filhote se alegra e baba. Ele gania de prazer quando o papai gato o puxa pelas orelhas. Depois, se enrosca ao redor de Arrasto e adormece, aquecendo-o com o calor do corpo jovem e forte, enquanto Arrasto…
Arrasto senta-se ereto e olha ao redor com um olhar pesado e cansado, suspirando como se dissesse:
– É tão difícil cuidar dos filhos! Tantas preocupações. Puxamos e puxamos. Acabamos exaustos, mas ainda precisamos puxar.
Arrasto suspira e se deita sobre Filhote. E adormecem.
Na igreja, aliás, o homem e a mulher não vão mais. Talvez seja porque todos os seus desejos já foram atendidos. Ou talvez porque ela não quer ensinar nada ao homem. Ele a agrada assim, tal como é.
E Deus os perdoará. Juro, ele os perdoará!
Pelo que me parece…






