Senta-te! Não estamos em casa! – disse Pedro com tranquilidade.

Senta-te! Não estamos em casa! disse eu calmamente à minha mulher, Catarina.

Mas estão a tocar à campainha! Catarina ficou suspensa no sofá, meio levantada.

Deixa estar, respondi.

E se for alguém importante? Ou se for uma coisa séria? perguntou Catarina, inquieta.

Catarina, é sábado, meio-dia. Tu não convidaste ninguém, eu também não estou à espera de ninguém. Portanto, qual é a conclusão?

Só quero espreitar pelo olho mágico! sussurrou Catarina.

Senta-te! disse eu, num tom mais firme. Não estamos em casa! Seja quem for, que volte outro dia!

Mas tu sabes quem está lá fora? tornou a perguntar Catarina.

Suspeito, sim, por isso é que te digo para te sentares e não apareceres à frente da janela!

Se for quem eu estou a pensar, não vão desistir assim tão facilmente disse Catarina, encolhendo os ombros.

Depende de quanto tempo ficarmos sem abrir a porta, respondi com calma. Mais cedo ou mais tarde desistem. Ninguém vai ficar a dormir à porta. E nós não temos de ir a lado nenhum. Por isso relaxa, põe os phones, pega no telemóvel e vê um filme.

Pedro, a minha mãe está a ligar, murmurou Catarina, mostrando o ecrã.

Então, quem está à porta é a tua tia com aquele filho dela, o Zé Pedro, concluí.

Como é que sabes? admirou-se Catarina.

Porque se fosse o meu primo, a minha mãe já estava a ligar-me a mim! Se fossem vizinhos, não tinha paciência para falar com eles. Se fossem amigos nossos, já tinham ido embora depois da segunda chamada à campainha. Ou, como pessoas civilizadas, teriam avisado antes! Só a nossa família consegue ser tão chata e abusadora!

Pedro, é mesmo a minha tia Catarina leu a mensagem da mãe em voz baixa. Diz que a tia Maria há de ficar cá uns dias, que tem umas coisas para tratar aqui na cidade

Diz-lhe que há muitos hotéis em Lisboa, sorri, meio trocista.

Pedro! ralhou Catarina. Não posso ser indelicada!

Eu sei, pensei um pouco. Diz que não estamos em casa, que tivemos de sair porque andaram a pulverizar a casa por causa das baratas!

Boa! Catarina escreveu e enviou a mensagem.

Agora está a pedir para arranjarmos dois quartos de hotel para a tia e para o Zé Pedro, Catarina ficou atónita com a sugestão.

Diz que não temos dinheiro. Aliás, diz que ficámos nós num hostel, a dormir com outros quinze trabalhadores imigrantes, disse, divertido com a minha criatividade.

Agora a mãe quer saber quando voltamos Catarina olhou para mim.

Responde que só daqui a uma semana, cortei a conversa.

De repente, deixaram de tocar à campainha. Eu e Catarina respirámos de alívio.

Pedro, a mãe disse que a tia Maria vem cá para a semana murmurou Catarina, cheia de desânimo.

E então, para a semana não estamos em casa outra vez, disse eu.

Isto não é solução, Pedro! Não podemos fugir deles para sempre Se aparecerem a meio da semana? Ou se nos apanharem à saída do trabalho? Tanto a minha tia como o teu primo são capazes de tudo!

Pois, tens razão suspirei, olhando para o nada. Porque raio é que decidimos comprar este T3?

Fomos ingénuos Queríamos um espaço grande para a nossa futura família! respondeu Catarina.

Temos mesmo de ter filhos! dei voz ao meu pensamento. Aliás, devíamos ter logo dois de uma vez.

E eu sou contra? protestou Catarina. Bem sabes que temos de nos consultar, ainda não conseguimos

Se ao menos conseguíssemos ficar mais tranquilos, tudo corria melhor, finalizei. É este stress constante, ora da tua família, ora da minha, que só nos complica a vida

Catarina calou-se. Ela sabia que eu tinha razão.

***

Quando decidimos casar, fizemos exames médicos caros para ver as compatibilidades e tudo, até a fertilidade analisámos. Tudo estava ótimo. Só que logo a seguir ao casamento adiámos os filhos porque tínhamos de juntar dinheiro para comprar casa.

Sabíamos que não podíamos contar com heranças. Antes de casarmos, eu vivia num T1 em Alvalade com a minha mãe e ela num T1 em Benfica com a dela. Só podíamos contar connosco.

Foram cinco anos de sacrifício e muita poupança até conseguirmos comprar finalmente um apartamento grande. O prédio era antigo, ainda assim investimos muito no restauro, a mobília era quase toda nova. Mas, que alegria sentimos!

Na nossa cabeça não parava de tocar aquela música antiga dos Xutos & Pontapés sobre os prédios de Lisboa.

Mal festejámos o primeiro serão na casa nova, apareceram logo os parentes: a tia Maria da Catarina, mais o Zé Pedro. E para forçar ainda mais a situação, veio a sogra.

Vocês aqui tão à vontade! Tanto espaço à disposição! Não é como nós, que penámos em quartos apertados! comentou a sogra.

É muito confortável, aprovou a tia Maria. Assim fico numa divisão e o Zé Pedro noutra!

Nós não costumamos pôr hóspedes na sala, ripostei, é o nosso espaço de descanso!

Não se preocupe, não venho para cá trabalhar! riu-se a tia Maria. Catarina, explica ao teu marido que dormir ao lado do meu filho não dá, ele ressona!

E, já que cá estamos, ainda não puseram a mesa?

Não estávamos à vossa espera, murmurou Catarina, atrapalhada.

E não está nada no frigorífico! apoiei eu.

Nem problema, tia Maria fez-se magnânima. Pedro, vai tu ao supermercado e Catarina põe-se na cozinha!

Então, estão parados porquê? É assim que recebem as visitas? ralhou a sogra.

Vocês não ia eu explodir, mas a Catarina puxou-me para outra divisão.

Mal me soltou a mão, disse-lhe:

Catarina, ninguém percebeu mal aqui? Eu meto-os todos na rua, e já agora, a tua mãe vai com eles!

Oh Pedro, sabes como é A tia é simples, da aldeia! Eles lá são assim.

Conheço muita gente das aldeias e má educação não é costume em lado nenhum!

Não arranjes confusões com a minha mãe e com a tia! pediu Catarina. Depois levo o sermão do costume!

E eu que se lixe, não é? Se gostam tanto de mim, então tudo bem Agora, se me tratam assim, também não tenho problema em fazer de conta que não existem nunca mais!

Pedro, por favor, poupa-me! Se despacharmos a tia Maria, a minha mãe não me perdoa. E só tenho a minha mãe

E isso convenceu-me. Cerrei os dentes e fui ao supermercado.

A tia Maria acabou por ficar em casa quase duas semanas, em vez dos três dias prometidos. Ao fim do segundo dia já eu andava agarrado ao chá de cidreira. Quando finalmente se foram embora, eu e Catarina limpámos a casa durante três dias seguidos.

Depois foi a vez do meu primo, Miguel Mano, venho só uns dias, tenho coisas para tratar por aqui e depois vamos para casa outra vez!

Mas não consegues tratar dessas coisas sozinho? perguntei.

Achas? Então e deixava a família na terra, sozinho? Isso não cabe na cabeça de ninguém! E se sucede alguma coisa? A Andreia tem de me controlar!

Então trouxeste os miúdos também? perguntei.

Claro! Quem é que fica com eles? Aproveitam e vão conhecendo a cidade! Bora lá reviver os velhos tempos!

Miguel! gritou a Andreia. Olha que eu te faço a cabeça em água!

Uma hora e meia depois da chegada do meu primo e respetiva família, a Catarina já estava com uma dor de cabeça monumental. As crianças corriam e gritavam pelo apartamento, a Andreia só sabia berrar. O Miguel queria sair à noite, o que fazia a mulher gritar ainda mais.

Pedro, tu só tinhas um irmão, não era? sussurrou-me Catarina.

É primo por parte da minha mãe respondi, resmungando. Mas chamo-lhe irmão pela ligação.

Podes pedir-lhe para ir embora?

Gostava muito, mas é como com a tua tia. A seguir a minha mãe faz-me a cabeça em papa!

Não conseguíamos sequer descansar entre visitas. Sempre havia um pretexto para a tia Maria voltar a Lisboa. O meu primo Miguel e família apareciam para tratar dos seus “negócios”. E as mães não se esqueciam nunca de nos lembrar a nossa obrigação para com a família.

Esta pressão constante estava a dar cabo do nosso bem-estar e da nossa saúde psicológica. Obviamente, com esta confusão toda, pensar em ter filhos só mesmo em sonhos.

***

E se mudássemos de casa? sugeriu Catarina.

Para um manicómio? ri nervosamente. Daqui a pouco ainda nos internam de vez!

Não, Pedro! E se mudássemos para outro bairro, para um apartamento igual, apenas mudando de freguesia? Ninguém tinha o nosso endereço

Era só adiar o problema disse, depois eles perguntavam aos novos donos onde ficava a nossa antiga casa e encontravam-nos na mesma! Até nos apanhavam de surpresa.

Se calhar ainda tínhamos tempo para conseguir engravidar aventou Catarina.

Não chega engravidar, era preciso conseguir ter o bebé! E mesmo assim eles não paravam!

Sinceramente, até me dava vontade de fugir para casa dos amigos, só para descansar!

Estás a falar da Rita e do Paulo? perguntei.

Sim, eles moram mesmo perto, e têm uma divisão a mais!

Mas lá vive a Tera

Prefiro viver com a pastora alemã do que com os nossos familiares! disse Catarina, sem forças.

Espera! exclamei, agarrando o telefone. Paulo, emprestas-me a Tera?

Amigo! Fico-te a dever uma vida! Eu e a Rita queremos ir ao Algarve uns dias e não há quem fique com a Tera. Ela não gosta de estranhos, mas de vocês gosta! Levo tudo: ração, cama, brinquedos, comedouros! Até te pago!

Traz já! respondi, a sorrir como um miúdo.

Virei-me para a Catarina, radiante:

Liga à tua mãe, diz que a tia pode cá vir amanhã! Eu oiço o meu primo, digo para virem na próxima semana.

Tens a certeza? questionou Catarina.

Claro! Eles são sempre bem-vindos A culpa não é nossa se não gostam do nosso animal de estimação!

Ao primeiro au! da Tera, o meu primo e a família preferiram um hotel ao meu lar

Fechem esse monstro numa jaula! berrava a Andreia, escondida atrás do filho.

A sério, tia Maria? disse eu, Quarenta e cinco quilos de puro músculo! Isto não é um caniche, é uma pastora alemã! Arromba qualquer porta!

Porque é que está a mostrar-me os dentes? a tia Maria estava pálida.

Não gosta de estranhos encolheu-se Catarina.

Livrem-se desse bicho! Não consigo dormir aqui assim!

Livrar? indignado, respondi, É o nosso animal de estimação, tia Maria! Não temos filhos, mas esta cadela é como família e amamos-na muito!

E nunca a abandonaremos! disse Catarina.

Depois de tantas discussões, as mães começaram a perguntar porque não recebíamos já a família em casa.

Ninguém foi corrido! dizíamos às duas. Se quiserem, podem vir quando quiserem! Por nós, tudo bem!

E a cadela?

Ó mãe, nunca recusámos ninguém

Curiosamente, as visitas começaram a rarear. Passado um mês, a Tera voltou para os donos. Mas já não era preciso: a Catarina estava grávida de gémeos.

No final de tudo, percebi: na vida, mesmo com todas as pressões, não podemos deixar que os outros ditem o nosso espaço e paz. Aprendi que às vezes, para proteger a família, temos de ser criativos e nunca, mas mesmo nunca, recusar ajuda quando ela vem de quatro patas.

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Senta-te! Não estamos em casa! – disse Pedro com tranquilidade.