Migalhita
Chamou-a de Migalhita logo ao apresentarem-se, assim que se esparramou na cadeira ao lado, idêntica à de Inês vermelha, de veludo, gasta pelos cotovelos de tantos outros em mil sessões passadas.
Durante um minuto, Miguel varreu a sala do auditório com o olhar, depois fixou-se na vizinha.
Então, Migalhita, estás aborrecida? suspirou ele, tentando cruzar as pernas, mas o espaço apertado entre as filas do Coliseu não permitiu, e o seu sapato bicudo bateu na cadeira da frente, deixando-lhe o pé desconfortavelmente torcido. Miguel fez uma careta.
Inês fingiu que não notara, esforçando-se por manter os olhos fixos no palco, embora ali não se passasse nada de interessante. Mesas alinhadas de um lado ao outro, o púlpito, gente atarefada montando cabos e microfones tudo igual a qualquer conferência. E aquele calor abafado.
Inês nunca se sentia bem em recintos cheios, presa ali lado a lado com estranhos, sem poder simplesmente sair quando lhe apetecesse.
Pois arrastou Miguel, coçando o queixo. Uma autêntica seca! E olha, Migalhita, não há cá nada de novo. Juro-te! Já li todos estes relatórios, faz parte do serviço. Não há ali nada de jeito.
Inês virou-se, apertou os lábios, olhou-o de cima a baixo. Bem vestido, fato engomado, gravata bem posta, sapatos limpos. Ainda assim, parecia deslocado, como quem encaixou mal na indumentária. Fanfarão, brincalhão, tagarela era assim que ela o via. E os cabelos espetados davam-lhe ar travesso; além disso, Miguel tinha duas rodas de cabelo atrás, enrolando-se-lhe em caracóis suaves, quase de bebé.
Miguel, disse, mas ele não lhe deu tempo para responder, atirando logo uma mão enorme à dela. Queres ir almoçar? Estás tão pequenina, tão magrinha, quero ver se te trato bem. Isso mesmo. Bora lá! Vamos já daqui para fora.
Pouco a pouco as luzes diminuíam, e no palco começavam a alinhar-se os chefes, os subchefes e os funcionários mais importantes. Toda a plateia aplaudia, menos Miguel, que guiava a sua Migalhita para fora, pedindo desculpa a quem pisava e tentando ajeitar a gravata que teimava em escapar do casaco, apontando língua aos sisudos colegas.
O que faz, homem?! Largue-me, está a ouvir? Inês tentava soltar-se, mas Miguel não a largava, e ela, muito contrariada, lá caminhou atrás dele para o átrio.
Saíram quando no palco o ambiente atingia o pico; alguém batia no microfone, pedindo silêncio.
Solte-me! Tenho de voltar, apontar tudo, é o meu trabalho! queixou-se Inês, apertando o caderno ao peito, deixando a caneta cair. Abaixou-se para a recolher, mas Miguel agarrou-a primeiro.
Deixa isso, Migalhita! Depois mando-te tudo para o e-mail. Agora precisamos é de comer. Água primeiro, que estás branca como a cal. O pulso vai a mil. Olha aqui, vê lá! Apalpou-lhe o pulso, claqueou a língua. Pró ar, comida, nada de conferências!
Na verdade, Inês já se sentia um pouco mal; o coração acelerava e as têmporas latejavam-lhe.
Nunca ninguém lhe dera tanto mimo, desse modo. Por norma, era ela que cuidava dos outros a mãe, o marido, a filha. Aquilo já era rotina. De vez em quando apetecia-lhe mesmo ir para o colo, brincar, rir, beber um copo de vinho e esquecer tudo, como nos filmes franceses, mas raramente tinha oportunidade.
Miguel, esse, oferecia-lhe uma oportunidade.
Sem dar por isso, já estava sentada numa tasca acolhedora mesmo em frente, e o empregado já trazia dois copos de sumo natural, laranja-limão, cor de fogo quase como se tivessem espremido sol africano para dentro do vidro.
Vá, bebe. E água também. Então… O que é que vamos comer? perguntou Miguel, folheando o menu.
Talvez Miguel tivesse mesmo gostado da Inês. Miúda fofa, magra à força, nem um grama a mais. Poderia ter o seu encanto entre os homens, se não fosse se não fosse aquele ar cansado, meio desiludido com a vida. Ia já a caminho dos cinquenta, casa feita, amor há muito esquecido de onde havia de vir o brilho de uma rosa de maio?
Miguel, porém, gostava dela assim, cansada da existência.
Não quero nada. Já passa, já me sinto melhor. Vou só apanhar ar e regresso ao auditório. murmurou Inês, nervosa.
Nada disso! respondeu Miguel. Anda lá, vamos pedir um robalo à portuguesa, legumes, saladinha e Migalhita, o que queres de beber?
Levantou o olhar do menu, bonito, fresco, matreiro, a cheirar a cigarro e água-de-colónia, forte e bem-disposto. Olhou-a, e Inês corou, franzindo a testa.
Estava a perder a cabeça! Um homem desconhecido leva-a ao restaurante, pede comida por ela, chama-a Migalhita, ajeita-lhe o cabelo. E ela, em vez de o afastar derrete-se toda, perde o juízo.
Onde Miguel lhe tocara, sentia um ponto quente, formigueiro nas costas.
Beberam vinho branco. Miguel contava aventuras da juventude trabalhara em obras de verão, emigrara uns anos para o Norte de França, andara em vários estaleiros, depois…
Depois, Migalhita, o meu amigo Igor e eu abrimos uma empresa. Simples, coisa de pequenas obras, equipas nossas, e começámos. Toda gente quer conforto em casa, uma casa quente, uma boa casa de banho nós sabíamos como. Vai, come! encorajava ele, apontando para o prato dela. Um brinde a ti, Migalhita! Olha, quando te vi, pensei logo: Esta miúda precisa de ser alimentada! Queres pedir mais?
Ela abanou a cabeça. Perdera-se. Entre vinho, boa comida, e, sobretudo, porque nunca ninguém tratara dela assim como uma miúda cansada e magra.
Em casa era diferente. Toda a infância, só a mãe, Maria. Trabalhava sempre, saía cedo, Inês tomava pequeno-almoço sozinha; às tantas, já noite, Maria regressava exausta, Inês aquecia o jantar, depois arrumava cozinha, enquanto a mãe tomava banho, e ambas adormeciam tarde.
No Ano Novo, Maria chegava perto das onze. Trabalhava no supermercado, e naquele dia as últimas horas eram de faturação elevada.
Maria vinha pálida, derreada. Inês preparava-lhe o vestido, fazia-lhe um penteado bonito e saíam para a sala.
Havia sempre visitas vizinhos, amigas, uns primos que apareciam de surpresa, todos em redor da mesa, foguetes, vinho. Inês vigiava para que a mãe não caísse logo no sono após a primeira aguardente.
Maria só bebia bagaço, achava espumante coisa de meninos. Bagaço, sim senhor!
Só que, coitada, ao fim do primeiro copo adormecia de cabeça no prato. Inês dava-lhe cotoveladas, Maria estremecia, falava mais um brinde, ria-se, mas com aquela tristeza cá dentro. Inês nunca pôde ser menina, não dava.
Inês casou cedo. André era dez anos mais velho, educado, metódico, mas frio, pouco de afectos como se incluísse Inês na engrenagem da sua rotina. Nada mais.
Mas também, Inês achava que não precisava. Os primeiros tempos tiveram alguma paixão, claro, corpo é corpo, mas depois foi arrefecendo. O importante era ter a família, a casa, não haver uma mãe cansada, pernas inchadas, vista pela janela para os contentores, nem quarto de papel de parede velho. Era o apartamento deles, cozinha ampla, varanda, duas salas, uma biblioteca. Todos invejavam Inês e ainda por cima nem sogra por perto!
Desde miúda até àquele encontro com Miguel, Inês nunca fora Migalhita. Era sempre Inês, ou, quando muito, Dona Inês.
André, a mãe, as amigas, chamavam-na Inês.
Agora aparecia este Miguel, tratava-a por Migalhita, servia petiscos, interessava-se pelo que ela sentia, queria, pensava.
André nunca tinha tempo para isso. Claro, nas questões de casa, nas decisões grandes de compras, férias, falava com ela, mas era mais para comunicar do que escutar. E as janelas sempre abertas André gostava de ar fresco, não queria saber se alguém se constipava.
Miguel, ao entrarem no restaurante, pediu logo mesa acolhedora, sem ar condicionado por perto.
Tinha um jeito cuidadoso
Fazia perguntas, Inês respondia a medo. Sim, tinha marido. Sim, uma filha. Chama-se Teresa. Tersa andava na Faculdade de Letras, Inês arranjou-lhe uma óptima explicadora, e agora ia estagiar para fora.
Teresa não foi um sonho, não foi pedida a Deus; foi feita porque André já queria há muito ser pai, dizia a sogra. E Inês, sendo nova, devia ser fácil. Mas não era. Custou. Até que finalmente, gravidez. André durante nove meses manteve-se afastado, nunca tocou na barriga, não falava com o bebé. Achava estranho, inútil.
Quando nascer, logo se educa. Inês, tens consulta quando? perguntava ele secamente, oferecendo boleia à clínica.
Esteve presente também da maternidade, balões, convidados e Obrigado pela filha. Fiscalizava o peso de Teresa, controlava o leite de Inês, comprava boa comida, e à noite levantava-se para embalar a filha, levava ao pediatra para vacinas. Quando a enfermeira foi lá a casa fazer consulta, André verificou se lavara as mãos, estudou o avental, aqueceu o estetoscópio com o seu hálito.
Estás exausta, não? dizia a amiga Graça, vendo Inês sempre de olheiras. Um filho é uma tarefa! André ajuda ao menos?
Inês encolhia os ombros. Ajudava, até. Mas pouco
Até gostava daquele papel de vítima. Andava cansada, sabia que era alvo de compaixão, e o marido levado a tarefas. Mas aquele Miguel mimava-a, alimentava-a, e ela, sem jeito, no começo rejeitava.
Vá lá, Migalhita! insistia o generoso Miguel. Come! Não te largo sem limpares o prato!
Ela mordia o lábio, fitava o salvador, olhos tristes, comia.
Miguel acompanhou-a nesse dia até ao Metro. Inês recusou ir mais longe, disse que tinha assuntos a tratar.
Ao chegar a casa, tinha no email o resumo de todos os relatórios da conferência.
Para a Migalhita, do Miguel! lia-se no recado.
Inês fechou rapidamente o portátil, mas Teresa pareceu ler qualquer coisa, sorriu de lado.
Apelidos tolos, que disparate! resmungou Inês. Documentos oficiais e estes disparates!
Talvez Teresa já não a ouvisse, já tinha auscultadores e música.
Inês! Teresa! Já cheguei! Venham jantar! ecoou da entrada.
André, farto de estar empurrado no comboio e autocarro a rebentar, tirou logo a camisa, ficou em calças, depois trocou por uns calções com palmeiras verdes berrantes, escancarou a janela da varanda e respirou fundo.
Cheirava a suor azedo, de ontem ainda.
Olha que não me banho todos os dias, já disse! Deixa-te disso! Comigo a pele fica uma lástima, coça toda. Lavo-me amanhã! cortava logo André cada vez que Inês sugeria, baixo, um duche. Pronto! Estou cansado. Venha o jantar.
Comiam em silêncio, cada um nos seus pensamentos. Inês só pensava em Miguel, no seu ar fresco, na suavidade, nos gestos atenciosos.
No dia seguinte, Miguel ligou-lhe para o trabalho.
Olá, Migalhita! Como estás? Já comeste? ouviu Inês no telemóvel, atrapalhada, olhando em volta para ver se os colegas ouviam. Achava o som alto demais, indiscreto.
Não ainda não tive tempo. Muito trabalho murmurou. Migalhita. Ela. Migalhita, frágil e terna Sentiu um arrepio.
Larga o que estás a fazer e desce já. Estou na vossa pastelaria aqui em baixo, o sítio não vale nada mas temos de comer. Estou à tua espera!
Inês gaguejou, pediu licença à chefe, entrou no elevador a pensar que botão premir. As faces ardiam-lhe de vergonha. Tinha a certeza de que já todos percebiam que Dona Inês ia para um encontro.
Sim, na sua mente, Miguel virou o amante. Era inquietante e ousado.
Nesse dia, Miguel vestia t-shirt e calças de ganga, cabelo despenteado, fresco.
Beberam café, Inês falou da infância, Miguel escutava.
Migalhita, tu és bonita, sabias? cortou ele, subitamente. Vá, vamos comprar-te um vestido! Conheço pessoal numa loja ali, arranjam-te tudo. Quero-te ver com outro ar.
E viu. Não nesse instante, mas à noite, quando levou Inês ao Armazéns do Chiado e ficou sentado à espera, enquanto as vendedoras a rodeavam.
Deus, como ele olhava para ela! Olhos famintos! André nunca olhara assim.
Nunca tinha visto nada igual! sussurrou Inês ao ouvido da amiga Graça, a confidente. Só no cinema. Não sabia que era possível olharem-me assim. Senti-me mulher. Adorei, pronto.
E o André? perguntou, pragmática, Graça mais tarde, depois dos suspiros, das confidências.
Ele não sabe, nem vai saber! Nem eu sei nada, Graça! Não digas nada! E guarda tu o vestido, no teu armário. Como é que eu explico depois lá em casa? Caríssimo! Ai, como vai ser?
Graça encolheu os ombros. O que tiver de ser, será.
Olha Inês o teu André é parvo mas recorda-te de quando ia ao Cartaxo buscar leite fresco para vocês, lá pelo inverno. Trabalha, esforça-se. Outro ficava no sofá com cerveja, o teu não. Quis carro, comprou. Precisou de obras, fez. Leva-vos ao Algarve todos os anos. Ele é transparente, previsível. O Miguel, não conheces. De onde vem o dinheiro?
Não sei, nunca entendi bem. E interessa? Graça, o André é insuportável, não sabes o que é viver com ele. Já me enjooa. Tens inveja!
Graça voltou a encolher os ombros. Talvez tivesse. Mas não pelo Miguel, só pelo que o André representava.
Inês passou a chegar mais tarde a casa, preparava qualquer coisa rápida, não comia, ficava a mexer na chávena já fria.
Mãe, importas-te? Pedi cinco vezes pelo pão! reclamava Teresa, de pé na cozinha. Foi-se o pão! punha fim ao assunto.
Inês assentia, franzia o sobrolho, voltava para o quarto. Sonhar.
André e Teresa olhavam-na com estranheza.
E Inês podia ficar assim horas, as mãos a suar de ansiedade.
Miguel era terno, sabia beijar, ria da atrapalhação dela, cuidava, chamava-lhe Migalhita, dava presentes que tinha de esconder na casa da Graça, às vezes transferia 200 ou 300 euros para o cartão dela, por vezes mandava-lhe sms de madrugada. Inês saía do quarto, lia trancada na casa de banho, apagava, voltava a ler, até que desligou o telemóvel, lavou a cara a água fria, deitou-se.
André virava para o lado, abraçava-a com o braço pesado, resmungava qualquer coisa. Inês aquietava-se. Sim Que pena que haja André na vida dela… Mas, tantos anos sem saber o que era ser Migalhita, bonita, desejada. Tudo desperdiçado.
Mas agora havia Miguel. E era o seu motivo de alegria.
Encontravam-se no apartamento dele moderno, grande, janelas de vidro até ao chão, vista sobre Lisboa à noite, cheia de luzes. A cabeça girava com champanhe e o perfume de Miguel. Lençóis limpos, verdadeiros de seda
O mundo desaparecia em faíscas, fogos de artifício caíam em diamantes naqueles lençóis. Um sonho.
Em casa, tudo se tornara incômodo. Sentia que todos sabiam sobre tudo, Teresa e André observavam-na.
Inês inventava desculpas para chegar tarde, quando todos já dormiam. Ficava horas sozinha na cozinha, café instantâneo, amargo, e sonhava
… Inês! Isso, onde andas? Comprei couve, estava combinado cortarmos para a sopa, não? ouviu a voz de André no telemóvel, e olhou, assustada, para Miguel a nadar encostado ao bordo da piscina. Sentiu o frio da água, pois era descoberto aquele tanque olímpico.
No Campo Grande nunca nadara, mas Miguel levara-a ali, mandou-a trocar de roupa, depois nadaram lado a lado, o vapor subia da água para o ar frio. Pouca gente, um prazer. Do trampolim, via-se a luz do gelo no rinque do parque. Inês, Migalhita, só via o seu galã. Finalmente encontrou. Finalmente amor. Santo Deus…
Couve? tartamudeou, enrolando-se na toalha. Deixa isso. Hoje vou chegar tarde. Eu e a Graça fomos ao ginásio. Disseram-me que era preciso fortalecer as costas. Comprámos passe. A couve deixamos para amanhã. Desculpa, a Graça está a chamar-me. Até logo!
Desligou, engoliu em seco. Era preciso avisar a amiga, caso André ligasse para ela!
Quando Graça atendeu, Inês contou-lhe pressas sobre a piscina, baixando a voz. Do outro lado, Graça:
Inês, vinha trazer-vos sementes de cominhos. Vocês fazem sempre sopa de couve com cominhos. Estava no mercado, comprei e entrei. O André já pôs água para o chá, disse tranquilamente. Cominhos para a couve.
Inês mordeu o lábio, olhou, à procura de Miguel. Ele, a exibir os músculos, já estava pronto a saltar do trampolim. Cá de baixo, umas raparigas, novas, riam-se para ele.
Então, migalhas? Um, dois, três! gritou ele, mergulhou perfeito, apareceu de novo, acenou a Inês. Inês, vem, só agora começa a festa!
As jovens olhavam-na de cima a baixo. E ela encolheu-se de novo, sentiu-se feia, barriga caída, pernas gordas. Nadava desajeitada, aos safanões. No rosto, regressara a expressão de mártir.
As novas migalinhas de Miguel brincavam à bola, mergulhavam atrevidas à volta dele.
Ele ria-se, não ficou muito desgostoso quando Inês desapareceu. Compreendia coisas da vida, família, a couve Que vá.
Em casa, a entrada estava às escuras, na sala igual. Só na cozinha luz acessa.
André pôs-lhe à frente uma frigideira com ovos mexidos.
Ficaste com fome depois do ginásio? Come. Queres chouriço? serviu-lhe também uma caneca de chá.
Inês recusou, tentou evitar o olhar do marido, pegou no garfo, rodeou os ovos.
Saberá ele? O que será agora? Porquê tão calmo?!
Inês disse André, após longo silêncio. A Graça trouxe aqui uns sacos. Queria meter-se aqui, mas despachei-a logo. Que se mete? A cozinha é tua. Deixou ali… indicou, apontando sob a mesa. Diz que são teus. Que confusão, não é? Deve ter-se enganado
Inês espreitou, viu os sacos, encolheu os ombros.
Eu disse logo: disparate! quase ficou contente André. E agora mete-me também chá. Secou-me a garganta. Ou então traz-me um bagaço, apetece-me, pediu ele.
Inês levantou-se, foi ao armário. Parou.
Migalhita, ouviu do marido, virou-se bruscamente e encarou-o. Digo, há migalhas na mesa. A Teresa deixa sempre o pão às migalhas. Passa um pano, está bem? concluiu serenamente, lançou-lhe um olhar sombrio, virou-se.
Beberam bagaço juntos, em silêncio, com medo de se cruzar no olhar.
Depois André foi-se deitar.
Graça, ele foi-se mesmo embora! Vestiu-se, deixou as chaves. Graça, ele abandonou-me! chorava Inês ao telefone, a ver-se ao espelho, admirando o rosto distorcido, já longe da Migalhita que horas antes nadava com Miguel. Ainda cheirava a cloro e as costas moíam de cansaço. Graça! Como é possível? Um homem de verdade faz isto? Deixa-nos assim? Só nos largou!
De repente ficou zangada, bateu com o punho na mesa.
Fez como um homem, Inês. Outro batia-te. O André apenas foi embora. E repara: da própria casa! E ainda dizes mal dele? Graça esboçou um sorriso triste. Nunca percebi porque é que, tendo tudo, não são felizes. Não faltam salários, a Teresa está bem, o André não é bêbado, trabalha. Se é calado, mais vale do que ser tagarela a encher a casa de copos. Melhor assim. Mas tu querias romance, mimo, não é? E tu, tu nunca lhe dizes uma palavra doce, nunca o elogiaste. E os homens… são como crianças! Louva-o e faz-te feliz. Não, eu nisto não estou do teu lado, perdoa. Boa noite.
Inês largou o telemóvel, encostando-se à mesa, e chorou baixinho
Teresa passou nos exames, seguiu para a casa de uns amigos no campo. Não falava com a mãe, deixou-lhe um bilhete a pedir para não a chatear.
Miguel apareceu passados uns dias, esperou por Inês ao portão, saiu da sombra.
Olá, Migalhita! sussurrou, escondendo a cara vermelha no casaco de pele por causa do frio. Tiveste saudades?
Durante dias, Inês tinha-lhe ligado, queria desabafar, mas nada, ele nem atendia; agora aparecia
Miguel… murmurou ela, sem vida. O que fazes aqui?
Procurou com os olhos o carro dele.
Vim ter contigo. Está na hora de saldares a dívida, Migalhita! puxou-a Miguel para ele.
Que dívida? Estás doido?
Inês assustou-se, tentou libertar o braço, mas ele segurou-a com força.
Dei-te de comer? Dei. Dei-te prazer? Dei! sussurrou-lhe ao ouvido. Agora preciso de ajuda. Dinheiro. Ando aflito e tu tens a casa da mamã, vale uns quinhentos mil euros. Vamos vender. E esta onde moras, também. Vá, anda, vamos falar melhor!
Migalhita gritou assustada, tentou fugir, mas Miguel não largava, trémula entrou no prédio, rezando para ver alguém pelo caminho. Mas o largo estava deserto.
Abre, Migalhita, estou a congelar! empurrou-a para a porta.
Inês começou a chorar, descendo para o chão, e então Miguel largou-a e caiu de lado com um gemido, como se o ar lhe fugisse de repente.
Por cima dele, André, despenteado, sem chapéu, os punhos cerrados.
Vai-te embora! Isto é um aviso! gritou ele, lançando-se para cima de Miguel, mas Inês agarrou-o pelo braço, puxando-o com medo.
Miguel, vendo quem era, riu com despeito, mas logo se calou ao levar um soco de André.
Desaparece! Da próxima nem te apanhas! trovejou André, apanhou um gorro caído do chão, limpou-lhe o nariz e virou-se para Inês. Vamos, está frio aqui fora.
O que falaram naquela noite, o que viveram apenas o luar e o vento o sabem. Duas chávenas por beber na mesa da cozinha, o velho relógio a marcar compassos. Depois, o mundo ficou noite, só aqueles dois marido e mulher, decididos a continuar juntos…
Nunca mais ouviram ninguém chamar Inês de Migalhita. Se acontecesse, ela estremecia e virava a cara.
Miguel desapareceu da vida dela. Não saiu a jogada o marido mostrou ter fibra.
Ao ouvir certo dia Inês, no autocarro, falar pela casa herdada da mãe, a lamentar-se da solidão, Miguel percebeu que tinha ali uma oportunidade, resolver o problema da casa e, quem sabe, também o da sua solidão. Quase a tinha convencido a entregar-lhe tudo, afinal ele tinha-a domesticado, alimentado, aquecido. Mas apressou-se e perdeu. Não faz mal! Por aí há-de haver outras Migalhitas, tristes e sozinhas. Miguel há-de encontrá-las. E cobrar o que falta.
Por enquanto, foi obrigado a deixar o seu apartamento de lençóis de seda e vista para Lisboa. Não tem importância. Miguel há-de arranjar-se. Se o Igor assim o permitirE assim ficou a vida: Inês com André, sabem lá se felizes mas, à sua maneira, companheiros, sobrevivendo a mais uma estação de ventos. Das janelas abertas, já não vinha apenas ar frio, mas um eco de algo antigo que, por fim, parecia ter aquecido. Inês, a cada manhã, punha café para dois, cortava pão devagar, e descobria que há migalhas que são só isso: restos do que se comeu, do que ficou. Não tudo o que sobra é perda.
Às vezes, ao deitar-se, André puxava o cobertor até ao queixo e, sem olhar, tateava a mão de Inês. Ela, meio suspensa entre a vigília e o sonho, compreendia: existiam tormentas rápidas, como as de Miguel e existia a persistência silenciosa, o tempo das coisas singelas.
Certa tarde, na despensa, ao procurar um frasco de cominhos, tropeçou sem querer nos sacos que Graça deixara. Sorrindo, retirou o vestido guardado, alisou-lhe as pregas, passou-lhe a mão docemente como se afagasse um animal ferido, e devolveu-o ao seu silêncio de tecido.
A vida reentrara nos carris. Teresa telefonava do estrangeiro, contava novidades, pedia receitas da mãe. André escutava futebol na rádio, fazia projetos para férias. E Inês? Nem triste, nem radiante: apenas tranquila, aprendendo a pousar as migalhas sem culpa.
Quando passava pelo Coliseu, onde tudo começara, sentia um ligeiro calor na face nostalgia talvez, ou apenas a lembrança de ter vivido. Mas continuava, de cabeça erguida. Afinal, havia couve para cortar, chá para servir, e esperança em cada manhã.
E nunca mais aceitou ser Migalhita de quem quer que fosse que nesse diminutivo ficava o peso do que não se é. Agora, com todas as letras do seu nome, Inês habitava por inteiro a própria vida. E bastava-lhe.







