O meu pai proibiu-me de pegar a minha filha ao colo, temendo que fosse demasiado meiga com a neta. Mais recentemente, a minha menina começou a gatinhar e, sempre que eu saía do quarto, lá vinha ela atrás de mim, ansiosa por um colinho. O meu pai bem insiste: Não a mimar demais, Alice! Se ficar no chão, aprende a fazer as coisas sozinha. Mas confesso, não sou de ferro. Mal resisto à tentação de a abraçar, e às vezes dou por mim a pensar se não estarei a exagerar na proteção.
Admito: sou, talvez, demasiado meiga com ela. Sempre que chora, lá estou eu a dar festinhas. Em vez de a repreender, encho-a de ternura e fico com o coração partido quando a vejo triste. Afinal, talvez esteja a compensar a falta de carinho de que eu própria senti falta em pequena. Depois de ter perdido a minha mãe, cresci num lar em Braga, sem nunca chegar a conhecer os meus pais biológicos. Os meus pais adotivos, primos da minha mãe, acolheram-me quando souberam da minha história e deram-me um novo lar.
No início, foi tudo menos fácil. O meu pai adotivo era reservado como um bacalhau em janeiro, e a minha mãe trabalhava dia e noite para pôr comida na mesa, sem tempo para grandes manifestações de afeto. Sempre soube que gostavam de mim, mas dizê-lo em voz alta era conversa rara. Criei, por isso, a minha própria história: imaginava-me uma princesa em Lisboa, a governar um reino generoso e cheio de afetos.
À medida que fui crescendo, procurei aprovação e carinho onde calhava, sobretudo em namoros. Agarrava-me a qualquer migalha de atenção e arrastei, durante cinco anos, uma relação tóxica, só por medo de ficar para tia sem nunca encontrar o tal grande amor. O meu marido, Francisco, é atencioso e conhece parte do meu passado, embora não saiba todos os detalhes. Apesar das minhas cicatrizes, não consigo evitar: mimo sem limites a minha filha Matilde, convencida de que ela merece todo o amor do mundo, ao contrário da infância solitária que eu tive. E quando oiço o meu pai reclamar do excesso de colo, só me apetece responder: Valha-me Santo António, se isso for problema, queixem-se ao fado!Às vezes, enquanto balanço a Matilde no colo e ela sorri com aquele brilho no olhar, dou por mim a pensar como teria sido se, em miúda, alguém tivesse feito o mesmo por mim. Sinto, então, que todos os abraços que lhe dou acabam por sarar também as feridas antigas dentro de mim. Talvez esteja a mimá-la demais, talvez esteja só a ensiná-la que o mundo pode ser um lugar terno.
E se um dia ela me perguntar porque a aperto tanto, hei de sorrir e dizer: “Porque há abraços que demoram uma vida inteira a chegar, filha. E os teus cabem todos nos meus braços.”





