ÉS O MEU FELIZ? A verdade é que nunca pensei casar. Mas, graças à persistência do meu futuro marid…

O MEU SORTE GRANDE?

Ora vejamos, casar não estava nos meus planos, convenhamos. Se não fosse pela persistência teimosa do meu futuro marido, ainda hoje andava por aí toda livre, a esvoaçar como passarinha. O Artur, qual borboleta atarantada em tarde de primavera, cirandava à minha volta, nunca me largava da vista, fazia tudo para me agradar, até parecia que limpava a poeira do ar! Até que sucumbi ao charme lusitano. Casámos.

O Artur rapidamente se fez de cá de casa, virou peça da mobília confortável como um par de pantufas no Inverno. Tranquilo, simpático, parecia que já era da família há séculos.

Passado um ano nasce o nosso filho Estevão. O trabalho do Artur era noutra cidade, vinha a casa aos sábados religiosamente. Sempre trazia petiscos deliciosos, como se trouxesse meio mercado de Setúbal na mochila. Numa dessas vindas, pus-me como sempre a inspecionar os bolsos dele antes de pôr a roupa na máquina (depois de ter lavado as cartas do carro dele uma vez não arrisco). E eis quando, dos bolsos das calças, cai um papel dobrado em quatro. Desdobro e leio: enorme lista de material escolar – era Agosto, tempo de regressos às aulas. No final, com letra de miúdo, “Papá, volta rápido.” Pois bem, pensei, o meu marido a fazer joguetes fora de casa! Duas famílias? Pois claro, Portugal e suas novelas!

Nada de escândalos. Peguei na mala, no Estevão (na altura nem três anos tinha) pela mão e bora a caminho de casa da mãe. Para ver se o drama se resolvia. A minha mãe logo nos arranjou quarto:

Aqui ficam até se entenderem!

Veio o pensamento vingativo, à boa maneira portuguesa. Fui ao baú das memórias e lembrei-me do meu colega de escola, o Romeu, sempre atrás de mim fosse na escola, fosse fora dela. Liguei-lhe.

Então, Romeu, não casaste ainda? começo cautelosamente.
Teresa? Olha quem é! Casar, descasar… Queres tomar um café? Romeu entusiasmado.

A minha aventura com Romeu durou meia dúzia de luas. O Artur, sempre pontual, entregava o subsídio do Estevão à minha mãe e saía calado, mas apercebi-me que morava agora com Catarina Eusebio, viúva com uma filha. Catarina fez questão de que miúda chamasse Artur de “pai”, e foram todos habitar a casa do Artur. Mal soube que saí, Catarina e filha mudaram-se logo de Évora para Lisboa com ele. Catarina era devota fazia-lhe meias de lã, suéter aconchegantes, preparava jantares dignos de mesa de Natal. Fiquei a saber tudo depois e nunca deixei de lembrar o marido da outra. Na altura parecia que o nosso casamento tinha dançado o varrido.

No entanto, um café para discutir o divórcio tornou-se resgate emocional bateu saudade, nostalgia e o Artur lá confessou amor à portuguesa, jurou arrependimento, e desabafou não saber como “despejar” Catarina. Tive pena do pobre. Fizemos as pazes. Por sinal, nunca soube nada do Romeu. Catarina e filha assim voaram de volta a Évora.

… Sete anos de paz conjugal depois, vem uma desgraça o Artur sofre um acidente de carro. Operações à perna, fisioterapia, andas, dois anos… O homem cai no copo de vinho. Perdeu-se de tal forma que nem parecia gente. Só desgraça. Recusava ajuda, e eu com o Estevão víamos a vida a descarrilar.

Na empresa, surge o meu ombro para lágrimas: Paulo. Bons conselhos enquanto fumava na varanda, passeios ao fim do expediente, café, conversa animada. Paulo casado, mulher à espera do segundo filho. Nem sei como acabámos na mesma cama loucura, Paulo baixote, nada a ver comigo!

E pronto, foi um festival exposições no Chiado, concertos no Coliseu, ballets na Gulbenkian. Mal a mulher dele teve a miúda, Paulo deu um tempo, deixou a firma, meteu-se noutra vida “longe dos olhos, longe do coração”? Não fazia questão dele, deixei-o ir tranquilo. Só serviu para me distrair da tristeza. Nunca quis roubar marido de ninguém.

O Artur bebendo como se o mundo acabasse amanhã.

Passam cinco anos. Encontro casual com Paulo, vem com convite de casamento. Só me ri. O Artur ainda tentou melhorar foi trabalhar para Praga. Fiquei em casa, mãe dedicada, mulher de casa e família, virtudes lusitanas a rodo.

Meio ano depois, Artur de volta, reforma na casa, muita eletrónica nova, arranja o velho carro alemão. Alegria… Por pouco tempo! Volta a beber. Agora até os amigos tinham que o levar de maca para casa, incapaz de caminhar, nem que fosse a rastejar. Muitas noites ao relento por Lisboa até o encontrar a dormir na paragem do autocarro, bolso vazio, resmungando sonhos.

Eis que numa manhã primaveril, triste, encosto-me na paragem do autocarro. O sol radiante, os pardais aos trilhos, tudo a celebrar o Abril, menos eu. Oiço um sussurro ao ouvido:

Talvez possa ajudar no seu desgosto, menina…

Viro-me. Santo Deus, um galã que cheira a sabonete e charme! Aos 45 anos, será que ainda me salta a madura? Envergonhei-me toda como rapariguita. Felizmente chegou o autocarro, saltei lá para dentro, escapando ao pecado. O cavalheiro acenou. O dia inteiro sonhei com ele, claro.

Fiz-me difícil umas semanas, que é como manda o figurino. Mas o Egídio (era assim que se chamava o tal galã), insistente como um tractor, furava a minha resistência todos os dias na mesma paragem, sorriso, beijinhos pelo ar. Um dia aparece carregado de tulipas vermelhas. Digo-lhe:

E agora, o que faço eu no escritório com isto? As colegas topam logo tudo, ainda me fazem santa.

Egídio nada parvo, entrega o ramo a uma velhota que assistia à cena. A senhora quase rejuveneceu! Obrigada, rapaz! Que te calhe uma amante fogosa! Fiquei encarnada que nem tomate. Que não acalhe uma jovem, pensei eu, se não fugia dali num segundo!

Egídio, maroto, volta-se para mim:

Então, Teresa, que tal sermos culpados juntos? Vai ver, não se arrepende!

Confesso, foi tentador e no timing perfeito. O Artur deitado, inanimado, bêbado, fora de si. Egídio era saudável, ex-atleta, 57 anos, ótimo conversador, divorciado. Tinha qualquer coisa de encantador. Afundei-me nesta aventura como num mergulho na Nazaré três anos de loucura.

Queria terminar a relação mas não tinha coragem. Já diz o ditado, quem muito quer, tudo perde. Quando Egídio estava por perto, mal respirava de tanta emoção! Era irracional, sabia que não ia acabar bem não era amor, era paixão doente.

Chegava a casa exausta (de tanto romance), só queria aconchegar-me ao marido, mesmo meio podre de vinho, mal-cheiroso, mas tão meu, tão limpo! Vale mais pão duro em casa do que bolo alheio! A verdade da vida! A paixão, vi bem, não era felicidade, era mesmo só sofrimento. Queria curar-me do Egídio e regressar ao ninho, largar as extravagâncias. Mas o corpo ainda metia goles nessa paixão ardente. Não conseguia parar.

O Estevão sabia do Egídio. Cruzou-nos num restaurante com a namorada. Tive de os apresentar. Cumprimentos formais e siga. Em casa, ao jantar, o Estevão olhava. Pediu-me que não deixasse o pai, que esperasse um pouco mais. Pode ser que ele volte a ser quem era.

Senti-me como ovelha perdida. A minha amiga, já no terceiro casamento, só dizia Deixa esses engates fritos, sossega, Teresa! Vim a ouvir. Mas só parei mesmo quando Egídio tentou levantar-me a mão.

Aí foi o fim. A amiga, toda contente, deu-me uma caneca com És mulher feita!. O Egídio nunca desistiu, ainda hoje tenta, ajoelha-se em plena rua mas eu, firme. A amiga enche-me de beijos.

Artur sempre soube dos meus devaneios Egídio telefonava-lhe, achando que eu ia sair de casa. Artur confidenciou-me:

Ouvir o teu namorado a cantar-te músicas do amor, apeteceu-me morrer. Só eu tive culpa! Troquei-te pelo vinho. Fui um nabo.

Já lá vão dez anos. Temos duas netas. À mesa de jantar, mão na minha, Artur diz:

Teresa, não olhes mais para o lado. Eu sou o teu sorte grande. Acreditas?

Claro que sim, meu único amorSorri, apertando-lhe a mão com força. Olhei para o rosto do homem que, com todos os seus defeitos e quedas, ficou sempre ali. O tempo tinha-lhe dado rugas à volta dos olhos, e a mim, uma inesperada gratidão. O Estevão, sentado ao nosso lado, pegou na mão da filha e piscou-me o olho, cúmplice. Olhei para eles, para Artur, para o barulho da família reunida e tudo fez sentido: nem o vinho, nem Egídio, nem Romeus de novela ou paixões descontroladas preenchiam este lugar silencioso: o lar.

Respirei fundo e respondi, de peito cheio, sem hesitação:

Acredito, Artur. Sempre acreditei. E ainda bem que nunca ganhei a lotaria, porque ganhei-te a ti.

As netas riam, a comida borbulhava no fogão, e ali entre a bagunça dos dias, os amores falhados, as reconciliações arredondadas pelas saudades estava eu, festejando com aqueles que a vida tinha escolhido por mim. O meu sorte grande, afinal, não era bilhete premiado: era este sábado à tarde, a casa cheia, e um amor persistente, meio torto, mas eternamente meu.

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ÉS O MEU FELIZ? A verdade é que nunca pensei casar. Mas, graças à persistência do meu futuro marid…