Mariana, lembras-te que no domingo temos de ir ao aniversário da minha mãe? perguntou Miguel ao pequeno-almoço, olhando para ela com suavidade.
Ela sorriu, mas por dentro só pensava: Como se fosse possível esquecer Já me falaste disso umas cinco vezes esta semana. E ainda ontem a tua mãe me ligou só para garantir que não me tinha esquecido Quem me dera esquecer Ainda assim, limitou-se a responder:
Claro que me lembro, Miguel. Está tudo combinado. suspirou discretamente, sentindo aquele peso que sempre chegava antes de ver a sogra. Dona Lurdes tinha um olhar eternamente crítico, os lábios apertados e cada gesto parecia um aviso solene. Mariana nunca percebia bem o que é que ela queria Amava o filho, deu-lhe netos, cuidava da casa Mas parece que nunca era suficiente.
O início com Miguel foi inesperado. Conheceram-se online, num grupo português de nutrição desportiva. Mariana comprava vitaminas, ele barras proteicas. Trocaram mensagens, depois likes nas fotos, e daí nasceu algo bonito, que acabou por se tornar amor genuíno. Em sete meses, casaram-se.
Riquinha, vou ser um ótimo pai! Juro! E quero muitos filhos, pelo menos quatro! Dois rapazes e duas raparigas! Acredito que uma criança só cresce mimada, mas em bando criam-se unidos, com bom coração.
Estás a ver mal as coisas sorriu Mariana. Tu próprio és filho único e não és nenhum egoísta!
Ah, eu sou exceção à regra! respondeu ele, piscando-lhe o olho, enquanto lhe dava um beijo na face.
No primeiro encontro, Dona Lurdes examinou Mariana como uma professora apertada. Fez perguntas sobre a família, o curso, a terra natal. Ao descobrir que Mariana era de Évora, filha de mãe solteira e com quatro irmãos a crescer num T2, franziu o sobrolho, calou-se e praticamente não largou o prato naquela refeição
O casamento foi à grande, num restaurante conhecido de Lisboa. Vieram de Évora a mãe de Mariana, duas irmãs e três irmãos. Gente animada e cheia de vida, todos pareciam felizes e a energia era contagiante. Mariana e Miguel não se largavam durante todo o dia, genuinamente apaixonados.
Dois meses depois, deram a notícia à família: Mariana estava grávida. Miguel não cabia em si de felicidade. As irmãs e irmãos de Mariana cobriram-nos de felicidades. A mãe chorou de alegria ao telefone, mal soube que ia ter outro neto. Já Dona Lurdes limitou-se a respirar fundo e apertar ainda mais os lábios.
Não podiam esperar? Aproveitavam mais a vida a dois! Logo filhos Vocês ainda são uns miúdos! Que tipo de pais vão ser resmungou.
Oh mãe, vem aí o teu primeiro neto! Devias estar radiante! E eu eu vou ser pai! IMAGINA! Miguel dançava com a mãe pela sala, mas ela esquivava-se, irritada.
Quando chegou a hora, nasceu uma menina saudável, linda, igualzinha a Mariana. Miguel ficava ainda mais feliz. Mariana encheu-se de amor e cuidava da filha, Carminho, com toda a dedicação. O marido ganhava bem; podiam ter uma empregada e ama, mas Mariana queria fazer tudo pelas próprias mãos. Tornou-se numa excelente mãe e dona de casa. Miguel colaborava: mudava fraldas, dava biberão e passeava a pequena sempre que podia.
No dia em que Carminho fez um ano, Mariana soube que estava novamente grávida. Miguel sonhava com um rapaz e teve sorte: nove meses depois nasceu o João.
Cuidar de dois bebés era mais duro, por isso, contrataram finalmente uma empregada. Mariana podia dedicar-se aos filhos, adorava o que tinha: Miguel venerava-a, nunca faltava nada em casa e viviam em conforto. Só que, claro, havia sempre um senão. E esse senão era Dona Lurdes.
Miguel, explica-me Porque é que a tua mãe nunca consegue gostar de mim? Nem dos netos parece gostar assim tanto O que é que faço de mal?
Mariazinha, não ligues. A minha mãe sempre foi complicada Vive no mundo dela, não conseguimos lá entrar abraçou-a, beijando-a com ternura. O que importa é que eu te adoro.
O tempo foi passando. O negócio de Miguel prosperava, as crianças cresciam felizes, Mariana sentia-se abençoada e agradecida ao destino por ter aceitado aquele encontro online. Do desconhecido, nasceu o seu companheiro de vida.
Uma noite, decidiram sair apenas os dois ao teatro. Mariana era apaixonada por espetáculos. Na sala escura, sentiu um enjoos repentino.
Miguel, estou a sentir-me mal Deve ter sido daquela salada ao almoço. O cheiro nem me agradou
Foram para casa. Depois de algum tempo de repouso, melhorou. Ainda assim, por precaução, fez um teste de gravidez. E positivo.
Mariana, que alegria! TRÊS! Três filhos, o que sempre quis! Miguel rodopiava-a na sala.
Três são muitos e tão seguidos? O João e a Carminho ainda são tão pequeninos Mariana mostrou-se apreensiva.
Nada disso! São nossos filhos e vamos dar conta do recado. Até vamos contar à minha mãe na festa de anos, como presente extra!
Por dentro, Mariana pensava: A sogra vai ter um ataque. Vai dizer que somos uma fábrica de filhos Ou algo pior. Mas assentiu, com um sorriso. Que seja.
Chegado o domingo, numa manhã cheia de sol, rumaram à casa da sogra. No caminho compraram flores e o tradicional bolo de aniversário. Chegaram com meia hora de atraso.
Dona Lurdes abriu a porta com um sorriso largo, borrifada em perfumes franceses. Beijou o filho, a nora e os netos, convidando-os para a mesa.
A sala já estava cheia, alguns convidados animados pelos brindes. Os atrasados tiveram de beber um copo em honra da aniversariante. Miguel fez as honras com o seu habitual à-vontade:
Querida mãe e avó! Parabéns pelo teu dia. Que continues bonita, saudável e feliz! Nós, os teus filhos, cá estaremos para te alegrar sempre. E agora, surpresa! entregou-lhe uma caixinha com uma pulseira de ouro cravejada de diamantes e, por cima, um pequeno envelope branco.
Dona Lurdes abriu a caixa, apreciou a jóia, depois abriu o envelope. Mal viu o teste de gravidez, o rosto toldou-se num segundo. Largou-o com nojo na mesa, como se fosse um bicho, voltando-se para Mariana:
É esse o teu presente? Pois claro, não sabes dar mais nada! Só sabes fazer filhos, como uma gata de rua Não te cansas? Três filhos? Uma vergonha! Bem instalada, sempre de barriga, em casa, com empregada e ama, enquanto o meu filho trabalha para pôr comida à mesa! És uma aproveitadora, só isso disse baixinho, mas com veneno na voz.
Abateu-se um silêncio pesado. Os convidados fingiam atenção ao prato, mas todos escutavam.
Miguel ficou lívido, a voz a tremer de revolta.
Como podes dizer isso, mãe? Nem acredito no que estou a ouvir. Achava que gostavas de mim. Afinal, não gostas de ninguém, só de ti mesma.
Levantou-se, Mariana foi atrás, quase a chorar. Vestiram as crianças e saíram. Dona Lurdes ignorou-os, a sala manteve-se calada.
No carro, Mariana chorava ao de leve, sem som, não queria assustar os filhos. Miguel suspirava, sem conseguir esconder a dor.
Em casa, passaram o resto do dia em silêncio. À noite, com os miúdos a dormir, sentaram-se na cozinha, à luz ténue.
Sabes, Mariana, pensei muito E percebi: não é culpa tua. Não seria melhor com a Teresa ou a Filomena. Ia implicar sempre, fosse com filhos, com comida, com o pó nos móveis Ela tem ciúmes de mim, nunca me deixou ir. E inveja-te. Sim, por mais estranho que pareça. A minha mãe criou-me sozinha, o pai fugiu e nem um tostão mandou. Lutou tanto para me sustentar, agora tu tens tudo fácil e eu estou sempre do teu lado. Não suporta ver esta felicidade, nem que seja entre nós. Perdoa-a, querida. Sê superior. Só isso
Ficaram assim sentados, abraçados, em silêncio prolongado. Miguel ponderava como nunca conhecera a própria mãe de verdade. Mariana, por sua vez, prometeu a si própria perdoar a sogra, por mais dura que aquilo fosse. Pelo menos, para já, não precisava de a ver. O tempo diria o resto.
Cada um a seu modo, pensava na dor, na vergonha. Mas tinham algo que ninguém lhes podia tirar: o amor. E os filhos. O resto não importava.







