Os hábitos da família do meu marido deixam-me doente, não consigo visitá-los.
Ir à casa dos pais do meu marido provoca-me verdadeiros engulhos há costumes ali que me viram o estômago! Não consigo controlar, sinto nojo só de pensar em sentar-me à mesa com eles. Falar até falo, mas juntar-me a eles para comer? Nem pensar! O meu marido faz-se de desentendido, e a minha sogra acha que sou uma fina, uma menininha toda requintada, sempre a inventar problemas.
Ainda bem que eu e o meu marido moramos separados deles. Infelizmente, não estamos suficientemente longe para que as conversas ao telefone bastem de vez em quando, lá tenho de fazer figura presencial naquela casa. Cada visita é uma aventura desconfortável, e juro, estico sempre a imaginação à procura de uma desculpa para não ir. A família dele, em teoria, é normal: pai e mãe, ambos trabalhadores, licenciados, casa limpa e arrumada, tudo em ordem. Mas assim que se põem à mesa ai, que filme de terror! Eu admito logo: sou picuinhas. Nem sequer provo nada do talher do meu marido, se ele já lhe pôs a língua. Não dá para mim, pronto
Se com o meu marido as manias se vão atenuando, porque o amor é assim, com os pais dele nem pensar. E o problema é simples. Exemplo prático? A minha sogra, Dona Esmeralda, mistura a salada numa taça, tira uma trinca para ver se tem sal, lambe a colher descansadinha e zás! Devolve a colher à salada. Pronto, fiquei logo com suores frios.
Ou então, as bebidas. Eles gostam de um bom bagaço, eu costumo levar o meu vinho tinto alentejano. Mas Dona Esmeralda não se faz de rogada: pega despreocupadamente no meu copo para provar, a ver se é bomzinho. Para quê? Aquilo, no mínimo, é falta de higiene! Não é nada minha, aquela senhora! Eu tento trocar de copo às escondidas, mas nem sempre dá certo.
Depois há o sogro, o Senhor Aníbal, que adora passar a noite toda a mandar piadas e bocas, umas bem à portuguesa, mas outras que me deixam mesmo à beira de um ataque de nervos. O meu marido ainda tenta ser diplomático, mas não chega para as encomendas.
A cereja no topo do bolo? A Dona Esmeralda tem o hábito maravilhoso de reciclar comida. Por exemplo: aquece a sopa, não acabou, despeja de novo da tigela para a panela e vai parar ao frigorífico isto, se não tiver natas já misturadas. Faz igual com qualquer comida. Até as sobras de salada dos pratos dos convidados no fim das festas Tudo vai para a mesma tigela. Ora, eu nunca toco em nada de sobra, só como aquilo que vi ser feito na hora, senão arrisco-me a comer restos de outros.
Ah! E não me falem na técnica da frigideira: a minha sogra cospe nela para testar a temperatura antes de fritar alguma coisa diz ela que com este calor, nem vírus sobrevive, filha! Mas pronto, eu vi e já não dá para desver.
O auge foi um dia em que deixaram o cão da família, o Tobi, lamber as tigelas dos pratos do jantar. Uma travessa de batatas com cabidela toda lambuzada, vai parar ao chão para o Tobi acabar. Depois? Tigela para a pia, junto da loiça dos cristãos, como se nada fosse.
Eu já não aguentei e protestei: Comer depois do cão? Não, obrigada! Caíram todos em cima de mim: Oh, menina, mas a loiça fica bem lavada! Pois, e eu sugeri: Nesse caso, lavo a tigela do Tobi e como lá a sobremesa fiquei logo a besta da família. Mas pela lógica deles, não fazia diferença, certo? Bastava estar lavada. O meu marido diz que exagero, mas, por amor de Deus, sinto-me no meu direito.
Eu, sinceramente, não quero ir para casa dos sogros. Ou então, levo a minha comida e os meus pratos, mas lá se vai o ambiente e fico com a sogra ofendida. Não sei o que fazer. Não quero armar uma novela ao meu marido, porque sei que se ficar sozinho com os pais entra em curto-circuito, mas eu própria não me consigo obrigar a ir, porque detesto aquilo tudo.
O meu sonho era mudar-me para outra cidade tipo fugir para Braga ou para o Algarve só para não ter de ir mais a casa da minha sogra. Eu que fale ao telefone o que for preciso, mas estar lá? Isso, por mim, era só mesmo na imaginação!




