Ela gozava da pobreza dele, até descobrir quem ele era na verdade!
Nós, portugueses, às vezes somos rápidos a tirar ilações pelo aspeto dos outrosse usam sapatilhas de marca, se têm um iPhone novinho em folha, ou se compram o pão naquela padaria gourmet onde uma carcaça custa o mesmo que um almoço no restaurante da Dona Augusta. Mas por vezes o que vemos é só uma fatiota emprestada ou um disfarce que os abastados vestem para perceber quem realmente gosta deles, sem olhar ao saldo bancário. Esta história é mais um daqueles valentes puxões de orelhas para quem pensa que notas de euro pesam mais do que caráter.
**Cena 1: Encontro à porta do hotel**
À porta de um luxuoso hotel no Chiado, Beatriz, metida num vestido reluzente de estilista português, faz de barreira ao Gonçalo. O Gonçalo, coitado, parece ter saído de uma aula de mecânica: veste um hoodie cinzento, jeans já vistos melhores dias, e carrega um saco de papel pardo do Pingo Doce.
Beatriz deita-lhe um olhar que vale por dois desdéns e solta, bem alto:
**Ainda andas a fazer compras nos descontos do supermercado, Gonçalo? Há coisas que nunca mudam, pois não?**
**Cena 2: Orgulho e brilhantes**
Gonçalo olha para ela mais sereno que um monge no Mosteiro dos Jerónimos, sem nem um fiapo de despeito ou azedume nos olhos. Isso só irrita mais a Beatriz. Empina a mão com um anel tão grande que, com aquilo, podia abrir garrafas de vinho no São João.
**O meu novo marido acabou de me oferecer isto,** gaba-se ela. **Ele sim, sabe dar a volta à vida. Já tu… continuas a viver de trocos.**
**Cena 3: A reviravolta**
De repente, pára à porta uma berlina tão reluzente que até o guarda-nocturno parou de comer a bifana para a admirar. Sai do carro o Ruifato de corte à medida, laço impecável e ar de quem tem sempre mesa marcada no Ramiro. A Beatriz, toda convencida, abre um sorriso de catálogo e estende a mão para o cumprimentar.
**Olha, Rui, repara bem em quem fui encontrar!** exclama ela, cheia de vontade de continuar o espetáculo.
**Cena 4: O momento da verdade**
Mas o Rui nem a vê com olhos de ver. Ignora-lhe o cumprimento gelado, passa por ela como quem sacode migalhas da camisa, e detém-se diante do Gonçalo, inclinando-se com respeito.
**Senhor Tavares, mil desculpas pela demora!** diz o Rui, baixo e humilde. **O jato privado já está à sua espera em Lisboa. Podemos seguir quando quiser.**
**Cena 5: O desfecho**
O sorrisinho armado da Beatriz evapora-se num instante, ficando com ar de quem apanhou a bola com a mão na final da Taça. O Gonçalo, sempre tranquilo, entrega o saco do Pingo Doce ao Rui.
**Não faz mal, Rui. Vamos lá então,** murmura, sereno.
Nem se dignou a olhar para trás. Beatriz ficou plantada na calçada, mais parada que o elevador da Graça ao domingo, a ver o carro sumir com o “falhado” que ela tanto rebaixou.
**E depois?**
Beatriz demorou semanas a acordar desse pesadelo com sotaque lisboeta. Entretanto, descobriu que o “Senhor Tavares” era nem mais nem menos que o dono do grupo empresarial onde o seu tão ilustre marido trabalhava. Uma semanita depois, o marido recebeu um convite especial para se despedir e deixar vaga a chefia por questões de idoneidade familiar.
**Moral da história:** Nunca julgues o freguês pela capa ou pelo saco do supermercado. Às vezes, quem parece estar a contar os cêntimos é quem paga o ordenado de muita gente de fato e gravata.






