Troquei o anel feio da minha avó por uma joia moderna e a minha mãe fez um escândalo

A minha mãe deu-me um anel que era da minha avó. Mas vamos ser sinceros: não era uma daquelas joias vintage que aparecem nas novelas e fazem toda a gente suspirar. Era feio. Feio com todas as letras se é que se pode chamar aquilo de desenho. Além disso, parecia que pertencia a uma senhora de 90 anos com dedos de salsicha, porque ficava enorme em mim. Nunca na vida o ia usar.

Depois pensei: sobre o anel, agora é MEU posso fazer o que quiser! Peguei no dito cujo e fui à ourivesaria aqui no Porto, troquei por outro muito mais giro, claro que teve de ser com uns euros a mais, mas pelo menos este gosto de olhar para ele.

Toda contente, liguei à minha mãe a contar a façanha e pronto. Berrou comigo como se tivesse vendido a alma ao diabo. Como é que foste capaz?, dizia ela, Nem me pediste autorização! Isso não é só um anel, é uma memória. Uma relíquia de família!

Bem, tentei explicar que estava nas minhas mãos, logo faço dela o que quiser. Só que foi pregar para surdos. Ela desligou meio dramática. Passado um tempo, voltou a ligar, mas eu estava tão chateada que deixei tocar. Mandou-me uma mensagem escrita cheia de lamentos: afinal o anel não era bem um presente, era para EU guardar, como se fosse a arca dos segredos lá de casa, e não mexer, não cheirar, não pensar sequer em alterar!

Agora fico eu a olhar para o anel novo, a pensar nisto tudo e não entendo bem. Ou se dá uma coisa, ou não se dá, não é? Para mais, a avó continua viva e cá entre nós, o clima entre mãe, avó e eu também tem dias. Que espécie de recordação forçada é esta?

Li este história ontem no Facebook e deixo-vos já: fiquei agarrada. Eu, pessoalmente, nunca conseguiria desfazer-me de tal relíquia familiar feia ou não, faz parte da história. Mesmo que não sirva para nada, mesmo que o design seja mais triste que segunda-feira chuvosa em Lisboa, continua a ser um pedaço da família. Quem sabe no futuro, quando os meus filhos ou netos arregalarem os olhos a ver o tipo de coisas que usávamos? Porque, convenhamos, a moda vai e volta quem sabe se não vai ser chique outra vez? E é uma memória da mãe. E da avó. Vale o seu peso em ouro.

Bem, cá está a rapariga, trocando tudo por coisa mais moderna. Porque o ouro de hoje enfim, deixemos essa discussão. No limite, podia ter mandado adaptar a peça, assim mantinha a história e ainda dava para mostrar aos amigos. A joia ficava menos insuportável de olhar e ia continuar a circular pelas gerações. Sempre o mesmo anel, mas com upgrade! E se quiser algo novo, compra-se, mas deixa-se o velho em paz.

Coloco-me do lado da mãe entendo perfeitamente o choque. Afinal, nem lhe passou pela cabeça que a filha não percebesse que aquilo era para estimar, guardar e, de preferência, não perder nunca. E, sejamos sinceros, até vender presentes banais é meio deselegante quanto mais o anel da avó!

Mas por outro lado, há que tentar perceber a rapariga. Talvez seja daquelas pessoas que não se ligam ao passado nem às coisas materiais. Uma prática: usa, gosta, senão é para despachar. Afinal, nos mercados de velharias há montes de memórias de família esquecidas mais cedo ou mais tarde acabam sempre por lá parar. Por isso, viver o momento, usar o que se gosta e o resto para o baú? Se ela não precisa dessas lembranças, vale a pena forçar? Talvez a culpa também seja da mãe, que nunca lhe transmitiu esse valor das histórias e objetos antigos.

No fim, cada família é um filme, e os anéis, relíquias ou não, acabam sempre com um drama português qualquer.

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