Quando o Marido Não Para de Comparar: “Se Queres Tanto a Mãe, Faz as Malas e Vai Viver Com Ela!”

Diário de João, 15 de novembro

Poupaste no sal outra vez? Quantas vezes é preciso dizer que assim fica tudo sem graça, como sopa de hospital a voz do Marta soou enquanto ela afastava o prato de cozido de legumes que eu tinha levado quase uma hora a fazer, agarrando-se ao saleiro. Olha, a minha mãe sempre diz: falta de sal na panela, sal a mais nas costas, mas ela tem mão leve, sente o ponto do tempero. Tu segues a receita à risca, mas não pões o coração no que fazes.

Fiquei calado, a vê-la despejar sal em cima dos legumes que se estavam a desfazer. Uma mola qualquer, esticada ao máximo nestes três anos de casamento, voltou a apertar-se cá dentro. Respirei fundo para não mostrar que estava irritado, e virei-me para a janela a observar os candeeiros a acender-se nas ruas de Lisboa.

Fiz como a nutricionista recomendou, Marta respondi, baixo, a arrumar as chávenas de café. Tu tiveste azia a semana passada, lembras-te?

Escusas de te esconderes atrás dos médicos desvalorizou ela, mastigando o bocado de carne. Só tens que admitir que a culinária não é o teu forte. Olha quando fomos a casa da minha mãe no domingo passado? Uns pastéis de bacalhau que ela faz… todos iguais, pequenos, perfeitinhos. E o molho? Maionese caseira, nada de ketchup desses do Pingo Doce. A minha mãe sabe fazer de uma casa um lar, João. Cheira sempre a bolo acabado de fazer. Já aqui só se sente o cheiro a detergente.

Mordi o lábio. O cheiro era de detergente porque tinha arrumado a cozinha depois de ela tentar fritar ovos com presunto, deixando gordura até nos caixilhos da janela. Mas não valia a pena lembrar isso: a Marta tinha o dom de ignorar as próprias asneiras e transformar as minhas falhas, por pequenas que fossem, num drama.

O resto do jantar fez-se ao som da TV e das críticas soltas da Marta sobre como gerir uma casa como deve ser. Eu ia acenando com a cabeça, mas no pensamento já estava no relatório que precisava de acabar para amanhã no escritório. Trabalho como gestor de contabilidade numa empresa de transportes o fim do trimestre deixa-me exausto. O que mais quero quando chego a casa é sossego, só isso. Em vez disso, o que tenho garantido é a comparação diária com a inigualável, santa e perfeita D. Amélia.

A minha sogra é uma mulher cheia de energia, dominadora e justiça seja feita despachada para as lides da casa. Mas sempre que vai limpar, a casa parece um campo de batalha: móveis arrastados, tapetes batidos e pó retirado até dos candeeiros. A Marta cresceu neste culto materno da casa e agora não percebe porque é que eu não quero sacrificar todo o meu tempo livre ao altar da vida doméstica.

A noite caía, mas a tensão não parava de crescer. Enquanto a Marta se estendia no sofá a ver as novelas, decidi passar a ferro as camisas do dia seguinte. Preparei a tábua, liguei o ferro e peguei naquela camisa azul escura, das boas, mas ingrata para passar.

João, já vais começar? ouvi-lhe perguntar às minhas costas, apanhando-me de surpresa.

Lá estava ela, braços cruzados, olhar crítico a medir o que eu fazia.

O que é agora, Marta?

Lá estás tu… Quem é que passa as camisas assim? Deixas marcas nos punhos! A minha mãe sempre ensinou: primeiro mangas, depois costas, depois o colarinho por fim, e tem de ser com um pano húmido, nunca diretamente com vapor! Vais estragar a camisa.

Pousei o ferro devagar. O vapor soltou-se a assobiar, parecendo dar voz aos meus próprios pensamentos.

Se sabes tão bem como é que se faz, porque não passas tu? perguntei, esforçando-me para soar calmo.

Ela revirou os olhos com desdém.

Pronto, já começou. Qualquer coisa que diga, armas logo um caso. Só te quero ajudar a melhorar! A minha mãe diz que uma mulher deve saber cuidar da roupa do marido, é o reflexo da família. Tu nunca tens tempo para nada é só trabalho, trabalho… E a casa está sempre desarrumada.

Desarrumada? olhei à volta da sala impecável. Marta, temos comida feita, a casa limpa, roupa lavada. Ganho tanto ou mais do que tu, por que raio é que devo fazer um curso avançado de como ser dona de casa à moda da tua mãe?

Voltamos ao mesmo, o dinheiro! Não percebes que não é o dinheiro? Falo de cuidar, de alma feminina. A minha mãe foi bibliotecária a vida toda e nunca faltou comida caseira, sopa e bolo no lanche. O meu pai andava sempre bem arranjado. Mas tu… Enfim. Pronto, passa como sabes. Se for amarrotada, vou assim. Ao menos veem com quem casei.

Virou-me as costas, foi para o quarto e deixou-me sozinho com o ferro arrefecido e aquele amargo preso na garganta. Apetecia-me sair dali e ir-me embora dali para fora. Mas para onde iria? Aquela casa era minha, era o T2 que herdei dos meus avós ainda antes de casar. A Marta foi lá viver só com uma mala e um portátil velho; em três anos, já andava como se mandasse ali e eu fosse apenas um empregado mal pago.

Os dias seguintes foram uma espécie de guerra fria. Ela suspirava alto quando via pó num canto do espelho, ou temperava qualquer prato antes mesmo de lhe tocar. Eu mergulhava no trabalho, respondendo com silêncio. No sábado tínhamos o inevitável almoço em casa da D. Amélia.

O sábado começou com pressas. Marta andava pela casa a apressar-me.

João, tu tens sempre que te demorar tanto! A mãe não suporta atrasos. Veste a camisa azul, não as calças de ganga. Ela diz que ficas com ar de miúdo, já tens quarenta anos, anda lá.

Eu ia a vestir as calças de ganga, confortáveis. Fiquei parado.

Sinto-me bem assim, Marta. Vamos a um almoço de família, não à tomada de posse do presidente.

Respeito pelos mais velhos atirou ela. A mãe prepara tudo com carinho e tu vais de qualquer maneira…

Fui assim mesmo. Pelo caminho, silêncio. Ela crispada, a olhar em frente, batendo no volante do nosso carro, cujo crédito pago na maior parte eu.

A casa da sogra cheirava a pão quente e carne assada. Amélia, já de avental engomado, recebeu-nos com um beijo ao filho. Joãozinho, estás magro! A Marta deixa-te com fome? perguntou em voz alta, lançando-me um olhar rápido. Anda, Marta, os chinelos estão ali. Não me estragues o chão, esfreguei-o ontem com cera!

À mesa, cada fatia de carne era o recomeço do habitual monólogo. D. Amélia servia o filho com esmero, lamentando o seu aspeto.

Prova o pato, João. Passei horas nele, assa-se devagar… Hoje em dia os jovens só querem cozinhar em máquinas e pronto. Isso não é comida, é comida para galinhas, não achas, Martinha?

Sorri, mexendo a salada.

Cada um tem o seu ritmo, D. Amélia. A bimby dá muito jeito.

Ritmo! exclamou ela. Antes fazia-se de tudo: trabalhar, cuidar dos filhos, da casa, e ainda sobrava tempo. Agora têm tudo máquinas, aspiradores, máquinas de loiça e não há calor de lar. Fui lá a casa na semana passada… A cortina cinzenta, as janelas baças… É triste. As janelas são a alma de uma casa de mulher.

A Marta, à minha frente, abanava a cabeça com ar de quem concorda.

Também lhe digo, mãe! Vamos lavar as cortinas! E ela: Chamamos uma empresa de limpezas. Já viste? Pagar a estranhos para limparem a casa!

Empresa de limpezas? D. Amélia olhou para mim como se eu tivesse sugerido uma tragédia. Marta, isso é um disparate! Uma mulher tem que tocar em cada recanto da casa. Energia alheia só traz azar. Por isso é que não há filhos e estão sempre às turras, presumo.

Doeu. O assunto dos filhos magoava, mas estávamos a tratar disso com o médico, embora sem resultados. A sogra sabia, e aproveitava sempre para alfinetar.

Nós só discutimos quando a Marta me compara consigo, D. Amélia disse firme, pousando os talheres.

Fez-se silêncio. A Marta, a mastigar tarte, deitou-me um olhar estranho.

Qual é o mal de querer seguir o exemplo do melhor? admirou-se a sogra. O João orgulha-se da mãe. Ele precisa de uma esposa à altura. Devias era trazer um caderno e apontar as receitas, filha. A ele faltam-lhe certos cuidados.

Exatamente! reforçou a Marta. João, não repliques. A mãe tem razão. Se fosses mais cuidadoso, cá em casa também brilhava tudo como na dela. Olha o pó nos rodapés…

Foi aí que algo em mim se partiu de vez. Percebi que tinha chegado ao meu limite. Olhei para as duas, satisfeitas, em sintonia.

Obrigado pelo almoço, estava ótimo disse, deixando o prato.

Vais-te já embora? admirou-se D. Amélia. Ainda nem servimos o bolo!

Não me vou embora corrigi, levantando-me. Mas acho que o João fica por aqui a tomar chá. Faz-lhe bem passar um tempo no ambiente em que se sente melhor.

João! sussurrou a Marta ao meu lado, apertando-me o braço. Senta-te, não faças esta figura diante de toda a gente!

Vou para casa, Marta. Dói-me a cabeça. Vem quando quiseres, as chaves tens tu.

Saí, respirei o ar frio da tarde. Um alívio esquisito encheu-me, como se algo me tivesse saído do peito. Acendi um cigarro, a cabeça a fervilhar.

Passei a tarde a preparar o que já sabia ser necessário. Fui buscar as malas grandes ao armário, as mesmas das férias no Algarve. Abri o guarda-roupa da Marta e, com cuidado, dobrei-lhe as roupas: vestidos, casacos, sapatilhas, papéis. Nem o blazer de linho escapou, ficou tudo pronto para sair.

A Marta chegou tarde, cheirava a bolo de laranja e a sensação de vitória.

O que é que foi aquilo? A minha mãe ficou pior. Subiu-lhe a tensão! Precisei de lhe dar calmantes. Só pensas em ti, João.

Foi ao quarto e parou, boquiaberta diante das malas e das caixas no chão. O guarda-roupa vazio.

O que é isto…? Vamos de viagem?

Sentei-me, sereno, no sofá, o livro sobre os joelhos.

Não vamos lado nenhum, Marta. Vais tu.

Como assim? Férias? Eu nem pedi nada no trabalho!

Vais viver para casa da tua mãe.

Ela não queria acreditar.

Estás a brincar? João, desfaz isso tudo. Quero ir dormir, estou cansada.

Não estou a brincar. Está tudo pronto. Amanhã, às 9h, vem cá uma carrinha de mudanças.

A cor desapareceu-lhe da face.

Estás mesmo a correr-me daqui?! Da minha própria casa?!

Da minha casa corrigi. Fica claro: o apartamento é meu, veio da minha família. Só estávamos aqui juntos porque fiz questão. Mas se aqui sofres tanto, está na hora de mudares.

Eu sofro?! Faço tudo por ti! Tento ajudar!

Tentaste transformar-me num reflexo da tua mãe durante anos. Tudo era melhor na casa dela: a comida, a limpeza, a organização, tu própria. Recusei-me a competir com ela. Não quero e não posso.

Mas somos família! balbuciou ela.

Família apoia, não critica. Nunca fui suficiente para ti, sempre precisaste que alguém fosse melhor. Agora podes ter esse padrão todos os dias.

Levantei-me e apontei para as malas.

Podes voltar para o teu lar de origem. A tua mãe faz tudo ao teu jeito; será mais feliz. Eu só quero tranquilidade.

Ela ainda tentou protestar: ia falar em partilhas. Disse que meteu dinheiro nas obras! Mas tinha recibos de tudo: o imóvel era herdado, o dinheiro das obras era meu. O máximo que gastou foram uns 300 euros em tintas e papel de parede. Ofereci-me para devolver, ou pagar por transferência, se preferisse.

A Marta percebeu que estava perdida. O salário dela mal dava para o essencial, e nunca evoluiu tanto na carreira. A minha vida corria melhor.

Isto faz sentido? Vais mesmo acabar o casamento por causa de um tempero num cozido? tremeu-lhe a voz. João, eu amo-te. Só tenho esta maneira de ser. Prometo que não volto a comparar.

Uma semana? Um mês? sacudi a cabeça. O problema és tu, Marta, que nunca cresceste. Queres uma mãe, não um marido. Quero vir para casa e respirar sem ser examinado todos os dias.

Dormimos em quartos separados. Às nove da manhã seguinte a carrinha chegou e tudo saiu.

A Marta ficou junto à porta, desfeita.

João, não me faças isto! A minha mãe não vai aguentar! O que lhe digo?

Diz a verdade. Que voltei a devolver-te à melhor anfitriã de todas.

Fechei a porta silenciosamente. Respirei. E, estranhamente, soltei uma gargalhada solta, livre. Silêncio total na casa. Ninguém a criticar, ninguém a mandar.

Passou uma semana. Contratei uma senhora das limpezas. A casa ficou impecável e a minha conta de energia nem mexeu. Jantava refeições prontas do mercado ou petiscava com amigos. Tomava banhos demorados, lia, via séries, sem sentir que tinha de me levantar para passar roupa.

Na quinta-feira à noite o telefone tocou. Era o número de D. Amélia.

João! Que brincadeira é esta? bufou a sogra. Expulsaste a Marta? Ela anda deitada no sofá a pedir comida, a fazer desarrumos! Eu não tenho idade para isto. Ele não pára de pedir que lhe tragam coisas, que lhe lavem roupa! Eu já lhe disse para ir ter contigo!

Sabe, D. Amélia, a Marta só pede aquilo a que sempre a habituaram. Eu não tenho condições para esse serviço. Tenho emprego a tempo inteiro.

Emprego! Uma mulher é para mimar o marido! Vai lá buscá-la! Ontem disse-me que o meu pato estava salgado! O MEU pato! Salgado!

Mal contive o riso.

Desculpe, mas não a vou buscar. Vamos divorciar-nos. Pode ficar consigo ou então que alugue casa própria e aprenda a cuidar de si.

Divórcio? E depois? Quem é que te quer com quarenta anos e divorciado? A Marta é boa rapariga…

Ótimo. Então cuide dela. Eu já tratei de mim.

Bloqueei o número. Passado um mês, encontrámo-nos no tribunal. A Marta parecia caída, a blusa amarrotada, olheiras profundas.

João, voltamos a tentar? tentou, a olhar para o chão. Em casa da minha mãe não aguento. Não me deixa em paz. Achei que ela me ia mimar, mas só manda e manda. Contigo era mais calmo. Mesmo sem tempero, ao menos podia respirar.

Olhei para ela. Tive pena, só isso.

Só percebeste quando deste valor ao que tiveste perdido. Mas eu não quero uma ambiente. Quero alguém ao meu lado.

Tento mudar, faço por merecer!

Aprende por ti. Cresce. Eu agora só sei que, nesta casa, já ninguém me compara a ninguém, e isso é demasiado bom para se perder.

Sai enquanto ela se arrastava para uma paragem. No meu carro, repousava uma brochura de viagens. Havia tempos que queria visitar Itália, escolha sempre adiada porque achava caro e preferia ir ao campo com a mãe.

Chega de campos. Agora só quero a minha vida, ao meu ritmo. Liguei o rádio e acelerei. Finalmente percebi: nunca seremos felizes se tentamos viver a vida ao ritmo dos outros, ou debaixo da comparação constante. Merecemos, todos, liberdade e respeito. E isso nunca é demais, mesmo que digam que lhe falta tempero.

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