O lobo vinha ao quintal e não conseguia comer. A mulher olhou com atenção para o pescoço dele e exclamou: «Quem foi capaz de te fazer isto?»

Há muitos anos, numa aldeia recôndita junto à orla de um pinhal em Trás-os-Montes, aconteceu um caso que ainda hoje recordo com respeito e uma certa ternura. Apareceu por lá um lobo solitário jovem, robusto, o olhar inquieto típico de quem é filho do mato, mas trazia um comportamento insólito: em vez de se esconder dos humanos, parecia procurá-los. Não era caso de vir espreitar o galinheiro ou atacar à calada da noite, como murmuravam as vizinhas. Antes, sentava-se a alguma distância, fixava-nos com aqueles olhos profundos, observava tudo em silêncio, como alguém que pede compreensão.

A criatura sentia-se especialmente atraída pela Manuela, uma cadela rafeira, amiga inseparável da Maria dos Anjos, a quem na aldeia, à conta disto, passaram a chamar, meio a rir meio a sério, de noiva do lobo. Maria dos Anjos não achava graça a tais ditos não porque se ofendesse, mas por sentir que ali havia coisa mais séria do que graçolas de taberna ou lendas de beira-rio.

Num amanhecer enevoado, observei pela janela quando Maria dos Anjos saiu ao poço e deparou-se com o lobo enroscado junto à casota da Manuela, o olhar carregado de tristeza não havia ali raiva selvagem, mas sim um sofrimento mudo.

O que terá levado este lobo a procurar, repetidamente, o quintal da Maria dos Anjos?

No princípio, os comentários eram de receio. Mas os dias foram passando, o lobo não fazia mal a ninguém, ignorava o gado, fugia dos cães machos e só se abeirava das fêmeas, como quem procura companhia ou quem sabe, uma família. Assim o caminho dele cruzou-se com o da Manuela e da Maria dos Anjos.

A cadela, para surpresa de todos, não mostrava medo, antes pelo contrário, abanava o rabo e chegava-se mais. O lobo, com um respeito raro, ora fitava-a ora lançava um olhar para a janela da casa, talvez aguardando permissão invisível.

Maria dos Anjos, entre as piadas dos vizinhos e o seu próprio pressentimento, percebia que aquilo era mais do que um simples capricho de um animal selvagem.

Certa manhã, quando nem o barulho da água assustou o lobo, Maria dos Anjos reparou numa marca escura no pescoço dele. Um sinal, como de uma correia… ou coleira. A ideia de um lobo com coleira martelava-lhe a cabeça. Pouco depois, o animal sumiu, mas a inquietação ficou.

Nessa tarde, levou bocados de carne para o quintal. O lobo aproximou-se, mas não conseguia comer apenas lambia os pedaços, abria a boca com dificuldade. O receio desvaneceu-se um predador incapaz de mastigar não era ameaça para ninguém.

Assim, todos os dias Maria dos Anjos cortava a carne cada vez mais pequena e falava baixo, num tom de mãe tranquilizando filho assustado. Até que um dia, ao acariciar a cabeça do animal, sentiu com os dedos um velho colar de couro, entranhado na carne viva. Sinal claro da crueldade humana, morada antiga da dor daquele bicho. Munindo-se de coragem, pegou numa faca, abriu o fecho escondido e cortou a correia. O lobo disparou, correu para o mato e desvaneceu-se entre os pinheiros.

Na manhã seguinte, Maria dos Anjos levou o pedaço de coleira à mercearia da aldeia. Os homens logo reconheceram o artefato: anos atrás, um lobo fugira da estação de caça ali próxima. Era aquele mesmo. Discutiram, riram, mas a mulher só pensava numa coisa: agora, o lobo finalmente podia respirar em liberdade.

E ele voltou. Já comia sem esforço, recuperava forças de dia para dia. Até que, satisfeito da comida de Maria dos Anjos, certo dia se chegou à dona da casa e pousou a cabeça nos seus joelhos, num gesto de confiança absoluta.

Mas a maior surpresa ainda estava por vir: a Manuela teve crias quatro lobinhos e um cachorro negro. A aldeia ficou boquiaberta: o lobo soube aproveitar o tempo.

Agora, o lobo vinha ao quintal, trazia pequenos animais, cheirava e lambia as crias, cuidando delas com uma delicadeza inesperada. Maria dos Anjos espreitava da janela, percebendo: o lobo tornara-se pai e o seu quintal, parte daquela alcateia improvável.

Certa tarde, apareceu-lhe à porta um homem resmungão, dono daquela antiga estação de caça. Exigia o regresso do lobo, tentava negociar os filhotes e, ao ouvir um firme não, virou-se às ameaças. Então, deu-se o que ainda se conta por lá: o lobo saltou a vedação, derrubou o intruso e ficou firme entre ele, Maria dos Anjos e as crias. O homem, envergonhado, fugiu dali e nunca mais voltou.

Os lobitos cresceram e acabaram por ir-se embora com o pai, formando nova alcateia nos bosques. Caçadores da serra passaram anos a contar que tinham visto lobos negros em Trás-os-Montes. Maria dos Anjos sorria consigo: eram os netos da Manuela.

O velho lobo, de vez em quando, voltava para lhe dar notícias. Mas, como ela gostava de dizer, isso já seria outra história.

Às vezes, a confiança brota nos lugares menos suspeitos entre gente e a natureza bravia. Maria dos Anjos não recuou perante a compaixão, e o lobo respondeu-lhe como sabia: com lealdade e proteção.

Assim, o solitário encontrou uma família, e a mulher guardou para sempre uma história que prova: o bem que se faz, sempre volta.

E vocês, que acham será que os animais sabem agradecer o bem que lhes fazemos?

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O lobo vinha ao quintal e não conseguia comer. A mulher olhou com atenção para o pescoço dele e exclamou: «Quem foi capaz de te fazer isto?»