Desculpe, mas que pagamento em atraso? Não está a confundir? Não temos nenhum empréstimo, não… Sim, somos os Cunha, sim, este é o nosso endereço, mas… Quanto? Não pode ser verdade. E em nome de quem está esse empréstimo? perguntou Leonor, perplexa.
Em nome de Diogo André Cunha responderam-lhe.
Sim, é o meu marido, mas como é que ele? E para quê? Leonor ficou completamente transtornada.
Lamento, a voz do interlocutor suavizou-se, mas as regras são iguais para todos: o prazo expirou, hoje é só um aviso, depois virão outras medidas.
Leonor nem se recordava de como chegou à sala, sentando-se logo em frente ao computador: o choque da notícia tinha-lhe tirado o fôlego. Não, tinha de perceber com os seus próprios olhos de onde vinha aquela dívida.
Nunca vira nenhum cartão de crédito do marido, o que significava que o dinheiro não era para a família. Mas que se passava? Já não conseguia pensar em trabalho só dava voltas àquela estranha chamada. Contou os minutos até Diogo chegar a casa.
Para quem é esse dinheiro? Quem te pediu para fazer este empréstimo?!
Nem me deste tempo, eles já te ligaram resmungou Diogo, frustrado. E, percebendo-se traído pelas palavras, virou-se para a mulher: O que foi? Foi para a mãe, pronto! Ela pediu-me ajuda, está sozinha…
E para quê essa quantia toda? Nós com menos conseguimos viver, até porque ambos trabalhamos!
Foi para férias, está bem?
Vai para onde? Para os Emirados ou para as Maldivas?
A minha mãe criou-me sozinha, tem direito. Não esperava isto de ti…
Diogo entrou na sala de rompante, atirou-se para a poltrona e virou-se para a parede, com o ar ofendido que sempre usava para tentar manipular a mulher. Mas desta vez, a pequena peça teatral do menino magoado não teve o resultado esperado.
Leonor não disse mais nada. A sogra já se tinha intrometido demais ao longo destes anos. D. Amélia sempre gostou de impor as suas vontades, desde o dia em que conheceu Leonor. Logo nas primeiras conversas, ao reparar nos brincos que Leonor usava, perguntou de imediato se eram verdadeiros ou bijutaria.
Ao saber que eram verdadeiros, logo exclamou:
Credo, que desperdício de dinheiro! Mais valia comprarem algo útil lá para casa…
Foi uma prenda Leonor ficou chocada com a reação.
Ah, assim está bem então sossegou-se logo a futura sogra.
Passada uma semana, Diogo pediu-lhe timidamente para não usar mais aqueles brincos quando fossem a casa da mãe. Dizia que a mãe ficava incomodada, que nunca tivera tal joia e que ele não lha podia comprar igual.
Já então começaram a surgir dúvidas sobre a estranheza daquele comportamento. Mas apaixonada, Leonor afastou os maus pensamentos. Depois, veio o casamento. D. Amélia brilhou: roupa elegante, presente generoso. Mais tarde, Leonor descobriu por acaso que o vestido e o presente tinham sido pagos por Diogo; caso contrário, a mãe recusava aparecer na boda.
Depois foi sempre a somar: ora a mãe queria uma televisão igual à da vizinha, ora era um secador vital como o da irmã, ora pagamento do cabeleireiro, tratamentos de beleza Tudo urgente, imediato. Caso contrário, D. Amélia chorava, queixava-se da saúde Diogo não suportava ver as lágrimas da mãe e cedia sempre:
É a minha mãe Como não ajudar?
Mas agora, também tinha a sua família. E o dinheiro mal dava para o essencial. Leonor não compreendia: ambos tinham bons empregos, mas estavam sempre curtos para o básico. Ao levantar as questões, Diogo encolhia os ombros:
Se calhar ainda não sabes gerir bem o orçamento, Leonor. Deviam era aprender mais com a minha mãe
Leonor nunca quis aprender nada com a sogra: nunca se deram bem. Estava bem de ver aproximar-se de pessoas assim e D. Amélia era desse tipo, sem dúvida.
Esta viagem foi a gota de água: D. Amélia exigiu férias de luxo, Diogo pediu um empréstimo no valor de vários meses de prestação do crédito da casa dava para mobilar um apartamento e ainda celebrar a compra num restaurante de luxo.
Mas Diogo não tencionava mudar: para a mãe, tudo, sempre. Leonor poderia, quem sabe, até aceitar, pois também faria muito pela sua própria mãe. O que não aceitava era que Diogo nem a avisasse E se tivesse acontecido algo? Quem ficava com a dívida? Ela! E D. Amélia, claro, isenta.
Era tempo de uma conversa séria. Estava na hora de escolher prioridades. Pelo menos, que ousasse explicar à mãe que há limites. Mas a conversa tornou-se em discussão: Diogo acusava a mulher de frieza, de pensar só em dinheiro.
Eu já paguei a dívida, vou pagar tudo Já é demais! Sim, a mãe não quer hotéis baratos, só do melhor. E merece! Deu-me tudo, a vida inteira! E eu não lhe vou dar umas férias como ela quer?
E se não temos dinheiro para isso? Não devia ela ouvir?
Prefiro explicar-te a ti: mãe é sagrada
Leonor percebeu: Diogo nunca mudaria. E sabia bem que Amélia tinha ciúmes do filho diariamente ligava-lhe a pedir para ir a casa, que sentia a falta do filhinho E Diogo largava tudo, atravessava Lisboa de ponta a ponta: porque a mãe chamava!
Na manhã seguinte, após uma noite sem reconciliação, cada um seguiu para o trabalho. Ao fim da manhã, Leonor sentiu-se mal.
Os colegas forçaram-na a ir ao médico. Lá, recebeu a notícia: ia ser mãe. Mal podia esperar para contar ao futuro pai. Afinal, desta vez, havia um bom motivo para reverem o orçamento!
Mas a felicidade durou pouco. Diogo ficou em choque, não queria o bebé, implorou que adiassem, insistiu no aborto. A sogra começou a ligar também, mas, ao contrário do filho, não implorava: exigia.
Não quero ser avó! Tu achaste que, com um filho, prendias o Diogo a ti? Enganas-te Ele vai-te deixar, não vais segurá-lo nunca!
Mas porquê? Que ideia é essa?
Eu sou mãe, conheço o meu filho. Ele já procura alguém há tempo, não tens hipótese. Se fores inteligente, faz como ele diz, que pensões não vais ver.
Leonor sentiu as pernas falhar. Só recuperou os sentidos no hospital.
Finalmente acordou disse-lhe uma voz familiar. Ao abrir os olhos, Leonor viu à sua beira a enfermeira D. Graça, vizinha da sogra.
D. Graça Não sabia que trabalhava aqui
Era melhor não saber, minha querida sorriu ela. Pensávamos que ia ser grave, escolher entre ti e o bebé.
O quê?!
Descansa, correu tudo bem. Mas diz-me, o que aconteceu para ficares assim?
Depois de ouvir tudo, a enfermeira franziu o sobrolho e aconselhou:
Deixa essa família, Leonor. O Diogo nunca muda, e aquela mãe vai infernizar todas as mulheres que ele levar para casa. Convenceu-se que os filhos têm de lhe dar tudo. O marido dela acabou por se destruir debaixo das exigências dela, e agora o Diogo é igualzinho ao pai nunca enfrenta a mãe.
Mas ele casou-se
Por milagre, digo-te. Se soubesses o número de raparigas que fugiram ao conhecer a D. Amélia! Pensa bem. E o Diogo, o que diz da paternidade?
Ao ouvir a resposta de Leonor, D. Graça murmurou um comentário menos próprio acerca do menino da mamã. E, como que por magia, Leonor decidiu: ia seguir em frente sozinha. Diogo, sem o saber, já tinha feito a sua escolha.
O divórcio foi pedido assim que Leonor regressou ao trabalho. Diogo não fez força para evitar nada. Leonor não lhe contou que mantivera a gravidez.
Passou um ano desde que recuperou a liberdade. Leonor passeava pelo jardim com a filha.
Ora vejamos, que coincidência ouviu uma voz já esquecida Porque não me deixas ver a minha neta?
Porque ela não é sua neta respondeu Leonor, serena. Aquele bebé Como aconselharam, nem chegou a nascer. Esta menina é só minha. E de avó já está servida.
Tu Como te atreves
Atrevo-me, sim. Precisa mesmo desse título? Que não faltem candidatas, com o filho certo
Saiu com um sorriso, ignorando os insultos da ex-sogra. Sabia bem que deixara um marido dependente da mãe, uma sogra sem limites, no passado. E tinha a certeza: fizera tudo certo.







