O pai recebeu uma mensagem codificada do filho e percebeu que precisava agir imediatamente

Imagina uma cena desfocada, quase líquida pela estranheza do sonho: a tua filha adolescente, chamada Mafalda, escoa-se pelas ruas de Lisboa com um grupo de amigos cujos rostos se dissolvem como bruma sobre o Tejo. Como qualquer mãe ou pai inquieto, levantas o telemóvel com dedos que parecem feitos de vidro e marcas o número dela, só para ouvir a melodia trémula da sua voz e o inevitável estou bem, mãe. Mas, nesse mundo flutuante e surreal, esse bem escorre como areia entre os dedos, e mais tarde descobres que Mafalda provou vinho verde pela primeira vez ou talvez tenha embarcado em algo ainda mais estranho, impossível de nomear dentro desta lógica de sonho.

Havia um pastor chamado Bartolomeu Figueiredo, homem dos salmos e das ruelas históricas do Porto, bastante desperto para os labirintos psicológicos dos jovens. Ele queria evitar para o filho mais novo, Luís, a sensação de estar encurralado entre gargalhadas e julgamentos, como peixe fora de água na maré das festas. Bartolomeu, que também crescera nos corredores frios de uma casa paroquial, sabia quão cruéis podiam ser os pares, mesmo no pátio da escola ou nos banquinhos do Jardim da Estrela. Queria que o Luís sentisse confiança suficiente não só para falar, mas para ter uma ponte secreta de fuga quando o invisible peso da plateia se tornasse insuportável.

Foi então que Bartolomeu, embalado pelo marulhar das águas do Douro e pelo som longínquo de sinos a tocar, engendrou um código: um simples X enviado por Luís a qualquer membro da família seja a ele, à mãe Umbelina, ou aos irmãos Matilde e João. Quem recebesse o X devia seguir a coreografia etérea de ligar ao Luís poucos minutos depois, abrindo caminho a uma conversa cuidadosamente encenada:

Estou, Luís? Luís, aconteceu algo estranho. Tenho mesmo de ir buscar-te neste instante!
Mas o que se passou, pá?
Quando chegares, explico tudo. Prepara-te, estarei aí em cinco minutos.

Neste ritual onírico, Luís poderia virar-se para os amigos com o ar cansado de quem carrega antigos segredos e dizer apenas que precisava de regressar a casa, sem vergonha, apenas um compromisso inadiável e assim partia, como se flutuasse em direcção ao eléctrico 28, perdendo-se no nevoeiro espesso de Alfama.

O segredo principal nesta lógica de sonho é nunca falhar ao teu filho no momento estranho ou difícil. Porque facilmente se pode perder alguém nas curvas incertas da adolescência, mas construir uma ponte sólida de confiança, onde o jovem aprende a dançar entre o certo e o errado e escolhe o caminho luminoso, vale muito mais do que qualquer moeda de euro que brilha fugaz no fundo de um bolso.

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