Aos 51 anos, fui viver com um viúvo de 55. Tudo corria na perfeição, até que um dia o meu neto adoeceu

Aos 51 anos, juntei-me com um viúvo de 55. Tudo parecia perfeito até ao dia em que o meu neto adoeceu.

O Manuel apareceu na minha vida em março, naquela transição desagradável do inverno para a primavera lisboeta: chuva miudinha, poças de lama a cada esquina, céu permanentemente cinzento. Eu estava na fila do Continente, meio aflita a remexer no saco à procura do cartão de descontos. A fila atrás de mim começava a dar sinais de impaciência; alguns passavam o peso de um pé para o outro, outros olhavam ostensivamente para o relógio.

Ele era o segundo na fila e virou-se calmamente para mim:
Não se preocupe, está tudo bem.

Disse-o simplesmente, sem um pingo de irritação, sem aquele tom azedo que se ouve tantas vezes nestas situações.

Olhei-o. Um homem de uns cinquenta e muitos anos, num casaco escuro, rosto comum, mas com um sorriso genuíno, aberto.

À saída do supermercado a conversa seguiu, natural. Descobrimos que morávamos quase porta com porta. Ele era viúvo há três anos. Eu estava divorciada há oito.

Uma semana depois convidou-me para uma exposição no Museu Nacional de Arte Antiga.

Quando contei isto à minha amiga Amélia, a pergunta dela foi direta:
E tem casa própria?

A Amélia sempre foi pragmática, como ela gosta de dizer.

E casa não lhe faltava, nem carro, nem emprego: trabalhava numa empresa ligada à construção civil, mas confesso que nunca me interessei pelos pormenores. Parecia-me que o essencial era ele saber ouvir. Não era aquele ouvir de circunstância, mas um ouvir verdadeiro.

Guardava pequenos detalhes.
A certa vez mencionei que gosto mais de tarte de cereja do que de maçã para mim é fundamental, pois a de maçã sempre me pareceu deslavada. Disse aquilo a correr, uma vez apenas.

Na vez seguinte, o Manuel apareceu com uma tarte de cereja, comprada na pastelaria da Rua dos Douradores, a mesma que referi num comentário casual.

Essas coisas sempre me derretem. Nessas é que se tropeça.

Em maio propôs vivermos juntos.
Só nos víamos há dois meses. Nem sequer sabia se gostava do cheiro dele.

Maria Inês, nós já não somos miúdos, não vale a pena estar a adiar, disse-ele, sereno.

Não pude contrariar-lhe a lógica. Acabei por acenar a cabeça.

Mas voltei para casa a pensar: espera lá, isto é rápido demais…

No entanto, à noite liguei-lhe:
Vamos tentar.

Ele mudou-se para a minha casa. Na dele, estava alojado um primo afastado, e não dava jeito pô-lo na rua. Não discuti. O meu apartamento tem três quartos, espaço não faltava.

As primeiras semanas pareciam tiradas de um filme. Ao domingo, era ele quem cozinhava. Uma paciência! Fazia tudo pausadamente, até experimentar receitas novas, e nunca se irritava.

O meu caldo-verde ficava pior que o dele, admito.

Depois começaram os pequenos pormenores.

Primeiro, o filho ligou por volta das dez da noite. O Manuel saiu, foi para a cozinha conversar durante meia hora, voltou tenso e pediu: Maria Inês, podes emprestar-me algum até à próxima semana? O Miguel tem um problema com o carro.

Não era muito, por isso nem discuti.

Na semana seguinte, nova chamada de Miguel, novo pedido de dinheiro, por outro motivo qualquer.

Não fiz contas. Só comecei a notar o padrão.

A minha filha Sofia mora em Setúbal. Vem cá sensivelmente uma vez por mês, traz o meu neto, o Martim, de seis anos. Ele chama-me vovó Inês e pede-me sempre panquecas com buraquinhos, nunca as normais lisas.

Na primeira vez que vieram cá depois de o Manuel se mudar, ele estava em casa.

Martim foi logo meter-se com ele, não é nada reservado, sai à mãe, e começou a mostrar-lhe os carrinhos.

O Manuel olhou para ele… de uma maneira estranha. Não era mau, nem frio, mas olhava como quem vê um móvel, algo que está só de passagem.

A Sofia perguntou-me baixinho na cozinha:
Ó mãe, ele gosta de crianças?

Respondi-lhe:
Talvez não esteja habituado. O Miguel já é adulto.

Sofia só acenou. Sempre cordial.

O verdadeiro ponto de viragem foi em julho.

O Martim tinha apanhado uma constipação típica, mas com febre. A Sofia telefonou, aflitíssima. Ela própria estava na cama e o marido em trabalho no Porto.

Mãe, podes vir dar uma ajuda?

Vesti-me em quinze minutos. Tínhamos planos para jantar junto ao Tejo, num dos restaurantes preferidos do Manuel.

Disse-lhe:
Sofia está aflita, o Martim está doente. Vou lá ficar uns dias.

Ele olhou-me, nem nervoso, apenas com uma ligeira surpresa, como se estivesse a ouvir um disparate.

E não há mais ninguém que possa ir? perguntou.

Não, não há.

Pode-se chamar um médico, resolve-se.

Já estava com o casaco vestido.

Manuel, tinhas marcado mesa.

Desmarca, disse-lhe calma. Ou vai tu.

E fui.

Estive três dias em Setúbal. Martim melhorou, deixou de ter febre, voltou a comer. No fim dos três dias já saltava pelo sofá a pedir desenhos animados. Fiz-lhe o meu chá de frutos secos, que ele chama o chá castanho.

Durante esse tempo, o Manuel enviou uma única mensagem: Como está tudo?

Respondi só: Bem, está melhor.

Mais nada.

Quando regressei, Manuel recebeu-me normalmente, beijou-me, perguntou do Martim, tudo com educação e correção, como se nada tivesse acontecido.

À noite, na cozinha, enquanto bebíamos chá, ele comentou:
Maria Inês, percebo que o neto seja importante, mas nós também precisávamos de tempo juntos. Só agora começámos a viver juntos.

Fiquei sem saber se estava a sugerir o quê. Que devia ter ficado por Lisboa? Deixar criança doente?

Nada perguntei. Só calei.

Depois recordei outras coisas. Por exemplo, ele nunca se ofereceu: Queres que vá contigo ajudar? Nem quando se tratava da Sofia, muito menos quando a minha mãe (que já tem oitenta e dois) precisava de ajuda.

Ia sempre sozinha. Nessas alturas, o Manuel estava ocupado ou cansado.

Mas sempre que o Miguel telefonava, corria ao primeiro pedido. Uma vez ligou perto da meia-noite a pedir boleia para a outra ponta da cidade. O Manuel levantou-se, vestiu-se e foi, sem pestanejar.

Não tenho ciúmes do filho, bem sei que é o sangue dele.

Mas lembrei-me de uma conversa que tivemos ao início, num café. O Manuel contava do vazio que sentiu depois de ficar viúvo.

Dizia:
Quero sentir que está alguém ao meu lado. Alguém mesmo.

Pensei: é isto.

Mas depois percebi ele falava de alguém ao lado dele. Não a dois.

A conversa que resolveu tudo foi em agosto, fui eu que comecei.

Manuel, quero saber: para ti, a Sofia é alguém estranho?

Olhou-me, espantado.

Porquê estranho? Dou-me bem com ela, não tenho problemas.

E o Martim?

É só mais uma criança.

Quando esteve doente, disseste: Não há mais ninguém?

O Manuel suspirou e pousou a chávena.

Maria Inês, não me sinto obrigado… É a tua família. Não me incomoda que venham cá, mas não consigo fingir que são a minha família também. Nós só estamos juntos há quatro meses.

Acenei devagar.

Mas o Miguel é a tua família.

O Miguel é o meu filho.

Eu percebo.

Levantei-me, lavei a chávena e deixei a escorrer.

Manuel, ao início interpretei mal o que disseste. Achava que era sobre os dois, mas percebi que era só sobre ti.

Ele não respondeu.

Fui para o quarto. Ele ficou na sala.

Duas semanas depois, o Manuel mudou-se. Sem dramas nem discussões como pessoas adultas, como ele dizia. Arrumou tudo, levou até a chávena com desenho de sardinhas que era dele.

Antes de sair, disse:
És uma boa mulher, Maria Inês. Mas temos formas diferentes de ver o que é a vida a dois.

Concordei.

A Amélia perguntou-me depois:
Arrependes-te?

Pensei, e perguntei:
De quê, ao certo?

De terem avançado tão depressa.

Não, respondi. Antes saber ao fim de quatro meses do que de quatro anos.

Ela assentiu. Já disse, é mulher prática.

Na semana passada, o Martim esteve cá. Sentou-se na cozinha a comer as minhas panquecas com buraquinhos e contou uma história comprida sobre a educadora na creche e uma tartaruga qualquer. Não percebi nada do enredo, mas deixei-o falar.

Ouvi-o, e pensei: isto sim, é estar ao lado de alguém. Mesmo ao lado.

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