Vivemos juntos 30 anos. Sei como ele respira enquanto dorme e o que adora ao pequeno-almoço. Mesmo assim, trocou tudo isto por “sentimentos do tempo da faculdade” e foi atrás de uma mulher de Photoshop perfeito. Nessa noite não chorei — enchi o congelador de gelo e fiz uma lista. Uma lista para o reconquistar, para que ele próprio implorasse para ficar. O primeiro ponto? Encontrar-me com a nova paixão dele.

Olha, deixa-me contar-te o que se passou quase como se te estivesse a contar um segredo daqueles que só partilhamos num café, num domingo de chuva, com as mãos à volta de uma caneca de chá bem quente.

Vivi com o António trinta anos. Sabes o que isso é? Sei até como ele ressona, o que gosta ao pequeno-almoço, onde esconde as chaves de casa e até como diz bom dia de cada vez diferente. E ele trocou isso tudo… por aquilo a que chamou sentimentos antigos da faculdade e uma mulher das redes sociais, toda polida de filtros. Aquela noite não chorei. Enchi o congelador de gelo e sentei-me a fazer uma lista. Uma lista de como o podia fazer voltar para mim, ao ponto de ele próprio implorar para ficar. O primeiro ponto? Encontrar-me com a tal nova paixão dele.

Sabes, dizem que o primeiro amor é como aquelas cicatrizes de varicela se te aconteceu em miúda, marcam sempre, mas a febre já não volta. Mentiram, claramente. Ou então era outra coisa qualquer.

A minha história começou quando tudo aquilo que construí ao longo de trinta anos como quem levanta uma casa de pedra rachou. Mas a fenda nem foi no alicerce, foi logo no telhado, naquela antena meia torta que só apanha interferência dos vizinhos.

Eu e a minha irmã crescemos a ouvir a minha mãe dizer: O mais importante que tens não é o apartamento nem o carro; é a reputação e logo a seguir o teu orgulho. A minha mãe, Dona Amélia, era das antigas, com princípios de aço. Por isso casei com o António assim sem histórias, sem ter tido um namorado sequer. Ele foi o meu primeiro homem, o único. Eu para ele… não fui a primeira. Mas nunca me incomodou. Até ao dia.

Foi num domingo. O céu de Lisboa nascente e uns ramos de jacarandá a explodirem em flor mesmo à porta de casa, no bairro das Avenidas Novas. O António sentado à mesa, chá de menta, olhar preso algures. Pousou a chávena, estalou os dedos e disse como quem dá um machado à paz:

Mariana… acho que vou sair de casa.

Continuei a barrar manteiga no pão, olha, mas era daquelas que está tão fria que parte tudo.

Vais a trabalho? perguntei, mas vi logo pela cara que não.

Conheci a Sofia. Lembras-te, a colega da faculdade? O primeiro grande amor. E isto que sentia por ela nunca desapareceu, ficou ali, à espera. Não consigo enganar-te. Seria uma aldrabice.

Enquanto ele falava, eu olhava pela janela e via o rapaz do andar de baixo a jogar bola contra o muro da garagem. Ploc, ploc, ploc, tudo no mesmo ritmo das palavras dele. Os filhos já grandes, a casa enorme, os netos quase a chegar. Ele ainda disse qualquer coisa sobre honestidade, sobre sentimentos que não se escolhem. Mas a garganta ficou-me tão seca como se tivesse engolido poeira do Alentejo. Apontei para a garrafa de água, sem dizer nada.

Estás mal? ele levantou-se, trouxe-me um copo de água. Mariana, por favor, não me assustes.

Eu? foi quase um crocitar de corvo o que saiu. Estou óptima. Olha, a felicidade vai e vem, mas o peixe fresco tem sempre de ser amanhado.

Bebi a água a sentir o frio abrir-me um buraco no peito. Levantei-me e fui até à casa de banho. Fechei o trinco cortei-me dele, das palavras, do mundo. Liguei a torneira no máximo para que ele não ouvisse se chorava ou suspirava. Mas ele ouvia sempre tudo.

Mariana! Abre! batia à porta com o punho. Se não abres, arrombo!

António, larga-me. Deixa-me só lavar a cara em paz.

Yá, estava a brincar! Vá, sai daí! disse ele, com aquela voz meio desesperada, a fazer de conta que isto era uma piada.

Olhei-me ao espelho. Uma mulher olhava para mim de dentro de uns olhos fundos, cabelo sem brilho, cara inchada; uma boneca velha caída num charco. Para quê que ele me aturou isto tudo, pensei? Diz que o fogo antigo lhe reacendeu Descobriu o fundo de recursos emocionais.

Lavei a cara com água gelada, penteei-me, endireitei os lábios e saí da casa de banho com o andar de uma rainha destronada que faz de conta que só foi ali apanhar ar fresco.

Ele estava no corredor, pálido, as mãos a tremer. E aquela miséria ainda me deixou pior. Só queria sair dali de casa, daquele cheiro dele a after shave.

António, vou sair. Preciso de ar. Não venhas atrás.

Mariana, e o coração? E se te sentes mal?

O coração? ri-me. Agora está em modo poupança, já nem oiço bater. Não venhas.

Ia argumentar, mas já eu estava a vestir o casaco e a sair porta fora.

O Jardim da Estrela estava cheio de sol. Mães novas empurravam carrinhos ultramodernos, um idoso lia o jornal numa esquina, uma senhora com um caniche lutava pelo trela. A vida continuava. Sentei-me num banco e comecei a olhar para as mulheres que passavam. Qual delas era ela, a tal Sofia? Aquela de cabelo curto? Ou a outra de saltos e mala de marca? E onde a terá encontrado? No Facebook? Na fila para o fiambre no supermercado? Consumiu-me pensar que ele andou a procurar, a enviar mensagens, a marcar cafés aquilo roía por dentro. Era vital ver a cara dela, perceber ao vivo, tocar, entender o que ela tinha a mais.

Passados quarenta minutos, voltei. O António estava na cozinha, de olhos pousados em cima da chávena.

Voltaste? perguntei seca.

Onde querias que estivesse? Mariana, podemos falar?

Já falámos. Disseste ao que vinhas, ouvi tudo, não há mais perguntas.

Mariana, não sejas assim.

Só quero perceber: foste tu que a encontraste ou foi ela?

Suspirou fundo, percebeu que dali não fugia.

Ela enviou mensagem. Não sei, estava a ver as memórias no Facebook e apareceu-me uma notificação.

Coincidências. A internet é cheia delas, sobretudo para quem anda à caça dos ex. E depois? Tomaram cafés?

Só nos encontramos duas vezes, conversámos.

Sobre a paixão antiga, claro. Vidas não vividas. Sinceramente António, pareces um adolescente. Cruzei os braços. E o nome? Não me deixes morrer de curiosidade.

Hesitou, olhou para as mãos.

Mariana, não quero magoar-te mais

Diz-me quem é. O nome daquela que merece que troques trinta anos de casamento por uma mala e uns óculos escuros?

Sofia… Sofia Monteiro.

Sofia sorri forçada. Nome bonito, não é? Não como o meu, Mariana clássico, aborrecido, seguro.

Mariana

Não digas nada. Levantei-me. Olha, boa sorte para ti. Sê feliz. Eu também vou arranjar alguém, sei lá, dos treinos de ginásio até posso ver como está o Manuel, aquele da escola antiga, dizem que divorciou-se há pouco.

Mariana, não digas isso, tu não és assim!

Como sou então? já ia para o quarto. Não quero café. Dói-me a cabeça. Vou deitar-me.

Deitei-me na cama a olhar o tecto, e percebi que tinha mentido não me doía nada a cabeça, era a alma mesmo a arder lá dentro. Ouvi António mexer-se pela casa. Peguei no computador, fui direito às redes sociais. É lá que todos os segredos pairam agora.

Fui à página dele. Amigos não faltam, mas Sofia Monteiro não havia. Espertinho! Terá apagado? Ou nunca adicionou? Fui ver seguidores, likes, comentários antigos. Nada.

Do nada, tropecei numa tal de Carla, foto de perfil na praia em Vilamoura, copo de vinho branco na mão, cachecol de palha. Amigos do António. Passei a página, nas fotos antigas descubro uma Sofia de trança, círculo à volta: Sofia a estrela da turma! Pronto, era ela. O perfil fechado, claro. Mas dei com outro Sofia Monteiro no Instagram, onde sim, dá para ver tudo. Foto de perfil impecável, cheia de filtros, olhos enormes, pele lisinha, sorriso imbatível. Seguida de páginas de autoajuda e culinária criativa. Citação de a vida só se vive agora. Corações e frases feitas.

Fiquei com tanta raiva que só me apetecia atirar o computador contra a parede. Primeiro amor, uma ova. Mulher feita, bem penteada no computador, mas cheia de vontade de viver aventuras tardias.

Ia fechar tudo, quando noto o perfil de um homem conhecido entre os seguidores dela. Foto de barba grisalha, casaco elegante, num Audi branco reluzente. Espreme os olhos: era o Manuel, sim, o tal amigo do liceu, o que em tempos carregava os meus livros e me deixava miniaturas Simões na bibliotecária. Não o via há mais de vinte anos; diziam que tinha feito fortuna na construção no Porto, separou-se, montou empresa própria.

O coração acelerou. Claro, se alguém sabia tudo sobre a Sofia, era o Manuel. Tinham sido colegas da mesma turma.

Procurei o Manuel no Facebook. Mando-lhe mensagem privada, com alguma graça forçada: Manel, sabes quem é? A tua Maria antiga dos recados, lembraste? Preciso de falar contigo urgente!

Resposta no mesmo dia: combinámos ir jantar àquele restaurante clássico do Chiado Solar Antigo.

Fingi que ia ao dentista para sair mais cedo do trabalho. Em casa aquela azáfama de quem se prepara para uma batalha: reviro o guarda-roupa, encontro o vestido azul-escuro que comprei no aniversário da sogra, mas nunca usei. Cabelo com ondas, maquilhagem de festa (em plena tarde). Perfume. Tacões. Ao espelho olhava-me outra mulher, não aquela varrida da manhã.

Cheguei cedo ao restaurante. Fiquei junto à janela, um copo de Alentejano na mão. Mãos a tremer, mas respirei fundo.

O Manuel apareceu à hora, confiante, sorriso fácil, cabelo grisalho bem cuidado. Quando me viu, sorriu surpreendido e genuinamente contente.

Mariana? A sério? Pensei que vinhas de bata da escola, e és só uma mulher de quem perdi o fôlego. Estás espectacular.

Vá, deixa-te disso, fiquei envergonhada, mas soube-me bem. Manel, obrigada pelo tempo. Sei que andas sempre a mil.

Para ti há sempre tempo respondeu. Bebes vinho? Óptimo. Traga-nos a melhor garrafa tinto da casa, se faz favor! E para petiscar, tens fome?

Acho que não, confesso. Tenho um nó na garganta.

Trouxeram o vinho, brindámos à saúde e aos reencontros. O tinto aqueceu-me por dentro.

Manel, vou direita ao assunto. O António vai deixar-me. Pelo menos assim diz. Para se juntar à Sofia Monteiro. Achei-a nos teus amigos.

O Manuel franziu o sobrolho, recostou-se.

A Sofia? Aquela Sofie?

No Insta é Sofie, mas diz-se Sofia. O António só fala dela assim.

O Manuel engoliu um riso, quase pegou num cigarro mas voltou a guardar.

Mariana, honestamente? O António acha que é galã de novela, mas não vai aguentar muito o embalo com ela. Olha, conheci a Sofia só em almoços de grupos. Ela é aquela mulher que só brilha quando fala pouco e usa vestido bonito. Se tiveres de viver com ela esquece.

Diz, Manel!

Ele encolheu os ombros.

Bom, segredo nenhum: ela é um bocadinho desleixada, não cozinha nada de especial só congelados, pizzas, o fácil. Tem dois filhos com pais diferentes, nenhum fala com ela. Resmunga tanto que toda a gente foge. E ressona, Mariana, acredita! Eu, uma vez numa casa de férias, fiquei no quarto ao lado dela: aquilo parecia obras na cidade, um ronco que nem te digo. O teu António, coitado, habituado a dias calmos e à tua sopa na mesa

Dentro de mim, mistura-se alívio com, vá, algum veneno. Quase esbocei um sorriso.

Manel, não imaginas o favor que me estás a fazer. Mas há mais Preciso que…

Não terminei a frase. De repente, ouço uma voz conhecida, fria como gelo:

Afinal é aqui que estavas! Liguei-te várias vezes!

Olhei e ali estava ele. O António, pálido de raiva, mão bem apertada por uma mulher a quem reconheci logo a cara da tal fotografia Sofia. Ao vivo era menos polida: queixo pesado, baton muito berrante, olhos desconfiados.

Ó Manel! guinchou ela, largando o braço do António e atirando-se quase ao colo dele. Que surpresa!

Sofia, olá, fez o Manuel, só por educação.

António avançou para mim, pegou-me no braço e puxou-me de imediato:

O que estás aqui a fazer? Por que estás com ele? À quanto tempo é que vocês?

António, tira a mão. Soltei-me. Tu saíste de casa hoje de manhã. Eu sou livre. Tenho direito.

Livre?! ele disparou um olhar para o Manuel. Então, ele é o teu novo… consolo? E nem aqueceste o lugar!

Não te diz respeito, cortei.

A Sofia, já agarrada ao Manuel, lançou:

Isto não é nada, António. O Manel é dos nossos, conhecemo-nos há séculos. Piscou-lhe o olho. Olha, Manel, já agora dá-me o teu número, tenho saudades daqueles almoços.

O Manuel trocou-me um olhar rápido: Vês do que te falo?

Sofia, estava em reunião, disse. Estou aqui com a Mariana a tratar de negócios mesmo.

Negócios com a Mariana?! bufou António. Ela é doméstica, que negócios tem ela?

Senti-me a ferver. Nisto, o Manuel faz algo inesperado passa-me o braço pela cintura, diz alto:

Olha, António, não te ponhas com faltas de respeito. A Mariana é uma mulher incrível. E se foste burro ao ponto de a trocar por… e olhou para Sofia … isso, azar o teu. Mariana, podemos continuar o jantar?

Sorri-lhe, encostei-me ao ombro dele.

Claro, Manel.

Não passava de teatro, mas foi como um murro para o António. Ficou branco como cal, sem palavras.

Tu vocês gaguejava.

António, vamos, interrompeu Sofia, já roída de ciúmes. Não estragues a noite.

É isso, António, faz-te à vida. Foste tu que quiseste liberdade, lembra-te disso emendou o Manuel.

António ficou ali, sem saber para onde se virar, depois saiu disparado, a Sofia atrás. Vi-lhe nos olhos, naquele instante, o susto: percebeu que, ao libertar-se, tinha largado também a única mulher que foi casa.

Sentei-me e soltei o ar.

Obrigada, Manel. Foste espectacular.

Não tens de quê. Mas o olhar já era sério. Sabes, Mariana, não estava só a fazer jogo.

Olhei-o nos olhos. Vi ali aquela nostalgia única de quem olha para trás.

Hoje, quando te vi, percebi que fui burro em miúdo. Devia ter lutado por ti e fugi.

Manel

Deixa, fiquemos por aqui. Come qualquer coisa, vais precisar de forças.

O jantar decorreu calmo. Ele falou da filha, da vida, do Norte. Eu ouvia com metade do cérebro, o resto pensava no António, com aquela mulher a fugir-lhe do braço. E reparei que, só naquela noite, consegui fazer ciúmes ao meu marido em trinta anos. E sabes uma coisa? O ciúme é a prova de que ainda não morreu tudo.

Cheguei a casa tarde. A luz do corredor acesa, o António na entrada, só de pullover, os olhos vermelhos.

Chegaste?

Como vês. E tu, não foste dormir à casa da Sofia? Não era a tua primeira paixão?

Mariana desculpa. Fui um estúpido.

Já pediste desculpa hoje. Logo de manhã. Lembras-te?

Não era brincadeira. Eu fui mesmo estúpido. Fui a casa dela, achei que ia sentir tudo outra vez. Passou uma hora: ela pôs as notícias, aquecia croquetes no microondas, começou a falar do ex, dos filhos, das dores nas costas. Olhei-a e só via uma mulher cansada. Senti falta de ti de ti a beber água, das tuas mãos, do teu olhar de orgulho. Percebi o que perdi.

Não perdeste, António. Atiraste fora. Faz diferença.

Veio atrás de mim até à sala.

Mariana… e o Manel, o jantar? Tu gostas dele?

É só amigo do tempo do liceu, António. Mas foi o único que hoje me disse que sou uma mulher especial. Acho que tu não o dizes há uns bons dez anos.

António ajoelhou-se, pegou-me nas mãos.

Dá-me só uma oportunidade. Espero o tempo que precisares, mas não me expulzes.

Fiquei calada. Na cabeça ecoavam as palavras do Manuel, a dúvida. Mas à minha frente tinha o António, cheiro a lar, as mãos conhecidas, olhos de quem pede mais do que uma oportunidade.

Está bem. Agora levanta-te. Amanhã falamos. Vai dormir para o sofá.

E tu?

Eu fico por aqui.

Saiu, e eu fiquei sozinha. A pensar, só a pensar. Fui até à janela. Chovia a valer, aquelas bátegas grossas de março, a lavar a rua e talvez a alma.

Passaram sete dias. Vivíamos em modo vizinho de condomínio: civilizados, sem barulho, cada um no seu sítio. António tentava lavava loiça, varria, fazia compras. Via-o de longe. A Sofia ainda ligou, ouvi as conversas curtas até ele bloquear o número.

O Manuel também ligou umas quantas vezes. Sem pressas. Convidou-me ao cinema, para apanhar ar. Inventei desculpas não por não querer, mas porque o novo mundo de nova solteira assustava-me. Mas ele disse na última chamada: Mariana, tu não estás presa. Mereces vida e, se quiseres, vida bonita.

Sábado. António desde manhã atrás de mim, a querer conversar.

Mariana, bora passear à beira do Tejo? Está a cheirar a primavera.

Não me apetece.

Mariana Eu só queria que soubesses que fiz a minha escolha. Escolho-te. Vou escolher-te todos os dias, sempre.

Olho para ele. Está mais magro, parece encolhido. Mas nos olhos dele vejo uma coisa nova medo de perder.

António, e daqui a um ano? Com saudades de mais miragens do passado?

Não. Porque percebi… a minha última paixão és tu.

Toca a campainha. Ambos estremecemos. António vai abrir. Voz aguda de mulher. Sofia…

Ela entra pelo apartamento adentro. Molhada do chuva, casaco colado ao corpo.

António! Não atendes? Agora sei tudo! grita, sem cerimónias. É por causa dela, não é? aponta-me. Por causa desta velha?

Sofia, sai da minha casa diz António firme.

Saio? E quem me prometeu amor eterno? ela já quase chora, mas parece teatro. E essa aí anda feita com o Manuel, todos sabem! Enquanto tu dormes no sofá!

Como sabes onde durmo? o António muda de cor.

O Manuel contou-me! Encontrámo-nos, sim senhor diz ela e percebe logo que meteu a pata na poça.

Silêncio.

Foste ter com o Manuel? António pergunta devagar. O quê cafés?

Ela faz-se de desentendida.

Nós só tomámos café. Ele ligou a convidar.

Que negócios, Sofia? Que tens tu a tratar com o Manuel? já me rio.

Ela crava-me um olhar de raiva:

Não é da tua conta! Estás a roubar-lhe o marido, sua sonsa!

Eu? levantei-me. Tu é que vens aqui berrar. António, faz favor.

António ficou parado. Olhava para mim, depois para a Sofia, finalmente percebeu tudo.

Portanto, tu também andavas atrás do Manuel, Sofia abanou a cabeça. Ele até parecia preocupar-se contigo, Mariana.

E preocupou-se. Mas os velhos amigos não se esquecem dos esquemas dos tempos de escola. Fitei o António. Então, o vento mudou?

Desculpa-me. Por tudo. Pela dor, pela cegueira.

Fui à janela. A chuva passou, o sol rompeu as nuvens e o empedrado de Lisboa brilhava.

Sabes, ela tem razão num ponto. Fui jantar com o Manuel. Falámos. Podia ter ido ao cinema com ele, não fui. Não foi porque te esperava. Foi porque percebi uma coisa simples.

O quê? suspense.

Virei-me para ele.

Vivi trinta anos contigo. Sei como ressonas, como dobras as mãos quando tens frio, o sabor do teu café da manhã e o que calas quando sofres. Fiz raiz em ti, António, como árvore velha num quintal. Pode-se transplantar uma árvore, mas às vezes já não pega. O Manuel pode ser um jardim de inverno, bonito, mas tu és o meu jardim meio esquecido, antigo, mas o meu.

Ele engoliu em seco, encostou-se a mim.

Eu cuido do jardim. Arranco as ervas daninhas, prometo.

Daninhas vão sempre aparecer. É a vida.

Mariana… aquela noite, no restaurante, ver-te ali com o Manuel… nunca tive tanto ciúme.

Tiveste?

Morria de ciúmes. E percebi que só me apeteceu matar metade do mundo, menos o burro que sou eu próprio.

Ficámos assim, abraçados. Senti o peito dele tremer.

António?

Sim?

Eu também acho que não sei viver sem ti.

Ele apertou-me tanto que doeu.

Obrigado.

Porquê?

Por me dares mais uma oportunidade.

Ficámos junto à janela. Lá fora, Primavera. Os pardais chilreiam, o cheiro a terra e flores. Algures, a Sofia já andar à caça de nova aventura. Algures, o Manuel faz-se à estrada na esperança de que nem tudo na vida se compra.

E nós os dois, de pé, sozinhos, mas juntos. Dois miúdos já crescidos que a vida quase separou, mas voltou a juntar. Porque há amores mais fortes que o primeiro amor. O último. Não enferruja. Não brilha aos olhos dos outros, mas é o que fica.

Sorrio-lhe:

Bora beber chá de menta?

De menta? Bora. Comprei custard de cereja, o teu preferido.

Como adivinhaste que eu voltava?

Ele sorri:

Só sabia. Não precisei de mais nada.

E seguimos para a cozinha, de mãos dadas. A vida à nossa espera simples, com altos e baixos, sarilhos e reconciliações, doenças e gargalhadas. Mas juntos. E é isso, amiga. Isso é o que vale. Porque a felicidade, a verdadeira, não está na net nem nas paixões recicladas. Está ali, à mesa, no chá com menta e na certeza de que, aconteça o que acontecer, o amor que conta está sempre na nossa casa. E, acredita, esse nunca enferruja.

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Vivemos juntos 30 anos. Sei como ele respira enquanto dorme e o que adora ao pequeno-almoço. Mesmo assim, trocou tudo isto por “sentimentos do tempo da faculdade” e foi atrás de uma mulher de Photoshop perfeito. Nessa noite não chorei — enchi o congelador de gelo e fiz uma lista. Uma lista para o reconquistar, para que ele próprio implorasse para ficar. O primeiro ponto? Encontrar-me com a nova paixão dele.