Acabaram-se Completamente os Recursos de Uma Senhora.

Dinora Fernandes ficou sem dinheiro. Completamente sem. A carteira estava vazia, e mesmo no compartimento para moedas só restavam algumas de dez e cinquenta cêntimos… A senhora idosa suspirou: teria que resistir de alguma forma até à reforma na próxima semana. Conseguiria ela sobreviver: tinha aveia, um pouco de sêmola, batatas já restavam, e meio frasco de azeite. Mas, como alimentar o Pingo?…

Pingo era o gato que Dinora Fernandes encontrou no ano passado à porta de uma loja. Quem deixou aquele pobre animal à sua morte certa, a mulher não sabia, mas não conseguiu ignorar os miados do pequeno magote de pelos. E assim apareceu na sua vida um companheiro felino, que se transformou num majestoso gato ruivo. E certamente ele não aceitaria comer apenas aveia com água…

Não, normalmente a reforma da Dinora Fernandes era suficiente para o mês. O que ela e Pingo precisavam? Mas desta vez não calculou bem: a vizinha do terceiro andar pediu-lhe algum dinheiro emprestado. Como recusar? A Marisa foi recentemente deixada pelo marido, tem uma criança pequena para cuidar e ainda não voltou a trabalhar… É uma boa mulher, muito amável, e Dinora não duvidava que devolveria a dívida. Mas agora ela própria estava numa necessidade… E também não tinha ninguém de quem pedir emprestado…

Dinora não conhecia ninguém naquele prédio, além da Marisa. Mudara-se para ali há apenas um ano. E Pingo foi o primeiro a entrar no novo lar, como era apropriado… Na maioria dos apartamentos, os inquilinos mudavam constantemente: uns saíam, outros entravam. Como se dava para conhecer alguém assim? Quando muito, acenavam-se quando se cruzavam no elevador. Várias casas estavam vazias. E os outros residentes passavam a maior parte do dia no trabalho ou no trânsito, não lhes sobrava tempo para amizades com vizinhos…

No prédio onde Dinora vivia antes, tudo era diferente: conhecia todos e todos a conheciam. Viveu lá quase quarenta anos! Com muitos vizinhos até trabalhava no mesmo hospital. E na velhice teve de se mudar para a periferia da cidade… Ah…

A antiga casa Dinora e o marido conseguiram quando o filho nasceu. O falecido Henrique Afonso era um cirurgião de mão cheia – assim o diziam todos que trabalharam ou foram tratados por ele. Operou num hospital de bairro durante quase 38 anos… E ela era enfermeira no mesmo local.

Henrique Afonso era respeitado não só pelo seu talento, mas também pela bondade imensa. Nunca negava ajuda: aceitava casos desesperados, quando outros médicos desistiam, e depois cuidava dos pacientes, confiando apenas à esposa o cuidado com eles. Muitas vezes os alimentava, encorajava, e até fazia os curativos ele próprio. E trazia pessoas de volta à vida…

Certa vez – Dinora lembrava-se bem – levaram um homem das ruas para a enfermaria… Quanto tempo ele esteve no parque, era difícil dizer, mas chegou à mesa de cirurgia quase sem vida. Não era da cidade, veio a negócios e foi dar uma volta, quando alguém o atacou para roubar a carteira, o telemóvel e o casaco.

Henrique operou quase doze horas. E depois passou dias e noites na unidade de cuidados intensivos até o paciente começar a voltar. Descobriu-se então que, em casa, Leonor (assim se chamava o ferido) tinha uma filha adolescente. Viajando por apenas dois dias, tinha pedido à vizinha para tomar conta da menina…

Henrique Afonso foi buscar a filha ao vilarejo de Leonor e a trouxe para sua casa, até a recuperação completa do pai. Foi uma bondade que sempre lhe sobrou: se ajudava alguém, era de alma e coração…

A seu próprio filho com Dinora, eles acabaram por perder… Passando a maior parte do tempo no hospital, supriam tudo o que Marco precisava, verificavam os cadernos da escola, às vezes iam às reuniões de pais. E não notaram quando o filho se transformou num jovem cínico e sem princípios.

Marco não quis estudar, foi recusado no serviço militar por má visão. De dia dormia, de noite passava horas nos jogos de computador. E sempre precisava de dinheiro, que não hesitava em pedir aos pais…

– Dinora, em que criamos nosso filho? – perguntava o marido, vendo o filho esvaziar o frigorífico com os olhos vermelhos após mais uma noite sem dormir. – Quem vai querer saber de nós na velhice?

Dinora também pensava nisso. E percebia que não havia nada a esperar do filho…

Aconteceu…

Henrique tinha 65 anos quando sofreu um AVC. Recuperou-se, mas não podia operar mais. Não deixou o trabalho – ficou anos atendendo na clínica. Mas há três anos ele se foi… Voltou a casa do trabalho, tirou a roupa, sentou-se no sofá – e foi tudo. O coração parou…

E foi aí que Dinora entendeu plenamente a expressão “inferno na terra”… Marco atormentava a mãe, exigindo dinheiro para os seus brinquedos, para projetos prometidos a dar lucro, para um novo computador, e por aí fora…

Os pequenos ahorros, que ela e o marido conseguiram juntar, derreteram rapidamente. E a reforma de Dinora mal dava para o essencial. Impossível satisfazer todos os desejos de Marco…

Tentou convencer o filho a trabalhar. Isso só enfurecia Marco. E uma vez, ele agrediu a mãe…

Depois disso, Dinora percebeu que não poderia viver com o filho na mesma casa.

Através de um conhecido corretor, ex-paciente do marido, conseguiu vender rapidamente o apartamento de três quartos no centro por um bom preço. Com o dinheiro, Dinora comprou duas pequenas casas nos subúrbios – uma para ela e outra para Marco. E começou uma vida completamente diferente…

Dinora Fernandes sacudiu ligeiramente a cabeça, como que afastando lembranças tristes. Sim, não se vive só das memórias… É preciso inventar algo para sobreviver até à próxima semana…

A mulher dirigiu-se ao armário. Talvez devesse tentar vender alguns livros? No mercado – viu – vendiam velhos livros.

A biblioteca foi recolhida por eles durante a vida inteira, mas agora provavelmente não interessaria a mais ninguém… Aqui estava um volume de Eça. Edição maravilhosa! Esta foi uma prenda para Henrique de uma atriz que ele operou após uma fratura grave… Camões, Pessoa, Eça, Fialho de Almeida, Zola… Dinora passou os dedos nos livros, mas não conseguiu escolher nenhum…

“E se… vendesse o casaco?” – pensou de repente.

Foi ao vestíbulo, abriu o armário, tirou cuidadosamente o casaco de pele…

No guarda-roupa de Dinora, era a única peça de luxo. O marido deu-lhe o casaco no 45.º aniversário de casamento, pouco antes do AVC.

Entraram numa loja pequena, especializada em peles, para comprar um casaco de couro para Henrique. Aconteceu que o dono era também um ex-paciente. Quando viu o médico, ficou encantado. E ofereceu um desconto surpreendente. O marido desistiu imediatamente do casaco (“Uso o meu velho por mais uns anos”) e sugeriu que Dinora escolhesse o casaco que quisesse…

Ela passeou pelas prateleiras, mal se atreveu a imaginar-se com semelhante beleza… Até que o dono sugeriu que olhasse para o casaco de caraculo, escondendo a etiqueta de preços. Dinora experimentou o casaco… E Henrique, sem hesitar, disse: “Leva! Será um presente para o nosso 45.º aniversário!”

Dinora nunca vestiu aquele casaco… Henrique resmungava: “Porque é que guardas? Usa, antes que as traças o comam. Vivemos só uma vez! Pelo menos caminhas como uma rainha, já que na juventude foi impossível…”

Mas Dinora tinha pena de usar um luxo para uma mera ida às compras. E mais não ia a lado nenhum…

– Então, Pingo… – suspirou a mulher, – vou tentar conseguir dinheiro para te comprar carne e peixe… Talvez alguém pague nem que sejam cinco mil…

No pequeno mercado, havia pouca gente. Os raros clientes paravam num artigo que lhes interessava, negociavam, ou sacavam das carteiras e logo saíam. A maioria dirigia-se às bancas dos livros. Dinora, que estava à ponta, segurava o casaco nas mãos, e baixava o olhar toda vez que alguém passava e olhava para ela.

“Foi um erro trazer o casaco para cá… Devia ter trazido o Eça”, pensou…

Sua atenção virou-se para um carro que acabara de estacionar por perto. Uma mulher jovem saiu, e Dinora achou vagamente conhecida. Apressou-se em direção às bancas dos livros…

“Sim, cometi um erro, – pensou Dinora com tristeza outra vez. – Hoje, parece, meu Pingo ficará com fome.”

Suspirando, a frustrada vendedora começou a arrumar o casaco de volta no saco…

– Dona Dinora! É a senhora?!!

Dinora sobressaltou-se. A mulher do carro olhava para ela, tanto surpresa quanto contente:

– Não me reconhece? Sou a Leonor! Lembra? Morei consigo quando o papá ficou no hospital. Foi o Henrique Afonso que o operou!

– Leonor! Claro! Estranho, pensei que reconheci o rosto! – espantou-se Dinora. – O que fazes aqui? E o teu pai?..

– Espere, Dona Dinora, deixa-me contar, – interrompeu-a Leonor. – Andei à sua procura! Fui à sua antiga casa, mas lá tem gente nova e não sabem do seu endereço. Também fui ao hospital, mas ninguém consegiu ajudar. Deram-me um número, porém ninguém atende… O que aconteceu?..

Dinora suspirou:

– Ah, Leonor, é uma longa história… O Henrique já se foi, sabes…. E sem ele… Me fazes recordar tudo… A vida não é fácil sem meu marido…

As lágrimas começaram a rolar pelas suas faces. Leonor agarrou-a, abraçou-a, apertou o corpo magro no velho casaco… Disse:

– Saia daí, e venha connosco. Não aceitamos recusas! O papá ficará tão feliz em vê-la!

Com um sorriso, a mulher idosa seguiu a jovem para o carro…

Naquela noite, as lágrimas muitas vezes encheram os olhos de Dinora…
Enquanto relembravam o falecido Henrique com Leonor e o seu pai, quando mencionaram as difíceis relações com o filho…

Leonor descreveu como ela e o pai se mudaram um ano atrás. Tinham o seu próprio negócio, que expandiram após a mudança.

– Abrimos algumas lojas de móveis, temos uma pequena fábrica. Compramos a casa. Casei-me, o marido está a fechar contrato com um novo fornecedor. O papá mora connosco, – Leonor compartilhava com Dinora…

O tempo passou sem se dar conta. Quando olhou as horas, Dinora lembrou-se:

– Ah, o Pingo está esperando em casa, com fome! E nada comprei!

Leonor sorriu:

– Não se preocupe, Dona Dinora, não deixaremos o seu gatinho morrer à fome. Vamos ao supermercado agora e depois levamos você a casa como uma rainha!

Dinora se envergonhou:

– Leonor, deixa isso, querida. Vou devagarzinho…

Olhei diretamente nos olhos de Dinora:

– Minha querida, não foi para lhe encontrar que andei à procura apenas para a deixar ir assim. Você e o Henrique Afonso fizeram o impossível: trouxeram meu pai de volta à vida! E me aceitaram como filha, cuidaram de mim… Sabes, fiquei sem mãe cedo. E muitas vezes imagino como seria ela hoje… Você parece-se tanto com ela – pela bondade e pelo coração generoso… Gostaria de ser sua filha, se não for pedir muito. Só me permita estar por perto e se precisar alegrar seus dias…

E Dinora, uma vez mais, chorou, escondendo o rosto no ombro de Leonor… Leonor, também, tentava disfarçar as lágrimas.

Dinora saiu daquela casa com o casaco de pele. Leonor insistiu. A entrar no carro, a senhora sentiu mesmo-se como uma rainha.

“Henrique, meu querido, teu coração amoroso ainda me ajuda, – ela pensava. – Vês tu como as coisas são… Ajuda-se uma pessoa, e agora eu não estou mais sozinha… E o teu presente me serviu… Tens razão, querido: vivemos só uma vez…”.

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