Três fios. Três destinos
O que é que ela disse? Vera, não ouvi bem, o quê? Dona Irene inclinou-se um pouco para a frente e para o lado, tentando ouvir melhor a amiga, Vera Paula, que caminhava ao seu lado.
Vera explicou em detalhe o que a mãe e a menina de uns sete anos, que acabavam de passar por elas, tinham dito.
Lá na escola delas anda lá um miúdo traquinas, e ela foi-lhe chamar a atenção…
Vera falava alto, tão alto que fazia eco pela rua. Irene escutava com atenção, sem interromper; depois, olhando para trás, procura com o olhar a tal miúda, acena-lhe com um sorriso.
Boa menina, muito asseadinha. Mas tão arisca já! concluiu Irene.
Porquê? admirou-se Vera, ajeitando a amiga pelo braço enquanto a puxava, indicando o semáforo verde e os carros parados à espera que as duas idosas atravessassem.
O quê? O que disseste, Irene? Não ouvi! perguntou Vera, olhando confusa para os lados, apertando a mala contra o peito, avançando com passinhos curtos para o passeio.
Perguntei-te porque achaste a miúda arisca repetiu Irene, mais alto.
Ah… Porque sim.
Dona Irene não gostava de explicar os seus raciocínios; por preguiça, talvez ou por lhe parecerem óbvios.
Aquela menina tomara para si a tarefa de corrigir o rapaz traquinas? De ensinar, de julgar? Não, meninas, assim não se resolve nada! Isso não resulta!
Irene balança a cabeça ao ritmo dos seus pensamentos, enquanto Vera suspira. Às vezes, a amiga era insuportável naquele jeito misterioso de falar em enigmas. Mas sem a Irene este mundo, tão diferente, luminoso e ruidoso, seria insuportavelmente difícil.
Irene e Vera eram vizinhas. Tinham casas diferentes, cada uma com saída direta para a rua nada de escadas ou elevadores. Viviam numa das antigas casas de uma quinta senhorial de Lisboa, propriedade, em tempos idos, de um coronel do Exército e mais tarde doada a um ativista cultural, que, aconselhado pela esposa, transformou a casa principal numa escola secundária. Os anexos e casas baixas foram cedidos para oficinas e ateliers artísticos. Com o tempo, a história remexeu sem piedade com a rotina pacata destas casas. E agora aquele edifício de um só piso, disposto em semicírculo que fora cavalariça! estava transformado em apartamentos. A maioria dos moradores saíra há muito, procurando prédios mais modernos e cómodos; mas Vera, Irene e outra amiga, Tânia, agarravam-se ao que era seu, rasgando os papéis que regularmente recebiam com propostas de compra ou troca, com incentivos, ajudas e promessas em euros.
Negócios, empresas, agências, patrões de pequenos comércios todos cobiçavam aquele recanto antigo de Lisboa, tão central, com vistas para o Tejo e perto do Bairro de Santos, do Museu Nacional de Arte Antiga e da Basílica da Estrela, para não falar do Jardim das Amoreiras ali ao lado. E embora a casa principal fosse agora escola, sobravam anexos, pequenas casas que ninguém ainda entregou a mãos “seguras”.
Mas aquelas mulheres delicadas, frágeis e já sem forças, sobreviviam nas suas tocas. Ali passaram a vida, ali queriam acabar.
Vamos à Tânia adiantava-se Vera, com uma caixa de bolo nas mãos. Vamos dar-lhe os parabéns.
O quê? Não percebi, Vera, olha para mim, a ver se leio nos lábios! pede Irene, insegura, com medo e vergonha de irritar a amiga. A surdez incomodava, claro que sim, e por vezes Vera parecia mesmo exausta
Mas Vera para, dobra-se até à cara de Irene e articula bem devagar:
A Tânia convidou-nos! Estás a ver?
Ah, pois, lembro-me! Irene sorri, questão resolvida; está na hora de seguir caminho.
Hoje é aniversário da filha da Tânia. A própria Tânia, pobre senhora, já não caminha, a idade fê-la refém de uma cadeira de rodas. Lídia, a filha, já não é jovem, trabalha numa empresa, raramente vem. Tinham combinado comemorar ao domingo, depois adiaram. Tânia não guarda mágoa.
Eu é que tenho culpa diz ela, quando as amigas se sentam à modesta mesa de festa. E não digam mal da minha menina! levanta o dedo, pois nem era preciso; da Lídia só se diz bem.
Vera acaricia-lhe a mão magra. Aquela mão que, em tempos, arrancava ervas do quintal depois da guerra, quando resolveram semear batatas e feijão para sobreviver. Era ela, a Tânia miúda, quem agarrava a enxada maior que ela, de unhas cheias de terra, lançando sementes como se fossem tesouros. Tempos difíceis, com fome e frio. As mães das três amigas trabalhavam em hospitais, as meninas cuidavam-se sozinhas, fazendo do pouco muito. O que aparecia para comer, era recebido com gratidão pão, às vezes uma noz de manteiga de sabor estranho. Nunca se queixavam.
Mas tinham o quintal onde sonhavam colher pepinos e couves, as sementes compradas ao senhor Aníbal, o velho agrónomo do prédio do lado, que dormia entre cigarros e discussões com os vizinhos, mas adorava as meninas das “cavalariças”. Nelas via esperança e alegria. Um dia chamou a Vera:
Toma, menina, sementinhas; vão ver, vai nascer coisa boa.
No início, não acreditaram. Mas as plantas cresceram; as couves formaram bonitos repolhos, os pepinos deslizavam pelo chão entre folhas estrelinhas. Só a salsa não vingou. O senhor Aníbal reclamou, mas acalmou-se e ofereceu bolacha torrada.
Quando isto tudo acabar, meninas, quando os vossos pais regressarem da guerra, vamos fazer aqui um jardim de cortar a respiração! prometeu. Mas não sobreviveu à guerra.
Vera, Irene e Tânia viram-no partir para sempre, levando medo e silêncio consigo. Demasiada morte nessa altura. O jardim, acabaram-no sem os pais.
Agora Tânia envelhecida fica na sua cadeira, Vera afaga-lhe a mão, enquanto Irene fatia o pão e corta pepinos para a salada. O bolo está à espera, com copos para licor. Tânia adora licor de ginja, por isso brinda com as amigas bebem pela saúde da Lídia, pelas pernas da Tânia, já paradas há anos, por um inverno menos cruel.
A paralisia da Tânia foi estúpida e injusta escorregou num passeio molhado, quase não se magoou, mas no dia seguinte as pernas já não respondiam. Sozinha em casa, nem telefone conseguia alcançar. É verdade que com a idade veio o peso, a mobilidade foi-se, os médicos falavam em hormonas, em remédios, mas ela sabia: era só velhice. Chamemos as coisas pelos nomes
Ouvira os passos de Vera a sair de manhã para alimentar os pombos e esperar que Irene acordasse sempre esquecida, gostava de dormir cedo e acordar tarde. Viam toda a gente da janela, como um quadro antigo.
“Agora Vera foi ao supermercado”, sorria tristemente Tânia. “Irene vai aparecer a qualquer momento”
Tânia não teve coragem de pedir ajuda durante horas o frio de outubro entrava pelas janelas, sentia fome, precisava da casa de banho
As amigas desconfiaram. Onde se viu a Tânia não pôr a tocar a rádio ou a vitrola ao pequeno-almoço?! Nem a dormir até tarde costumava. Ela tem um relógio interno, sempre acorda cedo!
Foram bater-lhe à porta: primeiro Vera e Irene, depois um vizinho. As mulheres insistiram até o homem decidir arrombar. A porta de madeira cedeu facilmente. Entraram o vizinho e as duas amigas.
Tânia! Onde estás? Fala connosco! gritou Irene já quase surda do susto e nervosismo.
Viram a Tânia estendida, tudo ficou claro. O vizinho saiu, Vera já mudava roupas e lençóis, lavava, limpava. Não era novidade para ela cuidara do marido paralisado, caído de um andaime do restauro da igreja. Já o tinha enterrado fazia oito anos com um misto de tristeza e alívio.
Sofreu muito dizia Vera no cemitério. Agora está em paz. Lá em cima, volta a ser novinho.
As amigas nunca perceberam porque pensava Vera que aquele homem mesquinho merecia o céu, mas deixaram-na acreditar
Tânia foi levada ao hospital, o diagnóstico era cruel. Chorou toda a noite, culpando-se diante das colegas de enfermaria.
Mas tanto assim, minha senhora? admiraram-se elas.
Sim, era por isso. Aos dezanove anos, Tânia teve a Lídia, uma menina ruiva, fruto de um grande amor de juventude. Namoravam, estudavam juntos, mas quando ela engravidou, o rapaz virou-lhe costas. E o futuro, cheio de planos, não cabia na responsabilidade. A mãe deu-lhe bofetadas, mandou-a para o hospital mas gestação avançada, só restava mesmo aceitar. Tânia fugiu para a aldeia com uma tia-avó, ficou lá dois anos. A mãe passou a visitar, foi gostando devagar da neta.
E o pai? Nunca quis saber. “Não envolvam a minha família nesses dramas”, disse.
Aos dois anos e meio da Lídia, voltaram a Lisboa. Vera e Irene foram amas perfeitas. Lídia passava de casa em casa, três pares de olhos vigiavam-na. Era estranho: Tânia tão jovem e já mãe. Mas no fundo, igual às outras só mais cansada.
Tânia fez o curso por correspondência, trabalhava e cuidava da filha. A mãe morreu quando Lídia tinha oito anos.
Depois apareceu uma delegação francesa na tipografia onde trabalhava. Ouvia-se falar de romances, mas não foi impedimento nem para ela, nem para o Pierre bonito, francês, de olhos azuis. Tânia era chamada à polícia, era aconselhada, era avisada. Nem isso deteve os sentimentos. O amor é mesmo gigante e faz esquecer tudo.
Vera e Irene nem acreditavam quando viam os presentes de Pierre caixas enormes com roupas, brinquedos para a Lídia, louça para a mesa… Até convite para se mudarem juntas para perto de Paris.
Ele tem uma vivenda mesmo linda nos arredores, imaginem! E um quarto só para mim! Tânia contava sem fôlego.
E a Lídia? perguntou Vera, perspicaz.
Para já fica, mas depois busco-a, prometo! justificava-se Tânia, a música do amor a fazer mais barulho que os conselhos sensatos.
Mãe, e o meu bilhete? perguntou Lídia ao chegar da escola. Tens que avisar na escola que eu vou…
Tu ficas cá, Lídia. Por agora é melhor. Eu volto e levo-te depois. Vais ficar…
A explosão da jarra dada por Pierre interrompeu Tânia. Lídia atirou de seguida pratos e chávenas à parede.
Lídia confessou depois a Vera que nesse dia sentiu o chão a fugir, o ar preso na garganta; tudo escureceu.
A tua mãe volta. Vais ver que não consegue viver sem ti. E nessa altura tens de decidir se a perdoas ou não disse Vera, quando acalmou o choro. Ninguém irá julgar-te. Sabes, vivemos tanto tempo sem sonhos, que é fácil cair na promessa de uma vida brilhante. Essa é a fraqueza das mulheres
A própria Vera já fora enganada pela promessa de beleza num encontro com uma vigarista na rua em vez de uma boina de luxo, comprou um saco de trapos velhos
Tânia partiu para França. Lídia não foi à estação, não respondeu às cartas. Tânia sabia por amigas da vida da filha. Regresou ao fim de seis meses demasiado para uma jovem sentir saudades. Lídia rejeitou-a, deitou fora os presentes.
Ainda por cima, casaste? perguntou Irene.
Não Tânia abanou a cabeça devagar. A família de Pierre não quis saber disto. Pediram-me para esquecer a Lídia. Disse-lhes diretamente: não. Na hora de ir embora, cuspi no chão deles. Achas que a Lídia me vai perdoar?
Irene deu de ombros:
Talvez um dia, quando for adulta, quando também sofrer, quando amar. Por agora não. Mas digo-te, Tânia, foi tolice. Nenhuma de nós conseguiria deixar os filhos por sonho nenhum…
Por este pecado, Tânia considerava-se castigada.
Lídia contratou uma ajudante para a mãe, mas era fria e desajeitada. Uma vez escaldou Tânia com água a ferver, e fugiu de medo, deixando-a nua e a arder na banheira… As paredes das casas eram finas. Vera correu, entrando com a chave suplente. Socorreram-na, e Vera tornou-se a sua cuidadora.
Já te disse para me deixares pagar-te! implorava Tânia.
Usa esse dinheiro para comprar juízo! respondia-lhe Vera, indignada.
E era assim: sabiam tudo umas das outras desde miúdas, amigos de infância, viam-se nuas na praia, protegiam-se durante os bombardeamentos, partilhavam até as filas no centro de saúde. Dinheiro entre elas? Impossível.
O tema morreu ali. Vera ajudava Tânia e depois acompanhava a Irene à rua. Esta podia facilmente ser atropelada por um carro ou trotinete a surdez tirara-lhe o sentido de orientação. Vera dava-lhe o braço para passeios longos pelas ruas do Príncipe Real, da Rua de São Bento, até às margens do Tejo. Ou sentavam-se nos jardins a ver os meninos brincar, recordando os próprios filhos a trepar amoreiras. Em Lisboa há sempre árvores de tília, e quando florescem, espalham aroma avassalador. Irene fazia questão de colher tília para chá, sabia como secar e guardar. Inventaram, entre elas, o “chá das amigas”, encontro semanal com chávena de porcelana e refeições especiais, revirando livros antigos de receitas portuguesas. Mesmo que acabasse sempre numa açorda improvisada era sempre bom.
Comiam, conversavam, viam o jardim e sentiam o perfume das tílias. Lembravam Paris, falavam de artistas conhecidos, de pequenos segredos, cada uma à sua maneira. A Vera conheceu centenas de pintores, a Irene, química de fábrica, era mais reservada já nessa altura temia perder o ouvido.
Durante a guerra, a Irene sofreu com uma explosão perto; sobreviveu, mas com dores de cabeça e ouvidos para sempre. Deitava-se de barriga no chão, a tentar segurar a cabeça, como se pudesse evitar uma catástrofe sozinha…
Já adulta, Irene conheceu o marido na fábrica. Ele era doze anos mais velho, tinha o rosto marcado por queimaduras.
Para quê uma miúda para mim? Vais querer alguém novo, vou sofrer! dizia ele.
Quando casaram, naquela primeira noite, Ivan cheirou-lhe o cabelo, ouvia-lhe o respirar como quem ouve música, como quem ouve chuva a cair no telhado. Irene gostava da sua cabeleira grisalha, não lhe assustava o rosto queimado os olhos eram de menino, risonhos.
Ivan foi o único amor de Irene. Morreu cedo, aos cinquenta e cinco. Foi-se dormir e nunca mais acordou. Irene ficou sozinha, lágrimas caídas sobre o rosto dele, a limpá-las para não o queimar
O filho, Miguel, chamou as vizinhas. Chorararam juntos. Lídia, ao testemunhar aquela dor, sentiu finalmente o amor imenso pela mãe e começou, devagar, a perdoá-la.
O marido de Vera nunca foi simpático “amável mas duro como pedra”, dizia a Tânia. Calculista, prometia tudo e cumpria pouco. “Falta comprar cortinados novos.” “Temos de esperar, a vida é cara.” “Agora compramos o frigorífico.” Mas depois, na hora de mudar, arranjava desculpas e recusava. Vera ia-se resignando, esperando por coisas melhores, mas o marido desmanchava sempre as expectativas.
Porque casaste com ele? perguntou Irene certa vez ao ver outro desgosto.
Tive medo de ficar sozinha. Tu e a Tânia sempre chamaram a atenção, mas eu quem ia casar comigo? chorava Vera, desalentada.
Divorcia-te! gritavam as outras. Basta de sofrimento!
Não posso. Temos o Miguel, ele gosta do pai. Não posso destruir uma família só pela minha desilusão. Ele não me compreenderia…
Irene e Tânia desafiavam, resmungavam, mas depois, subitamente, Vera mudou. Rejuvenesceu, sorria, passeava leve pela rua.
O que se passa contigo? perguntou Irene. Estás feliz com aquele homem?
Vera corou e, um pouco envergonhada, confessou:
Apaixonei-me. Há um senhor maravilhoso que me faz sentir especial. Agora sei o que era o tal “ombro amigo”…
Chorou e Irene abanou a cabeça. Vera nunca se atreveria ao divórcio: essa seria a sua cruz.
O romance foi longo, durou até Miguel entrar para a universidade e o marido, André, sofrer um AVC. Ficou acamado. Vera tornou-se sua enfermeira, arrependeu-se, pediu desculpa todos os dias. Ele gemia, já sem voz.
Quando André morreu, o namorado pediu-lhe casamento. Vera recusou.
O Miguel não entenderia. Seria traição. Sinto-me culpada demais
O homem foi embora para o norte. Nunca mais se soube dele. Mas foi ele quem, em segredo, conseguiu os móveis, o frigorífico novo para Vera e Miguel. Mas nunca foi dono da casa. Enfim
Os anos passaram, as amigas envelheceram, o prédio também. O jardim de tílias florescia todos os anos. Da escola de artes saiam músicos e artistas. Muitas vezes, as três amigas assistiam aos concertos, sentadas juntas na primeira fila.
Tânia de cadeira-de-rodas, coberta com manta, vestida de veludo e renda branca; Vera, direita e discreta, em vestido castanho com cinto de missangas e sapatos a condizer; Irene, mais simples fato cinzento, sapatos gastos, mala muito usada mas com um sorriso de serenidade tão grande que parecia uma artista disfarçada. Todas de luvas rendadas homenagem a Paris de Tânia.
Não te culpes tanto, Tânia! dizia Vera, servindo fatias de bolo. A Lídia já é mãe e esposa. Conheceu o amor. Odia talvez o Pierre, faz ela muito bem, mas a ti ama-te.
Isso mesmo corroborava Irene. Só os jovens são cruéis. Com o tempo, tudo muda, aparecem as nuances. Hoje a Lídia entende; na altura doeu muito, mas cresceu e perdoou. Ah, e o Pierre era um asno…
Puseram a água para o chá. O velho bule elétrico, brilhante, herança de família, dava conforto. Refletia histórias, memórias, e era estimado.
Lá fora, o outono já humedecia folhas; a primeira geada podia chegar a qualquer momento, escurecer os cravos-de-jardim, enrolar as folhas das calêndulas. Cheirava a terra molhada, mas ainda havia calor no ar.
Um carro parou no pátio, os faróis brilharam e apagaram. Ouviu-se alguém de saltos a correr na calçada e parar à porta. Tânia prendeu a respiração.
Soou a campainha. Vera abriu. Era a Lídia, que trouxe um imenso ramo de dálias, cor de vinho e amarelo. Mal se via a aniversariante: chorava. Sentou-se e chorou, sem acreditar que já a tinham perdoado. Ou então, incapaz de perdoar-se a si própria… mas feliz, por naquele dia ter tido uma filha ruiva outra menina, um “ratinho” embrulhado em mantinha cor-de-rosa. Felicidade pura!
Se, por acaso, espreitarem hoje pela janela daquele antigo anexo em Lisboa, verão três senhoras idosas rindo, tomando chá, recordando antigas memórias e esperando, esperando Filhos, netos, bisnetos todos que tornam a vida cheia e viva. Em breve partirão, dissolver-se-ão na memória mas, até lá, querem estar com os seus queridos, abraçá-los. Não há tesouro maior.







