Mulheres Felizes Portuguesas Estão Sempre Deslumbrantes: Aos Quarenta, Lília Descobre a Nova Vida Ap…

Mulheres felizes estão sempre deslumbrantes

Leonor vivia um turbilhão de emoções, devastada pela traição do marido. Aos quarenta anos, viu-se sozinha a filha, Beatriz, estudava na universidade em Coimbra. Dois meses atrás, Ricardo chegou em casa com olhar frio e disse-lhe sem rodeios:

Vou embora, apaixonei-me por outra pessoa.

Como assim? Por quem? perguntou Leonor, surpreendida pela brusquidão.

Da mesma maneira que os homens fazem: apaixonei-me por outra, sinto-me bem com ela, ao teu lado já não penso em ti. Não me peças para ficar, está decidido respondeu Ricardo, com uma tranquilidade assustadora.

Mal terminou a frase, juntou uns pertences à pressa, enfiou-os na mala e saiu, fechando a porta sem olhar para trás. Só mais tarde, revisitando mentalmente o momento, Leonor percebeu que ele vinha preparando a partida há tempo; aquele foi só o golpe final.

Chorou muito. Sentiu-se vazia. A vida parecia ter parado; não queria ver ninguém, nem responder aos telefonemas insistentes da filha ou da amiga. No trabalho, evitava conversar com os colegas, uns olhavam com pena, outros com ironia. Leonor chegou a alimentar esperança:

Talvez Ricardo se canse daquela mulher, volte para mim e eu o perdoe Eu ainda o amo.

Ao sábado, acordou cedo, mas ficou deitada sem ânimo nem destino. Perto das onze da manhã, o telemóvel tocou.

Quem será que me liga a esta hora? Que falta de vontade de falar com alguém pensou, ignorando o toque. Olhou para o visor por instinto, era um número desconhecido. E se for o Ricardo? E se perdeu o telemóvel, ou trocou de número?… Talvez quisesse voltar. Deviam ter atendido

Mal terminou de pensar, o telefone voltou a tocar.

Sim? disse, elevando o tom atacado.

Olá! respondeu uma voz feminina, cheia de alegria.

Quem fala? perguntou Leonor, com voz seca.

Leonor, não reconheces a voz da tua amiga? Sou eu, Catarina!

Leonor sentiu-se frustrada, por um momento tinha imaginado que fosse Ricardo.

Ah Sim

Leonor, estás bem? Pareces tão abatida

Não estou bem murmurou e desligou, os olhos transbordando de lágrimas.

Sentou-se no sofá, tentando acalmar-se. Pouco depois, ouviram-se campainha na porta. Leonor sobressaltou-se, quase ansiosa.

Será que é o Ricardo? pensou enquanto abria a porta.

Olá! disse, animada, uma mulher elegante, cheirosa, maquilhada e vestida com gosto: era Catarina, amiga de infância e colega do liceu. Dir-se-ia uma senhora de revista de moda. Catarina tinha ido para Lisboa estudar e em quinze anos só se tinham visto uma vez. Habituaram-se a partilhar confidências, saídas, desabafos.

Catarina, estás deslumbrante escapou-se-lhe.

Olá, amiga! Sempre fui assim mas tu ela olhou-a da cabeça aos pés, crítica não vais deixar-me entrar?

Leonor recolheu-se e fez sinal para que entrasse.

Catarina vinha preparada: entrou direto para a cozinha, tirou da bolsa uma garrafa de vinho do Douro, um bolo e laranjas frescas.

Vai buscar os copos, vamos brindar ao nosso reencontro. Nem me lembro quando falámos pela última vez, parece há séculos dizia Catarina, Leonor apenas preparou dois copos, cortou o bolo; Catarina abriu a garrafa, serviu-as, e propôs:

À nossa amizade! brindou, bebendo de um gole. Leonor acompanhou-a silenciosa.

O segundo copo trouxe à tona as amarguras de Leonor, que, sem se conter, desabafou tudo. Catarina ouviu atentamente, sem interromper. Quando terminou, Catarina encolheu os ombros:

Ó Leonor, achava mesmo que tinha acontecido alguma tragédia.

Mas é uma tragédia! Tu não percebes Nunca passaste por isto lamentou Leonor.

Olha que sim! Fui eu que deixei o meu marido, não ele a mim. Descobri que tinha uma miúda na vida dele, mandei-o embora e divorciei-me logo. Ficou estupefacto, pensava que eu nunca soubesse

Se calhar, não o amavas.

Amava, muito. Mas não aceito ser enganada. Quem trai, não merece amor. Amor-próprio acima de tudo.

Sabes, Catarina para ti tudo parece simples.

Porque é que tu complicas, Leonor? Sempre foste assim! E a tua filha, onde está?

Estuda fora em Coimbra, mora na casa da tia.

Entendo. Então ele abandonou-te a ti e à filha e ainda estás aí a lamentar?

Mas eu ainda o amo

Basta! Precisas de tratamento para esse desgosto.

Que tratamento serve para isto? Comprimidos não resolvem nada.

Nada de comprimidos! O que tu precisas é do remédio que nunca falha: mudar de visual, fazer compras, e arranjar um novo amor!

Ai Catarina murmurou Leonor.

Anda, prepara-te. Vamos ao centro comercial e à cabeleireira. Sem desculpas. E tens uns trocos guardados? Dinheiro, Leonor.

Tenho, estava a juntar para comprar carro novo ao Ricardo

Esquece o Ricardo! Fica com o dinheiro, e pede o divórcio. Não penses em voltar atrás. E se quiseres, ainda arrancamos metade do valor do carro antigo.

Que fique com ele, não quero saber disse Leonor, abanando a mão. E tu, Catarina? Vieste de Lisboa para ficar?

Vim de vez! Não quero viver lá. Agora veste-te, guarda o pijama e vamos às lojas. Ah, ia esquecendo, a Rita Costa ligou-me: daqui a uma semana há reunião dos antigos alunos! Vamos as duas. Vem quase toda a gente, até alguns rapazes divorciados. Lembras-te do Vítor, que te fazia olhinhos desde o sétimo ano?

Catarina, quem é que vai querer saber de mim? Já não sou nova

Não digas disparates, Leonor! Tens de gostar de ti, mimar-te! Daqui a nada pareces uma jovenzinha ria Catarina, puxando-a para fora. E sabes da minha tia Cátia? Mora perto da tua mãe, está indecisa, vai casar pela quinta vez, mas não sabe qual dos pretendentes escolher!

Poucas horas depois, Leonor quase não se reconhecia ao espelho.

Que transformação! Novo corte de cabelo, outra cor, nunca pensei ficar tão bem Sinto-me renovada. Catarina, foste uma bênção, se não fosses tu, ainda estaria afundada.

Chegou o dia da reunião de antigos alunos, num café da cidade. A maioria apareceu, poucos faltaram. Muitos não reconheceram Leonor. Vítor, agora homem de negócios, olhava-a fascinado.

Leonor, quase não te reconheci, estás ainda mais bonita do que na escola. Sempre gostei de ti, mas preferiste o Ricardo por onde anda ele?

Foi-se embora, deixou-me respondeu, sorrindo sem amargura.

A ti? Não acredito Quem deixa uma mulher assim? admirou-se Vítor.

Pois deixa. Mas a vida até melhorou.

Só podia! Eu também sou divorciado, já há dois anos. Tinha negócios, a mulher achou que eu era um fracassado, foi para outro mais novo. Mas reergui tudo e agora vai melhor que nunca.

Meses depois, Leonor caminhava de braço dado com Vítor pela marginal do Porto, tinham acabado de sair do teatro, e passeavam pela cidade iluminada. De repente avistou Ricardo, mais magro e sozinho, a caminhar na direção oposta. Parecia não a ter reconhecido de imediato.

Aposto que a nova não o cuida bem pensou.

Quando Ricardo passou por eles, cruzou o olhar com Leonor, confuso. Passaram, mas ele parou e chamou:

Leonor?

Ela virou-se lentamente, sorriu, e disse, leve:

Olá, Ricardo Apresento-te o Vítor, meu futuro marido e olhou para Vítor.

Prazer. Não te reconheci disse Vítor. Sou o novo companheiro da Leonor.

Ricardo ficou boquiaberto, Leonor também se surpreendeu, Vítor ainda não lhe tinha feito uma proposta formal.

Corresponde tudo bem contigo? perguntou Leonor, sincera.

Sim normal. Estás tão diferente! Estás óptima.

Leonor sorriu ainda mais e, apertando o braço de Vítor, respondeu:

Mulheres felizes estão sempre deslumbrantes.

Então está tudo bem contigo murmurou Ricardo.

Está tudo ótimo E vai ficar melhor! e, de cabeça erguida, afastou-se com Vítor, sentindo os olhos do antigo marido a segui-la até desaparecer na noite.

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