No momento mais difícil da minha vida, o meu pai abandonou a nossa família para ficar com outra mulher, deixando para trás a minha mãe, a minha irmã mais nova e eu. A minha irmã, a Matilde, tinha apenas dois anos e sofria de problemas de saúde que se agravaram com o tempo. Os cuidados que ela exigia demandavam uma quantidade enorme de dinheiro, esforço e uma paciência quase sobre-humana. Embora não entendesse completamente a doença da Matilde, via o sofrimento da minha mãe refletido em cada ruga do seu rosto, enquanto ela e a minha avó faziam tudo o que podiam para a salvar.
O meu pai dizia-se cansado, discutia constantemente com a minha mãe, magoando-a profundamente. Quando ele saiu, senti como se tivesse sido traída a um nível muito pessoal, sobretudo porque ele sempre fora carinhoso comigo, enquanto a minha mãe passava os dias no hospital ao lado da Matilde.
Aquela manhã em que a minha mãe soube que o meu pai nos deixava ficou gravada para sempre na minha memória. Chorou durante horas, sentada na beira da cama, perdida e perdida. Ele foi-se embora para Lisboa, recomeçou do zero com outra mulher e parecia ter esquecido completamente que nós existíamos. Nem os apelos da minha avó paterna o trouxeram de volta. E assim se passou um ano, até que a Matilde, a minha irmã querida, partiu para sempre, deixando-nos a todos devastadas. Mesmo assim, o meu pai não voltou, nem um telefonema, nem um adeus.
A minha mãe definhou na tristeza e a minha avó materna tornou-se o meu amparo, a minha fonte constante de carinho e orientação. Felizmente, tanto a minha avó materna, a Dona Alice, como a paterna, a Dona Rosa, sempre me apoiaram, tornando-se verdadeiras mães para mim. Com o tempo, a minha mãe começou a regressar a si própria, lembrando-se que eu ainda estava ali. Um dia, entre lágrimas, abraçou-me forte e prometeu-me que nunca me deixaria, que lutaria pela minha felicidade custasse o que custasse.
Cumpriu a promessa. Ela e a minha avó estiveram sempre do meu lado, dando-me todo o amor que tinham. Chegaram mesmo a juntar as economias, em euros contados, para me comprar um vestido lindíssimo para o meu baile de finalistas, só para que eu me sentisse a rapariga mais bonita naquela noite.
Durante anos nunca mais vi o meu pai. No entanto, não consegui apagá-lo totalmente da minha memória. Voltou a aparecer apenas no funeral da minha avó Rosa, atraído pelo rumor de uma herança, convencido de que ela lhe tinha deixado o apartamento. Mas, com a sabedoria e generosidade que sempre a caracterizaram, a minha avó já me tinha passado o apartamento quando eu tinha apenas doze anos. Aquele ato de carinho profundo mostrou-me que, apesar de tudo, os laços de família se medem muito mais pelo amor do que pelo sangue.





