Meninas Diante do Cirurgião: Irmãs de Oito Anos, Mas Não Gêmeas

As meninas estavam sentadas em frente ao cirurgião. Tinham oito anos e eram irmãs. Não gêmeas, não. O cirurgião, alto e careca, franzia a testa. A conversa seria muito pesada e séria. Ele pediu aos pais que saíssem e lhe dessem apenas cinco minutos. Queria muito falar e explicar. Mas o quê? Que a probabilidade de um resultado positivo era quase zero? Falar sobre a futilidade da vida? Que todos nós acabamos por lá? Para uma criança de oito anos?!

Ele tentava encontrar as palavras e, subconscientemente, adiava o início da conversa.

— Por que vocês estão carecas?

Perguntou ele para as irmãs, passando instintivamente a mão pela própria careca.

— Eu raspei o cabelo para apoiar minha irmã.

Respondeu uma das meninas, apertando com a mão esquerda a mão direita da irmã.

— Você a ama muito?

Continuou o cirurgião.

— Muito.

Respondeu a menina.

— Não se preocupe, doutor. Quero muito dividir meu fígado com ela. Ninguém me forçou a isso. Desde que ela ficou doente, decidi. Farei tudo para que ela melhore.

Os lábios do cirurgião crispavam-se.

— Um pouco antes seria melhor.

Murmurou ele quase para si mesmo.

— O que disse, doutor?

Perguntaram as meninas em uníssono.

— Estava a perguntar.

Respondeu o cirurgião.

— Do que vocês gostam mais?

E as meninas começaram a tagarelar.

O cirurgião, com dor interior, observava o rosto cansado da menina doente, que corava com as boas lembranças.

— Ah, se tivesse sido um pouco antes.

Repetia para si mesmo.

E as meninas listavam.

— Primeiro, quando ela melhorar, poderá brincar com o nosso gato querido, Tico. E assim que me sentir melhor, iremos ao zoológico ver os grandes papagaios e os quatis.

— Vocês gostam de animais?

Perguntava o cirurgião, ganhando tempo.

— Muito.

Responderam as irmãs em coro.

— Em casa, só temos o Tico. Pedimos à nossa mãe para trazer um gatinho que vive na escada do prédio, mas ela não deixa. Diz que minha irmã ainda não pode.

— Ela está certa.

Suspirou o doutor, tomando uma decisão.

— Não se preocupem. Farei tudo o que puder. Mas entendam.

O cirurgião hesitou.

— A questão é que não sou um mágico. Infelizmente.

— Doutor.

A menina doente levantou-se e aproximou-se dele.

— Doutor, não tenha medo. Não tenho medo da morte. Tenho tudo na vida. Pais amorosos, uma irmã e o gato Tico. Todos me amam muito. Isso significa que sempre se lembrarão de mim. E quem é lembrado nunca morre. Não é verdade?

O cirurgião engasgou. Tentou forçar as palavras através da garganta. Tossiu e afagou a cabeça da criança.

— Chamem os pais novamente.

Disse ele às meninas que saíam da sala.

A conversa foi pesada. Após a assinatura de todos os documentos necessários, ele acenou para os pais que saíram com passos de quem envelheceu subitamente.

A mãe das meninas segurava o choro. As crianças não podiam ver.

— Sabem de uma coisa?

Chamou ele.

Os pais das pequenas se voltaram.

— Sabem de uma coisa.

Repetiu o cirurgião.

— Tragam hoje o gatinho que tanto pedem. Que vive nos degraus.

— Sujo e cheio de pulgas. Quer que fiquem doentes antes da operação?

Respondeu a mulher.

O cirurgião levantou-se e aproximou-se dela. Olhou-a nos olhos e disse em voz baixa.

— Não entende que pode ser a última alegria dela? Preciso explicar algo tão simples? Comprem, cuidem das pulgas. Façam como quiserem, enfim.

Ele virou-se e sentou-se na mesa.

Os pais saíram.

Dias depois, as meninas foram internadas. Começaram a prepará-las para a operação de transplante de fígado. O cirurgião ficou muito tempo diante da porta do quarto antes de entrar.

Ele não acreditava em Deus e sempre escrevia essa palavra com minúscula, porque, quem viu tanto sofrimento e morte como ele, para de acreditar.

Agora ​​ficava em frente à porta, tentando lembrar palavras de alguma oração. Que sua mãe ensinou na infância.

Seus lábios moviam-se sem som, mas nenhuma palavra vinha à mente.

Ele empurrou a porta e entrou.

— Doutor!

Gritaram as meninas alegremente, e um peso saiu de sua alma.

— Doutor! Foi o senhor quem convenceu a mamãe?

Perguntou uma das irmãs.

— Não, não.

Respondeu ele.

— Foi ela mesma. Claro, ela mesmo.

Disse, sentando-se à beira da cama.

As meninas estenderam as mãos até ele e tocaram sua mão.

— Doutor, o senhor é muito bom.

Disse uma delas, e a outra confirmou.

— Obrigada.

Ele soluçou e saiu apressadamente do quarto. Correu pelo corredor e, ao entrar em seu escritório, começou a secar as lágrimas que rolavam pelas bochechas, mas então, de repente, alguém ao lado começou a aplaudir.

Ele olhou em volta, surpreso. Lá estavam os médicos do departamento e as enfermeiras. Eles aplaudiam em silêncio.

A surpresa no rosto do cirurgião falava por si.

— Um caso sem esperança, colega.

Disse o cirurgião mais velho.

— Ninguém, exceto você, se atreveu. Eu, um velho, tive medo. Não queria isso perto da aposentadoria. Não queria sair assim.

— Eu entendo você.

Respondeu o cirurgião.

— Mas não entendo a mim mesmo.

Retrucou o cirurgião mais velho, em seguida, estendeu suas mãos. Elas não tremiam.

— Dê-me a honra, colega.

Disse ele ao médico.

— Aceite-me na equipe. Não me deixe sair assim e me arrepender até o fim. Está bem?

— Está bem.

Sorriu o cirurgião, e todos aplaudiram novamente.

Antes da anestesia, a menina doente chamou o cirurgião. Ele se aproximou e inclinou-se.

— Obrigada pelo gatinho.

Disse ela e acrescentou.

— Chamei ele de Esperança.

— É uma gatinha?

Perguntou o doutor.

— Não, um gatinho.

Respondeu a menina com um risinho suave.

A cirurgia foi muito longa e difícil. Não enumerarei todas as dificuldades que surgiram. Só digo que o pequeno coração da menina parou duas vezes.

— Ela não suportará uma terceira vez.

Disse o cirurgião ao velho médico que o assistia.

— A terceira será a última.

E a terceira vez aconteceu.

O pequeno coração deu um sobressalto e parou.

Todos se apressaram nas medidas necessárias, e o velho cirurgião recuou para a parede e assentou-se.

Ele segurava o coração, e seus lábios murmuravam.

— Não. De jeito nenhum. Esta é minha última batalha, e eu decido.

O coração da pequena de repente voltou a bater.

— Costurem, por favor!

Gritou o cirurgião, e todos correram para a mesa e aos instrumentos.

Quando tudo terminou, e as meninas foram levadas da sala de operação, o cirurgião de repente notou.

— Colega, colega!

Chamou ele o velho cirurgião recostado na parede.

Mas ele não respondeu.

O cirurgião aproximou-se e olhou em seus olhos. E tirou o gorro de sua cabeça.

— Ai, meu Deus.

Disse ele.

— Como pode ser?

Depois notou.

— Saiu heroicamente. Deu tudo até o fim.

Quando ele saiu para encontrar os pais, que aguardavam no corredor, eles se levantaram e correram para ele.

— Calma, calma.

Disse ele, levantando as mãos.

— A operação foi bem-sucedida, mas é tudo que posso dizer. Vamos ter esperanças.

Um ano depois, a mãe das meninas ligou para o doutor e pediu.

— Doutor, você poderia nos fazer um favor?

As meninas querem muito que você vá ao zoológico conosco. Você poderia?

O cirurgião concordou.

As pequenas andavam pelo corredor, segurando suas mãos. Tagarelavam e sorriam. Contavam-lhe tudo. Como viviam e como Esperança era um travesso terrível.

E o cirurgião andava, ouvia e sorria. Na sua mente ecoavam aquelas palavras esquecidas de sua mãe. Que o ensinava a orar.

As letras formavam palavras, palavras linhas.

E seus lábios sussurravam sozinhos.

— O quê, o quê?

Perguntaram em uníssono as irmãs.

— Eu estava dizendo.

Sorriu o cirurgião.

— Eu estava dizendo. Vocês duas são meninas muito corajosas. Mantenham-se juntas e nada será assustador.

As meninas apertaram-se contra ele e o abraçaram, enquanto ele se lembrava do cirurgião mais velho, que naquele dia deu sua vida. Ele estava ali, sorrindo.

Essa é a história.

E eu não sei do que se trata.

Do amor das irmãs? Da determinação de um médico em assumir o que outros não podem?

Do velho cirurgião, que decidiu sair discretamente, mas não atrapalhou o salvamento das crianças?

O que é mais importante aqui?

Como decidir?

Como?

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