A Sombra de um Pai Alheio

A Sombra do Outro Pai

O meu nome é Margarida e tenho trinta e cinco anos feitos. Sempre fiz tudo direitinho, pronto: apartamento arrumadinho em Lisboa, emprego estável numa empresa de seguros, marido de confiança (o António, que mais parecia um pilar) e o nosso filho, o Tomás, que acabou de completar dezasseis está naquela idade em que já acha que sabe tudo. Mas, como diz a minha tia Rosa, Deus escreve direito por linhas tortas e a minha linha torta aconteceu numa terça-feira à noite.

O Tomás foi mexer no sótão à procura da Nintendo antiga do pai e apareceu-me na cozinha com a cara mais branca que um lençol, a segurar numa caixa de sapatos.

Oh mãe Quem é este? e pousa uma fotografia à minha frente, quase a tremer.

Na foto estava eu, com dezanove aninhos, a sorrir à parva nos braços de um rapaz alto com farda do exército. Nas costas da foto, com letra de estudante: Margarida + Bruno = sempre. Espera por mim, amor. Pois

Ao lado, um envelope que já viu melhores dias. O Tomás, claro, já tinha lido.

Se for rapaz, chama-lhe Tomás leu ele, quase sem voz. Mãe, o Bruno é o meu pai? E o António, então, é quem?

Senti-me a descer uma rua em Alfama cheia de óleo não tinha onde pôr os pés.

Sim, o Bruno é o teu pai biológico.

E estiveste a mentir-me a vida toda! gritou. E nos olhos dele vi uma tempestade, não era só tristeza, era mesmo raiva crua.

Agarrou no casaco e desapareceu por entre as escadas do prédio antes que eu pudesse respirar sequer.

Tomás Fuga Para o Nada

Chovia a cântaros em Lisboa, coisa normal, mas eu nem sentia. Só me passava pela cabeça: toda a minha vida é uma grande tanga. Não fui ter com nenhum dos meus amigos, queria era evaporar-me.

Lembro-me do António a ensinar-me a andar de bicicleta no Parque das Nações, das pescarias e das piadas secas. E, afinal, ele sabia que não era dele? Ou também foi enrolado na mentira?

Dei por mim no bairro antigo, a arrastar os ténis por um edifício abandonado que dantes era um lar de acolhimento os miúdos perdidos chamavam-lhe o abrigo. Entrei por uma janela partida, sentei-me no frio do chão húmido e liguei o telemóvel. No envelope estava o nome e um endereço do quartel: Bruno Filipe Alvarenga.

Fui ao Google com o pouco saldo de internet. O que li foi o soco final.

Margarida Verdade a Saborear a Fado

O António apareceu do trabalho e encontrou-me a chorar na cozinha coisa que nem o Fado da Amália faria tremer.

Ele descobriu tudo, António. As fotos, as cartas

O António deixou-se cair na cadeira da sala, pesado.

Mais cedo ou mais tarde isto ia acontecer, Margarida. Agora temos de explicar muito bem porque é que deixaste de esperar por ele.

Fechei os olhos. Revi aquele pesadelo: o Bruno foi para o exército, meteram-no numa missão qualquer na Guiné. Era difícil a comunicação, mas as cartas iam e vinham e eu vivia para os envelopes.

Até que um dia, recebo uma carta de uma tal Patrícia. Descobri que o Bruno tinha arranjado uma noiva de guerra, lá do quartel. Dizia-lhe as mesmas promessas, jurava amor eterno, enfim. Fazia tudo em duplicado, talvez achasse que isto era matemática.

Depois veio o inevitável: a carta do exército, duas moradas diferentes, dois corações partidos.

Senti-me traída a dobrar: morreu sem me explicar coisa nenhuma e deixou-me grávida, a saber que não era a única na história. Quando o António apareceu, abraçou-me com uma serenidade tão grande que só me apetecia apagar o Bruno da cabeça e seguir com a vida, sem dramas.

Tomás O Abrigo e o Encontro Improvável

Passei a noite naquele edifício a ouvir ratos, até que de manhã houve chineladas grossas no corredor podre. Polícia.

Ó garoto, tás a fazer o quê aqui? Andam à tua procura em meia Lisboa, sabes disso? A tua mãe até foi à esquadra!

Levaram-me para a esquadra. Fiquei ali, com o olhar encalhado no azulejo feio, até o polícia dizer:

Tomás Reis? Tens visita. Mas não é a tua mãe.

Na sala entrou uma senhora de idade, olhar muito conhecido olhos meus, já dizia a vizinha do lado. Tremia com uma mala velha apertada ao peito.

Tomás? sussurrou. Ai, santo Deus, és igualzinho a ele

Quem é a senhora?

Sou a tua avó. Mãe do Bruno. Chamo-me Teresa, Teresa Alvarenga. A tua mãe ligou-me pela primeira vez em tantos anos.

O Grande Acerto de Contas

A tua mãe não me quis ver mais depois daquilo contou a minha avó, quando saímos do posto. Ela soube da tal Patrícia olha, a rapariga vivia conosco, coitada era órfã de família. O Bruno foi parvo, achou que nunca mais voltava e fez asneira. A Patrícia cuidava dele, roupa lavada e tudo. Mas olha, ele gostava era de ti e da tua mãe. Na última carta que recebi, só falava na Margarida e no bebé.

De repente, parou o carro do António à nossa frente. Ele saiu logo, despenteado, camisa meio por dentro, cara de quem não dormiu nada. Parou, a olhar para mim.

Tomás

Olhei da minha avó para o homem que me protegeu durante dezasseis anos.

Margarida Nova Vida, Mesma Casa

Acabámos os quatro à volta da mesa apertada, com o álbum no meio. Eu, António, Tomás e a avó Teresa.

Eu detestei o Bruno naquela altura confessei de olhos postos no Tomás. Tinha medo que te tornasses igual, com o coração aos saltos e cabeça nas nuvens. Preferi que não o conhecesses.

Não tinhas esse direito disse o Tomás, seco. Depois virou-se para António. E tu, pai Tu sabias?

Sabia. Mas amo-te, Tomás. Sempre foste e és meu filho. Desde o momento em que te peguei nos braços na maternidade.

Tomás Dois Pais, Uma Vida

Passou um ano. Agora, tenho duas fotografias na prateleira. Numa, o Bruno jovem, bonito, cheio de erros, mas o meu começo. Às vezes vou ao cemitério com a minha avó. Na outra, o António. Continua a refilar quando deixo as sapatilhas no corredor mas é quem me ensina desenho técnico.

Aprendi uma coisa: a verdade raramente é uma linha direita. É uma bola de novelos feita de amor, medos, traições e alguma coragem.

O Bruno foi o início, mas o António foi a estrutura, o chão. Olhando para os dois, percebi: não sou um erro nem um falso. Sou um miúdo que foi amado duas vezes uma vez até ao fim da linha, outra vez todos os dias sem nunca vacilar.

Lar não é ausência de segredos. É o sítio onde, mesmo que te percas num abrigo, alguém te vai encontrar.

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