Tornou-se empregada
Quando Leonor decidiu casar-se, o filho, Eduardo, e a nora, Matilde, ficaram completamente em choque com a notícia e não sabiam bem como reagir.
Tem mesmo a certeza de que quer mudar a sua vida tão radicalmente nesta idade? perguntou Matilde, olhando de lado para o marido.
Mãe, que necessidade há de tomar uma decisão tão drástica? nervoso, questionava Eduardo. Entendo que viveu muitos anos sozinha e dedicou quase toda a vida à minha educação, mas agora casar-se parece-me sinceramente um disparate.
Vocês falam assim porque ainda são jovens respondeu Leonor com serenidade. Tenho sessenta e três anos. Ninguém sabe quanto tempo nos resta. E acredito que tenho todo o direito de passar o resto da vida com quem amo.
Mas não precisam apressar as coisas tentava Eduardo apaziguar a mãe. Conhece o Manuel há apenas um par de meses e já quer mudar tudo?
Na nossa idade não devemos perder tempo dizia Leonor, ponderada. E, sinceramente, não há muito a saber: ele é dois anos mais velho, vive com a filha e o genro num T3, tem uma boa reforma, e possui uma casa de campo.
Mas onde vão viver? perguntava Eduardo. Nós vivemos juntos, não há espaço suficiente para mais uma pessoa aqui.
Não fiquem preocupados, o Manuel não vai reclamar os nossos metros quadrados, eu mudo-me para lá explicava Leonor. O apartamento é grande, já me entendi bem com a filha dele, somos todos adultos, não haverá razão para discussões ou confusões.
Eduardo não conseguia esconder a sua preocupação, e Matilde tentava convencê-lo que era preciso aceitar a escolha da mãe.
Talvez sejamos mesmo egoístas refletiu Matilde. Claro que nos convém, ela ajuda-nos imenso, fica muitas vezes com a Leonorzinha, nossa filha. Mas ela merece ter a sua própria vida. Se agora tem essa possibilidade, não devemos impedir.
Se fossem só companheiros, até compreendia. Mas para quê casar? indignava-se Eduardo. Já só faltava agora uma noiva de branco e festa de casamento, concursos e discursos.
Talvez, para eles, seja mais reconfortante e lhes traga segurança tentou justificar Matilde.
No final, Leonor casou com Manuel, que conhecera por acaso numa caminhada pelo Bairro Alto, e passadas semanas, mudou-se de vez para o apartamento dele. Num primeiro momento, tudo correu bem: foi bem recebida, o marido era amável e Leonor acreditou que finalmente, já perto do fim da vida, podia ser feliz e desfrutar dos pequenos momentos. Só que, pouco a pouco, a rotina na nova família trouxe outros custos.
Será que podia fazer um assado para o jantar? pediu Sofia, filha do Manuel. O trabalho anda insuportável, não consigo dar conta, e a Leonor tem tempo livre.
Leonor percebeu logo o recado e assumiu por completo a cozinha, o que acabou levando também à responsabilidade pelas compras, pela limpeza do apartamento, pelas roupas, e até por cuidar da casa de campo.
Agora que somos casados, a quinta é de todos nós anunciou Manuel. A Sofia e o Luís não têm tempo, a neta é pequena, vamos trabalhar lá juntos.
Leonor não protestava, satisfeita por sentir-se parte de uma família numerosa e que vivia em harmonia, apoiando-se mutuamente. Do primeiro casamento, não tivera sorte; o marido era preguiçoso e ladino, e depois desaparecera quando Eduardo completou dez anos. Vinte anos haviam passado desde então, sem notícias dele. Desta vez, parecia tudo correto, e o trabalho não pesava, nem a fadiga lhe tirava alegria.
Mãe, que jardineira vai ser tu na quinta? tentava Eduardo dar o seu parecer. Cada vez que lá vais, de certeza que te sobe a tensão. Vale a pena?
Claro que sim, filho. Dá-me prazer. dizia Leonor, já reformada. Se conseguirmos uma boa colheita, há de chegar para todos e partilharemos convosco.
Eduardo, porém, desconfiava, pois em meses nunca foram convidados a ir lá, nem ao menos para se apresentarem. Convidaram eles próprios o Manuel, que prometia aparecer, mas nunca conseguiu, arranjando sempre desculpa. Acabaram por aceitar que a nova família não queria grande proximidade. Ainda assim, só queriam saber que Leonor estava bem.
Por um tempo, assim foi. Leonor encontrava alegria nas tarefas, mas o peso delas só aumentava. Manuel, quando chegavam à casa de campo, logo queixava-se das costas ou do coração. A esposa, dedicada, punha-o a descansar e ela própria fazia tudo: arrastava galhos, apanhava folhas, levava lixo.
Outra vez sopa? torcia o nariz Luís, genro de Manuel. Ontem já tivemos isso, esperava outra coisa.
Não consegui preparar mais nada, nem fui às compras desculpou-se Leonor. Passei o dia a lavar cortinas, exausta, até fiquei tonta e precisei repousar.
Entendo, mas não sou fã de sopa afastou o prato o genro.
Amanhã a Leonorzinha vai fazer um banquete! incentivava Manuel.
E no dia seguinte, Leonor esteve de volta aos tachos o dia todo, para tudo ser devorado em meia hora. Depois limpava a cozinha, sempre sozinha. As exigências da filha e do genro aumentavam, Manuel ficava do lado deles e culpava a esposa.
Não sou uma rapariguita, também me canso e não entendo porque a responsabilidade de tudo é só minha confrontou Leonor num momento em que já não aguentava.
És minha mulher, deves garantir ordem na casa lembrava Manuel.
Como tua esposa, quero mais que obrigações, também quero direitos chorava Leonor.
Acabava por se acalmar, voltava a agradar a todos, tentando manter a paz no lar, mas um dia perdeu de vez a paciência. Nesse dia, Sofia e Luís iam jantar com amigos e decidiram deixar a filha pequena com Leonor.
Hoje não, a Mariazinha fica com o avô ou vai convosco, porque vou ao aniversário da minha neta explicou Leonor.
Agora temos todos de fazer a vontade à senhora? indignou-se Sofia.
Naturalmente que não, mas também não vos devo nada lembrou Leonor. Avisei desde terça, hoje é o dia especial da minha neta. Ignoraram esse facto e ainda querem obrigar-me a ficar presa em casa.
Assim também não pode ser enervou-se Manuel. A Sofia tinha planos, agora tudo fica por terra, a tua neta ainda é miúda, não faz mal se levares o presente amanhã.
Pois então vamos todos juntos visitar os meus filhos, ou ficas tu com a neta enquanto eu vou e volto respondeu Leonor, com firmeza.
Já sabia que nada de bom viria deste casamento desfechou Sofia, com rancor. Ela cozinha mal, limpa pior ainda, e pensa só nela.
Depois de tudo o que fiz aqui nestes meses, achas mesmo isso? perguntou Leonor ao marido. Diz-me francamente: procuravas uma companheira ou uma criada que satisfizesse todos os caprichos?
Agora estás a agir mal, a culpa é minha, não faças disto um drama piscava nervoso Manuel.
Fiz uma pergunta simples e mereço resposta insistia Leonor.
Se é assim, fazes como quiseres, mas no meu lar não há lugar para essa atitude proclamou Manuel, orgulhoso.
Nesse caso, demito-me! anunciou Leonor, embalou os pertences e saiu.
Aceitam de volta a avó desastrada? arrastava ela o saco e o presente para a neta. Fui casar, voltei para casa, não quero falar de nada por agora, só peço: aceitam-me ou não?
Claro que sim! correram até ela Eduardo e Matilde. O seu quarto espera por si, estamos felizes por vê-la de volta.
Felizes mesmo? quis escutar as palavras reconfortantes.
Porque há outra razão para alegrar-nos com quem amamos? sorria Matilde.
Foi aí que Leonor teve a certeza: não era uma criada. Ajudava em casa, cuidava da neta, mas nunca foi explorada nem alvo de exigências descabidas. Era mãe, avó, sogra e membro de uma família de verdade, não uma empregada. Leonor regressou definitivamente e, passado pouco tempo, pediu o divórcio. Tentava não pensar na experiência amarga. A vida ensinou-lhe que o respeito e o carinho são o que realmente importa num lar, e que nunca devemos permitir que confundam generosidade com obrigação.





