Antónia Pereira caminhava sob a chuva e chorava, as lágrimas misturando-se com as gotas que caíam do…

Antónia Branco caminhava sob a chuva e chorava. As lágrimas deslizavam pelo seu rosto, misturando-se com as gotas frias.
Pelo menos, há uma coisa boa: é impossível perceber que estou a chorar pensava ela, encolhida debaixo do aguaceiro.

Ainda se martirizava: A culpa é só minha! Apareci sem avisar, na hora errada. Convidada, nem por sombras.
Andou pelas ruas a soluçar. E, de repente, lembrou-se de uma velha anedota: «Então, mãe, nem chá vai beber?» dizia o genro à sogra. Sorriu com ironia agora era ela a tal mãe posta fora.

Antónia chorava e ria, alternadamente, sem se conseguir controlar.
Chegando a casa, despiu-se das roupas encharcadas e enroscou-se no sofá, tapada por uma manta grossa. Agora podia desabafar sem reservas: ninguém para a ouvir. Só a pequena carpa dourada no aquário redondo, a olhar para ela. Ninguém mais!

Antónia era uma mulher interessante e sempre teve sorte com homens. Mas nunca correu bem com o pai do seu filho, Luís. Era dado à bebida. No início, ainda se tolerava. Bebia e dormia. Depois tornou-se possessivo, ciumento. Ciúmes de todos: até do senhor que lhe perguntava pelo caminho, do talhante, do reformado do jardim, do vizinho do lado.

Um dia, ao ver Antónia sorrir para o vizinho, perdeu completamente o controle.
Bateu-lhe. E bateu com crueldade, bem sabendo onde magoar. Mesmo à frente de Luís, o filho.

Luís, pequeno, contou tudo à avó e ao avô.
A mãe chorou:
Para isto criei eu a minha filha? Que um homem bêbado a trate assim?

O pai de Antónia não esperou nem um minuto: agarrou o genro e fez questão de que dali por diante seria ex. Desceu-o pelo elevador e, antes de o pôr na rua, partiu-lhe o braço.
Ameaçou-o:
Se voltas a pôr os pés aqui ou olhares para minha filha, acabo contigo. Nem que vá preso, não deixo tu estragares a vida da minha Antónia.

O ex-marido nunca mais apareceu. E Antónia ficou sozinha, sem casar outra vez. Tinha o filho para cuidar. Nunca se sabe quem aparece para marido.
Não faltaram homens interessados, mas ela nunca quis. Teve o suficiente com o pai de Luís.

Antónia nunca teve grandes dificuldades financeiras. Era uma excelente técnica de cozinha, trabalhava num restaurante típico de Lisboa. Nunca se queixou da vida.
Guardava alguns euros para um apartamento melhor.
Quando finalmente juntou o que precisava, Luís explicou que ia casar. E que rapariga doce, a Leonor, nome bonito e bem português.

Antónia ficou no seu apartamento antigo, e ofereceu ao filho e à nora o novo, de dois quartos. Claro! Eles estavam a começar uma família, precisavam mais.
Agora, poupava para que eles comprassem um carro novo. Já não havia paciência para o velho Renault, sempre a avariar.

Nem tencionava ir hoje a casa do filho. Não costumava impor-se, nem aparecer sem aviso. Mas, por acaso, estava ali perto quando começou a chover torrencialmente. Sem chapéu de chuva. De qualquer modo, com aquele temporal, nem o chapéu ajudaria.
Pensou: que tal aproveitar para visitar Leonor, conversar como amigas, tomar um chá?
Bateu à porta. Leonor abriu, surpresa, ficou parada a olhar: não fez convite para entrar, perguntou friamente no hall:
D. Antónia, precisava de alguma coisa?

Antónia atrapalhou-se, tentou explicar:
Fui apanhada pela chuva…

Mas já parou! Mora perto, pode ir retorquiu a nora, os braços cruzados, olhando pela janela.

Sim, sim murmurou resignada Antónia, e saiu, mergulhada de novo na chuva e nas lágrimas.

Chorou até adormecer. E naquele sono apareceu a carpa dourada do aquário, de repente enorme, movendo os lábios. Antónia, como por magia, compreendia:
Chorosa! Que tolice! Ninguém te ofereceu nem um chá, e tu a poupar dinheiro para o carro! Vais passar a vida a viver para eles? Viver só para dar? Olha para ti, mulher! Bonita, inteligente, tens o teu dinheiro. Se é para o carro deles? Nem valorizam. Usa por ti. Vai ao mar, aproveita um pouco a vida!

Antónia acordou já de noite.
A carpa nadava, abrindo e fechando a boca. Já não entendia a língua dos peixes, mas a mensagem ficou clara. Não se sacrifica por quem não sabe agradecer.
Nem por quem não oferece nem um chá, nem deixa abrigar-se da chuva.

Antónia pegou nas poupanças guardadas para o carro, comprou um pacote de férias no Algarve, e partiu para o mar. Viveu um pouco para si.
Regressou bronzeada, bonita, feliz.
O filho e a nora nunca souberam. Só apareciam ou ligavam quando precisavam de dinheiro ou que ela tomasse conta do neto.

Antónia também deixou de fugir dos homens. Um empregador do restaurante, Manuel, homem elegante e simpático, começou a cortejá-la.
Gostava dela há muito, mas ela sempre ocupada com o filho e a nora. Agora, finalmente, os dois encontraram espaço para estarem juntos. Entrava e saía do restaurante de braço dado. A vida dela mudou.

Um dia, Leonor apareceu.
D. Antónia, porque não vem visitar-nos? Não liga? O Luís encontrou um carro bom! insinuou a nora.

Leonor, precisava de alguma coisa? perguntou Antónia, braços cruzados, na mesma posição.

Leonor abriu a boca para responder, mas Manuel veio do quarto:
Toninha, vamos tomar chá?

Claro! sorriu Antónia.

Convide a visita! sugeriu Manuel, mostrando-se acolhedor.

Não, Leonor já vai. Ela não bebe chá, pois não?

Antónia fechou a porta atrás da nora e lançou um sorriso à carpa dourada do aquário.
É assim que se aprende: só dá valor quem merece.
Nunca devemos esquecer de cuidar de nós, antes de nos sacrificarmos pelos outros.

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Antónia Pereira caminhava sob a chuva e chorava, as lágrimas misturando-se com as gotas que caíam do…