A Enteada

Enteada

Quando conheci a Mariana e nos apaixonámos, a Beatriz tinha apenas seis anos. Crescida sem pai, ela ansiava tanto por carinho que nunca houve grande dificuldade na nossa aproximação. Vivíamos em plena harmonia, ríamos juntos, partilhávamos segredos; mas então chegou… a adolescência.

Tu não és meu pai! gritou, certa vez, a Beatriz.

Mas como não sou pai? Quem, com licença, a escutou ao longo dos anos, prontificando-se a defender a sua honra nas reuniões da escola, contando moedas para lhe dar o último chocolate quando estava triste? Quem dividiu consigo o segredo de ter levado aquela boneca da chatinha da Inês do outro prédio? E quem, desculpem lá, saiu em passo furtivo ao cair da noite para devolver a boneca, fingindo que ela sempre esteve nos arbustos e nunca saiu dali? E, se bem me lembro, concordámos há anos que se dizemos uma coisa, sustentamos a palavra, portanto se me chama papá desde pequena, porque é que agora, do nada, deixei de o ser?

Estas palavras da Beatriz, a minha enteada que sempre considerei filha, magoaram-me de verdade. Ainda assim, fiz questão de não mostrar a minha dor. Primeiro, porque sou homem. Segundo, porque o meu ressentimento não ia resolver o que estava a acontecer; só ia piorar.

Aceito o argumento, respondi, tocando na têmpora, como quem faz continência, para dar teatralidade à conversa. Então, vamos lá fazer o acordo das nossas novas funções: não pai e não filha, combinado?

Apesar de o meu coração sangrar com aquelas palavras, pressenti que era o caminho certo. Ela precisava de alguma autonomia, mas delimitada por responsabilidade ela própria saberia pôr esses limites. Mas a Beatriz surpreendeu-me e, resmungando, respondeu:

Não quero, batendo com a porta na minha cara.

Nunca foi desse tipo, nem em criança. Sempre explicava o que sentia, e juntos víamos se era possível ou não fazer-lhe a vontade. Por exemplo, se queria atirar-se do telhado da garagem para voar, eu esclarecia-lhe o perigo, mostrando fotos de braços engessados. Quando, no 1.º ano, declarou que queria casar com o Gonçalo e ir viver com ele, eu acedi, dizendo que, assim que a lei permitisse, carregaria eu próprio as suas coisas para a casa dele. Mais tarde, ela própria mudou de ideias.

Antes, tudo era debatido; e agora, só ouvia um não quero e não és meu pai. Até para lavar a loiça tinha sempre justificação:

Não gosto de massa, mãe põe pouco açúcar, fica aquela nata por cima.

Argumentos claros! Depois era só fazer outro prato ou dar-lhe, pelo menos, um pastel de nata, que, segundo a publicidade, também era fonte desta tal nata.

Fiquei um pouco à porta, a olhar para o desenhar dos veios da madeira, como se encontrasse ali a resposta, mas não a encontrei. Suspirei: a vida há de mostrar.

A Mariana encarou a mudança da filha com a calma de quem conhece o caminho. Dizia sempre: Eu, na idade dela, dei tantas dores de cabeça ao meu pai que ele até ficava feliz quando eu fugia para a casa da avó. Acreditava que era tudo questão de tempo; quando as hormonas acalmassem, o equilíbrio voltaria. Mas, para mim, a falta da Beatriz começava a fazer mossa. Sentia falta de vê-la sentada comigo a ver o Telejornal, a criticarmos juntos o penteado da Soraia, amiga da Mariana, que mudava de cor mais vezes que o céu português.

Com o tempo, a Beatriz lá ia aparecendo por casa, saindo do casulo, mas tornando-se ainda mais arisca noutras alturas. Era melhor nem tentar aproximar-me. Só ela controlava os horários do seu bom humor, e eu percebia que cada sorriso era uma bênção.

Meninas, que tal um fim de semana fora? propus. O tempo vai estar ótimo, vamos acampar à beira do Zêzere, pescamos umas trutas.

Achas lindona, vamos? Mariana animou-se.

Eu não vou a lado nenhum convosco! Levem vocês as vossas tralhas, pescadores de meia-tijela! seguiu-se outra porta batida e ficámos perplexos. Um minuto antes, sorria para nós!

Deve ter perdido a graça até à pesca, lamentei.

As coisas pioraram quando, numa tarde, a Beatriz não regressou da escola e não atendia ao telefone. Contactámos as amigas todas e, já sem conseguir ficar parado, fui atrás de pistas. Primeira paragem: casa do Tiago, ex-melhor amigo dela.

Não sei dela, bufou.

Alguma ideia de onde possa estar?

Desde que me chamou secante, já nem falamos

Olha, ela agora diz que não sou pai mas continuo a preocupar-me. Amigo é para as ocasiões, não é?

Estava já a descer as escadas quando me chamou.

Se calhar está com o Rui

Rui?

Da turma ao lado. Não é, digamos, o melhor exemplo. Talvez não goste do que encontrar.

Então melhor irmos lá.

Eu não vou.

Tiago, às vezes as pessoas precisam, mesmo sem admitir. E sempre achei que tu eras rapaz de fibra, que não se incomodava com palavras.

Pronto, vou. resignou-se.

Fomos até uns barracões ao pé do campo. Ouviam-se gargalhadas, música daquelas dos festivais de Santa Cruz. À porta, uns miúdos e uma rapariga, mas da Beatriz, nem sinal. Aproximámo-nos:

Procuro a Beatriz, está aqui?

O senhor é da GNR ou quê? gozou um.

Nessa altura, Beatriz saiu à porta.

O que fazes aqui?!

Vim buscar-te.

Eu sei bem o caminho para casa!

Acredito, mas não queria ir buscar-te à esquadra. Anda, o táxi chegou, princesa.

Fungou, ofendida, mas entrou no carro, não sem lançar um traidor ao Tiago.

Desde esse dia, começou a desaparecer mais vezes. Teimoso, ia buscá-la aos arrabaldes, ouvindo as piadas dos outros: Aí está o chauffeur particular!. Mas, numa noite, recusou-se a vir comigo.

O que é que queres agora?! Deixa-me, sou adulta! Fico na rua o tempo que me apetecer!

Então vai reclamar ao Parlamento, disse-lhe, está tudo na Constituição sobre direitos e deveres dos menores.

Vai-te lixar! virou-me costas.

Olha, não saio daqui sem ti. Nem mesmo para onde me mandaste.

Gostava que nunca tivesses conhecido a minha mãe! Era melhor que não existisses! murmurou por entre dentes, mas entrou no carro.

Aquele desabafo rebentou-me. Fiquei de olhos húmidos o caminho todo, pensando se devia simplesmente desistir, afastar-me. Quem sou eu para me meter tanto na vida dela? Apenas o homem da mãe, afinal. Mas não conseguia. O medo de ela cair noutra armadilha da vida e não ter quem a levantasse esmagava-me. Podia refilar, gritar, magoar, que eu não desistiria.

Pouco depois, mudaram de sítio. Os barracões fecharam, o grupo mudou-se. Insisti com o Tiago para me dar dicas, mas em vão. Voltava para casa quando queria, às vezes a meio da noite. Assistia ao sofrimento da Mariana, que mantinha sempre um sorriso à força para que o medo não comandasse a casa. Só descansávamos quando ouvíamos a chave na entrada.

Uma noite, já tarde, recebi uma chamada do Tiago.

Sr. Manuel, a Beatriz ligou. Está presa num apartamento na Av. da Liberdade, não consegue sair.

Sabes o número da porta?

Ela descreveu o sítio, acho que percebo.

Então vens comigo.

Olhei para Mariana; tremia, mas forçou um sorriso.

Fica descansada, vai correr tudo bem. Fica a fazer os teus crepes, sabes que estas noites dão-me fome!

Beijei-a e saímos disparados por Lisboa acima. No centro, cheio de turistas notívagos e carros, quase atropelava dois bêbados que, em protesto por lhes ter cortado a rota, chutaram o carro e atiraram uma mini, falhando-me por pouco.

Já no prédio, pedi ao Tiago para ficar ao volante.

Não te metas, não preciso de cuidar de outro adolescente.

Antes de subir, dei uma volta pelo edifício. Em certos andares ouvia-se música, em outros vozes. No terceiro, uma senhora idosa saudou-me, ansiosa por conversa.

Aqui há três casas suspeitas! confidenciou. Uns drogadinhos!

Tem a certeza?

Claro! Vejo-os eu fumar porcaria pela varanda!

Mesmo se exagerasse, o suficiente para me deixar alerta.

No primeiro apartamento, só um homem a beber vinho, um rafeiro deitado ao lado e uma rapariga de ar macambúzio. Bati noutra, ninguém respondeu. Finalmente, ao chegar ao terceiro, fui recebido por uma miúda com olhar perdido, quase fantasmagórica. Um arrepio percorreu-me, temi ver a Beatriz naquele estado.

Beatriz! gritei, quase sem conseguir ver.

Fui entrando, tropeçando em jovens deitados, garrafas vazias, até ouvir a sua voz:

Pai! Pai! oiço-a do fundo. Estava escondida na casa de banho, trancada.

Quando a porta cedeu, ela atirou-se a mim, a chorar.

Já a polícia subia as escadas a velhota avisara o posto local e cruzámo-nos com eles à saída.

A sua filha foi mantida aqui?

É… sou só o padrasto.

Ele é meu pai! disse a Beatriz, firme.

Nesse regresso, sobre crepes com natas e um toque salgado das lágrimas da Mariana, expliquei-lhe que, mesmo que me expulsasse da vida dela, cá estaria sempre para apoiá-la. A vida é dura, e o essencial é aprender a levantar-se sempre, por muitas vezes que tropece.

Elas ouviam, sorrindo, tão próximas e queridas. E, no fundo, percebi que os laços criados pelo amor são bem mais fortes que as palavras ditas em raiva. Ser família é apoiar, mesmo quando somos postos à prova. E assim, entre discussões e perdões, crescemos juntos, para sempre.

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