Margarida, lembras-te que este domingo temos que ir ao aniversário da minha mãe? pergunta o marido ao pequeno-almoço.
Como se desse para esquecer! Já me lembrou disso pelo menos umas quatro vezes só esta semana Era difícil, mesmo que quisesse, esquecer, pensa Margarida, mas limita-se a sorrir e responde:
Lembro-me, Simão, claro que lembro suspira ela, quase impercetível. Ultimamente, os encontros com a sogra tornam-se um verdadeiro sacrifício. Dona Graça está sempre com ar de poucos amigos. Margarida não percebe bem o que é que a mãe de Simão não aceita. Ama o marido, teve-lhe filhos, gere a casa impecavelmente. Mas percebeu que nem sempre se consegue agradar a todos
Margarida e Simão conheceram-se de forma bem moderna através da internet. Participavam num grupo de alimentação saudável no Facebook. Ela comprava vitaminas, ele barras de proteína. Começaram com uma conversa simples, que foi crescendo em privado. Ele começou a colocar gostos nas fotos dela e, assim, nasceu aquela amizade, que se foi transformando em amor verdadeiro Em sete meses já estavam casados.
Margarida, vou ser o melhor pai do mundo! Mesmo! E quero ter muitos filhos. Quatro! Dois rapazes e duas raparigas. Acho que um filho sozinho não é bom, acaba por crescer egoísta. Quando há irmãos, há união e crescem pessoas melhores.
Vá, deixa-te disso sorri Margarida. Tu também foste filho único e não és nada egoísta…
Bem, eu sou uma exceção, claro diz ele a piscar-lhe o olho, antes de lhe dar um beijo na face.
Dona Graça, mãe de Simão, recebeu Margarida a primeira vez com o olhar rigoroso de uma professora exigente, as sobrancelhas finamente desenhadas e carregadas de maquilhagem. À mesa, começou logo uma espécie de interrogatório sobre a família, os estudos. Quando soube que Margarida não era de Lisboa, mas sim estudante de uma família numerosa vinda de Évora, criada só pela mãe num T2, ficou desapontada e passou o resto do almoço cabisbaixa, mexendo na comida.
O casamento foi celebrado num restaurante bem conhecido. De Évora vieram a mãe de Margarida, duas irmãs e três irmãos, uma família barulhenta e animada. A festa foi alegre e cheia de brincadeira. Toda a gente via que o casal estava feliz, sempre juntos, inseparáveis como dois pombinhos
Dois meses depois, anunciaram à família que seriam pais em breve. Simão ficou radiante. Os irmãos de Margarida encheram-nos de felicitações, e a mãe até chorou ao telefone de contente com a notícia do futuro neto ou neta. Já Dona Graça apenas suspirou, ainda mais apertando os lábios.
Não podiam ter esperado mais um pouco? Vivessem um bocado só para vocês, saíssem, curtissem Que pais é que acham que vão ser, se ainda são uns miúdos?
Oh mãezinha, não percebes? Vais ser avó! Que felicidade… E eu vou ser pai! diz Simão, radiante, pegando na mãe e obrigando-a a rodopiar pela sala. Ela afasta-se, visivelmente contrariada.
Na altura prevista, nasceu uma menina saudável e bonita, muito parecida com a mãe. Simão começou uma fase de completa alegria. Margarida dedicou-se à vida de mãe com gosto e à casa. Simão tinha um bom emprego e Margarida podia, se quisesse, ter ajudante e babá. Mas preferiu fazer tudo sozinha. Era excelente mãe e dona de casa. Simão participava sempre que podia: saía com a filha, dava-lhe de comer, até mudava a fralda.
Quando a filha, Leonor, fez um aninho, receberam a notícia de uma nova gravidez. Simão desejava um filho e teve a sorte nove meses depois nasceu o pequeno Filipe.
Com dois filhos, começou a ser difícil dar conta de tudo, por isso contrataram uma empregada, para que Margarida se dedicasse mesmo às crianças. Ela não podia estar mais feliz, sentia-se realizada e grata. O marido mimava-a, adorava os filhos e dava-lhes uma vida confortável, sem preocupações. Parecia tudo perfeito, se não fosse Dona Graça.
Simão, explica-me, porque é que a tua mãe não gosta de mim? Acho que até dos netos gosta pouco O que é que faço de errado?
Margarida, não ligues. A minha mãe sempre foi assim, com uma personalidade difícil, tem o mundo dela e nós, pelos vistos, não encaixamos lá diz ele, abraçando-a e dando-lhe um beijo na testa. O que importa é que eu te adoro
Os filhos cresciam, o negócio de Simão prosperava, era uma vida de sonho. Margarida era feliz por ter dado aquele sim há tanto tempo a um desconhecido da internet. Hoje, era o seu maior companheiro, o seu amor.
Um dia, Margarida e Simão decidiram ir só os dois ao teatro, deixando as crianças com a babá. Ela era louca por teatro, era a sua paixão. Mal se sentou, sentiu-se mal disposta.
Simão, estou enjoada Acho que foi aquele salgado do café, sempre me pareceu estranho o cheiro
Tentou acalmar-se, bebeu água, mas a sensação piorava. Saíram a meio da peça e foram para casa. Passado meia hora, Margarida sentia-se melhor, mas ficou a matutar. Decidiu fazer um teste de gravidez Só por precaução. Duas riscas positivo.
Margarida! Isto é incrível! Três! Três filhos maravilhosos, tal como eu sonhei! Simão rodopia com Margarida ao colo.
Três Sim, não é que me incomode, mas será que não é demasiado rápido? O Filipe e a Leonor ainda são tão pequeninos responde Margarida, hesitante.
Oh! Que interessa? São nossos filhos, vamos conseguir. Sempre juntos. A tua mãe nem vai acreditar… Olha, vamos contar-lhe já no aniversário! Para além do presente.
Duvido que a sogrinha fique propriamente feliz. Já olha de lado Agora então, vai dizer que pareço uma coelha, pensa Margarida, mas apenas sorri para o marido. Seja o que for, há de se ver.
Assim, num solarengo domingo, vão todos de família para casa da mãe de Simão, pelo caminho compram flores e um bolo. Chegam com meia hora de atraso.
Dona Graça recebe-os à porta com o melhor sorriso, perfumada de um aroma francês. Beija o filho, a nora e os netos, convidando-os logo a sentar.
Já há convidados sentados, já animados. Os atrasados são obrigados a brindar à aniversariante. Simão assume a palavra, risonho, levantando o copo:
Querida mãe! Parabéns pelo teu aniversário. Que continues sempre bonita, feliz e saudável. Nós, teus filhos e netos, faremos tudo para te ver bem. Agora, aqui vai o nosso presente e o nosso surpresa! entrega-lhe uma caixa com uma pulseira de ouro cravejada de diamantes e, por cima, um envelope branco. Depois, beija-a e senta-se, ansioso pela reação.
Dona Graça acaricia a caixa, abre-a, admira a jóia um instante, depois pega no envelope. Ao ver o teste de gravidez, o seu rosto muda subitamente, o sorriso desaparece. Com repulsa, larga o papel no chão e volta-se para Margarida:
Este é o teu presente, não é? Pois claro, não sabes dar outra coisa! Só sabes ter filhos, como as gatas, não fazes mais nada da vida! Não tens vergonha de estares sempre de barriga, mulher? Que disparate… Boa vida arranjaste tu: sentas-te em casa, fazes filhos, o meu filho a matutar para alimentar isto tudo. Tens empregada, tens babá Uma autêntica parasita, valha-me Deus diz Dona Graça, com voz baixa e fria.
Na sala instaura-se um silêncio pesado. Os convidados finguem-se entretidos com o prato, mas olham de esguelha para o desenrolar da cena.
Simão empalidece, os lábios tremem de raiva e dor. Olha a mãe nos olhos.
Não acredito no que estou a ouvir Nunca pensei ouvir isto de ti, mãe. Quanto tempo aguentaste este teatrinho? Achava que gostavas de mim, mas vejo que só gostas de ti
Levanta-se, seguido de Margarida, que se segura para não desatar a chorar. Vestem rapidamente as crianças e saem. Dona Graça fitava o vazio, os convidados, atrapalhados, emudecem.
No carro, Margarida desaba em lágrimas, baixinho para que os filhos não percebam. As lágrimas correm-lhe pela cara, Simão olha para a mulher, triste, de vez em quando suspira.
Chegam a casa e passam o resto do dia em silêncio. Quando as crianças já dormem, sentam-se à mesa com chá quente, tentando digerir o sucedido.
Sabes, Margarida, estive a pensar E cheguei à conclusão que o problema não és tu diz Simão, enquanto ela o olha, admirada. Não és mesmo. Se fosses tu, a Maria, a Clara, a Teresa ou a Ana, ela arranjava sempre motivo de embirração. Se não fossem as crianças, era a sopa. Se não fosse a sopa, eram as limpezas. Ela tem ciúmes do meu carinho, do meu sucesso, da nossa felicidade. A minha mãe criou-me sozinha, o meu pai abandonou-nos, fugiu até aos poucos euros da pensão. Ela trabalhou que nem louca para me sustentar e agora vê a nora com tudo feito, amor, fartura, filhos Ela não suporta ver felicidade à volta, mesmo que seja do próprio filho. Por isso, sê paciente, tenta perdoá-la Faz por ti e por nós.
Ficam juntos, abraçados, longos minutos na cozinha, à luz branda de um candeeiro. Cada um pensa na sua mágoa: Simão, no quanto julgava conhecer a mãe e que vergonha sente; Margarida, que perdoar até perdoa, mas vê-la tão cedo? Não quer, pelo menos, não já. Depois, logo se verá.
Vivem as suas dores, cada um à sua maneira, mas têm algo em comum o amor que partilham. E os filhos. E isso é o mais importante.







