A pequenina Beatriz, para não ser notada, observava em silêncio enquanto o pai levava uma senhora idosa para o seu pequeno quarto. A mulher era baixinha e cheia de rugas.
— Sim, mãe, aqui não é tão espaçoso quanto na sua casa, mas as condições são bem melhores: aquecimento central, água encanada, um banheiro quentinho. E quando vendermos a sua casa e comprarmos um apartamento maior, você terá um quarto só seu.
— Oh, por que a caminha é tão pequena? — a voz da velhinha era suave, mas muito gentil. — Nem eu com meu tamanho caberia nela…
— Ah! É da Beatriz, sua neta. Não se preocupe, vamos arrumar uma cama maior para você.
— Mas não vai sobrar espaço!
— Você quer correr por aqui como uma criança? — o pai riu gentilmente. — Vai ficar tudo bem, vocês vão se ajeitar!
— E Beatriz…?
— Sim! — a voz do pai endureceu subitamente. — Filha da Patrícia.
— E também é sua filha, — a senhora corrigiu calmamente, sem se intimidar com o tom severo do filho, e completou, — Deus a tenha, Patty.
Beatriz fez o sinal da cruz instintivamente.
A mãe dela era muito bonita e amável, adorava sua filha Beatriz, que nomeou em homenagem à heroína de um romance querido. Beatriz lembrava do sorriso da mãe quando o pai dela, Pedro, chegava em casa. Ele também era gentil e divertido, sempre dando brinquedos e carinho a Beatriz.
Mas um dia tudo desmoronou. A mãe dela não acordou. Beatriz não entendia o que estava acontecendo, por que todos choravam e a empatizavam, por que o pai parecia sempre zangado e distante. A terrível palavra “faleceu”, que todos repetiam ao entrar na casa, a perseguia, ainda que não soubesse o que significava.
Logo, viajaram muito tempo de carro com o pai. Ele estava em silêncio e não respondia às perguntas dela. Finalmente, parou o carro e, com a voz pesada, disse:
— A mamãezinha não está mais aqui, Beatriz. Vai morar comigo e minha família. Você tem dois irmãos.
Beatriz ficou um pouco mais calma. Mas chegando ao apartamento do pai, foram recebidos por uma mulher descabelada gritando:
— Para que me traz esse fardo? Cuide dela você mesmo! Não quero criar sua filha fora do casamento!
Beatriz ficou encostada na parede. Dois meninos, gêmeos, de doze anos, apareceram ao ouvir os gritos. Olharam para a menina com desdém.
— Quem é você? — perguntou um deles. — Que espantalho é esse?
O outro simplesmente tirou a bolsa de Beatriz, abriu-a e derrubou tudo no chão.
— O que temos aqui? Argh! Sucata! Pegou do lixo? — ele começou a pisar nas coisas dela.
Beatriz gritou. Os pais e a mulher vieram correndo.
— Viu só? — a mulher gritou novamente. — Mal entrou e já causou confusão. Por que choras, pirralha?
Beatriz olhou para o pai com lágrimas nos olhos. Ele avaliou a situação e friamente disse:
— Vá para o quarto! E você, — se virou para Beatriz, — venha comigo!
A menina seguiu o pai obedientemente. Ouvia a mulher resmungar enquanto se afastavam.
— Beatriz! — eles entraram em um pequeno quarto com uma janela minúscula, que antes parecia ser uma despensa. — Aconteceu que sua mãe faleceu. Você vai morar comigo e minha família. Essa mulher é minha esposa, Helena. E os meninos são meus filhos, Diogo e Nuno. Tente se entender com eles.
O pai a deixou, mas logo voltou trazendo uma cama velha e uma mesinha também antiga.
— Instale-se!
A vida de Beatriz mudou radicalmente. Por mais que tentasse, a família do pai nunca a aceitou. Tia Helena se irritava só de olhar para ela, dizendo que estava sobrecarregada. Os meninos faziam questão de beliscar ou dar-lhe um empurrão. Beatriz logo aprendeu que seria melhor não sair de seu canto enquanto houvesse alguém em casa. Passava os dias no quartinho, brincando com uma boneca velha — a única coisa que restou da vida passada.
Às vezes, os meninos entravam e zombavam dela. Até que o pai notou e os puniu severamente. Depois disso, os meninos não chegavam à porta dela, mas aproveitavam ao máximo a chance de atormentá-la quando saía para o banheiro, lavar-se ou comer. Nem sempre comia o mesmo que os outros e geralmente sozinha. Beatriz sentia o cheiro dos bolinhos no café da manhã, mas recebia mingau de aveia e uma sopa rala. O pai, às vezes, sorrateiramente lhe dava uns doces.
Beatriz desejava poder ir logo para a escola, fazer amigos e estar entre outras crianças. Mas ainda faltava muito para isso.
Agora, uma avó tinha se tornado sua nova vizinha. Beatriz se encolheu em sua cama e observou enquanto a velha senhora se instalava no quarto. Viu quando o pai com os meninos trouxe um sofá antigo e um armário pequeno para o quarto. Depois da arrumação, mal sobrava espaço para circular.
— Vamos nos conhecer, — disse a senhora, sentando no sofá, — sou Dona Clara, mãe do seu pai, então sou sua avó, você pode me chamar assim.
— Beatriz. Beatriz, — murmurou a menina.
Não tinha vontade de falar com a avó, não acreditava que pudesse ser gentil com ela.
De qualquer forma, tornaram-se amigas. Unia-as o fato de serem rejeitadas pela família do pai. No entanto, ninguém se atrevia a falar mal na frente de Dona Clara. Mas Beatriz ouvia Tia Helena reclamar que o pai havia trazido para ela uma velha louca. Os meninos, por sua vez, tentavam prejudicar a avó de alguma forma. Ora quebravam seus óculos, ora derramavam chá, ora espalhavam tachas nos chinelos. Mas a senhora comia junto com todos na cozinha, o que Beatriz achava surpreendente.
— Pedro, por que não põem a Beatriz à mesa? — perguntou quando viu que a menina comia no quarto.
— Não há espaço! — respondeu Helena, cortante.
— Como não há? Posso me apertar, e os meninos também.
— É muita audácia! — afirmou Diogo. — Não vou sentar com uma intrusa!
— Como pode falar assim? — a avó suspirou. — Afinal, ela é sua irmãzinha!
— Pedro! — gritou Helena. — Por favor, converse com sua mãe! Não é da conta dela como educamos a garota!
— Mãe… — começou Pedro, mas foi interrompido.
— Parece que Beatriz vive aqui como um bicho. Alimentam-na como um também. O que a menina fez de errado? Que você foi infiel à esposa? Entendo agora o porquê!
— Pedro! — guinchou Helena. Pedro tentou argumentar, mas a mãe ergueu a mão:
— Já entendi! Não quero mais me sentar à mesa com vocês!
Clarapulentou-se e saiu da cozinha. Ao virar-se, sacudiu a cabeça:
— Que vergonha!
À noite, Beatriz caminhava cuidadosamente para o banheiro, para não fazer barulho. Sabia que, se alguém a ouvisse, haveria problemas! O pai dormia profundamente e nunca a escutaria ser surrada em silêncio.
De repente, ouviu o sussurro veemente de Helena.
— Pedro, quando você vai vender a casa? Não suporto mais! Além de trazer sua filha, ainda me coloca sua mãe insana? E as crianças? Nossos filhos legítimos? Como vão viver nesse ambiente?
— Como eu poderia saber que o cartório está lotado? — respondeu o pai. — Daqui a pouco fazemos a procuração e pronto, vendemos!
— E por favor, envie sua mãe para algum lugar!
— Para onde? Prometi que ela moraria conosco!
— Sobre meu cadáver! Você está trabalhando e eu tenho que suportar tudo isso! Mande-a para um asilo!
— Tudo bem! Vamos resolver isso!
— E com a garota também precisamos resolver! Ela não tem lugar aqui! Embora sua filha, ela pode estar perturbada como a mãe! Como você sabe disso se não vivia com elas constantemente?
— De acordo! — ele parecia sonolento.
Esquecendo do banheiro, Beatriz correu de volta para o seu quarto.
— Avó! Avó Clara! — sussurrou, empurrando a senhora adormecida. Despertando-se sobressaltada, a avó perguntou:
— O que aconteceu? Você me chamou de avó pela primeira vez, deve ser sério!
— Eles querem mandar você para um asilo! Vender a casa e ficam com o dinheiro, — murmurou a garota, tropeçando nas palavras.
— Ah, é? Como soube disso? — a avó olhou-a com severidade.
Beatriz começou a chorar, temendo ser punida por ouvir às escondidas. Clara também ficou apreensiva.
— Fique tranquila! Tudo bem, foi ótimo você ter ouvido! Avisei a tempo, obrigado! Agora volte a dormir.
Na manhã seguinte, Beatriz foi despertada por gritos. Helena berrava palavrões à Dona Clara, que, calmamente, arrumava suas roupas em uma bolsa de tecido enquanto dizia:
— Só estavam interessados no meu dinheiro, iam me descartar! Não conseguiriam!
Ao ver Beatriz despertando, Clara lançou-lhe um olhar pensativo e, subitamente, ordenou:
— Vamos lá, se prepare, Beatriz! Você vai comigo!
A garota prontamente começou a arrumar suas coisas.
Pedro chegou em casa, chamado às pressas.
— Mamãe! O que está acontecendo? Aonde você vai? — ao ver a filha pronta para sair, ele gritou com ela: — E você aonde pensa que vai?
— Ela vem comigo! — disse Clara com firmeza. — Para o campo! Não permitirei que façam mal a essa criança! Se resistir, vou contar tudo para o Alexandre!
Alexandre, o irmão mais novo de Pedro, era ótimo advogado. Pedro temia-o. Calou-se e sentou-se.
Clara, segurando a mão da neta, caminhou até a porta. Antes de sair, balançou a cabeça em reprovação:
— Que vergonha!
***
Beatriz chamou por sua gata Mimi. Já fazia seis meses que vivia com a avó Clara, ajudando-a em tudo. A avó era muito gentil e fazia panquecas deliciosas.
— Mimi! Mimi! Onde você foi parar dessa vez? Seus gatinhos estão para nascer e você continua vagando!
Um carro luxuoso parou na frente da casa. Dele, desceu um casal jovem e elegante. Olharam para Beatriz, que os observava curiosa.
— Ei, princesa! Sabe se os donos da casa estão?
— Pois eu sou a dona! — disse a menina corajosamente. — O que querem?
— Será que a avó Clara vive aqui? — o homem tirou um chocolate da bolsa e deu a Beatriz.
— Sim, sim! — uma voz animada soou, era a avó Clara. — Sandro, Ana, que bom vê-los! Entrem!
— Vamos entrar, dona da casa? — brincou o homem, que a avó chamara de Sandro, piscando para Beatriz.
Pouco depois, estavam todos sentados na cozinha, tomando chá e saboreando o bolo delicioso trazido pelos visitantes, conversando animadamente. Sandro era o filho mais novo da avó Clara, e Ana, sua esposa.
À tarde, Beatriz saiu com Ana para mostrar a vila, enquanto Sandro sentava-se na varanda com a mãe.
— Quem é aquela menina? — perguntou Sandro vendo Beatriz ao longe. Clara contou-lhe tudo. Ele balançou a cabeça. — Nunca gostei dessa Lena. É má, gananciosa, e educou os meninos da mesma forma!
— Como está o seu filho, Costinha? — lembrou a avó.
— Muito bem. Foi para o acampamento, e viemos passar uma semana aqui. Não vai se importar, vai?
— Não diga bobagem, filho!
Por uma semana, Beatriz esteve nas nuvens. Os tios não a deixavam sozinha. Iam juntos para a floresta, para o rio, para o mercadinho, pegando todos os doces que Beatriz desejava. Estava chegando o dia de se despedirem.
— Vocês virão nos visitar, não é? — perguntava Beatriz a Sandro e Ana, alternadamente.
— Claro, princesa! — Sandro sorria e a levantava no ar, enquanto Ana a apertava em um abraço.
Na última noite, depois que a menina adormeceu, o trio sentou-se à mesa em voz baixa.
— Tem certeza disso? — perguntou a avó preocupada. — Não quero que a menina sofra novamente!
— Mãe! Claro que sim! Nós a amamos muito! Especialmente a Ana. E o Costinha ficará feliz em ter uma irmãzinha!
— Tenham certeza! Se algo der errado, tragam-na de volta para mim!
Na manhã seguinte, Beatriz acordou com Sandro olhando para ela.
— Tio Sandro, o que foi? — perguntou surpresa.
— Pensamos, eu e tia Ana, e, talvez, você gostaria de ir nos visitar?
Beatriz hesitou.
— E a avó Clara?
— Ela te espera depois, e está ocupada, a Mimi vai ter filhotes.
— Será? Posso mesmo?
— Deve!
***
Dois anos se passaram.
— Avó! Finalmente, férias! Eu e o Costinha vamos até você! Para passar o verão todo! — Beatriz gritava ao telefone, animadíssima. — Está contente?
— Claro! — ria Clara, afastando o telefone do ouvido. — Os pais vêm com vocês?
— Não, vamos nós mesmos! Já somos grandes!
Colocando o telefone de lado, Clara deixou cair uma lágrima de alegria. Desde que fora embora, adotada por Sandro e Ana, Beatriz só a via em férias e datas especiais. Reconstruiu-se em uma nova família que a adorava.
Clara enxugou a lágrima e correu para a cozinha para pôr a massa do bolo a fermentar.






