O filho da minha melhor amiga é um rapaz extraordinário. Sempre foi bom aluno, terminou os estudos, arranjou trabalho e dedicou-se de corpo e alma. Agora, tornou-se um empresário de sucesso, com uma moradia no Estoril e um apartamento mesmo no centro de Lisboanão estou a exagerar, é mesmo um encanto de pessoa, um verdadeiro orgulho.
Mas como há sempre um mas Casou-se com uma rapariga. Uma rapariga terrível, saída de uma família desfeita, azeda, ciumenta e até cruel. E olhem que não são palavras da minha amiga, que até entregou o seu único filho nas mãos dela são factos.
Para começar, essa víbora afastou todos os amigos dele. Para que precisas desses tipos? Só vêm cá beber, só querem aproveitar-se de ti, não te fazem falta nenhuma, dizia ela sem rodeios.
Depois, foi eliminando à vez todos os familiares dele. A família do rapaz é grande e unidacelebram tudo juntos, telefonam-se frequentemente, são o exemplo do que é um bom clã português.
A mulher, primeiro, revirava os olhos a qualquer convite vindo da família. Inventava compromissos de última hora quando eram chamados para jantares, ou então declarava súbitas enxaquecas sempre que alguém os ia visitar.
Em pouco tempo, só a mãe dele aparecia de vez em quando, porque morria de saudades do neto e do filho. E claro, também há aquele sentimento de nostalgia.
A cada visita, a nora arranjava confusão.
Não era com insultos ou berros, mas num tom cortante, frio, Já disse quinhentas vezes, mas parece que não consegues percebernão tragas prendas baratas, aqui só usamos o que é de qualidade e tu só trazes coisas sem valor.
O filho assistia a tudo ao lado, abanando a cabeça: Mãe, por amor de Deus
Ontem, encontrei-me com a minha amiga e outra companheira nossa. Ela chorava, mostrando-me uma mensagem no telemóvel com as mãos a tremer. A nora escreveu-lhe a dizer que ela e o marido decidiram que era melhor que ela não fosse mais lá a casa.
Entre lágrimas, contou-me que, depois, o filho lhe ligou e disse: Mãe, fazes mal à minha mulher. Quando vens cá, ela fica dias sem se recompor.
No entanto, a questão não era essa. Ficámos ali as três, a suspirar, e eu só pensava: pobre mulher, que sorte tão amarga teve ela, que desgraça de nora!
Até que a nossa amiga, sempre mais pragmática, saiu-se com um: Mas afinal, de quem é a culpa? Foste tu que criaste um filho assim, frio e sem coração.
Exaltei-me, zangada. Isso não era justo! O que é que ele podia fazer, se a mulher era mesmo daquela maneira? Ele só queria evitar discussões, preservar a família, manter a paz Ainda me lembro como ele, no 6.º ano, lhe desenhou com tanto carinho um coração e uma flor com os dizeres Feliz Dia da Mãe para o 8 de março.
Se não fosse a mulher, nada disto teria acontecido
A amiga limitou-se a encolher os ombros: Se um homem não quisesse ser mau, nenhuma mulher do mundo o obrigava. E foi-se embora.
De repente, pareceu-me que tinha tirado uma venda dos olhos.
Durante toda a minha vida, acreditei naquela história de que um homem bom casa com uma mulher má.
E ali estava a resposta.
No fim de contas, um homem é mesquinho porque é mesquinho, não porque alguma mulher má o obrigou a sê-lo.





