Vamos Pôr a Mesa

Margaridinha, vemos-nos daqui a três dias! E não te esqueças de fazer o teu famoso empadão de carne. Fica sempre uma delícia a voz animada da sogra, D. Teresa Silva, ecoava no telemóvel.

Mas Margarida não tinha vontade de sorrir. Mal desligou a chamada, sentou-se pesadamente à mesa da cozinha. Daqui a poucos dias era a Páscoa e, como já era tradição, toda a família do marido Luís iria reunir-se lá em casa.

A vossa casa é tão espaçosa, dá para todos confortavelmente. Antigamente enfiávamo-nos nos nossos cantos minúsculos Assim é tão melhor! É o lugar ideal para recebermos a família toda ditara D. Teresa há dois anos.

Agora, Margarida começava a odiar aquele T3 grande no centro de Lisboa, pelo qual ainda iria pagar muitos anos de empréstimo bancário. Só por causa da casa é que todos os familiares apareciam, tornavam tudo num caos, e nem a deixavam descansar.

Luís entrou na cozinha, aproximou-se e beijou-lhe o alto da cabeça.

Já falaste com a minha mãe? perguntou ele.

Sim E claro Vamos celebrar aqui em casa outra vez. Oh Luís suplicou Margarida, não podias falar com a tua mãe desta vez?

Luís franziu a testa.

Margarida, já conversámos sobre isto. A minha mãe adora-te, é fã das tuas comidas! Não lhe posso pedir para não vir. Ainda por cima, agora reformada, coitada já não tem forças para preparar festas grandes. Ela criou quatro filhos sozinha, merece este descanso, não achas?

Sempre que ele falava assim, Margarida acabava por ceder. Mas, cá dentro, gritava: E eu?! Porque é que tenho de cuidar de toda a gente nos dias de festa?

Reclamar não resolvia nada. Não queria discussões nem arruinar o pouco sossego em casa. Na manhã seguinte, meteu-se no Pingo Doce e encheu o carrinho. Na véspera da Páscoa, começou a cozinhar sem descanso até noite fora. Todos os irmãos de Luís viriam com as suas famílias mais de dez pessoas!

Porque é que estou sempre sozinha nisto? Ninguém podia passar cá para ajudar? Não digo a tua mãe, mas e as mulheres dos teus irmãos? Ou está tudo de descanso merecido? reclamou Margarida, já de mãos mergulhadas na massa do empadão.

Luís olhou-a, desconcertado.

Sabes bem que os meus irmãos não percebem nada de cozinha, nem eu. As minhas cunhadas estão todas ocupadas umas com as crianças, outras com o trabalho. Não posso obrigá-las a vir cá, Margarida. Não seria justo.

Mas eu posso? Também trabalho! Só porque trabalho em casa não me canso menos, Luís.

Desculpa, amor murmurou, puxando-a para um abraço. Vai correr tudo bem, vais ver. Todos juntos, a celebrar vais ver como te vão elogiar a comida, e o teu ânimo logo melhora.

Mais uma vez, Margarida aceitou. Mas, já deitada, não conseguia apagar a mente. De tanto cansaço nem o sono vinha.

Para quê os elogios?, pensava. Também eu queria chegar, sentar-me à mesa, sem gastar tempo, dinheiro ou energia

De manhã cedo, adormeceu finalmente, mas logo foi sacudida pelo toque do telemóvel. Era D. Teresa, já tão desperta quanto no dia anterior.

Margarida, daqui a uma hora estamos aí! Ontem já avisei os rapazes todos, por isso vai pondo a mesa, sim? a sogra ria, cheia de vida.

Margarida não conseguia sair da cama. Imaginava-se, outra vez, a correr entre sala e cozinha, a servir pratos, a levantar tudo depois.

Não quero sussurrou para a almofada.

Margarida, então? Ainda na cama? A mãe já chega! Luís estava encostado à porta, olhar severo.

Já vou respondeu ela a medo. Vai correr bem. Consegues, tu és forte, murmurou para si mesma, indo a arrastar os pés lavar a cara.

Encheu-se de coragem. No fim, conseguiu preparar tudo a tempo.

A sala transbordava de conversas. Famílias cruzavam histórias, risos, planos. D. Teresa nunca se cansava de elogiar Margarida:

A nossa Margarida cozinha mesmo bem! Todos estes pratos, filha, nem eu com a idade dela conseguia fazer mesa tão farta! sorria, apertando-lhe a mão, olhando-a cheia de orgulho.

Margarida fingia aceitar os louvores, mas escapava muitas vezes à varanda. Queria fugir do ruído, das perguntas sobre filhos. Ela e Luís tinham decidido esperar, mas aos familiares pouco importava.

Margarida! chamou a voz de D. Teresa, Está na hora da sobremesa! Onde te meteste?

Entrou D. Teresa na varanda.

Estás a fumar? perguntou, surpreendida.

O quê? Nem pensar! apressou-se Margarida. Vim só respirar um pouco, está abafado lá dentro.

Pois As crianças na sala, janelas fechadas. Ainda pensei Mas olha menina, nada de maus hábitos! Tens de me dar netos ainda! brincou, erguendo o dedo.

Margarida sorriu, sem vontade. D. Teresa não reparou.

Vá lá para dentro, ajudar-me com a sobremesa!

Eu vou, sim…

Assim que chegaram à sala, D. Teresa sentou-se. Margarida ficou só. Levantou a loiça suja, foi à cozinha, trouxe a sobremesa, distribuiu talheres novos tudo sozinha.

O teu bolo é o melhor do mundo, filha! voltou a elogiar D. Teresa.

Margarida apressou-se a voltar à cozinha. Entre pratos e copos, arrependeu-se novamente de nunca ter comprado uma máquina de lavar loiça.

Duas horas depois, a família começou a sair.

Luísinho, levas-me a casa? pediu D. Teresa.

Claro, mãe, vou só buscar as chaves.

Sozinha enfim, Margarida afundou-se no sofá. A casa num caos total, cheia de brinquedos, migalhas, papéis. Nem sinal da limpeza anterior.

Tenho de limpar isto tudo Se deixar para amanhã, arrependo-me ainda mais murmurou.

Com um suspiro, pôs mãos à obra: loiça lavada, toalhas para lavar, mesa recolhida. Arrumou comida, aspirou tudo, lavou o chão.

Bem que mereço algo por isto tudo

Preparou um banho quente, com as suas pedras de sal, pôs música suave. Enfim, relaxou. Pegou no telemóvel: uma mensagem de Luís.

Mãe convidou para eu ficar lá. Volto amanhã.

Como sempre pensou Margarida.

Luís sabia bem que ela ia passar horas a limpar, mas escolhia ficar na mãe.

Pois bem. Se é assim, é assim que vai ser comigo também, terminou ela.

O mês seguinte passou num instante. Quando se aproximou outro aniversário, não tardou chamada da sogra:

Margaridinha, prepara a mesa! Na sexta-feira vamos celebrar o aniversário do Miguel!

A mesa está sempre pronta… Só que desta vez alguém terá de cozinhar. O trabalho está ao rubro, chamaram-me ao escritório, nem sei se posso ir ao jantar fez-se tristemente ocupada.

Como assim? Não vais estar cá?

O trabalho, Teresa, o trabalho…

Pronto, hei-de desenrascar. Tenho pena lamentou a sogra.

Um beijinho, encerrou Margarida, sorrindo sozinha.

Na noite da festa, estava em casa de uma amiga, rindo à vontade. De manhã, obrigou Luís a arrumar tudo. O aniversário era do irmão dele, não dela.

Quando chegou o aniversário de D. Teresa, Margarida planeou uma semana longe, foi visitar os pais em Évora, deixando um presente com antecedência.

Mas onde vamos festejar?

O Luís recebe-vos, eu não estarei. Quanto à comida, podem encomendar ou pedir às outras noras. Vão conseguir!

Nos feriados seguintes, Margarida serviu só uns enchidos, queijinhos e bolo de pastelaria.

Não tive tempo, a empresa está numa azáfama! Se quiserem, podem encomendar alguma coisa

Mas ninguém quis abrir a carteira. No Ano Novo, a família percebeu que já não podia contar com Margarida como dantes. O entusiasmo para festas esfriou.

E, finalmente, Margarida e Luís passaram a entrada do novo ano sozinhos. Ela ergueu a taça de espumante, satisfeita consigo própria.

Bem feito, menina. Bem mereces um brinde.

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