Ela Não Se Enganou

Ela não se enganou

Benedita acabava de terminar de limpar o chão, quando o som agudo da campainha ecoou pela casa. Correu a enxaguar rapidamente as mãos, ainda escorregadias de detergente, e foi abrir a porta. No limiar, estava a sua sogra, D. Otília Ramos. O sorriso dela tinha qualquer coisa de enviesado e misterioso pelo menos era essa a impressão de Benedita antes de entrar em passo decidido apartamento adentro.

Olá, Otília… O que a traz por cá hoje? arranjou coragem Benedita para perguntar.

Vim só fazer uma visita cortou a mulher, sem sequer dar tempo para um cumprimento formal.

Mas… estava a tratar da casa, podia ter telefonado! respondeu Benedita com um suspiro, abanando a cabeça. Isto de aparecer assim de repente só em Portugal mesmo…

Otília soltou um riso baixo, cruzando os braços:

Preciso de pedir-te licença para entrar na minha própria casa? Achas mesmo?

Benedita corou, como se aquela recordação da dependência pairasse no ar como vapor. Estavam naquele apartamento graças à generosidade relutante de Otília. De momento, Otília deixara-os instalar-se sem renda: o seu filho, Tomás, metera-se numa alhada e tinha dívidas avultadas que ainda iam amargamente reembolsando. O dinheiro mal dava para viver, quanto mais pagar renda. Otília, num acesso raro de compaixão, deixara que o casal ocupasse este apartamento um dos dois que possuía no centro de Lisboa pagando apenas a conta da luz, água e gás. Mas sempre sob aquele olhar atento e impaciente de quem parece, a qualquer momento, querer puxar-lhes o tapete.

Que tal as coisas por aqui? Otília sentou-se logo na cozinha, tirou sem cerimónia uma caneca do armário.

Tudo normal murmurou Benedita, terminando a limpeza antes de se juntar à sogra na sala.

O olhar de Otília era incisivo, procurando sinais no rosto pálido da nora. Nunca lhe agradara verdadeiramente a escolha do filho, mas aceitara de má vontade, gostando de lançar umas farpas de vez em quando.

E essas cores? Não estás com bom aspeto, Benedita.

Estou só cansada repetiu ela, tentando não mostrar irritação.

Sempre o mesmo está bem, não tens outro vocabulário?

Benedita levantou os ombros, não disposta a confessar fraquezas diante da sogra.

E hoje, o que vais fazer? insistia Otília.

Talvez precise de ir ao supermercado. Depois trabalho, tenho uns recibos para fechar.

Otília fez que sim, conhecendo a rotina da nora, contabilista em regime remoto. Por momentos, instalou-se o silêncio desconfortável, e Otília agitava os dedos sobre a mesa, impaciente.

Olha, que tal vou contigo ao supermercado? Tenho o carro, levo-te. Ao menos saio de casa, que já cheira a mofo ali.

Benedita hesitou. Detestava esses passeios: Otília gostava de deitar comentários venenosos entre as prateleiras, mas só de pensar em arrastar sacos pesados a pé, acabou por concordar.

Não era má ideia…

Vá, mexe-te! apressou Otília, enquanto Benedita vestia o casaco na pressa do desconforto.

Mal a viu pronta, Otília não resistiu:

Ena, contigo, ainda dava para tirar um cochilo enquanto me arranjo, que lerdeza.

Benedita deixou passar não tinha energia para picardias. Continuava com aquele travo estranho no estômago, tudo lhe parecia demasiado barulhento.

Então, para onde?

Podemos ir ao Pingo Doce ou ao Mini Preço.

Otília acelerou pelo bairro, virando para um lado e para o outro como quem foge de si própria. Não precisava realmente das compras, mas não suportava o silêncio da casa vazia desde que o marido se partira anos antes. O filho e a nora enchiam-lhe o vazio apesar dos pesares. Sabia esconder o quanto precisava deles.

Benedita… porque levas só dessas coisas de marca branca? Otília espreitou a escolha barata da nora.

Por agora não podemos dar-nos a luxos… Sabe que andamos a tentar limpar os calotes explicou Benedita, mantendo a postura.

Otília encolheu os ombros, sem grande memória para esses incómodos, ou sem paciência para lhes dar importância.

Queres ir tomar um cafézinho? Eu ofereço.

Antes de Benedita responder, sentiu-se subitamente tonta e o chão pareceu afastar-se, como se entrasse numa bolha de sabão e os sons ficassem distantes. Se não estivesse já à porta do carro, teria desmaiado ali mesmo. Otília apressou-se a sentá-la e bateu-lhe suavemente nas bochechas, atirando-lhe umas gotas de água.

Benedita, acorda! Que susto, rapariga…

Benedita piscou os olhos, sentindo a cara fria da água, abanando as mãos para afastar a sogra e a aflição.

É só fadiga, nervos…

Otília abanou a cabeça, um brilho suspeito de quem já adivinhava o segredo, mas preferiu ficar calada. Mandou-a voltar para casa.

Vamos embora, nada de mais voltas. Sobe devagar, eu levo-te os sacos.

Em silêncio, voltaram. Benedita quis ajudar, mas Otília recusou, com ares de chefia.

Vai tu andando, não atrapalhes.

Em casa, Benedita sentiu-se melhor: desfez os sacos, preparou a sopa, foi arrumando tudo entre papéis de trabalho e panelas.

Isto acontece-te muitas vezes? disparou Otília.

O quê? Ah, aquilo? Não, só de vez em quando.

Otília acenou, sentando-se naturalmente, como as mães portuguesas fazem, a inspecionar o que a casa esconde.

Sabes que eu fiquei igual quando estava grávida do Tomás? Enjoos, desmaios…

Não, por amor de Deus! Benedita corou, defensiva. Agora filhos? Nem pensar! Há contas, há dívidas! Um filho agora era mais uma despesa.

O rosto de Otília mudou; franzida, mas sem azedume:

Um filho não é só despesa. É bênção.

Dispenso bênçãos destas para já murmurou Benedita, impaciente.

E se o bebé já estiver aí? Não há como evitar…

Veio o nervosismo. Benedita não queria acreditar, dizia por dentro não, não podia ser possível. Mas as palavras da sogra dissolviam-se no ar como nevoeiro. Explodiu:

Otília, por favor, não invente. Não estou grávida! Não alimente ilusões.

Não grites comigo! Se estás preocupada faz um teste, mas não descarregues em mim.

Afinal, veio cá para quê? Para me perturbar?

Benedicta, bem vistas as coisas, ainda te levei ao supermercado. E ajudei-te quando ficaste mal. Não me grites! Fala com o Tomás. Descubram juntos o que querem.

Trabalhar, o que mais atirou Benedita, sem energia para discutir.

Otília suspirou pesadamente Benedita não era dada a respostas secas. Mas agora tudo parecia tingido pela ansiedade, irritação, incerteza. Otília, fiel à sua intuição, começou a arquitetar futuros netos na mente.

Porque está a sorrir desse jeito? estranhou Benedita.

E se fosse rapaz, que nome gostavas? E menina?

Por favor! agora sim, a paciência ia-se-lhe. Não estou grávida! Não me faça perguntas disparatadas. Se não tem nada para fazer, vá descansar para sua casa!

Otília riu-se pela primeira vez com leveza:

Eu vou. Mas se vier neto, sabes que dou uma mãozinha.

Benedita bufou fundo. Quando Otília desapareceu pela porta, Benedita foi direita ao armário das farmacêuticas. Procurou uma caixa: o teste de gravidez que comprara meses antes, quase como amuleto, e nunca usara.

Tinha medo. Medo da dor de parir, medo do grito, da responsabilidade, da imagem de si mesma com um bebé nos braços. Tremeu ao ver as duas linhas aparecer nítidas, imprescritíveis.

O trabalho ficou esquecido. A vida crescia dentro de si, e o relatório que tinha para fechar podia esperar. Era noite quando Tomás chegou. Mal entrou, Benedita estendeu-lhe o pequeno papel.

O que é isto? perguntou ele, franzindo o cenho.

Estou… estou grávida sussurrou Benedita.

O silêncio ficou suspenso por um instante até que Tomás sorriu, um sorriso tímido:

A sério? Vem aí um bebé?

Parece que sim… ela assentiu, nervosa. E agora, o que fazemos?

Tomás abraçou-a pela cintura, colocou a mão na barriga.

Vamos pensar num nome bonito.

E as dívidas? O trabalho?

Vai tudo correr bem! A minha mãe adora crianças, vai ajudar-nos de certeza!

Acarinhou-a no sofá, enquanto Benedita choramingava baixinho:

Tomás… tenho medo. Dizem que dar à luz dói! E se eu não souber pegar no bebé? E se o deixar cair?

Ele abraçou-a mais apertado, sussurrando-lhe ao ouvido:

Eu vou estar sempre aqui contigo. Vamos aprender juntos.

No quente do abraço de Tomás, Benedita serenou. Mais tarde, pegou no telefone e, entre risos e lágrimas, ligou a Otília, sabendo lá no fundo que a sogra explodiria de alegria. E de facto, não se enganou…

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