Do ódio ao amor
Afonso sempre detestou cães. Desde aqueles tempos longínquos em que ele, um miúdo rechonchudo de cabelo ruivo, de óculos e mochila carregada de livros e cadernos, ficou cercado numa lixeira atrás dos prédios do bairro por uma matilha de cães vadios.
O chefe da matilha magro e escuro, com manchas castanhas no focinho cravava o olhar em Afonso. O rapaz chorava e tentava negociar com os cães para que o deixassem em paz, chegando a partir os restos das sandes de fiambre da escola para lhes dar. Mesmo assim, não se compadeciam. Qualquer tentativa de Afonso para sair dali fazia com que o chefe levantasse o lábio superior do lado direito e, a mostrar uns caninos amarelos e brancos, rosnasse baixinho.
A matilha manteve o Afonso ali, cercado, por largas duas horas. De repente, o chefe virou a orelha direita para trás, escutou algo e correu silencioso em direção ao pinhal do outro lado da lixeira. Os cães seguiram-no em fila indiana e, um a um, desapareceram entre as árvores.
Afonso limpou as lágrimas às pressas, agarrou a mochila com força e fugiu para casa.
Mas nunca chegou a entrar. O antigo prédio de madeira onde vivia com a família e os poucos vizinhos estava já a arder tinha havido uma explosão no esquentador a gás.
No incêndio morreu o avô, o Avô Manuel, assim o menino o chamava: avôsinho. O avôsinho fora marinheiro, curtido pelas marés e ventos do Atlântico. Usava uns bigodes branquíssimos e uma barba branca, que só rapava depois do Dia de Reis. Depois deixava a barba crescer, fazia-lhe uma trança e prendia-a com um elástico colorido, ou atirava-a para trás da orelha num gesto brincalhão.
Depois da perda do avôsinho e daquele encontro com os cães, Afonso engasgava-se sempre ao falar.
Voltou a cruzar-se com um cão de rua quando já era um adolescente alto e magro, no sétimo ano, já sem óculos porque trocara-os por lentes de contacto. Numa tarde decidiu acompanhar a colega mais bonita da turma, Matilde Costa, à saída da escola. Matilde era disputada por Dinis, um repetente do nono ano, conhecido pelo seu feitio problemático. Toda a escola o temia, mas Afonso teve coragem de caminhar ao lado da rapariga de quem Dinis gostava.
De repente, um cão enorme colocou-se entre eles, rosnando ferozmente e afastando Afonso da rapariga. O miúdo recuava, obedecendo ao cão robusto. Só quando Matilde desapareceu atrás do portão do prédio dela, é que o perigo sumiu.
No dia seguinte, em plena aula de matemática, Afonso recebeu um bilhete com três frases curtas:
Não me sigas. Ontem o Dinis queria bater-te. Desculpa.
A amizade entre Afonso e Matilde nunca floresceu. O ressentimento de Afonso em relação aos cães só aumentou.
Anos passaram. Afonso tornou-se um homem de sucesso. Formou-se num excelente curso, abriu a sua própria empresa e tornou-se empresário. Os negócios prosperaram, fez amizades importantes e ganhou bom dinheiro. A vida pessoal também se compôs. A bela Matilde, antiga Costa, tornou-se sua mulher e juntos tiveram um menino encantador Manuelinho, assim chamado em homenagem ao avôsinho querido. O bebé, com oito meses e ainda sem dizer palavras, ria sempre para os cães que via na rua e gritava:
Au, au!
Nesse domingo, Afonso passeia com o filho no Jardim da Estrela. Empurra a cadeirinha devagar e vai-lhe contando histórias sobre os pássaros a quem levam sementes na mão, ou os esquilos atrevidos que descem os troncos dos pinheiros e vêm comer nozes na palma da mão.
Já é hora de regressar. Saem do jardim, Afonso dirige o carrinho ao semáforo. Espera o sinal verde e avança para atravessar.
De repente, uma cadela raivosa, uma teckel castanha, salta à frente deles, ladrando tão desesperada que parecia que as cordas vocais iam partir-se. Não deixava Afonso atravessar!
Nesse instante, um carro passa a toda a velocidade mesmo a centímetros do carrinho do bebé. O carro vai parar ao relvado, bate num candeeiro. De dentro saltam adolescentes, fogem aos gritos.
Afonso mal consegue respirar; sente o coração bater tão forte que até os transeuntes devem ouvir.
A teckel já desapareceu; dezenas de pessoas correm ao carro acidentado. Um desconhecido segura Afonso pelo braço:
Está tudo bem? O carrinho não foi atingido, pois não? pergunta ele, com um olhar assustado.
Afonso abana a cabeça, trémulo. Não, o carrinho segurou-se, o filho está a salvo. Tudo certo.
Nem se lembra bem como chega a casa. Decide não contar nada a Matilde, para não a deixar ansiosa. Mas, naquele dia, sente algo diferente. No fundo do peito, uma onda de gratidão pela cadela que salvara o seu filho.
Passa o resto do dia calado, a recordar os episódios com cães e a aperceber-se afinal, os animais nunca quiseram assustá-lo nem ameaçá-lo. Tentaram protegê-lo à sua maneira. Matilde repara na sua estranheza, mas não insiste em perguntas.
À noite, já jantados, a pequena família vai passear no jardim do prédio, antes de se deitarem. Junto ao banco do fundo, há um grupo de vizinhos. Afonso ouve murmurarem:
E agora, que vamos fazer com ele? Quem é que quer um assim?
Espreitando por cima do ombro da vizinha, vê uma caixa sobre o banco. Lá dentro, um cachorrinho. O cãozinho, castanho chocolate, nascera sem olhos mais uma fatalidade. Os adultos sussurram quase resignados.
Matilde, com o carrinho, segue mais à frente, à espera do marido.
E agora, o que será? Quem o pode querer assim?
Ai, eu não teria coragem, coitadinho… cochicham.
Afonso aproxima-se do banco. O pequeno cãozinho, de patinhas traseiras tortas, agita-se dentro da caixa, farejando o ar à procura do calor materno.
Por um instante hesita, mas logo tira o cachecol do pescoço ainda é primavera, mas as noites são frias em Lisboa. Aproxima-se, levanta o cachorrinho com cuidado e envolve-o no cachecol como se fosse um bebé. Uma voz feminina solta um suspiro talvez uma lágrima.
Afonso segura o cãozinho ceguito nos braços e pronuncia baixinho:
Vá lá, pequenote… parece que chegou a minha vez. Vamos conhecer a mãe. Ela é boa, carinhosa, e de certeza que encontra leite para ti no frigorífico.
Afonso encaminha-se para junto da jovem mulher de olhos doces, junto ao carrinho, que o aguarda cheia de carinho…







